2 de junho de 2014

O Espírito Santo na mística franciscana - A ousadia de se deixar conduzir pelo Espírito do Senhor



Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM

Vivemos numa situação de crise e, entre surpresos e perplexos, constatamos um processo de profundas transformações. Muitas são as indagações que brotam da experiência dos homens e das mulheres do nosso tempo. Inúmeras, as sementes de vida e de esperança entranhadas no nosso cotidiano que, ansiosamente, atendem o momento propício da germinação. Estamos convencidos de que o projeto evangélico de Francisco de Assis goza de uma atualidade surpreendente. Ele tem despertado em todas as culturas e épocas fascínio e acolhida. Seremos capazes, também nós, de encarnar o projeto evangélico de Francisco? Estamos dispostos a oferecer-lhe aquela concreção singular capaz de contagiar alma e corpo, vida e palavra, atitudes pessoais e relacionais?

O Vaticano II convocou-nos à recuperação do nosso carisma inspiracional. Desde então, temos nos empenhado em redescobrir nossa identidade franciscana, mediante o estudo das “Fontes Franciscanas”, e em repropô-la em nossas legislações e documentos recentes. Nossa maior dificuldade, todavia, tem sido encarnar de maneira significativa aqueles valores nos quais cremos e que publicamente professamos. Precisamos estabelecer com a nossa mais genuína tradição uma relação de “fidelidade criativa”. Não basta se debruçar sobre os textos franciscanos. Eles surgiram como fruto da experiência concreta de Francisco e de seus primeiros companheiros. Testemunham o esforço deles em encarnar o evangelho em meio à realidade desafiante dos inícios do século XIII.

Celano escreve que Francisco “fez do seu corpo uma língua” (1Cel 97). Pois compreender é bem mais do que simplesmente explicar. Não que a explicação se oponha à reta compreensão. No entanto, muitas de nossas explicações, ao invés de conduzir-nos à aplicação, nos detêm numa prazerosa “masturbação intelectual”, responsável por situações de perniciosa estagnação. Importa recuperar o princípio evangélico de que é pelo fruto que se conhece a árvore. Não se trata, portanto, de condicionar o ser ao fazer quanto de perceber que o ser se revela e se verifica no fazer.
Não estamos imunes à onda do pragmatismo e do eficientismo. Preocupamo-nos demasiadamente com a visibilidade e, não raras vezes, assumimos atitudes triunfalistas e prepotentes. Francisco recorda que somos chamados a ser irmãos e menores e que nisto consiste propriamente nossa missão evangelizadora. Importa recuperar a gratuidade fundamental da nossa existência, expressão do dom livre e desinteressado de Deus. Discernir em cada situação a presença discreta de Deus que nos desafia e interpela.

Ver as diferenças não como ameaça à unidade, nem como sintoma de uma comunhão perdida. Acolhê-las, ao contrário, como expressão da multiforme e fecunda graça de Deus. Não apenas suportá-las, numa atitude de indiferença, por vezes, reveladora de uma tácita cumplicidade. Mas assumi-las como ocasião propícia para se deixar surpreender pelo Deus de Jesus. Isso só é possível para aqueles que, sabiamente, aprenderam a suspeitar de si mesmos e dos próprios projetos. E perceberam que a diferença do outro, muitas vezes, pode se tornar oportunidade privilegiada de enriquecimento e de amadurecimento.
Para tanto, é necessário que nos proponhamos a reconstruir nossa identidade interior. Resgatar o mistério da própria vocação mediante a escuta silenciosa da Palavra de Deus e a participação devota à Eucaristia. Redescobrir, através da leitura atenta e da meditação da Palavra de Deus, que Ele irrompe na nossa vida cotidiana de formas e modos cada vez novos e que nos interpela a realizar sua vontade.

Celebrar a Eucaristia como memória do Mistério pascal de Cristo que se recria na vida de cada um de nós e das nossas fraternidades. Somente em tal caso a Eucaristia será experimentada como aquele alimento que nos revigora no esforço em “fazer o que sabemos que Ele quer e de querer sempre o que lhe agrada” (Carta a toda a Ordem, 50). Somente enquanto alicerçados sobre uma formação espiritual sólida, seremos capazes de reconciliar as diversidades presentes em nossas fraternidades e províncias.


