7 de novembro de 2012

Reflexão - Serenidade

“A verdadeira serenidade não é ausência de paixão, mas a paixão contida, ímpeto domado”. Georges Duhamel.

Muitas vezes vamos atrás do sofrimento, mas o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, som serenidade de quem já é iniciado no sofrimento. Não para tirar dele uma compensação, um benefício secundário, mas um aprendizado que leva à evolução. O sinal mais seguro da sabedoria é a constante serenidade, a paz que trazemos em nós, apesar de toda adversidade.
A serenidade de espírito vai proporcionando-nos encarar os problemas com maior equilíbrio e segurança, pois aprendemos com a experiência da própria vida que tem coisas que não tem solução imediata. É preciso deixar de molho, passar os dias, passar o tempo! A sabedoria da serenidade é a capacidade de não desesperar-nos diante dos acontecimentos, mas de manter-nos no caminho da vida com disposição, coragem e audácia!

Frei Paulo Sérgio, ofm

6 de novembro de 2012

Francisco, uma arte de viver !

Éloi Leclerc (*)

“Salve, rainha sabedoria, o Senhor te guarde por tua irmã, a pura simplicidade!”
Francisco de Assis
As circunstâncias de minha vida, principalmente a prova dos campos nazistas de Buchenwald e de Dachau, durante a última Guerra Mundial, levaram-me à pergunta sobre as possibilidades de uma verdadeira fraternidade entre as pessoas. Será que somos votados a dilacerar-nos sem fim, da maneira mais trágica? Será que é possível uma comunidade humana sem exclusão, sem tirania e sem desprezo? Não seria isto apenas um sonho? Nas minhas dúvidas, voltei-me para Francisco de Assis que me parecia o protótipo do ser humano fraternal, e cujo carisma foi em seu tempo “converter toda hostilidade em tensão fraterna, dentro de uma unidade de criação” (P. Ricoeur).
Mesmo correndo o risco de repetir-me, gostaria de resumir, da maneira mais límpida, o que me pareceu ser o essencial da sabedoria de Francisco de Assis.
Trata-se na verdade de uma sabedoria e de uma grande sabedoria. Francisco não é antes de tudo uma nova Ordem, nem uma nova doutrina, e muito menos um conjunto de regras de conduta. É uma arte de viver, uma certa presença ao mundo, uma nova qualidade de relação com Deus, com os homens e com toda a criação. É também um saber jovial, o segredo de uma alegria de viver sob o Sol de Deus, no meio de todas as criaturas.
Esta sabedoria me impressionou por duas razões: por sua profundidade e por sua extrema simplicidade. Falando de si mesmo, Voltaire dizia, não sem humor, que ele era “como os pequenos regatos, claros porque pouco profundos”. Não é o caso de Francisco de Assis. Ele é ao mesmo tempo simples e profundo. Sua
grande simplicidade não deve enganar-nos. Não vamos acreditar muito depressa que o compreendemos bem. “Não se compreende bem – dizia ele – senão aquilo que se experimenta por si mesmo”. E a experiência aqui envolve todo o ser. Ela é um crisol. Não se pode compreender a sabedoria de Francisco senão seguindo-o naquele caminho de simplicidade que o levou ao mais alto grau de despojamento.
No século XIII, numa Igreja que se tornara feudal e senhorial, na qual os bispos e abades, à frente de grandes domínios, eram verdadeiros soberanos que exerciam um poder temporal, Francisco de Assis encontrou, com o sopro inspirador da pobreza, o caminho da fraternidade. Renunciando a toda propriedade de bens e a todo poder, rejeitando tudo que podia colocá-lo acima das outras pessoas, ele apareceu como o irmão de todos, o amigo de todos, particularmente dos mais humildes. Inaugurou assim uma nova presença da Igreja no mundo.
A pobreza de Cristo que Francisco tanto amava, ele a escolheu e viveu como uma aproximação fraterna dos humanos, como um verdadeiro caminho de fraternidade com todos, sem exceção.
Este vínculo entre a pobreza e a fraternidade está no centro do ideal evangélico de Francisco e é um primeiro ponto essencial da sabedoria do santo de Assis. A experiência o comprova: a propriedade, a riqueza e o poder são fontes inesgotáveis de conflitos entre os homens. “Se tivéssemos posses – dizia Francisco – para protegê-las precisaríamos de armas?”. O mundo é um campo de luta pela riqueza, pelo poder, pela hegemonia. Os discípulos de Cristo devem evitar aparecer como uma nova espécie de competidores na corrida à riqueza, ao poder, às honras … Devem renunciar a toda posição dominante na sociedade e ir ao encalço dos humanos de mãos vazias, oferecendo-lhes apenas sua amizade. Uma amizade desinteressada, sem inveja e sem desprezo, feita de estima e de confiança. Só revelando esta nova qualidade de relação é que os mensageiros do Evangelho poderão anunciar o Reino de Deus. Pois o Reino é precisamente esta nova qualidade de relação entre os humanos: relação de paz, de justiça e de amor fraterno. Só um coração de pobre, isento de qualquer vontade de posse, é capaz de uma tal relação.
