30 de junho de 2012

OS ÍCONES E AS IMAGENS (2ª parte)

Frei Vitório Mazzuco Fº

OS ÍCONES E AS IMAGENS III

Os Ícones revelam a espiritualização da matéria como reflexo da Encarnação, o revelar-se de Deus no Universo. Usavam material natural porque acreditavam que tinham dentro de si bem combinadas as energias divinas e terrenas que influenciavam as substâncias vegetais e minerais. Pintar um Ícone era efetuar uma transformação da matéria, é recuperar uma visão sacramental do mundo.

Não é uma mera arte ou tarefa ligar cores, mas sim criar a irradiação do reino divino, cujo símbolo maior, no mundo físico é a Luz. A luz e suas cores simbolizam o princípio da unidade dentro da multiplicidade. Por exemplo, nos Ícones a veste que toca o corpo venerável irradia energia e luz.
Há, também, no Ícone a sutil geometria das formas puras: curvas (círculo), verticais e horizontais (quadrado) e diagonais (triângulos). Elas estão entrelaçadas em um conjunto harmonioso. É a linguagem da geometria sagrada.

Aparece o nome da pessoa sagrada. A palavra faz parte integrante do desenho e parte essencial da linguagem visual.

Os dedos e mãos também tem significado especial: abençoam, rezam e apontam para Deus. Os rostos não são retratos comuns, mas descrevem a presença divina no ser humano. As cabeças nunca são pintadas de perfil, pois a Palavra de Deus deve ser recebida face a face. O alto da cabeça tem forma aproximada de um círculo, que é o símbolo da perfeição, concórdia, totalidade do que é santo, Deus.

A arcada superciliar forma uma ponte sobre o topo do nariz, e os olhos são moldados com cuidado para se harmonizarem com os contornos da cavidade ocular. A linha do septo nasal termina em uma ponta oval e é contínua com as narinas. A parte inferior da orelha está sempre descoberta, pois a pessoa está ouvindo.

OS ÍCONES E AS IMAGENS IV

Numa figura santa que representa a pessoa iluminada, os cinco sentidos são simbolicamente representados e se interrelacionam. Os ouvidos ouvem a Palavra de Deus, o nariz sente seu perfume, a boca a louva, as mãos apontam para a sua Beleza, Bondade e Verdade e os olhos contemplam o mistério.

O Ícone mostra uma versão cósmica de eventos vistos na eternidade e, portanto, é indiferente à transitoriedade do tempo. O espaço é concebido como uma série de níveis metafóricos no mundo do espírito.

A Iconografia é uma arte teológica que consiste na visão e no conhecimento de Deus. Deve ser fiel ao mundo visível e também a Deus, que não pode ser reduzido à representação. Nem a arte nem a teologia podem criar um Ícone sem a dupla responsabilidade: ser fiel ao mundo visível e também fiel a Deus, que não pode ser reduzido à representação. O Ícone é o resultado de uma longa tradição de meditação e elaboração de aperfeiçoamento de técnicas de pintura e possui rica teologia de formas e cores estreitamente relacionada com outras formas de teologia. Os temas vêm das verdades da fé e não podem ser sujeitos à especulação intelectual. O Ícone revela a realidade espiritual que está além de toda expressão verbal.

Neste mundo absorto em si mesmo, o Ícone ensina a receptividade do outro mundo como segredo da felicidade e nos convida a criar uma visão interior; muitos Ícones usam cumes de montanha como símbolo de elevação e proximidade de Deus e a porta como lembrete de revelação. Ele mostra diversos níveis da existência. Expressam o progresso da alma.

EXTRAÍDO DE: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/

29 de junho de 2012

29/06 - São Pedro e São Paulo


A liturgia comemora São Pedro e São Paulo, os dois grandes Apóstolos da primeira comunidade cristã, como mestres e confessores da fé. Esta solenidade é uma das mais antigas da Igreja, sendo anterior até mesmo à comemoração do Natal. Já no século IV havia a tradição de, neste dia, celebrar três missas: a primeira na basílica de São Pedro, no Vaticano; a segunda na basílica de São Paulo Fora dos Muros e a terceira nas catacumbas de São Sebastião, onde as relíquias dos apóstolos ficaram escondidas para fugir da profanação nos tempos difíceis.

