8 de julho de 2014

08/07 - Santos Mártires chineses


Santos Gregório Grassi, Francisco Fogolla, bispos, Elias Facchini, Teodorico Balat, sacerdotes, Andrés Bauer, irmão leigo, mártires em Shansi (+ 9 de julho de 1900). Beatificados por Pio XII no dia 24 de novembro de 1946. Canonizados por João Paulo II em 1º de outubro de 2000.

No fim do século XIX, a China entrou numa crise grave. Não tendo querido receber a civilização moderna, não podia manter o seu lugar no mundo. O jovem imperador Kouang-Sin experimentou reformas; a velha imperatriz retomou porém a autoridade, e recomeçou a política reacionária.


Vendo-se incapaz de abrir guerra contra as grandes potências, excitou no povo chinês a xenofobia, ou ódio aos estrangeiros, servindo-se duma sociedade secreta já antiga, cujos membros vieram a ser chamados Boxers ou pugilistas, porque se exercitavam fisicamente dando punhadas entre si. (Ver também, a 8 de Junho, o Beato Leão Mangin e 55 companheiros).

Em 1900, ela julgou ter chegado o momento de lançar os amotinadores contra os Europeus, dando àqueles o apoio dos soldados. Os cristãos foram naturalmente considerados como traidores à velha China e os Boxers perseguiram-nos com o seu ódio. Felizmente, muitos vice-reis recusaram seguir as ordens de Pequim e a perseguição não se estendeu para além das províncias da capital. Graças à intervenção das potências, durou menos de dois meses, mas foi muito sangrenta: avaliou-se o número das vítimas em 20.000, das quais 2418 nos vicariatos apostólicos confiados aos Franciscanos. Foram beatificados, em 1946, vinte e nove, como vanguarda de tal legião de mártires. Três dentre eles sofreram o martírio em Heng-Chou-Fou e os restantes vinte e seis em Tai- Yuan-Fou, no Chan-Si.

O bispo Gregório Grassi muito desenvolvera a missão do Chan-Si setentrional. Tinha ao seu lado outro prelado, Dom Francisco Fogolla. Trabalhavam também no vicariato apostólico os Padres Elias Facchini e Teodorico Balat, e o irmão André, alsaciano de grandes qualidades, em particular duma força hercúlea. Em Heng-Chou-Fou residia o vigário apostólico Dom António Fantosati, com os Padres Cesídio Giacomantoni e José Maria Gambaro.
Sete Missionárias de Maria tinham vindo também da Europa para fundar a missão de Tai-Yuan-Fou. Era superiora a Madre Maria Hermínia de Jesus.

A este número juntaram-se ainda, todos de nacionalidade chinesa: 6 seminaristas e 8 empregados das casas dos missionários.

No dia 9 de Julho de 1900, estão todos os futuros mártires reunidos e presos em Tai-Yuan-Fou. Ouve-se um ruído de gente que chega. D. Gregório Grassi diz simplesmente: «A hora da morte chegou. Vou dar-vos a absolvição». Os Boxers estão presentes. Batem na cabeça das vítimas para as estontear e assim lhes prender as mãos atrás das costas. O Irmão André dirige-se a um deles: “Nunca me prostrei diante de nenhum chinês, vou-o fazer agora porque me vais abrir as portas do céu”. E indo para a morte canta: Louvai ao Senhor todos os povos. D. Francisco Fogolla, ferido gravemente na testa e num ombro, reclama um pouco de deferência: «Deixai que nos levantemos, depois seguiremos sem resistência». Mas os algozes instam com as vítimas dando-lhes punhadas e pauladas; algemam-nas duas a duas e levam-nas para o palácio do vice-rei, enquanto o povo grita: «À morte os diabos europeus». As religiosas cantam o Te Deum.

Mais de 3.000 Boxers os esperavam Este singular processo decorreu sem testemunhas nem advogados. Yu-Hsien, o vice-rei, aparece e dirige-se a D. Francisco:

― Há quanto tempo está na China?
― Há mais de 30 anos.
― Porque prejudicastes o meu povo e com que fim propagais a vossa fé?
― Não prejudicamos ninguém, mas beneficiamos a muitos. Vivemos aqui para salvar almas.
― Não é verdade, fizestes muito mal e vou matar-vos a todos ― grita o vice-rei, lançando-se contra o bispo, ao qual fere duas vezes no meio do peito, berrando aos Boxers: «Matai, matai».