Neste caminho de pobreza e de fraternidade não tardaram a surgir as dificuldades. Francisco encontrou-as no próprio seio de sua Ordem, o que o levou a um despojamento cada vez maior de si mesmo. Foi então que experimentou o que é a “santa e pura simplicidade”.
A simplicidade franciscana não é a espontaneidade tão natural da criança. Ela é fruto de uma maturidade espiritual. Não somos originariamente simples, mas antes duplos, ou múltiplos. Quem não representa um personagem ou até vários ao mesmo tempo? Quem não se disfarça ou mascara? Mais profundamente, qual é a pessoa humana que não quer dirigir por si mesma sua própria vida segundo seu modo de ver, seus projetos, segundo o ideal de perfeição que forjou para si mesma? Ora, enquanto nos obstinamos em querer conduzir nossa vida por nós mesmos, não somos simples. Permanecemos sendo pelo menos duplos. Há Deus e nós. O ser humano não se torna verdadeiramente simples senão quando deixa de debater-se na barra de seu destino e se abandona totalmente a Deus.
A “santa e pura simplicidade” é fruto da disponibilidade interior, do despojamento que deixa inteiramente nas mãos de Deus a iniciativa de conduzir-nos a ele por seus caminhos. “Quando eras jovem – diz Jesus a Pedro – tu te cingias e ias onde querias. Quando envelheceres estenderás as mãos e será outro que te cingirá e te levará aonde não queres” (10 21,18).
Francisco fez esta experiência. Deixou-se despojar de toda vontade própria. Incompreendido, frustrado em seu ideal, teve que continuar apesar de tudo com seus irmãos, em vez de tornar-se inflexível e fechar-se na solidão e na amargura. Colocou acima de tudo a comunhão fraterna. Abriu-se assim a uma qualidade excepcional de relação. Nele, a relação fraterna tornou-se transparente, isenta de todo amor-próprio e de todo ensimesmar-se. Ele próprio tornou-se um claro espelho de Cristo. Podia escrever numa de suas Admoestações: “Aquele que prefere aturar perseguições a querer ficar separado de seus irmãos … ‘dá a sua vida pelos seus irmãos” (51).
Parece-me que é este o segundo ponto essencial da sabedoria do Poverello, onde chegou deixando-se conduzir pelo caminho de pura simplicidade. Não é esta experiência que ele exprime em sua saudação à sabedoria?
Salve, rainha sabedoria,
o Senhor te guarde por tua santa irmã,
a pura simplicidade!
Elogio das virtudes, 1.
Resta um terceiro ponto importante. Embora bem conhecido, nem sempre foi bem compreendido, em todo caso pouco aprofundado. A fraternidade humana, de inspiração evangélica, se desdobra, em Francisco, numa fraternidade propriamente cósmica: sua fraternidade com os humanos, ele a vive dentro de uma unidade de criação.
Que Francisco não fraterniza unicamente com seus semelhantes, mas também com as criaturas inferiores que ele considera verdadeiramente irmãs ou irmãos, é um fato. Devota a cada uma delas, sem exceção, uma afeição e um respeito fraternos.
Na maioria das vezes esta fraternidade cósmica de Francisco foi vista como um transbordamento lírico de seu louvor ao Criador. Esta visão está longe de lhe esgotar o sentido, pois não chega ao fundo da questão.
A fraternidade cósmica de Francisco tem sua fonte própria. Está diretamente ligada a seu sentido da criação. E este sentido está incorporado numa experiência íntima. Francisco, diante do Deus Altíssimo, toma consciência de sua condição de criatura e a aceita sem reserva. Só Deus é Deus. Tudo que existe é obra dele. Nós todos somos suas criaturas.
Sem dúvida, entre as criaturas, os humanos têm um destino superior. Criados à imagem de Deus, são chamados, em Cristo, primogênito de toda criatura, a se tornar filhos de Deus, a viver da vida divina. A este título, todo ser humano é verdadeiramente uma história sagrada. Mas nem por isso deixa de ser uma criatura, ligada ao conjunto da criação.
