24 de junho de 2010

24 de Junho - São João Batista




















João Batista, Segundo o Evangelho de São Lucas, era filho do sacerdote Zacarias e Isabel, prima de Maria, mãe de Jesus. Profeta, batizou muitos judeus, incluindo Jesus, no rio Jordão.

São João nasceu em Junho, precisamente no dia 24 de Junho. Homem simples, despojado, amigo do deserto, tinha uma importantíssima missão: preparar o caminho para a chegada do Messias.

Na história do povo de Israel, a comunicação era feita através do fogo. Foi isso que aconteceu quando João Batista nasceu. Zacarias, seu pai, anunciou o nascimento de seu filho João acendendo uma fogueira. Essa tradição continua até os nossos dias, na celebração do nascimento de João Batista: acende-se fogueiras, reúne-se a família, as comunidades, para fazer festa.

Os evangelhos dizem que, ainda no ventre de sua mãe, João percebe a presença do Messias quando Maria visita a prima Isabel. O evangelho de São Mateus fala das pregações e dos batismos que realizava às margens do rio Jordão, não distante de Jericó.

Ao atingir a maturidade, o Batista se encaminhou para o deserto e, nesse ambiente, preparou-se, através da oração e da penitência - que significa mudança de atitude, para cumprir sua missão. Através de uma vida extremamente coerente, não cessava jamais de chamar os homens à conversão, advertindo: " Arrependei-vos e convertei-vos, pois o reino de Deus está próximo". João Batista passou a ser conhecido como profeta. Alertava o povo para a proximidade da vinda do Messias e praticava um ritual de purificação corporal por meio de imersão dos fiéis na água, para simbolizar uma mudança interior de vida.

Crítico da hipocrisia e da imoralidade, São João Batista foi decapitado por capricho de Salomé, enteada de Herodes. João Batista, juntamente com os profetas Elias e Eliseu, é considerado o protótipo do ideal ascético, e modelo de vida perfeita. (fonte: Sgarbossa, Mario e Giovanni, Luigi – Um Santo para cada dia, São Paulo, 1983, 9a. ed.).

A liturgia festeja o nascimento de São João Batista, a “Aurora da Salvação”. Por sua austeridade e fidelidade cristã, ele é confundido com o próprio Cristo, mas, imediatamente, retruca: "Eu não sou o Cristo" (Jo 3, 28) e " não sou digno de desatar a correia de sua sandália". (Jo 1,27). Quando seus discípulos hesitavam, sem saber a quem seguir, ele apontava em direção ao único caminho, demonstrando a seta principal, ao exclamar: "Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo". (Jo 1,29).

Foi, pois, o maior entre os profetas, porque pôde apontar o “Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo” (Jo 1, 29-36). Sua vocação profética desde o ventre materno, reveste-se de acontecimentos extraordinários, repletos de júbilo messiânico, que preparam o nascimento de Jesus. (cf Lc 1, 14-58).

Profeta do Altíssimo, João Batista é prefigurado por Jeremias: - “antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei, e te constituí profeta entre as nações” (Jer 1, 4 – 10).

João Batista é descrito na Bíblia como pessoa solitária, que vivia no deserto, e comia gafanhotos e mel. O caminho desse homem recluso, mas profeta de grande popularidade, cruzou com a da família real na época, a do rei Herodes Antipas, da Galiléia. João condenou publicamente o fato do rei ser amante da própria cunhada, Herodíades. Salomé, filha de Herodíades, dançou tão bonito diante de Herodes, que este lhe prometeu o presente que quisesse. A mãe de Salomé aproveitou a oportunidade para se vingar: anunciou que o presente seria a cabeça de João Batista sobre uma badeja.

ORAÇÃO - Ó Deus, que suscitastes São João Batista, a fim de preparar para o Senhor um povo perfeito, concedei à vossa Igreja as alegrias espirituais e dirigi nossos passos no caminho da Salvação e da Paz. Amém.


20 de junho de 2010

DE COMO AS COISAS COMEÇARAM EM SÃO DAMIÃO...


Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

O texto de reflexão de hoje tenta captar em que consistia a vida das pobres irmãs bem no começo, quando mal e mal se instalaram junto à igrejinha de São Damião. Temos sempre diante dos olhos o livro de Chiara Giovanna Cremaschi, Chiara di Assisi. Un silenzio che grida (p. 49-50).

Para podermos compreender o início dos inícios temos que nos reportar ao Testamento de Clara. A leitura de algumas dessas linhas nos coloca diante de coisas simples, mas fundamentais. Era preciso inventar o novo.

“Depois que o Altíssimo Pai celestial, por misericórdia e graça, se dignou iluminar meu coração para fazer penitência segundo o exemplo e ensino de nosso bem-aventurado pai Francisco, pouco depois de sua conversão, com algumas irmãs que Deus me dera logo após a minha conversão, eu lhe prometi obediência voluntariamente, como o Senhor nos concedera pela luz da sua graça através da vida admirável e do ensinamento dele. Vendo o bem-aventurado Francisco que nós, embora frágeis e fisicamente sem forças, não recusávamos nenhuma privação, pobreza, trabalho, tribulação nem humilhação ou desprezo do mundo, e até julgávamos tudo isso as maiores delícias, como pôde comprovar freqüentemente em nós a exemplo dos santos e dos seus s frades, alegrou-se muito no Senhor. E, movido de piedade para conosco, assumiu o compromisso, por si e por sua Ordem, de ter sempre por nós o mesmo cuidado diligente e a mesma atenção especial que tinha para com seus irmãos. E assim, por vontade de Deus e do nosso bem-aventurado pai Francisco, fomos morar junto da igreja de São Damião, onde em pouco tempo o Senhor nos multiplicou por sua misericórdia e graça, a fim de que se cumprisse o que tinha predito por seu santo. Pois, antes tínhamos morado em outro lugar, por pouco tempo” (24-32).

1. Agora as irmãs chegam ao seu espaço. Elas vão morar junto da igrejinha de São Damião. Para nós, franciscanos, São Damião evoca uma página dourada de nossa família espiritual. Aquele crucifixo! E lá foram se instalar esses mulheres, nossas irmãs, mulheres pobres, bonitamente pobres e desejosas de viverem à sombra do amor de Deus manifestado em Jesus e tão presente nos espaços de São Damião. Ali acontece o verdadeiro começo da vida das irmãs e que tem como fundamento a pessoa de Clara. E Francisco, ele mesmo ou através dos seus frades daquele tempo e de sempre haveriam de cuidar dessa fraternidade das damianitas.

2. Francisco confia nelas. Sabe que são tenazes e capazes de suportar a pobreza e os desafios. Clara revela em suas filhas que Francisco reconhecia força e vigor nessas frágeis mulheres...

3. Ali Clara entra como peregrina e forasteira, nesta casa pobre e despojada. Ali haverá a contemplação do Deus, único bem, a vontade de viver somente para ele. Esta a base da vida de Clara e de suas duas companheiras. Esse caminho Clara assume porque Deus mesmo o revelou ao coração sob a inspiração de Francisco.

4. Ali entra para fazer penitência, entrar num caminho verdadeiro de conversão que quer percorrer ao longo de toda a sua vida. Os franciscanos são penitentes. Essa a nossa profissão. Entrar num esquema de vida novo. Mudar o coração. Deixar o desejo de posse, de brilho e viver de outro modo.

5. No momento em que Francisco leva as três irmãs para São Damião, para elas começa alguma coisa completamente nova, que precisará ser inventada. Há umas poucas certezas básicas que fundamentam o seu “estar juntas”:

  • Iluminação do Espírito Santo para seguir os passos de Cristo pobre e crucificado no estilo de Francisco.
  • Trata-se de tomar o Evangelho como constante ponto de referência deixando-se levar pela graça num abandono sem restrições nas mãos do Pai das misericórdias.
  • A pobreza absoluta será um ponto fundamental inquestionável.
  • Da mesma forma será ponto básico o amor exclusivo pelo Senhor Jesus Cristo alimentado por longa e incessante oração. As três irmãs, como conseqüência, haveriam de se querer e, juntas, amar os mais pobres.
  • A concretude de uma pobreza escolhida por amor e vivida na alegria comportava um desprezo por parte da sociedade da época, sobretudo pelas famílias nobres às quais as três pertenciam. Clara e suas duas primeiras companheiras colocam-se na categoria do minores, os últimos da escala social, aqueles que não contam.