Dá-se então o ataque e matança. Os mártires são decapitados e mutilados e, enquanto as Franciscanas Missionárias de Maria levantam os véus para estender os pescoços, são trucidados o seminarista de dezesseis anos João Wang e o velho Padre Elias, recebendo o primeiro uma espadeirada na testa e o outro no peito. Arrancam-lhes o coração e acabam por lhes cortar a cabeça.

Yu-Hsien mandou lançar os corpos na fossa comum. Mas no fim do ano de 1900, o vice-rei que lhe sucedeu, temendo uma expedição militar europeia, mandou desenterrar ― na presença de dois chineses, um católico e outro protestante ― os restos dos mártires e meteu-os em caixas, das quais uma parte foi dada a um padre que a depositou no cemitério dos Franciscanos.

A 9 de Julho de 1902 foi celebrada Missa no pátio do tribunal e a 24 de Março de 1903 houve uma cerimónia de reparação, mandando as autoridades chinesas colocar duas lápides no sobredito pátio. E a 9 de Julho de 1903, realizou-se o funeral solene à custa do governo.
A causa de beatificação de 1418 cristãos da China mortos pela fé foi introduzida em 1926. Para fazer chegar o processo o mais depressa possível a termo, foram escolhidos 29 nomes. Estes campeões da fé beatificou-os, a 24 de Novembro de 1946, Pio XII.

As sete Franciscanas Missionárias de Maria são as primeiras beatas da Congregação, fundada em 1877 pela Madre Maria da Paixão.

7 de julho de 2014

07/07 - Bem-aventurado Manuel Ruiz


Sacerdote e mártir da Primeira Ordem (1804-1860). Beatificado por Pio XI no dia 29 de junho de 1926.

Manuel nasceu em San Martins das Ollas, província de Santander, no dia 6 de maio de 1804. Desde pequeno dedicava às orações e ao lado de seus pais ajudava os pobres e necessitados. Ingressou no seminário da Ordem dos Frades Menores de São Francisco, onde foi ordenado padre.
Resolveu partir para a Terra Santa, fato que se consumou no ano de 1831. Lá dedicou-se para aprender a língua árabe e quando já havia dominado a língua partiu para a pregação, a conversão e a conduzir as crianças pelos caminhos da Palavra de Deus Pai (Antigo Testamento) e Deus Filho (Novo Testamento).

Partiu, então, para Damasco, local onde pôde aplicar todos os seus dotes de evangelizador. Mas no dia 10 de julho de 1860 foi assaltado pelos drusos, momento em que decide consumir todas as hóstias consagradas para que não caíssem em mãos pagãs e fossem objeto de brincadeira e descaso. Foi brutalmente agredido. Não satisfeitos, os mulçumanos decidiram por sua morte. Faleceu naquele mesmo dia decapitado.

Faleceu aos 56 anos de idade, em Damasco. Foi Beatificado pelo Papa Pio XI, no dia 29 de junho de 1926.

Manuel foi um dos oito franciscanos trucidados pelos drusos por resistirem até o fim a renegar a Jesus Cristo. Manuel, Carmelo, Gilberto, Nicanor Maria e Pedro, sacerdotes. João e Tiago eram irmãos leigos. Eram sete espanhóis e um austríaco, embora os chamassem de “irmãos franceses”. Manuel Ruiz era o superior e antes de falecer havia feito a seguinte profissão de fé: “Nós não temos senão uma alma. Perdida esta, tudo está perdido. Somos cristãos e queremos morrer cristãos”.

6 de julho de 2014

06/07 - Santos mártires chineses


Santos Tomás Sen-Ki-Kuo, Simão Tchen, Pedro U-ngan-pan, Matias Fante, Pedro Tchiang, Francisco Tchiang, Pedro Wang, Tiago Yen-Ku-Tun, catequistas e funcionários da Missão, mártires em Tayuenfu (+9 de julho de 1900). Canonização no dia 1º de outubro de 2000.


A Igreja universal ratifica a santidade destes 120 mártires, que em diversas épocas e lugares deram a vida por fidelidade a Cristo: 32 deles foram martirizados entre 1814 e 1862; 86 morreram durante a revolta dos Boxers em 1900 e dois foram mortos em 1930. Entre eles sobressaem seis bispos europeus, 23 sacerdotes, um irmão religioso, sete religiosas, sete seminaristas e 72 leigos, dos quais dois catecúmenos. Os mártires tinham entre sete e 79 anos. Todos eles foram beatificados, uns em 1900 e outros em 1946. Muitos deles eram chineses das províncias de Guizhou, Hebei, Shanxi e Sichuão e 33 eram missionários europeus.