Esta atitude de profunda humildade e de adoração, pela qual Francisco se coloca dentro de uma unidade de criação, fazendo-o atar laços de amizade com todas as criaturas, é de uma extrema importância, pois vem reforçar a fraternidade humana propriamente dita. Esta, com efeito, encontra sua melhor garantia nesta fraternidade cósmica: nesta atitude de respeito e de amor para com todo o conjunto da criação, para com todas as formas da vida, por mais humildes que sejam.
O ser humano que fraterniza com todas as criaturas, comungando com o amor do Criador por sua obra inteira, coloca-se ao abrigo da tentação de dominar seus semelhantes e de violentá-los de alguma forma. Nele as forças da vida se convertem num impulso de simpatia e de amor. Ele mesmo se humaniza humanizando a natureza. Torna-se, à imagem do Criador, um senhor de doçura no próprio seio da criação.
Por outro lado, o ser humano que pretende respeitar seus semelhantes arrogando-se o direito de dominar com selvageria a criação e de explorá-la como bem lhe parece, ainda não emergiu da vida animal, ainda não nasceu para a vida do espírito, e, mais cedo ou mais tarde, suas forças agressivas podem voltar-se contra alguns de seus semelhantes, declarando que eles não são verdadeiramente humanos, passando a tratá-los também como seres inferiores, como objetos, com a mesma selvageria. É a fonte de todos os racismos.
Os dramas que conhecemos e que corremos o risco de ainda conhecer estão relacionados com a perda deste sentido franciscano da criação. O homem moderno se coloca de saída acima da criação. A própria palavra criação foi banida de seu vocabulário. Não conhece mais do que a natureza, isto é, o conjunto de fenômenos que a ciência e a técnica lhe permitem dominar e explorar. Ao mesmo tempo, perdeu o melhor fundamento de uma verdadeira fraternidade humana.
Resta-lhe agora apenas um único baluarte contra uma eventual tirania: a Declaração universal dos direitos humanos. Só podemos aplaudir esta Declaração, pois ela marca um grande progresso na história da humanidade. Mas, é preciso reconhecer que este progresso é antes de tudo de ordem intelectual. Os fatos mostram que sempre é lícito, àqueles que querem dominar seus semelhantes ou desvencilhar-se deles, denunciá-los como seres inferiores, como subumanos.
O respeito pela pessoa humana começa com o respeito pela vida, sob suas mais humildes formas. O ser humano não respeitará por muito tempo a vida de seus semelhantes se não começar a respeitar toda vida; se, ao contrário, erigir-se em senhor absoluto da criação. Cedo ou tarde, sua vontade de poder voltar-se-á contra seu semelhante.
Os direitos humanos, como são definidos na Declaração de 1948, são direitos do homem abstrato. Parecem ignorar a pessoa concreta, profundamente enraizada não só num contexto econômico, social e cultural, mas também na vida do universo.
Querer proteger o ser humano apoiando-se unicamente nesta Declaração é andar de muletas. Nossos pés não tocam mais o solo primitivo: nossas raízes não se afundam mais no mistério da vida. Não comungamos mais com o Amor criador. Nada mais nos sustenta. Tudo se passa na nossa cabeça. Tudo repousa numa certa ideia que fazemos do ser humano. É nossa grandeza, dir-se-á. Sim, mas é também nosso drama. Sentimos isto até demais. Daí nossa angústia. Não recobraremos aquela confiança tão simples na vida a não ser voltando à humildade original fundamental, que nos recoloca dentro de uma unidade de criação: uma unidade em que o mistério da Terra converge para o mistério da estrela.
Se Francisco de Assis não hesita em mergulhar no seio desta unidade, fraternizando com todas as criaturas, é que, de fato, aos olhos dele, toda a criação está com Deus num mistério profundo. Criando o céu e a Terra e tudo que eles contêm, Deus já tinha em vista o Homem-Deus. Tudo foi deliberado para esta comunicação inaudita de Vida em Cristo. O sentido da criação, sua unidade dinâmica têm a ver com este grande desígnio.
Colocando-se dentro desta unidade, Francisco desposa o desígnio criador, participa do seu impulso, concorre para a sua realização. Pois a criação não é algo completamente acabado e cristalizado, que bastaria contemplar. O desígnio criador se constrói ao longo da história dos humanos, em seus esforços para chegar a uma comunidade humana sempre mais fraternal. Esta unidade é uma longa paciência, mas também uma grande esperança.