Somos chamados, hoje mais do que nunca, a recuperar os votos na sua força libertadora. Não são, em primeiro lugar, sinais de uma carência que deve ser abraçada numa atitude de ascetismo heróico. São, na verdade, expressão de um amor maduro, desinteressado, generosamente predisposto a suportar todo e qualquer sacrifício. Não devemos, portanto, nos comportar como pessoas castradas na sua humanidade. Os votos, quando vividos na sua integralidade, deixam transparecer aquela humanidade mais genuína que, como germe, se esconde no âmago de cada um. Eles testemunham uma sadia experiência de êxodo: libertam-nos da idolatria do poder, do ter e do prazer egocêntricos e nos propiciam o encontro com o outro na sua irredutível diferença.

Olhando para a realidade das nossas províncias, surge quase espontaneamente a pergunta: “Será mesmo necessário agir sozinho para poder ser criativo?”. O que fazer para não nos deixarmos sucumbir face à tentação sedutora da estagnação ou da estéril repetição do passado? Somos suficientemente contemplativos a ponto de discernir em cada acontecimento uma senda que conduz a Deus e de acolher com generosidade os inúmeros apelos que Ele nos lança em meio a tantas situações que constituem o nosso cotidiano mais ordinário? O que fizemos daquela ousadia que nos fez abraçar a vida franciscana? Por que nossas fraternidades se deixam contaminar pelo vírus de um uniformismo que amesquinha e asfixia?
Entre tantos desafios que nos são colocados, talvez o maior de todos seja justamente o de restituir credibilidade ao nosso projeto de vida. E isto requer ousadia. Não podemos nos omitir nem mesmo postergar esta incumbência às gerações futuras. É fundamental que assumamos uma atitude de diálogo com nossos reais interlocutores. Que estejamos dispostos a ouvi-los com respeito e caridade, conscientes de que temos tanto a aprender deles. Que saibamos discernir, a exemplo dos nossos pais na fé, “as sementes do Verbo”, a secreta presença de Deus no mundo moderno e nas demais religiões e culturas. Que estejamos abertos a promover, juntamente com todos os seres humanos de boa vontade, relações mais justas e fraternas, no respeito pela liberdade e dignidade de cada pessoa.

Esta atitude dialógica assume feições muito concretas no relacionamento com os jovens que pedem para serem admitidos à nossa experiência de vida. Não há dúvida de que cabe a nós propor-lhes a riqueza da nossa tradição cristã e franciscana. É preciso, todavia, respeitar e valorizar a “recepção criativa” testemunhada por eles ao encarnar o carisma franciscano nas concretas situações em que vivem e segundo desafios e indagações inusitados. Não tem sido esta a dinâmica do processo histórico de constituição da nossa mais genuína tradição franciscana?

Estamos imersos num mundo em constante transformação. Precisamos vencer o medo e a inércia que paralisa nosso caminhar. Para estarmos à altura dos inúmeros desafios do tempo presente é preciso, em primeiro lugar, alargar nossos horizontes para além das preocupações com a própria sobrevivência e com a eficiência antropocêntrica. Necessário se faz, portanto, rever nossos critérios e projetos. Somos convocados a fazer memória do nosso passado, deixando Cristo irromper em nossa vida através do Seu Espírito Vivificante. Francisco dizia que o Ministro Geral da Ordem era o Espírito Santo. A razão de tal escolha não residiria propriamente no fato de ser Ele aquele que “faz novas todas as coisas”?

Fonte:http://www.franciscanos.org.br/

30 de maio de 2014

O Espírito Santo na mística franciscana - Arrebatado pelo Espírito



Léon Robinot, ofmcap

A vida de Francisco de Assis apresenta a particularidade muito evidente de nela se poderem discernir certos momentos-chave: um homem sentindo-se num ápice apanhado, arrebatado por outrem, e imediatamente desviado em direção diferente, como que sorvido por um tornado ou abrasado por um incêndio … Observemos estes arrebatamentos ocorridos sempre por ação do Espírito Santo.

Francisco caminha para o Pai pelo Filho no Espírito: é a «auto-estrada» que conduz à união com Deus, e que ele aprendeu pela prática da liturgia. A sua experiência do seguimento de Jesus, aprendida durante uma vintena de anos, desabrocha na grande doxologia da Primeira Regra, capítulo 23. E essa «auto-estrada» dum filho de Deus percorreu-a sob a conduta do Espírito. Tal é a profunda convicção que pretende transmitir aos irmãos ao dizer-lhes que «devem sobretudo desejar ter o Espírito do Senhor e deixar que esse Espírito atue neles» (2R 10,8).