18 de junho de 2010

Ficha limpa, uma vitória da sociedade

A decisão do Tribunal Superior Eleitoral, de que o projeto Ficha Limpa vai valer para as eleições deste ano, é sem dúvida resultado da movimentação da iniciativa popular, que apresentou o projeto com mais de um milhão e trezentas mil assinaturas. A alteração do texto original, feito pela Câmara e pelo Senado, não mudou a essência do projeto, que é impedir a candidatura de pessoas julgadas e condenadas pela Justiça.

Tenho a certeza que este projeto favorecerá uma mudança na postura dos partidos políticos, que a partir de agora vão escolher com mais critérios os seus candidatos. O impedimento de políticos condenados em segunda instância de serem candidatos, fortalece a fidelidade partidária e mais ainda o desejo da sociedade brasileira de eleger para o Congresso Nacional – Senado e Câmara dos Deputados – pessoas que tenham um histórico de prestação de serviço à sociedade e não que olhem somente para os seus interesses pessoais. Vale ressaltar, que esta lei vai valer também para escolha dos candidatos ao Governo do Estado e para eleições municipais, para escolha do prefeito e vereadores.

Quero parabenizar os petropolitanos que apoiaram o projeto e participaram da campanha de assinaturas, contribuindo para que nossa Diocese apresentasse mais de 20 mil assinaturas. O nosso trabalho não terminou com o projeto transformado em lei, mas começa agora com a fiscalização sobre os candidatos, acompanhando o processo político de escolha dos candidatos. Este acompanhamento pela Igreja será feito através da Pastoral dos Católicos com atuação na Política. Não somente no período eleitoral, mais durante o exercício do mandato.

A Igreja Católica não tem candidato, mas, temos a obrigação de orientar o povo, apontando os critérios para escolha dos candidatos, que devem defender a vida em todas as suas dimensões, desde a concepção até o seu fim natural, a família, o bem comum e outros pontos importantes e definidos pela Doutrina Social da Igreja.

Sobre este ponto, lembro a passagem do livro do profeta Isaías (Is 10,1-2): “Ai dos que decretam leis injustas e editam escritos de opressão, para afastar os humildes do julgamento e privar do direito os pobres do meu povo, para fazer das viúvas suas presas e roubar os órfãos”.

O sucesso do projeto Ficha limpa é um passo muito importante para que a população possa escolher seus representantes dignos para que editem leis a fim de garantir na sociedade o bem comum de todos. Por fim, volto a afirmar o nosso compromisso como Igreja, como pastor, de ajudar a sociedade, as pessoas mais carentes e serem respeitadas em seus direitos. Vamos continuar atuando, seguindo a orientação da Doutrina Social da Igreja, para que possamos criar uma sociedade justa e fraterna, que encontre o Cristo, e a partir deste encontro possa viver plenamente a sua humanidade.

Dom Filippo Santoro

O Bom Cristão segue o exemplo das abelhas

Lê-se na história natural que as abelhas pequeninas trabalham sem descanso. Têm asas fininhas e são de cores mais escuras, como se fossem queimadas.

Abelhas pequenas são os bons cristãos sem pretensões que só se ocupam de boas e úteis obras,
de forma que o diabo não os encontra nunca de mãos vazias ou desocupadas.

Têm asas finas, isto é, desprezam as vaidades e os prazeres do mundo e se inflamam de amor pelo Reino Celestial. Com essas asas sobem alto,
voando livres no ar puro, com o coração fixo na Glória de Deus.

As abelhas trabalhadeiras são de cor escura, como se fossem queimadas. A respeito disto, a alma cristã exclama no Cântico dos Cânticos (1.5-6): "Sou morena, mas formosa, ó filhas de Jerusalém, sou como as tendas de Cedar, como os pavilhões de Salomão. Não repareis na minha tez morena, pois foi o sol que me queimou!" Oh! anjos do céu, oh! almas santas, sou morena porque as abstinências, os jejuns, as vigílias e outras penitências me tomaram assim. Porém, sou bela na alma pela pureza da mente e pela integridade da fé. Sou morena como as tendas de Cedar, que quer dizer nômade; habito de fato em tendas móveis que se transportam de um lugar para o outro, das quais os soldados atacam ou nas quais são atacados, "porque não temos aqui embaixo nenhuma cidade permanente, andamos em busca da que há de vir" (Hb 13,14).