E mais: depois da Virgem Santíssima e de são João Batista, Pedro e Paulo são os santos que têm mais datas comemorativas no ano litúrgico. Além do tradicional 29 de junho, há: 25 de janeiro, quando celebramos a conversão de São Paulo; 22 de fevereiro, quando temos a festa da cátedra de São Pedro; e 18 de novembro, reservado à dedicação das basílicas de São Pedro e São Paulo.

O Papa Bento XVI apresenta Pedro e Paulo como “fundamentos da Igreja”: “Os dois Santos padroeiros de Roma, mesmo tendo recebido de Deus carismas e missões diferentes, são ambos fundamentos da Igreja una, santa, católica e apostólica, permanentemente aperta à dinâmica missionária e ecuménica”.

Antigamente, julgava-se que o martírio dos dois apóstolos tinha ocorrido no mesmo dia e ano e que seria a data que hoje comemoramos. Porém o martírio de ambos deve ter ocorrido em ocasiões diferentes, com são Pedro, crucificado de cabeça para baixo, na colina Vaticana e são Paulo, decapitado, nas chamadas Três Fontes. Mas não há certeza quanto ao dia, nem quanto ao ano desses martírios.

A morte de Pedro poderia ter ocorrido em 64, ano em que milhares de cristãos foram sacrificados após o incêndio de Roma, enquanto a de Paulo, no ano 67. Mas com certeza o martírio deles aconteceu em Roma, durante a perseguição de Nero.

Há outras raízes ainda envolvendo a data. A festa seria a cristianização de um culto pagão a Remo e Rômulo, os mitológicos fundadores pagãos de Roma. São Pedro e são Paulo não fundaram a cidade, mas são considerados os “Pais de Roma”. Embora não tenham sido os primeiros a pregar na capital do império, com seu sangue “fundaram” a Roma cristã. Os dois são considerados os pilares que sustentam a Igreja tanto por sua fé e pregação como pelo ardor e zelo missionários, sendo glorificados com a coroa do martírio, no final, como testemunhas do Mestre.

São Pedro é o apóstolo que Jesus Cristo escolheu e investiu da dignidade de ser o primeiro papa da Igreja. A ele Jesus disse: “Tu és Pedro e sobre esta pedra fundarei a minha Igreja”. São Pedro é o pastor do rebanho santo, é na sua pessoa e nos seus sucessores que temos o sinal visível da unidade e da comunhão na fé e na caridade.

São Paulo, que foi arrebatado para o colégio apostólico de Jesus Cristo na estrada de Damasco, como o instrumento eleito para levar o seu nome diante dos povos, é o maior missionário de todos os tempos, o advogado dos pagãos, o “Apóstolo dos Gentios”.

São Pedro e são Paulo, juntos, fizeram ressoar a mensagem do Evangelho no mundo inteiro e o farão para todo o sempre, porque assim quer o Mestre.

A Igreja também celebra hoje os santos Judite, Ema e Anastácio

28 de junho de 2012

OS ÍCONES E AS IMAGENS (1ª parte)

OS ÍCONES E AS IMAGENS I



Frei
Vitório Mazzuco Fº

“Eu vi, escreveu São João Damasceno, a imagem humana de Deus e minha alma está salva”



Imagem: São Lucas, ícone russo do século 18

A arte é essencialmente forma; para que uma obra de arte seja qualificada de arte sagrada não basta que seus temas derivem de uma verdade espiritual; é necessário que sua linguagem testemunhe e manifeste a sua origem. Toda forma transmite uma qualidade de ser. Os ícones querem ser um instrumento de oração e contemplação.

Ícone (do grego eikon) quer dizer imagem. O mundo da arte entende como figura artística. O mundo religioso compreende como pintura religiosa, quase sempre em retábulos de madeira, de origem bizantina, grega ou russa. Grandes ou pequenos os ícones, na liturgia oriental desempenham um papel mais significativo e forte do que as imagens do rito romano do ocidente. Assim como se acredita que os santos exercem poderes benéficos para o que crê, assim também os Ícones governam todos os acontecimentos importantes da vida humana e são considerados poderosos instrumentos de graça.

Uma antiga tradição descreve São Lucas como o primeiro pintor de Ícones. São atribuídos a ele vários Ícones primitivos da Virgem e o Menino. Há Ícones que o descrevem em frente ao cavalete com um Anjo guiando-lhe a mão. Esta tradição revela que os Ícones são contemporâneos aos Evangelhos.