Os seus primeiros biógrafos, e em particular S. Boaventura, gostam de salientar ação do Espírito do Senhor naquele que consideram como «o anjo do sexto selo» de que fala o Apocalipse, “esse selo impresso em sua própria carne não por qualquer força natural nem por processo mecânico, mas pelo poder admirável do Espírito de Deus vivo» (LM, prólogo). Não se esqueça que o século XIII correspondia à «era do Espírito», segundo as especulações milenaristas inspiradas em Joaquim de Flora, e que seduziram boa parte da cristandade.

Vivendo nós hoje também em tempo de renovação no Espírito, renovação que sobretudo a partir do Concílio Vaticano II vem florescendo em várias formas, o exemplo de Francisco poderá mostrar-nos como deixar atuar em nós o Espírito do Senhor. Para isso vamos analisar, embora não exaustivamente, algumas grandes efusões do Espírito em Francisco, que fizeram desse santo da Idade Média um homem espiritual, fiel discípulo de Cristo.

O IRMÃO SEGUNDO O ESPÍRITO

A designação de afetuosa amizade com que mais vulgarmente apelidamos esse homem de outros tempos, mas tão próximo de nós, é a de «Irmão Francisco”. Um qualificativo bem apropriado, pois o Espírito fez dele um irmão de todos os homens e até de todas as criaturas.

A aventura começou pelo encontro com leprosos, o beijo ao leproso, o serviço dos leprosos, como ele próprio declara no princípio do Testamento: «Foi assim que o Senhor me concedeu, a mim, irmão Francisco, que começasse a fazer penitência: Quando eu ainda vivia em pecados, era para mim insuportável ver leprosos. Mas o próprio Senhor me conduziu ao meio deles e comecei então a exercer misericórdia com eles. E ao afastar-me deles já se transformara para mim em doçura de alma e de corpo aquilo que antes me parecia tão amargo. Depois dessa experiência pouco esperei para dizer adeus ao mundo (T 1.2).

Arrebatado pelo Espírito do Senhor, Francisco faz a experiência da parábola evangélica do bom samaritano (Lc 10,29-36) e ultrapassa assim a barreira que a comuna de Assis levantara para separar as pessoas que gozavam dos direitos e privilégios de cidadania daquelas outras pessoas banidas da sociedade, expulsas para fora das povoações, vítimas da repulsa e quando muito objeto de piedade. Ao decidir-se a assumir a desventura dos leprosos, transformou-se como em irmão deles. E a partir dessa primeira experiência vai-se tomando cada vez mais irmão dos pequeninos, dos humildes, dos abandonados, dos excluídos por motivo de má conduta, de doença, ou até por injustiça social: entre os irmãos há de mostrar sempre uma ternura particular para com os que sofrem no corpo, no espírito ou no coração. Penetra assim nas bem-aventuranças dos pobres, dos que choram, dos mansos, dos misericordiosos: uma obra que só pode ser realizada pelo Espírito do Senhor.

Isso, nem mais nem menos, pretendia ele dizer ao afirmar que aquilo que antes lhe parecia amargo se transformara em doçura de alma e de corpo. Tal doçura recorda sem dúvida aquela unção de que agora se sentia impregnado, como aconteceu com Jesus ao afirmar em Nazaré: «O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres (Lc 4,1). A partir daí, na esteira de Cristo que se fez nosso irmão, vai Francisco aprender a ser também doce e humilde – ou então cortês, como ele gosta de dizer – para com todos os seres humanos cuja dignidade respeita e defende.

Progressivamente e à custa de duras conversões, o Espírito vai nele produzindo os «seus frutos»: «amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio (Gl 5,22).
Transformado assim pelo Espírito, torna-se um irmão tão universal e tão sedutor que chega a conquistar a fraternidade de aves e de peixes, de lobos e cordeiros, do fogo e da água, de todas as criaturas e até mesmo de inimigos como o Sultão do Egito. É como irmão de todos que se atreve a entoar o seu Cântico das Criaturas.

Oxalá a mesma doçura do Espírito do Senhor continue hoje a ajudar os irmãos, as irmãs e os amigos de Francisco de Assis a considerarem-se verdadeiramente irmãos, segundo o Espírito, de todos os excluídos da nossa sociedade no mundo contemporâneo.