Não deis importância ao fato de eu ser morena, pois sou morena porque o sol me queimou. O sol em eclipse descora todas as coisas. Assim Jesus Cristo, o verdadeiro sol, "que conheceu seu ocaso" (SI 103,19) quando na cruz padeceu o eclipse da morte, deixou a atração das vaidades, as falsas glórias, todas as honras mundanas.

Por isso, a alma cristã pode afirmar com razão: "Sim, sou morena, minha pele é escura, o sol me queimou". Enquanto, com efeito, com os olhos da fé eu contemplo a meu Deus, meu esposo, meu Jesus, pregado na cruz, atravessado por cravos, alimentado com fel e vinagre, e coroado de espinhos, toda a beleza, toda a glória, toda a honra, toda a pompa mundana empalidece a meus olhos e perde todo o valor... Eis aqui, estas são as abelhas pequenas e escuras, como se fossem queimadas. Assim pensam e atuam os verdadeiros cristãos.

Abelhas de bela aparência são ao contrário todos os cristãos inautênticos e todos os que não sabem fazer outra coisa senão agitar aos quatro ventos as falsas credenciais de sua falsa honestidade e bondade, enquanto na realidade são somente sepulcros, de aparência bela e solene, porém cheios por dentro de podridão e ossos ressequidos...

As tentações do maligno atacam especialmente aquelas pessoas honestas e virtuosas que, quando percebem que não agiram corretamente, logo reconhecem suas culpas e se apressam a confessá-las e a fazer uma justa reparação. E aí, então, que na consciência dessas pessoas retas o maligno procura penetrar e instalar-se com o fim de transtornar sua sensibilidade moral. O bom cristão, porém, sabe opor-se com todas as forças a esses intentos e nunca permitir que tal projeto se realize.

Os bons cristãos deveriam seguir o exemplo das abelhas. Diz-se que as abelhas se colocam com todo o cuidado nos buracos da entrada da colméia e, na eventualidade de que algum bichinho consiga entrar, elas não o deixam em paz e o perseguem por todos os lados até expulsá-lo para fora da colméia.

O nome em latim das abelhas parece derivar do fato de que elas se entrelaçam entre si por melo das patinhas as quais, no entanto, elas não possuem no momento do nascimento. Por isso é que se chamam "apes", isto é, "sem pés". Os cristãos também se encontram unidos entre si por sentimentos de caridade, de recíproco amor. Esta, porém, não é uma prerrogativa natural; até São Paulo (cf. Ef 2,3) afirma que "somos destinados por natureza à cólera". É, antes, um dom gratuito depositado em seus corações por Deus.

Como as colméias, assim são os nossos corpos: possuem cinco entradas que são os cinco sentidos. Entre estes, de especial importância são os olhos com os quais temos que vigiar atentamente para que não penetre em nós algo estranho e turvo. Se alguma sugestão diabólica ou algum instinto perverso perturbar nosso espírito, não devemos de jeito nenhum e por nenhum motivo permitir que permaneça por muito tempo em nós. Com efeito, sua demora transforma-se em perigo e, assim o afirmam os moralistas, um pensamento mau, conservado com complacência, já constitui uma falta mortal. Portanto, logo que a consciência adverte que o pensamento está indo para o ilícito e não o afasta, está permitindo que se forme o assim chamado pensamento mau cultivado.

Como as abelhas, assim o bom cristão deve movimentar-se prontamente e, com o ferrão de sua boa consciência e da oração, tem que perseguir sem se cansar os intrusos até expulsá-los para fora da colméia do seu coração. (
Dom. III in Quadr. 153, 27155, 10).

14 de junho de 2010

O AMOR E O PERDÃO

A Palavra de Deus nos convida neste domingo a refletir sobre o perdão misericordioso de Jesus. O evangelho é de Lucas, 7,36-8,3. O contexto da cena é um banquete. Jesus participa como convidado. Oferecem-lhe os seus dons duas pessoas muito diversas: um fariseu e uma mulher de má fama.