Resta um longo caminho a percorrer. Por muito tempo ainda os ventos noturnos  atormentarão a nossa Terra. Mas, lá longe, sem ruído, os cimos se iluminam: nasce o Sol lá onde está a nossa esperança.
51. Admoestações 3,9.

 
(*) Éloi Leclerc nasceu em 1921 em Landernau, localidade da Bretanha francesa, de uma família formada por 11 irmãos. Ingressou no Noviciado franciscano de Amiens em 1939, o ano em que se iniciou a segunda Guerra Mundial na Europa. Em 1943, trabalhando com milhares de
jovens franceses na Alemanha, acabou sendo considerado ‘sujeito suspeito’ e foi deportado em 1944 para um campo de concentração em Buchenwald. Com a derrota nazista, regressou à França e entre 1951 e 1983 foi professor de Filosofia e se tornou um grande escritor. Este texto publicado foi extraído do livro
“Nasce o Sol em Assis”, da Editora Vozes.

2 de novembro de 2012

1º Sexta-feira do mês - A força na fragilidade



 

A força na fragilidade


“A força de Cristo te criou, a fraqueza de Cristo te recriou. A força de Cristo fez com que existisse o que não existia; a fraqueza de Cristo fez com que o que existia não viesse a perecer; criou-nos com sua força, nos resgatou com sua fraqueza”  (
Santo Agostinho)
1. Não cessamos, ao longo do caminho de nossa vida cristã, de contemplar as misericórdias que Deus fez e vai derramando em nossa vida, na  vida da Igreja e nos corações das pessoas retas e de boa vontade através do irrestrito amor do  Senhor Jesus.  Sim, dizemos bem,  Senhor.  Hoje o contemplamos sempre como aquele que venceu a morte e está no meio de nós na qualidade de Ressuscitado. Por isso, é o Senhor Jesus. Ele, o vivo, nos fala, nos alimenta, nos encoraja, pede asilo em nosso interior. Mas, nesse empenho de alimentar o enamoramento pelo Esposo,  não podemos deixar de meditar no Cristo histórico, nas circunstâncias que cercaram os últimos momentos de sua vida, na força que existia em sua fragilidade.

