1 de junho de 2012

1ª sexta-feira do mês - Quem pode conhecer todos os tesouros de Cristo?


Por Frei Almir Ribeiro Guimarães

1. Temos uma vida inteira para conhecer os mistérios de Cristo Jesus. Longe de nós a ideia de que basta ter conhecimento nocional, seco e árido a seu respeito. Paulo, em suas epístolas, fala que esse mistério é insondável e que aos poucos podemos conhecer a altura, a largura e a profundidade do amor de Cristo por nós. Nossa convivência pessoal com o Ressuscitado nos leva a chegar amorosamente mais perto dele e assim nos revestirmos de tal força que nem possamos nos separar de seu amor. O cuidado pela busca desse conhecimento nos ajuda a viver em Cristo, de Cristo e por Cristo.

2. “Quem poderia conhecer todos os tesouros de sabedoria e de ciência ocultos em Cristo e escondidos na pobreza de sua carne? Ele, sendo rico, se fez pobre por nossa causa, a fim de enriquecer-nos com sua pobreza; contudo, não perdeu suas riquezas, mas prometeu-as para o futuro. Como é grande a riqueza de sua bondade, reservada para os que o temem e concedida aos que nele esperam!” (Santo Agostinho). Toda a espiritualidade do Coração de Jesus é marcada pela sabedoria e ciência que estão no coração aberto no alto da cruz.

3. Desde o começo de sua trajetória até sua morte de Cristo há um caminho de despojamento e de pobreza. Sempre ouvimos dizer que Cristo se fez pobre para nos enriquecer. Podemos dizer que a pobreza de Cristo está na raiz de sua sabedoria e de sua ciência. Jesus viveu de maneira simples. Conviveu com todo tipo de pessoas, mas sempre esteve entre os pequenos. Tinha particular satisfação de aproximar-se dos pecadores e, desta forma, sem autoritarismos e imposições, lhes propunha um caminho novo. Jesus é pobre, de maneira toda especial, porque não tem apoios externos. Ficamos perplexos de ver que, durante o seu processo, e mesmo antes, ele vive uma terrível solidão. Jesus é pobre e nessa pobreza ele traça a estrada que devem percorrer todos os que querem ser seus discípulos. A pobreza é caminho real que nos leva a Cristo e a sermos particularmente amados por seu Pai.

4. Francisco de Assis ficava abismado em meditar na pobreza de Jesus. Admirá-la, venerá-la e imitá-la é sinal de sabedoria e os que o fazem estão revestidos de um conhecimento divino. “Os irmãos não se apropriem de nada, nem de casa, nem de lugar. E como peregrinos e forasteiros neste mundo, servindo ao Senhor em pobreza e humildade, não devem envergonhar-se, porque o Senhor se fez pobre por nós neste mundo. Esta é aquela sublimidade da altíssima pobreza que vos constituiu, meus irmãos caríssimos, herdeiros e reis do Reino dos céus, vos fez pobres de coisas, vos elevou em virtudes. Seja esta a vossa porção que vos conduz à terra dos vivos. Aderindo totalmente a ela, irmãos diletíssimos, nenhuma outra coisas jamais queirais ter debaixo do céu em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Admoestação VI).

5. Tais palavras e considerações parecem estranhas aos ouvidos dos asseclas da sociedade da gastança, do consumo, dos bens, das coisas, do dinheiro, das prestações, dos juros baixos para facilitar o gastar. Jesus é fonte de sabedoria e de conhecimento existenciais. Precisamente em seu aniquilamento, de modo particular no aparente fracasso que é sua morte, está a força de Deus. Não nos cansamos de nos postar aos pés da cruz sempre nos dando conta do amor desse homem que é fiel até o fim. Ali, preso no madeiro, Jesus é o mais indefeso e os mais pobre de todos os homens. E o mundo todo foi embebido de seu amor e de sua entrega, desse pobre no presépio e paupérrimo na cruz. Por isso, nas primeiras sextas-feiras de cada mês os discípulos se postam diante do Coração do pobre mártir do Calvário, aberto pela lança e fazendo jorrar a água e o sangue.

