27 de maio de 2012

O Espírito Santo na mística franciscana


Pentecostes segundo o Catecismo da Igreja Católica.


37.1 Pentecostes dia da efusão do Espírito Santo

§696 O fogo. Enquanto a água significa o nascimento e a fecundidade da Vida dada no Espírito Santo o fogo simboliza a energia transformadora dos atos do Espírito Santo O profeta Elias, que “surgiu como um fogo cuja palavra queimava como uma tocha” (Eclo 48,1), por sua oração atrai o fogo do céu sobre o sacrifício do monte Carmelo, figura do fogo do Espírito Santo que transforma o que toca. João Batista, que caminha diante do Senhor com o espírito e o poder de Elias” (Lc 1,17), anuncia o Cristo como aquele que “batizará com o Espírito Santo e com o fogo” (Lc 3,16), esse Espírito do qual Jesus dirá “Vim trazer fogo à terra, e quanto desejaria que já estivesse acesso (Lc 12,49). É sob a forma de línguas “que se diriam de fogo” o Espírito Santo pousa sobre os discípulos na manhã de Pentecostes e os enche de Si. A tradição espiritual manterá este simbolismo do fogo como um dos mais expressivos da ação do Espírito Santo Não extingais o Espírito” (1Ts 5,19).

§731 No dia de Pentecostes (no fim das sete semanas pascais), a Páscoa de Cristo se realiza na efusão do Espírito Santo, que é manifestado, dado e comunicado como Pessoa Divina: de sua plenitude, Cristo, Senhor, derrama em profusão o Espírito.

§1287 Ora, esta plenitude do Espírito não devia ser apenas a do Messias; devia ser comunicada a todo o povo messiânico. Por várias vezes Cristo prometeu esta efusão do Espírito, promessa que realizou primeiramente no dia da Páscoa. e em seguida, de maneira mais marcante, no dia de Pentecostes. Repletos do Espírito Santo, os Apóstolos começam a proclamar “as maravilhas de Deus” (At 2,11), e Pedro começa a declarar que esta efusão do Espírito é o sinal dos tempos messiânicos. Os que então creram na pregação apostólica e que se fizeram batizar também receberam o dom do Espírito Santo

§2623 NO TEMPO DA IGREJA

No dia de Pentecostes, o Espírito da promessa foi derramado sobre os discípulos, “reunidos no mesmo lugar” (At 2,1), esperando-o, “todos unânimes, perseverando na oração” (At 1,14). O Espírito, que ensina a Igreja e lhe recorda tudo o que Jesus disse, vai também formá-la para a vida de oração.

P.37.2 Pentecostes dia da manifestação pública de Jesus

§767 “Terminada a obra que o Pai havia confiado ao Filho para realizará na terra, foi enviado o Espírito Santo no dia de Pentecostes para santificar a Igreja permanentemente.” Foi então que “a Igreja se manifestou publicamente diante da multidão e começou a difusão do Evangelho com a pregação”. Por ser “convocação” de todos os homens para a salvação, a Igreja é, por sua própria natureza, missionária enviada por Cristo a todos os povos para fazer deles discípulos.

§1076 A ECONOMIA SACRAMENTAL No dia de Pentecostes, pela efusão do Espírito Santo, a Igreja é manifestada ao mundo. O dom do Espírito inaugura um tempo novo na “dispensação do mistério”: o tempo da Igreja, durante o qual Cristo manifesta, toma presente e comunica sua obra de salvação pela liturgia de sua Igreja, “até que ele venha” (1 Cor 11,26). Durante este tempo da Igreja, Cristo vive e age em sua Igreja e com ela de forma nova, própria deste tempo novo. Age pelos sacramentos; é isto que a Tradição comum do Oriente e do Ocidente chama de “economia sacramental”; esta consiste na comunicação (ou “dispensação”) dos frutos do Mistério Pascal de Cristo na celebração da liturgia “sacramental” da Igreja. Por isso, importa ilustrar primeiro esta “dispensação sacramental” (Capítulo I). Assim aparecerão com mais clareza a natureza e os aspectos essenciais da celebração litúrgica (Capítulo II.).

P.37.3 Pentecostes dia da plena revelação da Trindade

§732 Nesse dia é revelada plenamente a Santíssima Trindade. A partir desse dia, o Reino anunciado por Cristo está aberto aos que crêem nele; na humildade da carne e na fé, eles participam já da comunhão da Santíssima Trindade. Por sua vinda e ela não cessa, o Espírito Santo faz o mundo entrar nos “últimos tempos”, o tempo da Igreja, o Reino já recebido em herança, mas ainda não consumado:

Vimos a verdadeira Luz, recebemos o Espírito celeste, encontramos a verdadeira fé: adoramos a Trindade indivisível, pois foi ela quem nos salvou.

Celebração Franciscana: “A Trindade, Francisco e a Nova Criação”.


1. Preparação do ambiente
(Bíblia, imagem de São Francisco, elemento da natureza, flores e três velas, de preferência. E, se possível, o ícone da SS. Trindade de André Rublev; este ícone foi pintado no início do século XV, em honra de São Sérgio de Radonesh, outro monge do século XIV, que tinha o seguinte lema, que pode ser colocado em um cartaz para a meditação de todos: “Vamos vencer a crueldade do mundo com a contemplação da SS. Trindade”)

2. Acolhida
(Canto à escolha)
(Dar boas vindas aos irmãos e irmãs)
(Fazer memória dos grandes fatos que fazem parte das comemorações e festividades, em especial da FFB)
Dirigente: Que alegria estarmos juntos como irmãos e irmãs. Estamos vivenciando com grande júbilo e ação de graças esta grande festividade litúrgica. Queremos celebrar a fé no Deus Trindade e comunhão de amor, que em Francisco se revelou sobremaneira e continuamente como Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo; Uno e Trino, “o mais desejável que qualquer outro bem”(Ct 50,52).
Todos: “Creiamos verdadeiramente e humildemente…/ enaltecemos e rendamos graças ao Altíssimo e Sumo Deus, Trino e Uno, Pai, Filho e Espírito Santo”(1Rg 23,27-34)

3 – Momento penitencial
Dirigente: (Deverá motivar um momento de contemplação junto ao ícone da SS. Trindade ou, caso não tenha, junto às três velas; em atitude de entrega e reconciliação por nem sempre sermos fiéis a esta comunhão de doação e amor).
Todos: “Considera, querido irmão e irmã, / a que excelência te elevou o Senhor/ criando-te/ e formando-te segundo o corpo/ à imagem do seu dileto Filho/ e, segundo o Espírito,/ à sua própria semelhança. Entretanto, as criaturas todas estão debaixo do céu,/ a seu modo,/ servem e conhecem ao seu Criador melhor do que tu” (Adm 5,1-2).