PELO FOGO DO ESPÍRITO

«O poder incendiário do Espírito de Cristo abrasava-o por completo”, observa Boaventura (Lm 2,2). Verifica-se isso especialmente em dois acontecimentos que lhe alteraram profundamente a vida: o da Porciúncula e o do Alverne.

O mensageiro da paz

Numa manhã de Fevereiro de 1208 Francisco ouviu na Missa o trecho do Evangelho onde se conta como Jesus enviou os discípulos a pregar e lhes indicou a maneira evangélica de viver. Celano salienta que no fim da Missa ele foi pedir ao sacerdote que lhe explicasse melhor essa passagem. E então, «exultando de alegria no Espírito Santo, exclamou: ‘É exatamente isso o que eu pretendo e procuro, e do fundo do coração anseio por realizar’” (1C 22). Boaventura comenta: «Ao escutar atentamente estas palavras, foi tal a violência com que o Espírito de Cristo o sensibilizou, que mudou de vida por completo … (Lm 2,2) Isso constituiu para Francisco como uma Anunciação ou um Pentecostes. E logo se lançou na aventura da missão que teimará em seguir até à morte juntamente com os companheiros que se lhe vão associar.

Nessa passagem evangélica há uma palavra que especialmente o sensibilizou, segundo ele mesmo confidencia no Testamento: «Revelou-me o Senhor que devíamos saudar-nos dizendo: ‘O Senhor te dê a paz’” (T22). Isso virá a fazer dele, com a força do Espírito, o mensageiro da paz de Deus.
É exatamente sob essa figura de mensageiro da Paz que ele hoje é mais conhecido e invocado, como atestam o sucesso da Oração pela Paz, que lhe é atribu1da, e até o encontro ecumênico dos chefes religiosos em Assis, convocado e presidido pelo papa João Paulo II em Outubro de 1986. Com a veia profética dum João Batista, também ele faz aos quatro ventos um apelo a todos à conversão, à reconciliação com Deus e com os irmãos, e mesmo com os inimigos: expulsa de Arezzo os demônios da violência; leva adversários a assinarem tratados de paz; reconcilia em Assis o bispo com o podestade. E à sua fraternidade ainda embrionária confia a mesma missão: «Ide, caríssimos, e anunciai aos homens a paz e pregai-lhe a conversão que leva ao perdão dos pecados» (1C 24).

O recente e histórico acontecimento de Assis mostra como o Espírito do Senhor continua a pressionar a Família franciscana a que se empenhe com coragem no serviçu da paz, pela oração e pela promoção da justiça e dos direitos do homem.

Francisco sonha mesmo com levar a paz para além das fronteiras da cristandade do seu tempo. Por inspiração divina, ou seja, impelido pelo Espírito, atreve-se a fazer uma tentativa verdadeiramente pasmosa para a época: num gesto de cortesia, vai encontrar-se com o Sultão do Egito, considerado, e não sem motivo, o inimigo número um dos cristãos. Uma pregação deste gênero, bem como outros empreendimentos de paz, acaretam-lhe por vez dissabores e hostilidades: mas ele tudo suporta com alegria para seguir mais de perto os passos do seu amado Senhor, na esperança de poder acompanhá-lo até ao martírio. Na impossibilidade de atingir essa meta, acolhe com alegria as humilhações e um certo desprezo que lhe acarreta até mesmo por parte de alguns irmãos, a sua intransigente fidelidade em viver o Evangelho. A parábola da Perfeita Alegria, relatada na “I Fioretti” no capitulo VIII, representa a tradução maravilhosa da experiência de quem sabe sofrer perseguição pela justiça por amor de Cristo. Para Francisco, paz e alegria são frutos do Espírito.

A transfiguração em Cristo

Segundo S. Boaventura, Francisco foi um homem «devorado por um incêndio de amor”- expressão que se tomará clássica na linguagem espiritual franciscana. Ele arde em amor «seráfico», ou seja, à semelhança dos Serafins, que são como tochas a arder diante do trono de Deus. O fogo do Espírito irá se transfigurando em Cristo até à total configuração com o Crucificado no Alverne. Esse amor seráfico parece ter nascido quando da oração de Francisco diante do crucifixo de S. Damião: «Desde essa altura enraizou-se-lhe na alma a compaixão pelo Crucificado; e podemos conjeturar que desde então lhe ficaram profundamente gravados na alma os estigmas da Paixão antes de lhe serem impressos na carne (2C 11).