6. Terminamos esta reflexão retomando Agostinho. As poucas frases que transcrevemos apontam para a pobreza do presépio. Agostinho lembra que um dia seremos saciados com o face a face do Ressuscitado. “Mas até que isso aconteça, até mostrar o que nos basta, até bebermos e ficamos saciados na fonte da vida que é ele mesmo, enquanto caminhamos na fé e peregrinamos longe dele, enquanto temos fome e sede de justiça e desejamos, com indizível ardor, contemplar a beleza de Cristo na sua condição divina, celebremos com amorosa devoção o nascimento de Deus na condição de servo”. Parafraseando Agostinho, podermos dizer: “Enquanto não podemos ver a glória do rosto do Ressuscitado celebremos com carinho e respeito o Coração daquele que amou até o fim e nos mostrou, por seu peito aberto, todas as riquezas do conhecimento e da sabedoria”.

Obs.: Os textos de Agostinho foram tirados de Liturgia das Horas I, p. 473-475.

EXTRAÍDO DE: http://www.franciscanos.org.br/n/

31 de maio de 2012

Visitação de Nossa Senhora


Maio é o mês dedicado à particular devoção de Nossa Senhora. A Igreja o encerra com a Festa da Visitação da Virgem Maria à santa prima Isabel, que simboliza o cumprimento dos tempos. Antes ocorria em 02 de julho, data do regresso de Maria, uma semana depois do nascimento e do rito da imposição do nome de São João Batista.

A referência mais antiga da invocação de Nossa Senhora da Visitação pertence a Ordem franciscana, que assim a festejavam desde 1263, na Itália. Em 1441, o Papa Urbano VI instituiu esta festa, pois a Igreja do Ocidente necessitava da intercessão de Maria, para recuperar a paz e união do clero dividido pelo grande cisma.

A Bíblia narra que Maria viajou para a casa da família de Zacarias logo após a anunciação do Anjo, que lhe dissera “vossa prima Isabel, também conceberá um filho em sua idade avançada. E este é agora o sexto mês dela, que foi dita estéril; nada é impossível para Deus”. (Lc 1, 26, 37). Já concebida pelo Espírito Santo, a puríssima Virgem foi levar sua ajuda e apoio à parenta genitora do precursor do Messias Salvador.

O encontro das duas Mães é a verdadeira explosão de salvação, de alegria e de louvor ao Criador. Dele resultou a oração da Ave Maria e o cântico do “Magnificat”, rezados e entoados por toda a cristandade aos longos destes mais de dois milênios.

Desde 1412, Nossa Senhora da Visitação é festejada especialmente pelos italianos da Sicília, como a Padroeira da cidade da Enna. Mas nem todo o mundo cristão celebrava esta veneração, por isto foi confirmada no sínodo de Basiléia em 1441.

Os portugueses sempre a celebraram com muita pompa, porque rei D. Manuel I, o Venturoso, que governou entre 1495 e 1521, escolheu Nossa Senhora da Visitação a Padroeira da Casa de Misericórdia de Lisboa, e de todas as outras do reino.

Foi assim que este culto chegou ao Brasil Colônia, primeiro na Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, depois se disseminou por todo território brasileiro. Antigamente os fieis faziam uma enorme procissão até os Hospitais da Misericórdia para levar conforto aos enfermos e suas doações às instituições. Hoje, as paróquias enviam as doações recolhidas com antecedência, para as Pastorais dos enfermos, que atuam com os voluntários junto às Casas de Saúde mais deficitárias. Tudo para perpetuar a verdadeira caridade cristã, iniciada pela Mãe de Deus ao visitar a santa prima levando sua amizade e ajuda quando mais precisava.