4 – Oração de louvor
Canto à escolha ou canta-se o Cântico das Criaturas, podendo-se intercalar com fatos de nossa história pessoal ou de toda a humanidade em que o nosso Deus Trindade se revela. Pode-se usar velas, para que, na medida em que se narra os fatos, cada um receba a sua vela, acesa na vela do altar que esteja junto ao ícone da Trindade, simbolizando o amor trinitário encarnado em nossa história.

5 – A Palavra de Deus Trindade para nossa vida
(Neste momento, cada irmão com sua vela acesa para a escuta da Palavra:
Sugestões: Is 42,1-4.6-7; 61, 1-3; Rm 8, 1-17; Sl 62 (61); 62 (62); Lc 4, 14-21; 3, 15-16.21-22;
Silêncio – Reflexão – Partilha – Canto a escolher)

6 – Proposta
(Propõe-se ao dirigente criar meios que ajudem os participantes a se envolverem na relação do texto. Favorecer a integração entre a proposta evangélica, a pessoa de Francisco e seu relacionamento de amor com a Trindade. Para a reflexão do mistério trinitário, recomendamos o texto de Dom Frei Valfredo Tepe, Nós somos um: retiro trinitário, Petrópolis, Vozes, 1997, p. 147)

7 – Compromisso
O que cada um levará de concreto para viver a partir do tema que refletimos e celebramos?

8 – Oração final
(Canto à escolha)

Pai Nosso….
ORAÇÃO À TRINDADE

“Eterno Deus onipotente,
justo e misericordioso,
concedei-nos a nós míseros
praticar por vossa causa
o que reconhecermos ser a vossa vontade
e querer sempre o que vos agrade,
a fim de que,
interiormente purificados, iluminados e abrasados
pelo fogo do Espírito Santo,
possamos seguir as pegadas de vosso Filho,
Nosso Senhor Jesus Cristo,
e por vossa graça unicamente
chegar até vós,
ó Altíssimo,
que em Trindade perfeita e Unidade simples
viveis e reinais na glória
como Deus onipotente
por toda a eternidade”

São Francisco de Assis – Carta a toda Ordem, 50-52

9 – Bênção de Santa Clara – Canto


Preces ao Espírito Santo.

DOM DO ESPÍRITO

Pai que dás o Espírito,
jamais recusas o Espírito Santo aos que te pedem;
porque és o primeiro a desejar que o recebamos.

Concede-nos este dom que resume e contém todos os outros,
este dom em que encerras todos os segredos
de teu amor, toda a generosidade de teus benefícios.

Este dom que é o próprio dom
de teu coração paternal, no qual te entregas a nós.

Este dom que nos traz tua vida mais íntima
para nos fazer viver dela,
este dom destinado a ampliar nosso coração
nas dimensões universais do teu,
este dom capaz de nos transformar de ponta a ponta,
de nos curar de nossas fraquezas e de nos divinizar.

Este dom de tua energia onipotente, indispensável
ao cumprimento da missão que nos confias,
este dom de tua felicidade, no fervor de amar,
pois que no Espírito nos vem ao mesmo tempo
o dom da alegria e a alegria da doação.

Senhor, que difundes o Espírito,
de teu seio correm fontes de água viva,
efusão do Espírito.

A glória da tua Ressurreição
é a irradiação do Espírito Santo
que se apoderou de toda a tua natureza humana,
e a glória da tua Ascensão é o poder que tens
de difundir o Espírito Santo no universo
para dele fazer teu Reino.

Todo o fruto de teu sacrifício redentor
consiste no dom do Espírito, que nos traz
o perdão dos pecados e a graça da filiação divina.

Cumula-nos deste Espírito para nos comunicar
toda a força de tua santidade e de teu amor.

Faze-o penetrar no íntimo de nós mesmos,
para que ele possa purificar-nos, espiritualizar-nos
e inflamar-nos.

Por teu Espírito, imprime em nossa alma
tua semelhança e forma-nos em tua mentalidade.

Por teu Espírito, comunica-nos tua doutrina
e faze-nos viver a totalidade do Evangelho.

Difunde teu Espírito com abundância
para que ele possa envolver-nos,
tomar-nos totalmente na sua caridade.

ESPÍRITO SANTO

Contemplar-te, é mergulhar o olhar no invisível,
em pleno mistério de Deus.

Não tens um semblante de Evangelho como o
Cristo, nem uma face de Pai; mesmo renunciando
a te imaginar um rosto, queremos aderir a ti
com todas as nossas forças.

Não tens um semblante porque és o fogo do amor
que reúne os semblantes do Pai e do Filho,
para não formar senão um só numa sublime fusão.
Vives nos semblantes de outrem,
como sua vida mais secreta,
e és tu que nos revelas o autêntico semblante do
Salvador, bem como o do Pai Celeste.
És abismo de profundidade, recôndito inexpugnável
e inexprimível, impossível de se representar
em traços delimitados.

Tu és o sopro que emana do Pai e do Filho
e que vem animar nosso espírito,
formar-nos uma feição espiritual.
Tu és a respiração de nossa alma,
o pensamento de nosso pensamento,
o impulso de nossa vontade, a força de nosso amor.

Tu és a vida divina que vem nos fazer viver o Cristo,
que invade nosso ser para transfigurá-lo.
Tu nos ultrapassas infinitamente e no entanto,
és tão íntimo a nós;
não resides num longínquo abstrato,
mas no concreto palpitante de nossa existência.
Contemplar-te, é deixar-nos tomar pela torrente
de um amor que transborda e se apossa de toda
a nossa pessoa humana.

VIRGEM MARIA, TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO

Tu acolheste o Espírito Santo
com a alma plenamente aberta;

tu o acolheste pela fé,
crendo na sua maravilhosa ação em teu seio;

tu o acolheste pelo abandono de teu ser,
entregando-te ao seu poder de amor;

tu o acolheste por uma colaboração ativa com ele
no amor da Encarnação redentora:

tu jamais deixaste de acolhê-lo durante tua vida,
escutando sua voz misteriosa
e seguindo suas sugestões.