A perseguição religiosa na China ocorreu em diversos períodos da sua história. A primeira perseguição deu-se na dinastia Yuan (1281-1367). Prosseguiu mais tarde na dinastia Ming (1606-1907), recrudescendo de forma especial em 1900 com a revolta dos Boxers. E continuou durante as cinco décadas de governo sem interrupção. Grande parte destes canonizados deram a vida durante a revolta dos Boxers em 1900, que foi como que uma premonição do que iria acontecer nas cinco décadas de governo comunista na China.
Os missionários foram objeto de um édito imperial de 10 de Julho de 1900, que fomentou e provocou o massacre de milhares de cristãos. Outros morreram durante as perseguições religiosas das dinastias Ming (1368-1644) e Qing (1644-1911). De fora ficarão as centenas de mártires que durante o regime comunista foram perseguidos e deram a vida por fidelidade ao Evangelho e a Cristo. Para a Igreja da China é um acontecimento importante pela magnitude e pelo contexto em que ocorre. É-o igualmente para a Igreja universal, bastante desconhecedora do que acontece com a Igreja da China. Eis algumas considerações sobre o significado do evento.

O martírio tem assinalado a Igreja da China ao longo dos séculos, desde a chegada da mensagem cristã no século VII com a vinda do monge sírio Alopen e dos nestorianos até Xian, capital da dinastia Tang, no ano de 635. Os estudiosos da Igreja na China, que falam de cinco tentativas de evangelização do país, concordam em afirmar que cada tentativa em estabelecer a presença do Evangelho no Império do Centro acarretou perseguições e martírio. Umas vezes pelas discrepâncias de credos, porque o imperador era considerado o Filho do Céu; outras pelos contrastes de culturas ou por motivos políticos; outras vezes por divisões entre as congregações religiosas presentes no território. O facto é que estamos diante de uma Igreja martirial. Mesmo hoje em dia isso é uma realidade permanente tanto para as comunidades subterrâneas como para as que conseguem actuar mais às claras.
O controlo e a perseguição variam conforme os lugares e as situações, mas os cristãos continuam a ser abertamente perseguidos e, por vezes, encarcerados e torturados. Como João Paulo II dizia na sua mensagem aos católicos da China por ocasião da celebração do ano jubilar: «O Jubileu será uma oportunidade para lembrar os trabalhos apostólicos, os sofrimentos, as dores e o derramamento de sangue que têm feito parte da peregrinação desta Igreja ao longo dos tempos. Também no meio de vós o sangue dos mártires se converteu em semente de uma multidão de autênticos discípulos de Jesus… E parece que este tempo de prova ainda prossegue nalgumas localidades.»

Com esta canonização, a Igreja da China envia uma mensagem profética ao mundo de hoje. Tanto pela singeleza com que afirmaram a sua fé como pela valentia em recusar a apostasia que os libertaria dos tormentos, da tortura e das infindáveis humilhações, o testemunho destes 120 mártires é a palavra viva de Deus, clara e ao mesmo tempo misteriosa. É sem dúvida alguma um encorajamento para as gerações vindouras de cristãos. Para além deste grupo de cristãos, muitos mais haveria a canonizar, mas, por falta de provas e informação, não puderam ser reconhecidos, embora a Igreja autentique como valores de ontem e de hoje a fidelidade a Cristo acima de qualquer ideologia, sistema ou tirania.

Os santos chineses espelham uma capacidade de doação e uma confiança ilimitada em Deus num contexto hostil à mensagem cristã. Se o autêntico tesouro do discípulo de Cristo é a cruz e se não há outra forma de seguimento de Cristo senão através da cruz, podemos dizer que a Igreja universal reconhece de forma pública o testemunho destes mártires como riqueza para toda a Igreja.

Dos mártires pertencendo à família franciscana, estes onze foram seculares e todos chineses, são eles:

46. São João Zhang Huan, seminarista,
47. São Patricio Dong Bodi, seminarista,
48. São João Wang Rui, seminarista,
49. São Filipe Zhang Zhihe, seminarista,
50. São João Zhang Jingguang, seminarista,
51. São Tomás Shen Jihe, leigo,
52. São Simão Qin Cunfu, leigo catequista,
53. São Pedro Wu Anbang, leigo,
54. São Francisco Zhang Rong, leigo,
55. São Mateus Feng De, leigo e neófito,
56. São Pedro Zhang Banniu, leigo.