Quanto ao itinerário da transfiguração de Francisco em Cristo, muitos se têm dedicado a descrevê-lo. Vamos apenas indicar a chave de leitura por ele mesmo fornecida na oração que finaliza a Carta a toda a Ordem. Depois de ter implorado o dom de Deus, prossegue dizendo: « … Interiormente purificados, interiormente alumiados e abrasados pelo fogo do Espírito Santo, possamos seguir os passos de teu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo … » (CO 51). S. Boaventura chega mesmo a concretizar as etapas e as condições do «Itinerário da alma para Deus»; mas para Francisco o caso parece mais simples: foi o fogo do Espírito que o animou a seguir o caminho de Jesus.

AO SOPRO DO ESPÍRITO

Ao sentir aproximar-se o fim da vida terrena, Frei Francisco afirma com clareza que o movimento evangélico inaugurado em Assis por ele e pelos irmãos e agora confiado à Igreja, só terá futuro pelo sopro do Espírito do Senhor. «Desejava que se recebessem na Ordem pobres e ignorantes, e não apenas ricos e sábios. ‘Deus -dizia ele- não tem em conta essas diferenças; o Espírito Santo, que é o Ministro Geral da Ordem, repousa tanto sobre os pobres e simples como sobre os outros’. Pretendia até que esta frase fosse incluída no texto da Regra – mas a bula da aprovação já tinha sido publicada (a 29 de novembro de 1223); era portanto tarde demais» (lC 123). Sem sombra de dúvida, Francisco toma aqui posição ao lado dos irmãos mais simples, como gostava de lhes chamar, em oposição aos clérigos e a alguns ministros que pretendiam instituir uma Ordem Religiosa capaz de rivalizar com outras de grande renome. E, como de passagem, exprime a convicção profunda e manifesta o desejo ardente de que o Espírito Santo seja de alguma forma o Paráclito, o Advogado, ou, como ele diz, o verdadeiro ministro geral da sua fraternidade (Cf Jo 14, 16-26).

A mesma convição continuará sempre a animar os movimentos franciscanos no decurso da sua longa história. Desde os primórdios, os biógrafos empenham-se em descrever um S. Francisco incessantemente inspirado pelo Espírito, tanto nas iniciativas pessoais como na redação das Regras. Já nessa época os «zelantes» da Regra, numa espécie de namoro com as utopias joaquimistas, acentuarão o aspecto espiritual da vida franciscana, a ponto de serem mesmo chamados «os Espirituais», para se distinguirem dos irmãos simplesmente «observantes» da mesma Regra. Humberto Eco utilizou a seu modo essa controvérsia medieval no célebre romance “O Nome da Rosa”, evocando uma das principais figuras dos «zelantes», Hubertino de Casal, também retratado no filme de Jean-Claude Annaud. A questão centrava-se exatamente sobre a observância da Regra e sobre se o Testamento de Francisco deveria ou não ter valor obrigatório. À medida que ia ganhando terreno uma interpretação cada vez mais jurídica desses textos-base, os Espirituais defendem a intuição – eles chamam-lhe a intenção – de Francisco: a observância espiritual da Regra, interpretada segundo o Testamento e outros escritos e a própria vida do pobrezinho, «por quem o Senhor se dignou falar».

Essa tradição «espiritual», acalmada com o rodar do tempo e desembaraçada de compromissos políticos, vai inspirar numerosas Reformas (diríamos mesmo Rebentos) que aparecem do século XIV ao século XVI. Algumas ainda subsistem e integram a chamada Primeira Ordem Franciscana: observantes, capuchinhos, recoletos … O mesmo dinamismo espiritual suscita de forma idêntica rebentos na Segunda Ordem, a das Clarissas, por exemplo a reforma de Santa Coleta, provoca o pulular de numerosas congregações franciscanas, bem como um reflorescimento da Ordem Terceira e dum laicado evangélico franciscano.
Nos nossos dias, a história espiritual da Família Franciscana procura acompanhar a renovação de toda a Igreja, ao sopro do Espírito.

Do Livro “A Espiritualidade de Francisco de Assis”, Editorial Franciscana – Braga – Portugal

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

21 de maio de 2014

O Espírito Santo na mística franciscana


O Espírito Santo na mística franciscana.