Ensina-nos a recebê-lo com a mesma disposição
com que tu o acolheste.

Ajuda-nos a escutá-lo no segredo de nosso coração,
a acolher suas indicações e seus conselhos.

Mostra-nos o caminho da docilidade
a seu ensinamento, da cooperação na sua obra.

Como tu, quereríamos receber a plenitude do
Espírito Santo, nada perder de sua vinda a nós.

Estimula nosso desejo de aceitar tudo o que ele
nos quer dar, e comunica-nos tua alegria
em tudo deixar tomar pelo Espírito Santo,
de tudo deixar invadir pelo seu amor.

ESPÍRITO SANTO, NOSSO GUIA

Guia íntimo, tu não nos indicas somente
o exterior da vontade divina;
tu a traduzes para nós em um esclarecimento interior;
Ajuda-nos a acolher plenamente tuas diretivas.

Guia vigilante, tu nos inspiras a cada instante
o que devemos pensar e fazer: ensina-nos a responder
dócil e alegremente a todas as tuas sugestões.

Guia clarividente, tu nos conduzes segundo
o grandioso desígnio de Deus,
e organizas os detalhes de nossa existência
em função de largos horizontes: faze-nos aceitar
ser ultrapassados por tua sabedoria
e seguir simplesmente o caminho que nos traças.

Guia seguro e infalível, tu não podes errar
e nos engajas sempre numa rota ideal:
estimula nossa confiança em abandonar-nos
serenamente às tuas orientações.

Guia benévolo, consideras nossas fraquezas e
procuras fazer-nos reparar os nossos passos em
falso: faze-nos retomar coragem nos fracassos
apoiando-nos sobre tua solicitude amorosa.

Guia respeitador da nossa pessoa,
queres promover todas as nossas qualidades
pessoais e desabrochá-las:
incessantemente apelas para nossa liberdade
e responsabilidade: torna-nos mais dignos
da confiança que nos testemunhas.

Guia audacioso, desejas para nós uma vida maior
feita à medida de Deus: faze-nos entrar na tua
audácia para um desabrochamento do divino em nós.

ESPÍRITO DE UNIDADE

Tu em quem o Pai e o Filho são um,
faze que sejamos um como eles e neles.
Tu que exprimes a unidade da família divina,
vem assegurar a unidade da comunidade humana.

Desenvolve em todos os homens,
e mais especialmente entre os cristãos,
o desejo da unidade, e torna este desejo mais eficaz.

Reúne cada vez mais a humanidade na unidade
da verdade por uma melhor acolhida da Revelação
e pelo desenvolvimento de uma mesma fé.

Une os homens numa caridade mais sincera,
num respeito mútuo e numa colaboração mais generosa.
Afirma em nós a vontade de superar as desavenças,
e evitar a violência, os conflitos,
a opressão ou a exploração dos fracos.

Multiplica os contatos entre aqueles que
são separados pelo muro do ódio e da
desconfiança, e favorece uma estima recíproca
onde dominam o desacato e o desprezo.

Dispõe-nos a grandes esforços pessoais
em vista da unidade;
arranca-nos a nossos preconceitos malévolos
e abre-nos mais largamente à compreensão do outro.

Faze-nos descobrir mais claramente
as possibilidades e meios de união;
incita-nos a estimular as aproximações e as amizades.

Ajuda-nos a consentir em todos os sacrifícios
para uma unidade mais profunda de pensamentos
e de corações em torno de nós.
Do Livro “Preces ao Espírito Santo”, de J. Galot, S.J., Edições Paulinas/1981

ORAÇÃO À TRINDADE

“Eterno Deus onipotente,
justo e misericordioso,
concedei-nos a nós míseros
praticar por vossa causa
o que reconhecermos ser a vossa vontade
e querer sempre o que vos agrade,
a fim de que,
interiormente purificados, iluminados e abrasados
pelo fogo do Espírito Santo,
possamos seguir as pegadas de vosso Filho,
Nosso Senhor Jesus Cristo,
e por vossa graça unicamente
chegar até vós,
ó Altíssimo,
que em Trindade perfeita e Unidade simples
viveis e reinais na glória
como Deus onipotente
por toda a eternidade”
São Francisco de Assis – Carta a toda Ordem, 50-52

O Espírito, plenitude de todos os seres

Para o Espírito Santo se voltam
Aqueles que têm necessidade de santificação.
Para Ele se eleva o desejo
Dos que vivem procurando o bem
E estão como que refrescados pelo Seu sopro.
Ele é capaz de levar os homens à plenitude,

Pois ele próprio é plenitude.
Ele está em toda a parte,
Ele nos ilumina para descobrirmos a verdade.
Inacessível por natureza,
Ele se deixa compreender pela bondade.
Ele tudo enche,
está totalmente presente em cada ser.
Para Ele se elevam os corações,
os fracos são levados pela mão,
os que caminham ficam repletos.
É Ele que ilumina.
Basílio de Cesaréia, Século V

27/05 - Bem-aventurado Mariano de Roccacasale


Religioso da Primeira Ordem (1778-1866). Beatificado por João Paulo II no dia 3 de outubro de 1999 (sua festa é no dia 31 de maio)

Mariano de Roccacasale nasceu a 14 de Junho de 1778 em Roccacasale, Província de Áquila (Itália). Depois de ter ficado sozinho com os pais, por causa do casamento dos seus irmãos, Mariano encarregou-se de cuidar do rebanho e, no contacto com a natureza e a solidão dos campos, aprendeu a valorizar a reflexão e o silêncio. Percebeu, então, que a sua vocação não era para o mundo e, com vinte e três anos, decidiu dedicar-se com radicalidade ao seguimento de Cristo.

A 2 de Setembro de 1802 vestiu o hábito franciscano. Resumia a sua nova vida em duas palavras: oração e trabalho. Após alguns anos de serviço no convento de Arísquia, como carpinteiro hábil e valioso, jardineiro, cozinheiro e porteiro, pediu a transferência para o Retiro de Bellegra.

Ali foi nomeado porteiro do convento e desempenhou, durante mais de quarenta anos este serviço que se tornou um meio para a sua santificação. Para todos tinha um sorriso, sabia acolhê-los com alegria e simpatia, instruía-os nas verdades da fé, dava-lhes conselhos e com eles rezava, sem deixar de lhes dar até mesmo um pouco de pão. Jamais se lamentava do trabalho nem dava sinais de cansaço; era sempre sereno, afável, sorridente.