Em 1978, a Madre Maria Vincenza Minet foi chamada pelo Senhor para fundar uma congregação de religiosa sob o carisma de Nossa Senhora da Visitação. Com o apoio do Bispo de Assis, nesta cidade da Itália nasceu as Servas da Visitação em 1978, para abrirem missões a fim de atender as necessidades dos mais pobres e marginalizados em todos os continentes. Hoje, além da Itália, atuam na Polônia, Filipinas, África e Brasil.

A Igreja celebra hoje os santos: Câncio, Petronila de Roma e Pascásio.

30 de maio de 2012

O Espírito Santo e Maria

O Espírito Santo e Maria

Frei Clarêncio Neotti, OFM

O mistério de Maria é inseparável do mistério do Espírito Santo. Mais: dele depende. O Apocalipse fala de uma mulher vestida de sol (12,1). Esse sol é o Espírito Santo, que a enriqueceu de todas as graças desde quando o Pai a escolheu para ser a mãe de seu Filho. E quando, cheia de graça, chegada a plenitude dos tempos (Gl 4,4), ela deveria conceber Jesus, é o Espírito Santo que a fecunda, como rezamos no Credo: “O Filho unigênito de Deus … por nós e para nossa salvação desceu dos céus e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria”.

Revestida de sol, coberta pelo Espírito Santo, Maria tornou-se, no dizer de São Bernardo, “um abismo de luz, gestando o verdadeiro Deus, Deus e homem ao mesmo tempo” e, diante desse fato, observa ainda São Bernardo, “até o olho angélico fica ofuscado com a potência de tal fulgor”.

Sol e luz são figuras para expressar um fato: Maria, senhora de todas as bênçãos, concebe o Filho de Deus, por obra e graça do Espírito Santo, e é associada para sempre à obra redentora do Cristo e à missão do Espírito Santo Paráclito na história da salvação. Afirma o Evangelista Lucas que, à pergunta de Maria como seria possível conceber, se ela não conhecia homem algum, o anjo lhe garantiu: “O Espírito Santo descerá sobre ti” (Lc 1,15). Comenta o Catecismo: “A missão do Espírito Santo está sempre conjugada e ordenada ao Filho. O Espírito Santo é enviado para santificar o seio da Virgem Maria e fecundá-lo divinamente, ele que é ‘o Senhor que dá a Vida’, fazendo com que ela conceba o Filho Eterno do Pai em uma humanidade proveniente da sua” (484-485).

Para expressar essa unidade de mistérios entre Maria e o Espírito Santo, os teólogos não hesitam em chamar Maria de Esposa do Espírito Santo. Assim, São Francisco, na antífona que compôs para o Ofício da Paixão do Senhor, reza: “Santa Virgem Maria, não há mulher nascida no mundo semelhante a vós, serva do Altíssimo Rei e Pai celestial, Mãe do nosso Santíssimo Senhor Jesus Cristo, Esposa do Espírito Santo”.

A festa litúrgica, que celebra a encarnação de Jesus, chamada “Solenidade da Anunciação do Senhor” (25 de março), une estreitamente Jesus, Maria e o Espírito Santo. Jesus é a razão de ser de todos os privilégios e da própria missão de Maria. O Espírito Santo consagra Maria, fecunda-a e, ao mesmo tempo une-se à missão salvadora de Jesus, tornando-o o Cristo, o Ungido de Deus. Vários momentos da vida terrena de Jesus mostram-no cheio do Espírito Santo (Lc 4,1; Jo 1,33), movido pelo Espírito Santo (Lc 4,18) e tendo o Espírito Santo como testemunha de sua messianidade e de sua doutrina (Lc 12,12; Jo 14,26; 16,13).