O fariseu o convida a um almoço suntuoso. Seria exagerado acusá-lo de vontade má; talvez tenha convidado Jesus porque sentia respeito por ele. Todavia, no fundo de seu gesto, existe um sentido de crítica e de suspeita, e por isso ousa julgar-lhe a conduta. Ele tem sua verdade feita, conhece Deus e não tem necessidade que alguém lhe ensine a nova profundidade do reino e da vida.

A mulher pública não foi convidada, mas se apresenta espontaneamente. Sabe que Jesus oferece uma mensagem salvadora, conheceu a sua virtude de homem que se dedica inteiramente aos outros, e portanto vem oferecer-lhe simplesmente aquilo que tem: o perfume que usa no seu trabalho, as suas lágrimas e os seus beijos. Tomado em si , este gesto é ambivalente. O fariseu, fiel às suas normas de moralidade estreita, condena a mulher, qualifica o seu gesto de ligeireza e julga Jesus que se deixa tratar daquele modo. Jesus ao invés interpretou a atitude da mulher como um ato do seu amor, como expressão de gratidão por ter sido compreendida e perdoada.

A visão de Jesus é compreendida melhor através de uma parábola: entre dois devedores insolvíveis , amará mais o Senhor aquele ao qual foi perdoado um débito maior. Aplicando a parábola precisa-se melhor a atitude do fariseu e a da prostituta.

O fariseu Simão e a mulher pecadora encarnam duas atitudes diante de Deus, como o fariseu e o publicano de uma outra parábola representam dois tipos de religiosidade (Luca 18,10-14). Mas aqui os modelos são reais e interpretam ao vivo uma nova parábola de Jesus: a dos dois devedores insolventes e perdoados. Simão é o que deve cinqüenta dinheiros e a mulher quinhentos. Depois que o débito de ambos é perdoado, é claro quem é mais grato pelo favor, isto é, quem ama mais: a mulher cujos gestos de afeto para Jesus, diferente da cortês reprovação do fariseu, demonstram somente amor e alegria pela experiência do perdão.

O amor que nos demonstra quem nos perdoa, Isto é Deus, é o que regenera a pessoa. Por isso devemos começar com reconhecer a nossa situação de pecado. Encarnamos o fariseu Simão quando perdemos a consciência de ser pecadores, coisa que efetivamente estão perdendo o homem e a mulher de hoje. Não se trata de um sentimento doentio, mas realístico de culpabilidade. Julgar com dureza os outros sem pensar que também nós erramos e temos necessidade do perdão de Deus, como Davi pecador e a mulher pecadora, significa esquecer que diante de Deus somos todos devedores insolventes.

O perdão de Deus, como o seu amor, é gratuito: talvez por isso, por causa da nossa mentalidade mercantilistica, não o avaliamos bastante. Jesus ensina hoje que não nos libertamos do pecado com nossas forças (é a atitude do fariseu), mas aceitando o perdão e o amor gratuitos de Deus (atitude da pecadora). Isso diz respeito a Deus; e em relação aos irmãos, quem não se sente pecador não pode colaborar para construir um mundo melhor, porque é incapaz de começar de novo, mudando a si mesmo pessoalmente e aceitando depois os outros assim como são.

Em Cristo, Deus se colocou do lado do homem, pelo perdão e a reconciliação. O perdão de Deus, por sua disposição, se realiza no sacramento da reconciliação ou penitência, através do qual a Igreja reconcilia com Deus e recupera para a comunidade o membro pecador. Mas a reconciliação se faz já no momento em que no íntimo de nosso coração percebemos que ofendemos a Deus e ofendemos nosso próximo, e pedimos perdão na confiança que Deus nos perdoa porque Ele mesmo tomou a iniciativa de oferecer-nos o perdão.

A grandeza do perdão que Deus fez e faz é provado pela grandeza do amor que esse perdão suscita. Lembremo-nos o caso de David, de Pedro, de Paulo, de Agostinho, para que confiemos na bondade de nosso Deus nosso Pai, como nos garante seu Filho Jesus Cristo.

Cardeal Geraldo Majella Agnelo