A fonte de tanta virtude era, sem dúvida, a oração intensa e recolhida. Eis o segredo deste humilde frade franciscano, que morreu a 31 de Maio de 1866.

Na sua beatificação, João Paulo II assim definiu o beato:

“No que se refere à vida e à espiritualidade do Beato Mariano de Roccacasale, religioso franciscano, pode-se dizer que elas se resumem emblematicamente nos votos do Apóstolo Paulo à comunidade cristã dos Filipenses: “O Deus da paz estará convosco!” (4, 9). A sua vida pobre e humilde, vivida nas pegadas de Francisco e de Clara de Assis, foi constantemente dedicada ao próximo, com o desejo de ouvir e partilhar os sofrimentos de todos, para depois os apresentar ao Senhor nas longas horas transcorridas em adoração diante da Eucaristia.

O Beato Mariano levou a toda a parte a paz, que é dom de Deus. O seu exemplo e a sua intercessão nos ajudem a redescobrir o valor fundamental do amor de Deus e o dever de o testemunhar na solidariedade para com os pobres. Ele é para nós exemplo, sobretudo no exercício da hospitalidade, tão importante no atual contexto histórico e social e principalmente significativo na perspectiva do Grande Jubileu do Ano 2000.

A mesma espiritualidade franciscana, centrada numa vida evangelicamente pobre e simples, distingue Frei Diego Oddi, que hoje contemplamos no coro dos Beatos. Na escola de São Francisco, ele aprendeu que nada pertence ao homem a não ser os vícios e os pecados e que tudo o que a pessoa humana possui, na realidade é dom de Deus (cf. Regra não selada XVII, em Fontes Franciscanas, 48). Desta forma aprendeu a não se angustiar inutilmente, mas a expor a Deus “orações, súplicas e agradecimentos” por todas as necessidades, como escutámos do apóstolo Paulo na segunda Leitura (cf. Fl 4, 6).

Durante o seu longo serviço de esmoleiro, foi autêntico anjo de paz e bem para todas as pessoas que o encontravam, sobretudo porque sabia ir ao encontro das necessidades dos mais pobres e provados. Com o seu testemunho jubiloso e sereno, com a sua fé genuína e convicta, com a sua oração e o seu incansável trabalho o Beato Diego indica as virtudes evangélicas, que são a via-mestra para alcançar a paz”.

PENTECOSTES (27/05) - A força do Espírito rompe barreiras e renova o mundo!


Por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM (*)

I. INTRODUÇÃO GERAL

Na era da internet, uma notícia chega aos quatro cantos do mundo em frações de segundos. Através das teclas do computador, vemos o mundo e nos comunicamos com ele, nos mobilizamos para coisas boas e ruins. Tudo se parece a um espírito que corre veloz nas ondas invisíveis e nas fibras óticas de um mundo globalizado, que, apesar dos avanços tecnológicos, persiste ainda em mostrar o incômodo da miséria, do racismo, da exploração sexual e das injustiças sociais que assolam grande parte do nosso planeta. A globalização ainda não acontece satisfatoriamente na promoção da solidariedade, da cultura da paz, do acesso aos bens necessários à vida, da promoção da justiça.

É nesse contexto de século XXI que continuamos celebrando Pentecostes como acontecimento profundamente aglutinador, pois nele todos os povos são reunidos por Deus para desfrutar da páscoa de seu Filho, fonte de paz, salvação e vida plena para todos. Pentecostes não é o oposto de Babel (Gn 11,1-9), pois ali não se trata de multiplicação de línguas, mas é a plenitude da comunicação entre o divino e o humano e evento basilar do cristianismo primitivo, ao reler a manifestação de Deus no monte Sinai. É o que veremos nas leituras de hoje.

II. COMENTÁRIOS DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (At 2,1-11): Pentecostes é a releitura simbólica do Sinai

Haviam se passado os cinquenta dias entre as festas da Páscoa e Pentecostes. Era o quinquagésimo dia da festa das semanas, daí o nome hebraico da festa: pentecostes. Era o dia 06 do mês de Sivan – 22 de maio no nosso calendário. Jerusalém estava repleta de peregrinos. Todos teriam trazido as primeiras colheitas para serem ofertadas no templo. A peregrinação até Jerusalém teria sido linda. Imagine grupos de pessoas caminhando juntos com cestos de uva, trigo, azeitonas, tâmaras, mel… Imagine o povo sendo acolhido em Jerusalém ao som de harpa, flauta e recitação de Salmos. Todos carregavam dentro de si o desejo de agradecer a Deus pelas primeiras colheitas e de comemorar o “dom da Torá”, da Lei dada ao povo no monte Sinai tantos séculos atrás. Nisso consistia a festa judaica de Pentecostes: comemorar o recebimento da Torá no monte Sinai e afirmar, com isso, que no dia de sua revelação “Eu também estava lá” (Dt 5, 24). O ontem se torna hoje (Lc 4).

Em Jerusalém estavam todos. E todos presenciaram a vinda do Espírito Santo. Como podemos interpretar esse episódio narrado por Lucas em Atos? Não estaria aí uma releitura do evento Sinai? Lucas descreve o acontecido em Pentecostes tendo na memória a narrativa do Sinai. Era preciso demonstrar que um novo Sinai estava acontecendo para legitimar a ação da comunidade de Jerusalém. Jesus teria dito para voltar a Jerusalém e lá eles receberiam o Espírito Santo. Pentecostes passa a ser o batismo da comunidade cristã, o qual a confirma na missão de ir para o mundo e evangelizar. Mais do que um dado histórico, estamos diante de uma profissão de fé. Sem Pentecostes, a Páscoa (passagem) em Jesus para uma nova vida não estaria completa. É belíssima a simbologia usada por Lucas para falar de uma experiência tão importante que marca o início da missão das comunidades cristãs.

Em At 2,1-13 temos dois relatos unidos: um mais antigo (vv. 1-4 + 12-13) e um mais desenvolvido redacionalmente (vv.5-11). O objetivo do primeiro é chamar a atenção para o fato carismático e apocalíptico de Pentecostes, e o segundo, demonstrar o caráter profético e missionário do evento. Vamos considerar o texto como um todo e interpretá-lo simbolicamente e como releitura do Sinai (cf. Faria, Jacir de Freitas, In.: O Espírito de Jesus rompe as barreiras, São Leopoldo: CEBI, 2001 p.13-16).