Ao dobrarmos os joelhos diante do mistério da encarnação, adoramos a Trindade santa: o Pai que envia o Filho, o Filho que, permanecendo Deus, obedece e assume o corpo humano, o Espírito Santo, que possibilita a concepção imaculada de Jesus. Dentro desse mistério e protagonista dele encontra-se Maria, mulher como todas as mulheres, mas associada misteriosamente, através da maternidade divina, à missão redentora e santificadora do mundo. “Por isso mesmo – escreve o Papa Pio IX na Bula de proclamação do dogma da Imaculada Conceição – Deus a cumulou, de maneira tão admirável, da abundância dos bens celestes do tesouro de sua divindade, mais que a todos os espíritos angelicais e todos os santos, de tal forma que ficaria absolutamente isenta de toda e qualquer mancha de pecado, podendo, assim, toda bela e perfeita, ostentar uma inocência e santidade tão abundantes, quais outras não se conhecem abaixo de Deus, e que pessoa alguma, além de Deus, jamais alcançaria, nem em espírito” (n. 2).

Diante de Maria, envolta pela inaudita graça da maternidade divina, São Francisco, apaixonado pelo mistério da encarnação, prorrompe numa saudação em que, faltando palavras, busca com símbolos e comparações dizer o que lhe vai na mente e no coração: “Salve, Senhora santa, Rainha santíssima, Mãe de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita igreja, eleita pelo santíssimo Pai celestial, que vos consagrou por seu santíssimo e dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito! Em vós residiu e reside toda a plenitude da graça e todo o bem! Salve, ó palácio do Senhor! Salve, ó tabernáculo do Senhor! Salve, ó morada do Senhor! Salve, ó manto do Senhor! Salve, ó serva do Senhor! Salve ó Mãe do Senhor! Salve vós todas, ó santas virtudes derramadas, pela graça e iluminação do Espírito Santo, nos corações dos fiéis, transformando-os em fiéis servos de Deus”.

Sempre na tentativa de expressar com palavras humanas aquele momento único da encarnação do Senhor, há teólogos que se demoram em comparar a presença dinâmica do Espírito Santo na pessoa de Maria com o início da criação, quando, segundo o Gênesis (1,2) o Espírito de Deus soprava forte sobre as águas, ou seja, separava os elementos, ordenava-os, permitindo o nascimento da vida na terra. Rezamos no Credo: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida”. Dar a vida é uma das atribuições do Espírito Santo. Na primeira criação, o Espírito como que fecundou a Natureza. Na segunda criação, inaugurada na Anunciação, o

Espírito Santo não só fecundou Maria que, como mulher, concebeu e deu início a uma vida, mas também tornou-se autor daquele que mais tarde declarou explicitamente: “Eu sou a vida” (Jo 11,25; 14,6).

Dar vida tornou-se sinônimo da missão de Jesus na terra. Por isso mesmo, toda a missão de Jesus está prenhe do Espírito Santo. Jesus foi preciso: “Eu vim para que todos tenham a vida em plenitude” (Jo 10,10). Esta plenitude da vida nos é dada pelo Espírito Santo, ligada ao mistério da Encarnação do Senhor, liga à própria vida do Filho de Deus na terra, obra e graça do Espírito Santo. Plenitude de vida aqui na terra e plenitude de vida na comunhão eterna com Deus. Aqui na terra, na vivência dos dons do Espírito Santo, que Maria recebeu em superabundância, particularmente a fé, a esperança e a caridade, que explodiram no seu “sim” ao plano de Deus e a mantiveram ao lado do Filho em todas as circunstâncias, inclusive ao pé da Cruz. Dos mesmos dons recebemos a coragem e a graça de acompanhar o Senhor Jesus e, na força do Espírito Santo, testemunhá-lo em nossa vida e em nossas ações e sermos pelo Senhor recebidos na morte e transportados à comunhão eterna com a Trindade.