2. Santo Agostinho, no breve texto que colocamos no frontispício desta reflexão, faz uma comparação entre força e fragilidade. A força de Cristo, isto é, o Verbo que é Deus, criou e cria a todos e a tudo. Na fragilidade da rosa que desabrocha, no fiozinho de água que corre pedra abaixo, na criança que nasce agora na maternidade, Deus cria.  Extasiamo-nos diante dessa admirável criação. Tudo fervilha. Tudo tem a força daquele que cria. Francisco de Assis compreendeu muito bem e ficava como que extasiado considerando-se irmão de tudo o que estava sendo criado. A força de Cristo cria o homem, faz com que exista o que antes não existia, colocou-nos na existência com sua força.

3. Agora, a outra face da moeda:  pela fragilidade do condenado à morte, daquele que foi suspenso entre o céu e a terra  fomos resgatados, reconduzidos à terra prometida. Nada de milagres extraordinários, mas  gestos que culminam na fragilidade da cruz, no abandono de um impotente e indefeso. Lembramo-nos de Paulo que afirma ser forte quando é fraco. Não se trata de defender uma espécie de neurose de busca de sofrimento. Uma certa religião do passado gostava de cantar loas às macerações do corpo e se regozijar tolamente em fracassos quase que buscados. Ora, não é isso que vemos no Cristo da cruz.  Tudo o que ele ali vive lhe parece um absurdo. Tem vontade de gritar, mas sua voz  não é ouvida. Ninguém o defende. Os que  antes o rodeavam e procuravam desaparecem.  Não tem advogados. Ouve, quem sabe, o choro sereno da mãe ao pé da cruz e parece sentir que o Pai está distante. Grita mesmo: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”  Tudo extremamente frágil. E quando se entrega nos braços do Pai e abraça a morte ama doidamente, entrega-se irrestritamente e depois de morto ainda o esvaziamento de todo o seu interior: os fiapos de água e de sangue que saem do Coração aberto. E fomos salvos na força da fragilidade daquele que foi suspenso, morreu entregando-se sem limites.

4. Bela lição! Temos nossos projetos e nossos sonhos os mais lícitos. Queremos para nossos filhos o melhor. E um deles se perde no mundo da droga. Queríamos que nosso irmão fosse feliz e fiel no casamento e o vemos todo desarrumado interiormente.  Nosso irmão vive sem viver. Tudo isso nos faz sofrer.  A mulher tem um filho especial que sempre precisará dela. Ela não é mais dona de seu tempo. Seu amor generoso cria vida na vida do filho. Os devotos do Coração de Jesus não têm uma piedade “dolorista”, mas sabem que amando na fragilidade e na impotência, contemplando o esvaziamento do peito de Cristo  são recriados, refeitos, renovados.  A força de Deus, com efeito, costuma se manifestar  na fraqueza.
5. Terminamos esta reflexão com palavras de  Cesário de Arles: “Cristo foi ferido para curar nossas feridas; morreu para libertar-nos da morte perpétua; desceu à mansão dos mortos para arrancar-nos da goela  do crudelíssimo leão; ressuscitou para dar-nos a esperança da ressurreição; subiu ao céu para mostrar onde veremos segui-Lo”