Eis os símbolos:

a) Casa em Jerusalém: a vinda do Espírito Santo ocorre, segundo a tradição, em uma casa de dois andares na cidade de Jerusalém, que está situada sobre o monte Sião. Esses dois detalhes evocam claramente o monte Sinai, local onde Moisés recebeu as Dez Palavras de Deus. No Primeiro Testamento, os montes eram considerados lugares privilegiados da manifestação de Deus.

a) Língua/linguagem: Lucas substitui o termo voz, que aparece na narrativa do Sinai, para língua. Esses termos são semelhantes e ambos se referem à Palavra. E cada um entende na sua própria língua. A Palavra é a presença de Deus. Língua (idioma) e linguagem (modo de se comunicar) têm o mesmo sentido no texto. O milagre de Pentecostes consiste no fato de os presentes poderem entender os apóstolos a partir de sua própria cultura. É o mesmo que dizer: a evangelização está sendo realizada com sucesso. Por isso, esse fenômeno de “falar em línguas” – também encontrado em At 10,46; 19,6; 1Cor 12,10.28.30; 14,2.4-6.9 -, aparece nessa leitura com o acréscimo de “outras línguas”, com a intenção de demonstrar que a evangelização era para “todos no mundo todo”. Evangelizar não é falar em língua que ninguém entende, mas justamente o contrário. Não importa o idioma (língua mãe), mas a linguagem comum, o modo como é transmitida a proposta do reino.

b) De fogo: representa a manifestação de Deus; é um modo apocalíptico para dizer que Deus se manifestou – Ex 3,2-3; 13,21; 19,18) -, (Cf. Comblin, José, Atos dos Apóstolos vol. 1:1-12. Petrópolis: Vozes, 1988, p.89). Deus acompanha o povo pelo deserto numa coluna de fogo que iluminava a noite (Ex 13,20-22). Deus desce para falar com o povo e Moisés no Sinai por meio de um fogo (Ex 19,18). A comunidade de Mateus conservou a memória da fala de João Batista que anuncia o batismo no Espírito Santo e no fogo que Jesus deveria realizar (Mt 3,11). E é isto que ocorre em Pentecostes, segundo a interpretação da comunidade de Atos dos Apóstolos. O Espírito Santo é o fogo da Palavra de Jesus que deve ser anunciada pelos seus seguidores. Também a tradição rabínica associa a palavra de Deus com o fogo. O comentário rabínico da passagem de Ex 20,18 “todo o povo ouviu trovões” diz: “Note-se que não é dito o trovão, mas ‘trovões’. Por isso, Rabi Johanan disse que a voz de Deus, apenas pronunciada, dividiu-se em 70 vozes, em 70 línguas, para que todas as nações pudessem compreender. Quando cada nação entendeu a voz na própria língua, a sua alma desfaleceu, salvo Israel que a ouviu, mas não ficou perturbado”( Cf. FABRIS, Rinaldo, Os Atos dos Apóstolos, São Paulo: Loyola, 1991, p.62. ). Falar em línguas, então, significa anunciar a palavra comprometedora de Jesus e não, balbuciar palavras indecifráveis.

c) Multidão: simboliza o povo no deserto que recebeu as tábuas da Lei. No dia de Pentecostes, três mil pessoas estavam em Jerusalém. Não se trata aqui de uma cifra exata. A comunidade de Atos quis, com isso, afirmar que a comunidade dos convertidos era uma multidão, proveniente de doze povos e três regiões. Basicamente, estavam em Jerusalém três grupos: a) nativos do oriente (partos, medos e elamitas); 2) habitantes do leste (Mesopotâmia), norte (Ásia), sul (Líbia) e os da Judeia, Capadócia, Ponto, Frígia, Panfília e Egito; 3) estrangeiros (romanos, judeus e prosélitos, cretenses – povo marítimo – e árabes – povos do deserto). Curioso é o fato de que Lucas não menciona o território das igrejas paulinas (Síria, Macedônia e Grécia). Na menção aos povos, Roma está em último lugar. De onde Lucas herdou essa lista? Questão debatida. A lista dos vv. 9-10 Lucas herdou de uma fonte, mas a modificou, provavelmente. “Judeia” fora do lugar, no meio da Mesopotâmia e “Creta e arábia” parecem ser composição lucana.

d) Vendaval impetuoso: simboliza a manifestação de Deus. É a “violência” do Espírito que leva a comunidade a ser profética e missionária. Deus fala no Primeiro e Segundo Testamentos.

e) Estão cheios do vinho doce: essa acusação simboliza os que não estão abertos ao novo da comunidade cristã. Segundo os Rolos do Templo (Cf. FITZMYER, J., The Acts of the Apostles, The Anchor Bible, vol. 31, p.235.), gruta 11, os judeus de Qumrã celebravam três pentecostes: a) Festa das Semanas e do Novo Trigo (50 dias após a Páscoa); b) Festa do Novo Vinho (50 dias após a festa do Novo Trigo); c) Festa do Novo Óleo (50 dias após a Festa do Novo Vinho). Essa sequencia de festas nos mostra que, depois da Páscoa, de cinquenta em cinquenta dias, era celebrada uma festa. Sendo uma das festas a do Novo Vinho, podemos entender melhor essa zombaria no texto: “estão cheios de vinho doce”. Lucas pode ter conhecido múltiplos Pentecostes entre os contemporâneos Judeus e fez alusão ao Pentecostes do Novo Vinho, quando fala, mais propriamente, do Pentecostes do Novo Trigo.

f) Discurso de Pedro: Como Moisés, Pedro faz um discurso para fortalecer na fé os que aceitaram a proposta de Jesus e desmascara os que não estão dispostos a seguir o novo. Pedro, como liderança do grupo dos apóstolos, convoca a comunidade a acreditar em Jesus de Nazaré que foi morto e ressuscitou dos mortos por intervenção divina. Diante da reação atônita da comunidade, só resta a conversão para obter a salvação.

2. Evangelho (João 20,19-23): Pentecostes é a nova páscoa para os seguidores de Jesus, na paz e no anúncio do Espírito Santo.