Há um outro momento na história da salvação, fundamental também ele, no qual a Escritura acentua a presença de Maria, envolta no Espírito Santo. Refiro-me a Pentecostes. Na encíclica Redemptoris Mater – sobre o papel de Maria na história e na vida da Igreja – escreveu o Papa João Paulo II: “Na economia redentora da graça, atuada sob a ação do Espírito Santo, existe uma correspondência singular entre o momento da Encarnação do Verbo e o momento do nascimento da Igreja. A pessoa que une estes dois momentos é Maria: Maria em Nazaré e Maria no Cenáculo de Jerusalém. … Assim, aquela que está presente no mistério de

Cristo como Mãe, torna-se – por vontade do Filho e por obra do Espírito Santo – presente no mistério da Igreja” (n. 24).

Quando a Igreja declara que o Espírito Santo é sua alma (Lumen Gentium, 7), está reconhecendo nele a vida que a sustenta, a dinamiza, a santifica e lhe é garantia de fidelidade. Maria é o ícone da Igreja. Cheia do Espírito Santo, por sua obra e graça, ela deu à luz o Filho de Deus. A Igreja, sempre por obra e graça do Espírito Santo, gera os filhos para Deus. Se Maria foi verdadeiramente Mãe do Jesus histórico, concebido em Nazaré, nascido em Belém, crucificado e morto em Jerusalém, ela é também a verdadeira Mãe da Igreja, corpo místico do Cristo ressuscitado, vivo e presente até os confins do mundo e até o fim dos tempos.

Transcrevo uma oração atribuída a Santo Ildefonso (+667): “Ó Virgem Imaculada, aquele que armou sua tenda em Ti, enriqueceu-Te com os sete dons de seu Santo Espírito, como sete pedras preciosas. Primeiro, ornou-Te com o dom da Sabedoria, em força do qual foste divinamente elevada ao Amor dos amores. Depois, deu-Te o dom do Intelecto, pelo qual subiste às culminâncias do esplendor hierárquico. O terceiro dom com que foste agraciada foi o do Conselho, que Te fez virgem prudente, atenta e perspicaz. O dom da Ciência que recebeste foi confirmado pelo próprio magistério de Teu Filho. O quinto dom, o da Fortaleza, o manifestaste na firme perseverança, na constância e no vigor contra as adversidades. O dom da Piedade fez-Te clemente, piedosa, compreensiva, porque tinhas infusa a caridade. Pelo sétimo dom, o Temor de Deus transpareceu na Tua vida simples e respeitosa diante da imensa majestade. Alcança-nos estes dons, ó Virgem três vezes bendita, Tu, que mereceste ser chamada o Sacrário do Espírito Santo. Amém.

29 de maio de 2012




Hoje as discussões em torno do desenvolvimento sustentável, um dos temas centrais da Rio+20, sequestraram a categoria de sustentabilidade. Ela não se reduz ao desenvolvimento realmente existente que possui uma lógica contrária à sustentabilidade. Enquanto aquele se rege pela linearidade, pelo crescimento ilimitado que implica exploração da natureza e criação de profundas desigualdades, a sustentabilidade é circular, envolve a todos os seres com relações de interdependência e de inclusão de sorte que todos podem e devem conviver e coevoluir.

Sustentável é uma realidade que consegue se manter, se reproduzir, conservar-se à altura dos desafios do ambiente e estar sempre bem. E isso resulta do conjunto das relações de interdependência que entretém com todos os demais seres e com seus respectivos habitats. A sustentabilidade funda um paradigma que deve se realizar em todos os âmbitos do real.

Para que a sustentabilidade realmente ocorra, especialmente quando entra o fator humano, capaz de intervir nos processos naturais, não basta o funcionamento mecânico dos processos de interdependência e inclusão. Faz-se mister uma outra realidade a se compor com a sustentabilidade: o cuidado. Ele também funda um novo paradigma.

Antes de mais nada, o cuidado constiui uma constante cosmológica. Se as energiais originárias e os elementos primeiros não fossem regidos por um sutilíssimo cuidado para que tudo mantivesse a sua devida proporção, o universo não teria surgido e nós não estaríamos aqui escrevendo sobre o cuidado. Nós mesmos, somos filhos e filhas do cuidado. Se nossas mães não nos tivessem acolhido com infinito cuidado, não teríamos como descer do berço e ir buscar o nosso alimento. O cuidado é aquela condição prévia que permite um ser vir à existência. É o orientador antecipado de nossas ações para que sejam construitivas e não destrutivas.