Frei Almir Ribeiro Guimarães

Extraído de: http://www.franciscanos.org.br

“Nossa Irmã Morte” - Francisco se deita nu na terra nua





Novembro nos faz lembrar os irmãos e irmãs, parentes e amigos, que se foram, todos esses que ocuparam um lugar importante em nossa viagem através do tempo e largaram suas mãos de nossas mãos. Nem sempre conseguimos  encarar com serenidade a chegada desse final inevitável para todos, esse fantasma da morte. Temos uma ânsia incontrolada de vida e, de repente, vemos a vida interrompida. Por vezes é um irmão, um filho que sofre com a luta contra a morte. Todos nós temos que “enfrentar” o mistério da morte.
Francisco de Assis experimentou a alegria de viver, júbilo de percorrer os campos e prados da doce Assis.  Sempre teve profunda alegria de conviver com seus irmãos e com as irmãs que Deus lhe havia dado.
Sua morte torna-se uma experiência de comunidade. Assis, a cidade, quer que seu grande Irmão morra dentro de seus muros, protegido e guardado no palácio episcopal.  Teria uma morte controlada.
Francisco queria ter uma morte “pública”. As coisas se passam diferentemente em nossos tempos.  Hoje, as pessoas morrem “escondidamente”  em clínicas, ou em casa, ou até mesmo sem ninguém nas unidades de tratamento intensivo. Em muitos lugares não há mais a proximidade e a presença de familiares. As pessoas morrem assistidas por enfermeiros e cuidadores. A vida moderna não tem jeito de abordar a morte. Como o homem se sente incapaz de prolongar a vida prefere distanciar-se do fato. Há pessoas que não querem assistir a morte de ninguém nem ver o falecido. Basta um caixão e uma coroa de flores…
A morte do Poverello será um fato inesquecível para todos os que ali estavam presentes.  Há todo um cerimonial de morrer que respira esperança. Anteriormente, em seu Cântico das Criaturas, Francisco havia dado à morte o delicado nome de Irmã, Irmã Morte… Porque ela nos leva à terra dos vivos.
O Pai Francisco não quer morrer no isolamento do palácio episcopal. Quer passar os últimos momentos de sua vida em sua amada Porciúncula. Abençoa sua cidade. Envia uma mensagem de consolação às Irmãs de São Damião. Faz com que venha ter com ele sua amiga Jacoba de Settesoli, degusta ainda uma vez o doce de amêndoas que tanto apreciava. Quer ainda ouvir uma vez o Cântico do Irmão Sol. Fala de seus sentimentos e deixa que os frades exprimam o que se passa em seu interior.
Quando percebe que está chegando a sua hora, celebra com seus íntimos mais íntimos uma refeição imponente antes de  esperar nu na terra nua a “Irmã Morte”. O Poverello vive sua morte numa celebração pascal. Esse italiano da Úmbria cria um modo novo de morrer…
Francisco se deu conta que os irmãos estavam tristes. Pediu que lhe trouxessem um pão, abençoou e deu um pedacinho a cada um. Pediu também que lhe fosse trazido o códice dos evangelhos e que fosse lida a passagem que começa:  Antes da festa da Páscoa… Queria efetivamente recordar a Páscoa de Jesus e associar sua passagem com essa passagem… Toda a sua vida tinha transcorrido de passagem em passagem… E chegou a hora… Tendo sido realizado para com ele todos os mistérios de Cristo… Ele voou de maneira feliz para Deus.
Francisco não morre sozinho. Faz-se acompanhar dos seus íntimos mais íntimos. Há uma dor compartilhada e uma esperança vivenciada. A morte passa a ser um sinal de esperança para quem morre e para quem fica. Essa cultura hodierna de fazer a pessoa morrer sozinha, ou longe de seus entes queridos, na frieza de uma unidade de terapia intensiva priva ao que morre e aos que ficam dessa bela experiência de uma comunidade de fé.
Não posso me privar da alegria de  transcrever umas poucas linhas de  Fernando Felix Lopes  no seu  O Poverello. S. Francisco de Assis, com seu estilo todo português: “Daquele corpo em destroços, ali estendidos no chão, cresce e sobe a apagar-se na distância das Alturas, a melodia do salmo. E, subindo a voz, como se fora de um homem renascido na justiça original, voz de criança, argêntea e bela, abre nas trevas da noite esteira de tanta luz que arrasta consigo um bando de cotovias entontecidas por aquela madrugada nova”  (p. 493).