A comunidade está reunida e com medo. O ressuscitado ultrapassa a barreiras físicas e aparece diante dela. Ele lhes diz: ‘a paz esteja convosco’. “Paz se diz em hebraico Shalom, o qual, por sua vez, tem sua origem no verbo Shlm que, no tempo verbal piel, significa pagar, devolver, ressarcir, indenizar, conservar. Da mesma raiz, o adjetivo Shalem significa estar completo, inteiro. Pagar em hebraico tem o sentido de completar o valor justo. É uma forma simbólica de completar o vazio deixado pelo objeto tirado. Quem compra e não paga mutila o outro. Paz é um eterno estar em harmonia com Deus, o outro e o universo. Os judeus acreditam que o Messias só virá, quando a justiça social estiver implantada em nosso meio. Jerusalém, a cidade (Yeru) da paz (Shalem), é protótipo desse sonho, dessa esperança. Jerusalém, em hebraico se escreve, na verdade, Ierushalaim. Duas vezes aparece o i (em hebraico yod), sendo que na segunda vez ele não é pronunciado, pois representa o nome de Deus, Iahweh. Os outros povos, não compreendendo o significado do i no nome dessa cidade santa, traduziram o seu nome para Jerusalém. O yod representa, para o semita, a esperança. E é nesse contexto que podemos entender a fala de Jesus: “Nem um i sequer será tirado da Lei” (Mt 5,18). A esperança de paz, de voltar ao tempo de Deus, jamais acabará para quem sabe esperar. Jesus pôde dizer Paz a vós, pois ele é a paz. A sua presença já é paz e esperança. Quando, na missa, saudamos o outro com a expressão paz de Cristo, desejamos que Cristo esteja dentro dele e que ele seja qual outro ressuscitado. A expressão “Paz de Cristo” reúne os elementos do ser completo, da harmonia e, mais do que isso, da presença duradoura de Deus transmitida por Jesus aos seus” (Cf. Faria, Jacir de Freitas, As origens apócrifas do cristianismo, comentários aos evangelhos de Maria Madalena e Tomé. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 2003, p.??).

Para as comunidades joaninas, Pentecostes, como dom do Espírito, se realiza na Páscoa. Jesus, na sua morte de cruz, entrega o Espírito (Jo 19,30). Jesus ressuscitado aparece aos discípulos e lhes oferece o Espírito Santo, como nos atesta o evangelho de hoje (v.22). A comunidade pascal é portadora da paz e da força do Espírito do Ressuscitado que deve ser levado ao mundo. Ela é sinal da ação do Espírito que faz passar da morte para a vida todo o universo. Por isso, Jesus envia a comunidade ao mundo, com a missão de reconciliá-lo com Deus, combatendo as forças do mal. A nova comunidade dos judeus cristãos é portadora do projeto de Deus para a verdadeira unificação do mundo. Esse segredo chama-se: páscoa do ressuscitado. Sua força é a mesma de Pentecostes: reunir a diversidade na unidade. O desafio da comunidade é abrir as portas da ‘casa’: sair de si para reconhecer no universo o “vendaval” do Espírito que tudo renova, tudo recria e que sopra onde quer.

3. II leitura (I Coríntios 12,3b -7.12-13): O Espírito, fonte de diversidade e de comunhão

Tendo aprofundado o caráter simbólico da solenidade de Pentecostes, nos deparamos com a segunda leitura de hoje, a qual é um desafio proposto à comunidade de Corinto, em meio às divisões que ela sofria. Paulo insiste na comunhão no mesmo Espírito, na diversidade de ministérios, atividades, raças, culturas e povos. Diversidade é sinal da riqueza do único corpo de Cristo e condição para a unidade. O Espírito distribui os dons e reúne tudo e todos em Cristo. Assim, todos devem ser responsáveis e contribuir para o crescimento da comunidade, o Corpo do Senhor. Essa unidade só é possível porque envolve três realidades: 1) a ressurreição de Jesus que reúne o corpo e a comunidade; 2) a força do Espírito que impulsiona esse corpo e 3) a diversidade de dons necessários à vida do corpo.

Na Comunidade de Corinto e nas de hoje, reconhecer Jesus como Senhor, título do Ressuscitado, é abandonar toda e qualquer divisão entre os irmãos. É ser sinal do amor de Deus para o mundo, deixando a energia do Espírito nos conduzir ao diferente, ao novo, manifestando a todos a vida que Deus dá. É o que expressa o prefácio litúrgico de Pentecostes: “…é ele quem dá a todos os povos o conhecimento do verdadeiro Deus e une, numa só fé, a diversidade das raças e línguas”. A unidade dos cristãos é um desafio constante para todos nós. É nesse espírito que somos convidados a viver a Páscoa do Senhor como fator de unidade entre todas as Igrejas e entre todo o gênero humano. Pentecostes, assumido pela tradição cristã como plenitude da Páscoa de Jesus, é a força capaz de nos fazer compreender e viver em profundidade o projeto universal de vida para todos. Faz-nos enxergar no diferente, e até no estranho, a força da vida divina. A vida nova em Cristo tem força “simbólica”, unificadora: supõe abandonar tudo o que divide, afasta e cria abismos na convivência humana e ecológica, para abraçar outra norma de vida: o amor que reúne, aproxima e refaz a convivência na humanidade. É o Espírito, força de vida e de unidade, o único capaz de nos conectar com todo o universo e com a fonte da vida.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

1. Demonstrar que o Espírito Santo é o coração palpitante que animou a vida das primeiras comunidades cristãs no anúncio do evangelho e na fé em Jesus ressuscitado. Somos herdeiros dessa fé intrépida que rompeu barreiras e ganhou o mundo.

2. Demonstrar que a grande mensagem de Pentecostes é a evangelização e não o falar línguas. A vivacidade de nossas comunidades é um exemplo de um novo Pentecostes acontecendo.

3. O Espírito de Deus em Pentecostes enche todo o universo e mantém unidas todas as coisas; gera novas relações na comunidade e no mundo; realiza a plenitude da Aliança do Sinai: o amor sem fronteiras.

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM é Padre franciscano, escritor, mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico, de Roma, especialista em evangelhos apócrifos, professor de exegese bíblica no Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA, em Belo Horizonte e em cursos de Teologia para leigos. Autor de uma centena de artigos. Autor e coautor de quinze livros, sendo o último: Infância apócrifa do menino Jesus. Histórias de ternura e travessura. Petrópolis: Vozes, 2010. Diretor Geral e Pedagógico dos Colégios Santo Antônio e Frei Orlando, ambos em Belo Horizonte.
Veja mais: www.bibliaeapocrifos.com.br

26 de maio de 2012

Espírito Santo segundo Dicionário Franciscano


Sem dúvida alguma espírito é uma das palavras-chaves da espiritualidade franciscana. Sua importância se revela já pelo fato de ocorrer 120 vezes nos escritos do santo. Um aspecto característico do termo – como de toda palavra-chave – é que parece exprimir toda a espiritualidade de Francisco, que se reflete na própria particularidade do termo. A linguagem exprime assim uma profunda intuição do santo a respeito das virtudes: “Quem possui uma não ofende as outras”. (SdVt 6). O motivo profundo de tal unificação interior deverá talvez aparecer claro no final de nosso estudo.