5 de julho de 2014

05/07 - Mártires da China


Santos Antonino Fantosati, bispo (1842-1900), José Maria Gambaro (+ julho 7), e Cesidio Giacomantonio de Fossa (+ julho 4), sacerdotes da Primeira Ordem, Mártires em Hunán meridional, China (+1900). Beatificados por Pio XII no dia 24 de novembro de 1946. Canonização: João Paulo II, outubro, 1º de 2000.

Antonio Fantosati nasceu em Santa Maria, em Perusa, Itália, no dia 16 de outubro de 1842. Ingressou na Ordem dos Frades Menores de São Francisco. Foi ordenado sacerdote em 1865, aos 23 anos de idade. Pouco tempo depois partiu para a Hupe, na China, chegando no dia 15 de dezembro de 1867. Sua primeira preocupação foi aprender a língua local.
Partiu então para Lao-ho-kow, local onde pregou e converteu durante 18 anos. Em 1878 fundou um orfanato para meninos abandonados ou órfãos.
Em 1888 faz uma breve visita à Itália e quando retorna à China é nomeado bispo de Adana. Nesta época passou por muitas perseguições, quando mais de 20.000 Cristãos foram mortos.
Faleceu, martirizado por um longo período, depois transpassado por uma barra de ferro pontiaguda e por fim, jogado ao lado de um irmão de Fé num rio. Foram então recolhidos do rio, queimados e suas cinza lançadas ao vento, era o ano de 1900. Esta ação tinha por objetivo impedir que fossem feitas orações em seu túmulo e proporcionar o seu esquecimento. Foi Canonizado em 01 de outubro de 2000, pelo Papa João Paulo II.

Cesídio Giacomantonio de Fossa (1873-1900)- Angel nasceu em Fossa, Abruzzo, província de Aquila, em 30 de Agosto de 1873. Já desde adolescente ia ao solitário convento de Ocre, onde repousam os restos do Beato Bernardino de Fossa e do Beato Timóteo de Monticchio.
Rezando diante daquelas urnas sentiu germinar em seu coração a vocação religiosa e a ideia da vida franciscana. Em 21 de Novembro de 1891 foi recebido na Ordem dos Frades Menores, vestindo o hábito franciscano com o nome de Cesídio, em memória de um jovem mártir. Depois da profissão religiosa, em vários conventos completou seus estudos e foi ordenado sacerdote. Por algum tempo exerceu o ministério da pregação. Logo foi enviado a Roma como candidato às missões. Depois de que completou sua formação missionária, junto com dois confrades partiu para a China.
Ao chegar foi acolhido com imensa alegria pelo Vigário Apostólico, o bispo Antonino Fantosati. Apesar do ambiente de perseguição, nele persistia sempre o grande desejo de pregar, de converter e de batizar em nome do Senhor o maior número possível. Para isto aprendeu bem a língua chinesa e seu apostolado se viu carregado de satisfações.
Numa carta a seus pais pouco antes do martírio, descreve sua alegria de se encontrar na China e pede orações pela conversão de muitos infiéis. Logo acrescenta: “Procuremos fazer-nos santos, se alcançamos esta graça poderemos cantar no céu o eterno aleluia”. Em 4 de Julho de 1900, a missão onde ele se encontrava foi invadida pelos boxers.
O Padre Cesídio correu à capela a consumir o Santíssimo Sacramento e logo enfrentou a raiva de seus perseguidores. Foi assassinado a golpes de lança e a bastonadas. Tinha somente 27 anos e foi assim o primeiro mártir na perseguição dos boxers de 1900. Foi canonizado por João Paulo II em 1º de Outubro de 2000 junto aos 120 mártires na China.

São José Maria Gambaro (1869-1900). Bernardo Gambaro nasceu em Galliate, província de Novara, a 7 de agosto de 1869. Aos 13 anos entrou em um colégio franciscano e no dia 20 de setembro de 1886 recebeu o hábito religioso dos Frades Menores com o nome de José Maria. Ativo e circunspecto, entusiasta e prudente, foi estimado e querido pelos superiores, que o escolheram desde teólogo como assistente dos jovens de Ornavasso. Foi ordenado sacerdote no dia 13 de março de 1892 e se tornou reitor do Colégio de Ornavasso. Um ano depois realizou seu desejo de ser missionário. Abandonou a Itália em 1896 e ao chegar a China foi destinado a Hunan meridional. Em 7 de julho de 1900 sofreu o martírio. Tinha 31 anos de idade, catorze como religioso, oito como sacerdote e quatro de vida missionária.