Apresentação
Para São Francisco, a Ordem só tinha um Ministro Geral, que é o Espírito Santo, e deveria ser guiada pelo sopro do Espírito do Senhor. «Desejava que se recebessem na Ordem pobres e ignorantes, e não apenas ricos e sábios. ‘Deus -dizia ele- não tem em conta essas diferenças; o Espírito Santo, que é o Ministro Geral da Ordem, repousa tanto sobre os pobres e simples como sobre os outros’. Pretendia até que esta frase fosse incluída no texto da Regra – mas a bula da aprovação já tinha sido publicada (a 29 de novembro de 1223); era portanto tarde demais» (lC 123).
Neste Especial dedicado a Pentecostes, nossa intenção é fazer uma reflexão dentro da mística franciscana, oferecendo alguns textos de grandes mestres da espiritualidade.
O capuchinho Leon Robinot lembra que Francisco caminha para o Pai pelo Filho no Espírito: é a ‘auto-estrada’ que conduz à união com Deus, e que ele aprendeu pela prática da liturgia. “A sua experiência do seguimento de Jesus, aprendida durante uma vintena de anos, desabrocha na grande doxologia da Primeira Regra, capítulo 23. E essa ‘auto-estrada’ dum filho de Deus percorreu-a sob a conduta do Espírito. Tal é a profunda convicção que pretende transmitir aos irmãos ao dizer-lhes que «devem sobretudo desejar ter o Espírito do Senhor e deixar que esse Espírito atue neles» (2R 10,8).”
Frei Sinivaldo Tavares, teólogo e professor do Instituto Teológico Franciscano (ITF), escreve sobre “A ousadia de se deixar conduzir pelo Espírito do Senhor”. E decreta: “Somos convocados a fazer memória do nosso passado, deixando Cristo irromper em nossa vida através do Seu Espírito Vivificante”.
O homem, quando se centra no sofrimento seu e do mundo, nas angústias e traumas de tantas pessoas, nas injustiças de uns e desvalia de outros, nos desvarios, descaminhos, hipocrisias e toda sorte de males, corre o risco de se afundar num desespero sem saída ou de calejar-se desumanizando-se naquilo que lhe é mais próprio: a dimensão pentecostal do permanente milagre da vida. Frei Neylor Toninfaz uma reflexão sobre a festa de Pentecostes a partir de dois pontos de vista e afirma que “o homem pentecostal conhece a alegria do louvor, a força incontida do testemunho, a jovialidade da acolhida e a festa da comunhão”. Nele Cristo já venceu o demônio da tríplice tentação.
O jesuíta Albert Chapelle, num texto da revista “Grande Sinal”, escreve:O dom do Espírito nos antecede como uma graça, ele nos precede na história. Vida espiritual não se improvisa, não tem sua origem em si mesma, não pode haurir água viva em sua própria fonte. É recebida do Alto; brota como toda vida das gerações e dos partos da história”.
Outro texto escolhido é de Frei Celso Teixeira, da série “Cadernos Franciscanos”: “O Espírito do Senhor: Ensaio de uma leitura antropológica”. Como anuncia o subtítulo, o artigo é uma tentativa de esclarecimento sobre o modo de agir do Espírito do Senhor na pessoa humana. Sem identificar a expressão “Espírito do Senhor” com a terceira pessoa divina, o autor centraliza-se em descrever o modo de atuação deste espírito, tornando a pessoa “santa” e “espiritual”, à semelhança do próprio Deus, e, em habitando nossos corações, este espírito torna-se presença habitual. O autor também distingue com muita clareza as obras do “espírito da carne” (e “espírito do mundo”) e as obras do espírito do Senhor, fonte e origem de todo o bem.
Trazemos ainda textos do Dicionário Franciscano sobre o Espírito Santo e Pentecostes no Catecismo da Igreja Católica.
Completamos este Especial com as Preces ao Divino Espírito Santo e uma celebração franciscana.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/n/

2 de maio de 2014

“Jesus: de subida em subida”


Frei Almir Ribeiro Guimarães

Nestes dias de maio estamos vivendo as alegrias do tempo pascal. Nos meados do mês passado,  de modo especial  durante os dias da Semana Santa, tivemos ocasião de nos debruçar sobre o tema do amor de Cristo, amor crucificado que nos levou a viver as alegrias do tempo pascal.

Retomamos aqui a preces das Laudes da quarta-feira santa. Elas nos ajudam a unir a dor da calvário às alegrias da ressurreição.  Estas súplicas são dirigidas ao Senhor Jesus.