1. Análise textual: a) Deus é Espírito, por isso tudo aquilo que é de Deus (até a eucaristia e as virtudes infusas) só pode ser visto, percebido unicamente por meio do Espírito, como declara Francisco na Adm 1.5; b) como Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, aparece mais vezes em contextos trinitários, no qual a obra da salvação é considerada comum às três Pessoas:- é próprio do Espírito ser autor de todo bem e virtude; c) é por obra sua que Deus fixa morada na alma fiel; d) visto como E. de Nosso Senhor Jesus Cristo que habita os corações, faz com que se reconheça a proveniência de todo bem de Deus, dispõe a viver as suas santas obras, é desejável acima de qualquer outra coisa.

e) Existem expressões características de Francisco “na caridade do espírito”, “em obediência ao Espírito”, “a pobreza do Espírito”, “a vida do Espírito”, “a sabedoria do Espírito”; nelas a atenção é colocada naquele que é a fonte destas e de todas as virtudes e dons; ressaltando-se, portanto, a natureza da graça nestas atitudes; – outras expressões designam assim o servo de Deus e seguidor de Cristo que é, como ele, transformado pela ação divina e gratuita do Espírito, de posse da verdadeira sabedoria e vencedor da sabedoria da carne.

f) Com relação ao estudo e anúncio da Escritura, Francisco adverte quanto ao perigo da “letra” que mata, e que se busque e se siga “o Espírito da letra divina”, que significa também, neste contexto, deixar-se iluminar somente pelo E., que é o seu autor.
g) Várias vezes Francisco declara que as palavras de Cristo são “espírito e vida”, e, assim, também as “suas” palavras ou as dos teólogos; exprime com isso a sua certeza de que todos aqueles que recebem no Espírito a palavra divina são vivificados por Deus.

h) Muitas vezes Francisco lembra o sentido oposto, o “espírito (sabedoria) da carne” e o “Espírito do Senhor”, que distingue os “penitentes” daqueles que “não fazem penitência”.

i) O fruto do Espírito, que deve ser desejado acima de qualquer outra coisa, é a atitude de “adorar a Deus em espírito e verdade”, “com pureza de coração e de mente”, porque Deus é espírito.

_ A palavra “espírito” qualifica outros tantos aspectos da experiência franciscana: Francisco diz que o homem é criado à semelhança de Deus no Espírito, Deus forma os seus eleitos com o espírito de arrependimento: tanto no trabalho, como na pregação e na contemplação deve-se cuidar para não se extinguir o espírito da santa oração e devoção; deve-se desejar e buscar acima de qualquer coisa o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar; na oração, voz e espírito devem estar em consonância; – Todas estas expressões indicam uma relação sobrenatural com Deus.

j) E assim toda vez que aparece a palavra espiritual: amigos, irmãos e irmãs, amor entre irmãos espirituais, é no seu sentido do Espírito que é criador da fraternidade; – advérbio espiritualmente tem o mesmo significado, com mais evidëncia quando aparece contraposto a “viver carnalmente”, e é assim que a Regra deve ser entendida.

l) Francisco, nas suas orações marianas, coloca Maria num contexto trinitário bem
específico e como “esposa do Espírito Santo” mas também como ponto de partida da Igreja na graça das virtudes e dons que o Espírito Santo infunde nos corações; – ressalta a maternidade espiritual mariana na Igreja e na Ordem em relação a Cristo, que todo “fiel” pode gerar por obra do Esposo, o Espírito Santo; e indica como ministro da Ordem o Espírito Santo e como “paráclita”, advogada, Maria, enquanto esposa do mesmo.

2. Síntese doutrinal – De uma ampla análise emergem estes pontos teológicos: a) Francisco teve uma intuição profunda, mística de Deus Trindade como Espírito que dá vida; – b) a vida de Deus, no seio da Trindade, assim como também no mistério da salvação, é interpessoal; – c) e é uma vida sempre presente; – d) e age sempre em íntima união; – e) por causa desta concepção trinitária ocorre que nem sempre se entende bem a qual pessoa Francisco se refere quando usa as palavras Espírito ou Senhor; – f) mas a missão do Espírito aparece fundamental na atuação da vida cristã em sua íntegra; g) para Francisco a fonte única de todo bem, também no homem é somente Deus que, operando em nós, nos torna filhos, esposos, irmãos e mães; h) uma relevância especial é dada a Maria-Igreja em relação ao Espírito; i) entre as virtudes que Francisco considera infusas sobressaem-se como palavras-chaves: penitencia, pobreza, obediência, caridade, vida evangélica apostólica, seguimento de Cristo.

j) Fica claro que se pode atribuir ao Espírito um valor vital-central e unificante na espiritualidade franciscana: que Francisco parece sintetizar com a expressão possuir o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar”; por isso afirma que quem possui uma virtude possui todas, porque é o Espírito do Senhor o inspirador de toda a virtude.

3) Momento histórico e atual – É freqüente o uso desta palavra e adjetivos derivados na história franciscana, principalmente nos momentos de renovação, e, também na secular discussão acerca da interpretação da Regra. Para os “espirituais”, como Clareano, a observância espiritual é exatamente a literal; a história se desenvolveu em torno de duas interpretações: uma escrita, ligada às declarações pontifícias, e a outra que aceita também as dispensas pontifícias; – entre essas duas interpretações se encaixaram, ao longo dos séculos, os vários movimentos de reforma, em nome de uma leitura simples da Regra, mais como experiência genuína pessoal do que como mentalidade legalística;
e é o horizonte no qual se situam hoje as várias famílias franciscanas.