Em tudo o que fazemos, entra o cuidado. Cuidamos do que amamos. Amamos do que cuidamos. Hoje pelos conhecimentos que possuimos acerca dos riscos que pesam sobre a Terra e a vida, se não cuidarmos, surge a ameaça de nosso desaparecimento como espécie, enquanto a Terra, empobrecido, seguirá, pelos séculos afora, seu curso pelo cosmos. Até, quem sabe, que surja um outro ser dotado de alta complexidade e cuidado, capaz de suportar o espírito e a consciência.

Resumimos os vários significados de cuidado construídos a partir de muitas fontes que não cabe aqui referir mas que vem da mais alta antiguiadade, dos gregos, dos romanos, passando por Santo Agostinho e culminando em Martin Heidegger que vêem no cuidado a essência mesma do ser humano, no mundo, junto com os outros e voltado ao futuro. Identificamos quatro grandes sentidos, todos mutuamente implicados.

Primeiro: Cuidado é uma atitude de relação amorosa, suave, amigável, harmoniosa e protetora para com a realidade, pessoal, social e ambiental.

Metaforicamente podemos dizer que o cuidado é a mão aberta que se estende para a carícia essencial, para o aperto das mãos, com os dedos que se entrelaçam com outros dedos para formar uma aliança de cooperação e a união de forças. Ele se opõe à mão fechada e ao punho cerrado para submeter e dominar o outro.

Segundo: Cuidado é todo tipo de preocupação, inquietação, desassossego, incômodo, estresse, temor e até medo face a pessoas e a realidades com as quais estamos afetivamente envolvidos e por isso nos são preciosas.

Esse tipo de cuidado, acompanha-nos em cada momento e em cada fase de nossa vida. É o envolvimento com pessoas que nos são queridas ou com situações que nos são caras. Elas nos trazem cuidados e nos fazem viver o cuidado existencial.

Terceiro: Cuidado é a vivência da relação entre a necessidade de sercuidado e a vontade e a predisposição de cuidar, criando um conjunto de apoios e proteções (holding) que torna posível esta relação indissociável, em nivel pessoal, social e com todos os seres viventes.

O cuidado-amoroso, o cuidado-preocupação e o cuidado-proteção-apoio são existenciais, vale dizer, dados objetivos da estrutura de nosso ser no tempo, no espaço e na história, como no-lo tem mostrado Winnicott. São prévios a qualquer outro ato e subjazem a tudo o que empreendermos. Por isso pertence à essência do humano.

Quarto: Cuidado-precaução e cuidado-prevenção constituem aquelas atitudes e comportamentos que devem ser evitados por causa das consequências danosas previsíveis (prevenção) e aquelas imprevisíveis pelo insegurança dos dados científicos e pela imprevisibilidade dos efeitos prejudicais ao sistema-vida e a sistema-Terra(precaução).

O cuidado-prevenção e precaução nascem de nossa missão de cuidadores de todo o ser. Somos seres éticos e responsáveis, quer dizer, nos damos conta das consequências benéficas ou maléficas de nossos atos, atitudes e comportamentos.

Como se deduz, o cuidado está ligado a questões vitais que podem significar a destruição de nosso futuro ou a manutenção de nossa vida sobre esse pequeno e belo planeta. Só vivendo radicalmente o cuidado garantiremos a sustentabilidade necessária à nossa Casa Comum e à nossa vida.

*Leonardo Boff é autor de O cuidado necessário a sair em julho de 2012 pela Editora Vozes.