●Vós que subistes a Jerusalém para sofrer a Paixão, e assim entrar na glória, conduzi a vossa Igreja  à  Páscoa da eternidade.

Ele estava  em Betânia  em casa de seus amigos, tentando aquecer o coração antes da grande provação. Saiu de Betfagé para entrar  na cidade santa. Os primeiros momentos foram de júbilo com o povo homenageando o Messias com hinos e cânticos e atapetando o caminho com ramos de palmeiras e oliveiras. Um deslocamento geográfico  rumo à cidade santa que ficava em posição geográfica mais alta do que a baixada de Betfagé.  A prece  em questão fala da paixão cruel que leve  à páscoa da eternidade. Somos caminhantes e viandantes.  Temos a convicção de que a paixão do Senhor,  vivida também pelos de seu corpo na doença, na perseguição e  em toda sorte de tribulação leva à glória.  Somos aspirantes da glória que já vivemos aqui e agora no lusco-fusco da fé.

● Vós, que elevado na cruz, deixaste a lança do soldado vos traspassar, curai as nossas feridas.

O mundo precisa da cura.  Somos todos portadores de feridas que dificilmente cicatrizam sem auxílio  de fora.  Há essa dureza de coração, a indiferença para com os outros,  a superficialidade de vida,  o seguimento do Senhor de maneira irregular e claudicante,  os momentos em que temos vergonha de anunciar e proclamar nossa fé.  Há esse prejuízo que causamos aos outros por meio de palavras duras,  de coisas ditas sem pensar,  do sofrimento físico e das desilusões que causamos.  Jesus, que havia subido a Jerusalém, no calvário, é elevado, seu corpo é levantado e fica entre o céu e a terra.  Ele sobe. Nessa suplica pedimos ao que foi levantado da terra  que cure nossas feridas, que coloque sobre elas óleo de seu perdão, o lenitivo de sua misericórdia. O grande alívio se faz com o perdão a nós concedido por parte daquele que foi levantado. Aqui contemplamos mistério do coração traspassado pela lança.

● Vós que transformastes o madeiro da cruz em árvore da vida  concedei de seus frutos aos que renasceram pelo batismo.

Houve aquela árvore do Éden. Nossos pais comeram fruto que não era para ser comido. Há a lenha de uma outra árvore, a árvore da cruz, que substitui a primeira.  Esta última era a árvore da perdição.  A cruz passou a ser a árvore da redenção.  Agora, simples instrumento de suplício, a árvore da cruz  teve como fruto  Jesus,  nosso irmão e  Filho eterno do Pai, a dar a vida pelos seus. Aos que renascemos  pelo batismo  nos são prometidos frutos do renascimento, certeza da amizade com o Senhor,  nossa deificação. Um Deus que morre de amor  cumula os seus de todos os bens.  Esse que na cruz, que tem o peito dilacerado sobe para a glória.

Quando celebramos a primeira sexta-feira de cada mês não esquecemos o alto preço de nossa redenção.  Nesse tempo pascal, lembramo-nos daquele que, curando nossas feridas,  fez com que tivéssemos nossos olhos fitos nele que penetrou na glória com seu corpo  transfigurado e com o peito aberto transformado em asilo glorioso para que ainda caminham no vale das lágrimas.

28 de abril de 2014

Reflexão - Amar


“Para ter algo que você nunca teve, é preciso fazer algo que você nunca fez” (Chico Xavier).

Toda nossa ação, todo nosso fazer, todo esforço dedicado deve estar ungido pelo óleo do amor. Esse ir além deve ser a energia e a dis-posição para atingirmos as pessoas de uma maneira diferente: o amor não nasce do pensar, mas da dedicação, do afeto, do querer bem, da abertura da alma para acolher a outra pessoa. Amar é tarefa árdua que exige disponibilidade e espírito de serviço.

Mesmo diante das dificuldades, sejamos capazes de enxergar algo de bom em cada momento ruim que venha a nos acontecer. Diante das provas da vida e das dificuldades da subida podemos enxergar nossas paisagens, abastecer o coração com a beleza que vai ficando na planície. Procure, pois, fazer aquilo que ainda não teve coragem de fazer… Talvez aí esteja a grande oportunidade de seu crescimento!

Tenha uma ótima, abençoada e produtiva semana!

Frei Paulo Sérgio, ofm