4) Momentos do Espírito na experiência das origens – É a ação do Espírito que faz dos frades “irmãos espirituais”, unindo-os num laço de amor mais profundo do que o próprio amor materno, pois é ele o “ministro geral da Ordem” e repousa igualmente sobre ricos e pobres, doutos e simples; e conduz os simples e os pequenos, como foi o caso de Francisco, ao conhecimento dos mistérios de Deus, nisto consiste a verdadeira sabedoria; – é o princípio dinâmico da vida da fraternidade; ele vivifica aqueles que na Palavra de Deus não buscam a “letra” e a autopromoção, mas uma luz para clarear o seu caminho e o dos outros, isto é, as santas obras; os frades devem deixar-se conduzir pela sua ação; – Francisco presta atenção especial à ação do Espírito, vive-a até o total despojamento de si; – a obediência ao Espírito torna os frades humildes, pacientes, alegres nas tribulações, verdadeiros servos de Deus e de todas as criaturas, e transforma o amor humano em ágape.

- No período da conversão, Francisco se deixa instruir pelo Espírito e opta pelas coisas amargas, que lhe são transformadas em doçura, e também Clara aprende dele esta mesma atitude de penitência; Francisco e Clara atribuem diretamente à inspiração divina a sua vocação ao seguimento de Cristo, segundo a forma do Evangelho; Francisco ressalta que só recebe dignamente a salvação e o corpo e sangue do Senhor aquele que o enxerga com os olhos do Espírito, na fé e no Espírito que habita nos fiéis; a busca do Espírito do Senhor, que é vontade de conversão, é o fundamento da CtFl, e por isso animação interior do Memoriale propositi, e também da nova Regra da OFS; aquele que acolheu como graça o seguimento de Cristo, e torna-se totalmente disponível à ação do Espírito; e, se torna espiritual”, pronto para refutar o “espírito da carne” e para conformar-se em tudo ao Senhor; e para tratar a si mesmo e aos outros com “discrição”, que é sabedoria e misericórdia; Francisco destaca a necessidade de “renascer”da água e do Espírito”que é anunciada “aos sarracenos”, quando assim o sugerir o Espírito aos seus frades missionários.

- Francisco chama Maria de “esposa do Espírito”, um título novo na tradição mariana; mas aplica este título também às clarissas e a todos os fiéis; por obra do Espírito, Maria é “consagrada”, é “virgem feita igreja”, tabernáculo e palácio do Senhor; e entra numa relação singular com a Trindade; e por isso Francisco, confiando-se ao patrocínio dela, quer imitar-lhe a vontade de acolhida, para conceber e gerar Cristo em si e nos homens. Assim, também a alma fiel entre em relação esponsal com o Espírito, que, com a sua presença e ação, lhe confere fecundidade e maternidade espiritual na Igreja e pela Igreja, participante da maternidade de Maria.; dom do Espírito ao mundo é também Francisco que, investido de sua força, se torna salvação, esperança e norma de vida segundo o Espírito, imagem de Cristo; inserido vitalmente no quadro da história da salvação, como ressaltam os hagiógrafos.

Dicionário Franciscano, Espírito Santo, espírito, espiritual – verbete 204-215

26/05 - Bem-aventurados Estêvão de Narbona e Raimundo de Carbona


Sacerdotes e mártires da Primeira Ordem (+1242). Aprovou seu culto o Papa Pio IX no dia 6 de setembro de 1866.

No início do século XIII, a situação da Igreja no Sul da França, especialmente na região de Toulouse, estava mais precária do que nunca devido à difusão da heresia dos albigenses. Em 22 de abril de 1234, Gregório IX nomeou William Arnaud, um dominicano de Montpellier, primeiro inquisidor na diocese de Toulouse e Albi, que, imediatamente começou a trabalhar diligentemente, encontrando sérias dificuldades. Raymond VII, conde de Toulouse, proibiu seus súditos de ter qualquer contato com o irmão William e seus companheiros inquisidores, colocando guardas nas portas dos conventos para que não recebessem nenhum alimento. Em 15 de novembro de 1235 foram expulsos da cidade todos os frades dominicanos, que saíram em procissão, cantando hinos sagrados. No ano seguinte, puderam retornar ao seu claustro, mas o ódio dos hereges contra os inquisidores cresceu e causou tumultos.

Raimundo de Alfar, de Avignonet, uma pequena cidade a poucos quilômetros de Toulouse, decidiu acabar com isso. Fingindo amizade e reconciliação, convidou Frei William e dez companheiros para o seu castelo e depois os levou a uma sala, fazendo-os prisioneiros. No dia 29 de maio de 1242, véspera da Ascensão do Senhor, tarde da noite, centenas de albigenses com espadas, machados e facas invadiram a cidade e seguiram direto para o castelo. O traidor Alfar Raymond abriu as portas para eles, que logo chegaram à sala onde estavam os religiosos. Quando chegaram, os religiosos compreenderam que havia chegado o momento do martírio.

Nenhum fugiu, mas todos, de joelhos, cantaram o “Te Deum”. Após a oração, os albigenses, como hienas ferozes, atiraram-se sobre as vítimas inocentes, que caíram como cordeiros mansos. Em seus lábios, só tinham palavras de oração e perdão: “Senhor, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.” Deus glorificou o heroísmo de seus mártires. No lugar do martírio e em seus túmulos aconteceram milagres. A crueldade foi implacável, principalmente contra Frei William, que teve a língua cortada.

Entre os 11 mártires havia também dois irmãos franciscanos: Santo Estêvão de Narbona e Raimundo Carbonario de Carbona.

Estêvão nasceu em Saint Thibery, na diocese de Maguelonne, na França. Sendo ainda jovem, tornou-se um monge beneditino, para seguir a regra de São Bento “Ora et labora” (oração e trabalho). Também foi abade de um mosteiro perto de Toulouse. A mensagem deixada em seu tempo por São Francisco, a vida pobre, humilde e simples dos Frades Menores, o zelo evangélico e apostólico dos primeiros santos e mártires o impressionaram profundamente que ele pediu a seus superiores para fazer parte do nova Ordem. Como San Antônio, no mesmo século, deixou a Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho para se tornar um franciscano, ele deixou a Ordem dos Monges Beneditinos para ser Irmão Menor. Homem culto e santo, trabalhou duro para defender a fé contra os erros dos albigenses. Com dez companheiros, incluindo o seu confrade Raimundo de Carbona, corajosamente deram suas vidas por amor a Cristo com o martírio de decapitação. Os Bem-aventurados Estêvão e Raimundo foram enterrados em Toulouse, na igreja dos Frades Menores.

Fonte: “Santos franciscanos para cada dia”, de Frei Giuliano Ferrini e Frei José Guillermo Ramírez, OFM, edição Porziuncola.