(Texto publicado em leonardoboff.wordpress.com – no dia 18/05/2012)

28 de maio de 2012

Mês de Maria, Mãe do Redentor -Mãe de Deus


A tradição da Igreja se debruça sobre a história dessa mulher e a venera como mistério de fé. O culto àquela que a fé cristã chama de Nossa Senhora reside e se expressa, fundamentalmente, nos nomes com os quais a Igreja a aclama e cultua: Mãe de Deus, Virgem, Imaculada e Assunta aos Céus. Cada um destes títulos, revelando algo de Maria, tem o que dizer à mulher sobre sua identidade e sua missão.

Proclamar que Maria é Mãe de Deus significa trazer à luz toda a grandeza do mistério da mulher. Mistério de abertura, de fonte e proteção da vida. Em toda a Bíblia, desde o relato da Criação, a mulher está ligada à geração da vida: conhece as condições do seu lento germinar, de suas demoras, do paulatino desabrochar de sua fecundidade. Mãe de Jesus – o Filho de Deus e Deus mesmo – Maria com sua maternidade vive esta aliança com a vida até o seu ponto máximo e coloca a mulher no centro do mistério maior da fé cristã: o mistério da Encarnação.

No ventre da mulher Maria, onde é gerado o homem Jesus, o Deus vivo se encarna, toma carne humana, carne de homem e de mulher. E assim fazendo, consagra para sempre a condição humana como caminho para Deus e para a verdadeira vida e confirma a mulher como guardiã da esperança e da fé na vida, vencendo os sinais da morte e da esterilidade.

Venerar Maria como Virgem é também afirmar algo sobre a própria essência da mulher. A mulher é, fundamentalmente, aquela que Deus fez aberta, como espaço de liberdade para acolher, proteger, nutrir e abrigar o mistério: espaço disponível, virgem, pronto a hospedar todas as possibilidades, todos os horizontes, prestes a ser transpassada pela força do Altíssimo e impregnada pelo Verbo da Vida. Assim sendo, a mulher acena para aquilo que toda criatura humana é chamada a ser.

A virgindade de Maria abre perspectivas novas para a vocação de todo ser humano, chamado a ser tábua de carne disponível para as inscrições do Espírito Santo, espaço irrestrito e ilimitado onde o Espírito de Deus possa fazer maravilhas. Venerar Maria como Imaculada e cheia de graça significa dizer algo de suma importância sobre a mulher, incluindo sua corporeidade. A mulher, que o livro do Gênesis denunciava, em Eva, como causa do pecado original, colocando sobre todo o sexo feminino um fardo difícil de carregar, em Maria é proclamada bem-aventurada, imaculada, sem pecado.

Na pessoa de Maria de Nazaré, Deus fez a plenitude de suas maravilhas. É na carne e na pessoa de uma mulher que a humanidade pode ver, então, sua vocação e seu destino levados a bom termo, a criação chegada à sua meta.
Finalmente, crer e proclamar a Assunção de Maria aos céus em corpo e alma é trazer para a mulher um novo e promissor futuro.

O fato de pertencer ao depósito da fé, a afirmação de que uma mulher participa – integral e plenamente – da glória de Deus vivo, significa resgatar o corpo feminino de toda a humilhação que sobre ela fez pesar a civilização judaico-cristã. A Assunção de Maria restaura e reintegra essa corporeidade feminina no seio do mistério do próprio Deus.

A partir de Maria, a mulher tem a dignidade de sua condição reconhecida e assegurada pelo Criador dessa mesma corporeidade, definitivamente participante da glória do mistério trinitário.

(Texto extraído do Manual da Campanha da Fraternidade de 1990, com o tema “A Fraternidade e a Mulher”)

Orações:


1. Saudação à Mãe de Deus
Salve, ó Senhora santa, Rainha santíssima,
Mãe de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita igreja,
eleita pelo santíssimo Pai celestial,
que vos consagrou por seu santíssimo
e dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito!
Em vós residiu e reside toda a plenitude
da graça e todo o bem!
Salve, ó palácio do Senhor! Salve,
ó tabernáculo do Senhor!
Salve, ó morada do Senhor!
Salve, ó manto do Senhor!
Salve, ó serva do Senhor!
Salve, ó Mãe do Senhor,
e salve vós todas, ó santas virtudes
derramadas, pela graça e iluminação
do Espírito Santo,
nos corações dos fiéis
transformando-os de infiéis
em servos fiéis de Deus!