4 de julho de 2014

04/07 - Santa Isabel de Portugal


Viúva da Terceira Ordem (1271-1336). Canonizada por Urbano VIII no dia 25 de maio de 1625

Isabel nasceu na Espanha, em 1271. Entre seus antepassados estão muitos santos, reis e imperadores. Era filha de Pedro II, rei de Aragão, que, no entanto, era um jovem príncipe quando ela nasceu. Sem querer ocupar-se com a educação da filha, o monarca determinou que fosse cuidada pelo avô, Tiago I, que se convertera ao cristianismo e levava uma vida voltada para a fé. Sorte da pequena futura rainha, que recebeu, então, uma formação perfeita e digna no seguimento de Cristo.


Tinha apenas doze anos quando foi pedida em casamento por três príncipes, como nos contos de fadas. Seu pai escolheu o herdeiro do trono de Portugal, dom Dinis. Esse casamento significou para Isabel uma coroa de rainha e uma cruz de martírio, que carregou com humildade e galhardia nos anos seguintes de sua vida.

Isabel é tida como uma das rainhas mais belas das cortes espanhola e portuguesa; além disso, possuía uma forte e doce personalidade, era também muito inteligente, culta e diplomata. Ela deu dois filhos ao rei: Constância, que seria no futuro rainha de Castela, e Afonso, herdeiro do trono de Portugal. Mas eram incontáveis as aventuras extraconjugais do rei, tão conhecidas e comentadas que humilhavam profundamente a bondosa rainha perante o mundo inteiro.

Ela nunca se manifestava sobre a situação, de nada reclamava e a tudo perdoava, mantendo-se fiel ao casamento em Deus, que fizera. Criou os filhos, inclusive os do rei fora do casamento, dentro dos sinceros preceitos cristãos.

Perdeu cedo a filha e o genro, criando ela mesma o neto, também um futuro monarca. Não bastassem essas amarguras familiares, foi vítima das desavenças políticas do marido com parentes e, sobretudo, do comportamento de seu filho Afonso, que tinha uma personalidade combativa. Depois, ainda foi caluniada por um cortesão que dela não conseguiu se aproximar. A rainha muito sofreu e muito lutou até provar inocência de forma incontestável.
Sua atuação nas disputas internas das cortes de Portugal e Espanha, nos idos dos séculos XIII e XIV, está contida na história dessas cortes como a única voz a pregar a concórdia e conseguir a pacificação entre tantos egos desejosos de poder. Ao mesmo tempo que ocupava o seu tempo ajudando a amenizar as desgraças do povo pobre e as dores dos enfermos abandonados, com a caridade da sua esmola e sua piedade cristã.

Ergueu o Mosteiro de Santa Clara de Coimbra para as jovens piedosas da corte, O mosteiro cisterciense de Almoste e o santuário do Espírito Santo em Alenquer. Também fundou, em Santarém, o Hospital dos Inocentes, para crianças cujas mães, por algum motivo, desejavam abandonar. Com suas posses sustentava asilos e creches, hospitais para velhos e doentes, tratando pessoalmente dos leprosos. Sem dúvida foi um perfeito símbolo de paz, do seu tempo.

Quando o marido morreu, em 1335, Isabel recolheu-se no mosteiro das clarissas de Coimbra, onde ingressou na Ordem Terceira Franciscana. Antes, porém, abdicou de seu título de nobreza, indo depositar a coroa real no altar de São Tiago de Compostela. Doou toda a sua imensa fortuna pessoal para as suas obras de caridade. Viveu o resto da vida em pobreza voluntária, na oração, piedade e mortificação, atendendo os pobres e doentes, marginalizados.

A rainha Isabel de Portugal morreu, em Estremoz, no dia 4 de julho de 1336. Venerada como santa, foi sepultada no Mosteiro de Coimbra e canonizada pelo papa Urbano VIII em 1665. Santa Isabel de Portugal foi declarada padroeira deste país, sendo invocada pelos portugueses como “a rainha santa da concórdia e da paz”.