Assim morreu esse Francisco de Assis exalando um perfume de esperança…

Frei Almir Ribeiro Guimarães

Extraído de: http://www.franciscanos.org.br 

Celebração dos Fiéis Falecidos





Segundo a tradição da Igreja Católica, o Dia dos Fiéis Falecidos, Dia de Finados, é celebrado no dia 2 de Novembro, logo a seguir ao dia de Todos os Santos. Desde o século II, os cristãos rezavam pelos falecidos, visitando os túmulos dos mártires.

No século V, a Igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava. Também o abade de Cluny, santo Odilon, em 998 pedia aos monges que orassem pelos mortos.

Desde o século XI os Papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) obrigam a comunidade a dedicar um dia aos mortos. No século XIII, esse dia anual, que até então era comemorado no dia 1 de novembro, passa a ser comemorado em 2 de novembro, porque 1 de novembro é a Festa de Todos os Santos.

Acompanhe a reflexão do Papa Bento XVI:

Depois de ter celebrado a Solenidade de Todos os Santos, hoje a Igreja convida-nos a comemorar todos os fiéis defuntos, a dirigir o nosso olhar para os numerosos rostos que nos precederam e que concluíram o caminho terreno. A realidade da morte para nós, cristãos, é iluminada pela Ressurreição de Cristo, e para renovar a nossa fé na vida eterna.

Nestes dias vamos ao cemitério para rezar pelas pessoas queridas que nos deixaram, é quase como ir visitá-las para lhes manifestar, mais uma vez, o nosso carinho, para as sentir ainda próximas, recordando também, deste modo, um artigo do Credo: na comunhão dos Santos há um vínculo estreito entre nós que ainda caminhamos nesta terra e muitos irmãos e irmãs que já alcançaram a eternidade.

Desde sempre, o homem preocupou-se pelos seus mortos e procurou conferir-lhes uma espécie de segunda vida, através da atenção, do cuidado e do carinho. De certa maneira, deseja-se conservar a sua experiência de vida; e, paradoxalmente, como eles viveram, o que amaram, o que temeram e o que detestaram, nós descobrimo-lo precisamente a partir dos túmulos, diante dos quais se apinham recordações. Estas são como que um espelho do seu mundo.

Por que é assim? Porque, não obstante a morte seja com frequência um tema quase proibido na nossa sociedade, e haja a tentativa contínua de eliminar da nossa mente até o pensamento da morte, ela diz respeito a cada um de nós, refere-se ao homem de todos os tempos e de todos os espaços. E diante deste mistério todos, também inconscientemente, procuramos algo que nos convide a esperar, um sinal que nos dê consolação, que abra algum horizonte, que ofereça ainda um futuro. Na realidade, o caminho da morte é uma senda da esperança, e percorrer os nossos cemitérios, como também ler as inscrições sobre os túmulos é realizar um caminho marcado pela esperança de eternidade.

Mas perguntamo-nos: por que sentimos medo diante da morte? Por que motivo uma boa parte da humanidade nunca se resignou a acreditar que para além dela não existe simplesmente o nada? Diria que as respostas são múltiplas: temos medo diante da morte, porque temos medo do nada, este partir rumo a algo que não conhecemos, que nos é desconhecido. E então em nós existe um sentido de rejeição, porque não podemos aceitar que tudo quanto de belo e grande foi realizado durante uma existência inteira seja repentinamente eliminado e precipite no abismo no nada. Sobretudo, nós sentimos que o amor evoca e exige a eternidade, e não é possível aceitar que ele seja destruído pela morte num só instante.