2. Oração a Nossa Senhora
1 – Ó Senhora, Mãe do belo amor e da santa esperança,
instruí-nos na prática das boas obras.
2 – Ao vosso patrocínio recorremos, não desprezeis
as nossas súplicas e amparai-nos em perigos.
3 – Afastai-nos, ó mãe, de todo contágio do mal,
para que irradiemos a vossa pureza.
4 – Sejamos generosos na doação e fervorosos na oração.
Rogai por nós, santa Mãe de Deus.

3. Saudação à Virgem
Ó Maria, Virgem Santíssima,
não há outra semelhante,
nascida neste mundo,
entre as mulheres;
filha e serva do Rei altíssimo,
o Pai celeste; mãe de Jesus Cristo Nosso Senhor;
esposa do Espírito Santo.

4.Salve Regina
Salve Regina, Mater misericordiae,
vita, dulcedo et spes nostra, salve.
Ad te clamamus, exsules, filii Hevae.
Ad te suspiramus, gementes et flentes,
in hac lacrimarum valle.
Eia ergo, advocata nostra,
illos tuos misericordes óculos ad nos converte.
Et Jesum, benedictum fructum ventris tui,
nobis post hoc exsilium ostende.
O clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria.

5. Oração da Noite
Já chegou ao fim do dia,
a noite à terra desce;
nos passos de Maria
a alma humana cresce.
Senhora, Mãe do Céu,
salvai-nos da desgraça.
Os sonhos vãos se apagam
à luz de vossa graça.

Ao vir o fim do dia,
eis-nos já preparados:
no mesmo amor unidos,
a mesma graça ornados.

Estes vossos filhos
de Cristo os irmãos,
que tanto vos amam,
por serem cristãos.

Ó Rainha dos Santos,
guiai-nos pela mão,
para que nesta noite
nos venha a Salvação.

Felizes repousemos
do cansaço e da dor;
e amanhã levantemos
com renovado amor.

6. Magnificat
Minha alma glorifica ao Senhor
e meu espírito exulta de alegria
em Deus, meu Salvador,
porque Ele fixou os olhos na
humildade de sua serva.
De hoje em diante todas as
gerações me chamarão de
bem-aventurada,
porque grandes coisas fez em
mim o Todo-Poderoso.
Santo é seu nome.
E sua misericórdia se estende
de geração em geração sobre
todos os que o temem.
Manifestou o poder de seu
braço e dissipou
os soberbos de coração.
Derrubou do trono os
Poderosos, e elevou os humildes
Encheu de bens os famintos
e despediu de mãos vazias os ricos.
Trouxe a salvação a Israel
Seu servo lembrado de sua misericórdia.
Assim como prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência para sempre!

7. Oração de Maio

Por Frei Neylor Tonin, ofm

Senhor Deus, grande e bom, nós vos louvamos por Maria, nossa mãe, e por todas as mães e vos agradecemos porque deixastes no coração delas a batida do vosso próprio coração. Quando nos amam, sentimo-nos amados por vós que sois a fonte de todo amor. Gostaríamos tanto, Senhor Deus, que nossas mães fossem felizes, muito felizes. Oxalá nenhum filho magoe o coração de sua mãe, mas o beije agradecido e o proteja com todo o afeto. Até vós quisestes que Jesus tivesse uma mãe que o estreitasse nos braços. Prometemo-vos nunca abandonar nossas mães, porque sabemos que elas, como Maria, nunca nos abandonarão. Pedimos para elas a vossa bênção e a elas que nos abençoem. Amém.