Além disso, temos medo diante da morte porque, quando nos encontramos próximos do fim da existência, há a percepção de que existe um juízo sobre as nossas obras, sobre o modo como conduzimos a nossa vida, principalmente sobre aqueles pontos de sombra que, com habilidade, muitas vezes sabemos anular ou tentamos remover da nossa consciência. Diria que precisamente a questão do juízo está com frequência subjacente ao cuidado do homem de todos os tempos pelos finados, a atenção pelas pessoas que foram significativas para ele e que não estão mais ao seu lado no caminho da vida terrena. Num certo sentido, os gestos de carinho e de amor que circundam o defunto constituem um modo para o proteger, na convicção de que eles não permaneçam sem efeito na hora do juízo. Podemos ver isto na maior parte das culturas que caracterizam a história do homem.

Hoje, o mundo tornou-se, pelo menos aparentemente, muito mais racional, ou melhor, difundiu-se a tendência a pensar que cada realidade deve ser enfrentada com os critérios da ciência experimental, e que também à grandiosa interrogação da morte é necessário responder não tanto com a fé, mas a partir de conhecimentos experimentais, empíricos. Porém, não nos damos conta de modo suficiente, de que precisamente desta maneira terminamos por cair em formas de espiritismo, na tentativa de manter algum contato com o mundo para além da morte, quase imaginando que existe uma realidade que, no final, seria uma réplica da vida presente.

A Solenidade de Todos os Santos e a Comemoração de todos os fiéis defuntos dizem-nos que somente quem pode reconhecer uma grande esperança na morte, pode também levar uma vida a partir da esperança. Se nós reduzirmos o homem exclusivamente à sua dimensão horizontal, àquilo que se pode sentir de forma empírica, a própria vida perde o seu profundo sentido. O homem tem necessidade de eternidade, e para ele qualquer outra esperança é demasiado breve, é demasiado limitada. O homem só é explicável, se existir um Amor que supere todo o isolamento, também o da morte, numa totalidade que transcenda até o espaço e o tempo. O homem só é explicável, só encontra o seu sentido mais profundo, se Deus existir. E nós sabemos que Deus saiu do seu afastamento e fez-se próximo, entrou na nossa vida e diz-nos: «Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá» (Jo 11, 25-26).

Pensemos por um momento na cena do Calvário e voltemos a ouvir as palavras que Jesus, do alto da Cruz, dirige ao malfeitor crucificado à sua direita: «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso» (Lc 23, 43). Pensemos nos dois discípulos no caminho de Emaús quando, depois de terem percorrido um trecho da estrada com Jesus Ressuscitado, O reconhecem e, sem hesitar, partem rumo a Jerusalém para anunciar a Ressurreição do Senhor (cf. Lc 24, 13-35). Voltam à mente com clareza renovada as palavras do Mestre: «Jesus continuou dizendo: «Não fique perturbado o coração de vocês. Acreditem em Deus e acreditem também em mim. 2 Existem muitas moradas na casa de meu Pai. Se não fosse assim, eu lhes teria dito, porque vou preparar um lugar para vocês» (Jo 14, 1-2). Deus revelou-se verdadeiramente, tornou-se acessível e amou de tal modo o mundo, «que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16), e no supremo gesto de amor da Cruz, mergulhando no abismo da morte, venceu-a, ressuscitou e abriu também para nós as portas da eternidade. Cristo sustém-nos através da noite da morte que Ele mesmo atravessou; é o Bom Pastor, a cuja guia podemos confiar sem qualquer temor, porque Ele conhece bem o caminho, até através da obscuridade.

Cada domingo, recitando o Credo, nós confirmamos esta verdade. E visitando os cemitérios para rezar com afeto e com amor pelos nossos defuntos, somos convidados, mais uma vez, a renovar com coragem e com força a nossa fé na vida eterna, aliás, a viver com esta grande esperança e testemunhá-la ao mundo: por detrás do presente não existe o nada. E é precisamente a fé na vida eterna que confere ao cristão a coragem de amar ainda mais intensamente esta nossa terra e de trabalhar para lhe construir um futuro, para lhe dar uma esperança verdadeira e segura. Obrigado!