Os Ícones mais antigos são do século I a.C ao Século II d.C, são retábulos remanescentes do período Greco-romano; em sua maioria encontrados no povoado de Fayum, no delta do Nilo, no Egito. E estes Ícones já vão caracterizando um estilo: cabeças do tamanho natural, pinturas naturalistas, expressão vigorosa do rosto para idealizar espiritualmente.
Os Ícones mais antigos que chegaram até nós vêm do mosteiro de Santa Catarina, no monte Sinai, e de outras localidades do Egito. São dos séculos V e VI. São pinturas feitas com têmpera de ovo e cera para ligar as cores. Pinturas feitas por pessoas profundamente religiosas sob a direção de um mestre. Havia um ritual de bênção para se iniciar o trabalho, pois estava presente a consciência que seria um objeto de veneração especial dos fiéis. Ao serem levados para o templo, os Ícones também recebiam uma bênção especial, o que lhe conferem o direito de ter um lugar apropriado no santuário. Na liturgia oriental os Ícones são incensados, levado em procissão e venerados pelos fiéis. Nos lares ocupam lugares especiais.

OS ÍCONES E AS IMAGENS II



Bizâncio (hoje Istambul), Alexandria, Antioquia e Éfeso são cidades que se tornaram grandes centros culturais e fizeram evoluir a arte cristã primitiva que usava a linguagem dos símbolos, a narrativa veterotestamentária e a reinterpretação de imagens pagãs. Há uma força espiritual gerada pelos grandes Concílios dos primeiros séculos que debateram e definiram diversos dogmas da fé cristã. O Concílio de Éfeso proclama a virgem Maria como Theotókos, Mãe de Deus.

Houve um excesso de veneração que fez surgir a grande controvérsia Iconoclasta que agitou o oriente de 725 a 843. O que era o Iconoclasmo ou os Iconoclastas. Os que quebravam imagens. Em 726, os imperadores Leão III e Leão V proibiram o uso de imagens e ordenaram que fossem retiradas de lugares públicos e que fossem destruídas. O motivo era que as imagens se transformavam em ídolos e qualquer representação de Cristo em particular separava sua humanidade e sua divindade.



É de São João Damasceno (625-749) em sua obra: “Primeira Apologia contra os que atacam as imagens divinas”, que vem a afirmação que os Ícones nos relatam em figuras o que os Evangelhos nos contam em palavras. É uma teologia visual ou as Sagradas Escrituras em quadros.

O Ícone nunca pode ser uma pintura subjetiva, pois deve identificar-se e estar ligado com uma tradição. Pintar é uma disciplina de dedicação e humildade. Os que o faziam jejuavam e faziam exercícios espirituais em preparação para o trabalho. Iconógrafo significa alguém que escreve, não pinta Ícones. A técnica do desenho assemelha-se à da caligrafia. A imagem precisa ser moldada por meio de configurações sutis e padrões geométricos.

Imagem: Ícone da Virgem de Vladimir - Séc. XII

EXTRAÍDO DE: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/

27 de junho de 2012

REFLEXÃO : "Viver"

“Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.
Clarice Lispector.


Entender, muitas vezes, pode ter sentido de racionalizar (trazer ao plano raciona), como algo que pode ser medido, demonstrado cientificamente. Essa é apenas uma vertente do seu significado. Entender pode ser também a capacidade de perceber, sentir, tocar, emocionar… De qualquer maneira, viver é muito mais do que qualquer conceito, seja ele racional ou emocional. É algo grandioso demais para ser explicado com meras palavras.

Viver é dom, é sentir e perceber a vida como ela é. Viver é ser gente, pessoa, humano… Daí que a poetisa nos convida ao essencial, ao que é mais importante: fazer de cada momento uma eternidade, ver numa gota de orvalho o mundo inteiro, perceber e vivenciar a emoção de cada encontro, perde-se de amor por alguém mesmo sabendo que pode não durar muito… Viver é amar o tempo precioso da travessia e alegrar-se muito mais com a viagem do que com a chegada!

Frei Paulo Sérgio

26 de junho de 2012

Especial - Santa Clara de Assis 800 anos.O viver das irmãs em São Damião


Estamos nos abeirando das comemorações dos oitocentos anos do carisma clariano que serão celebrados de modo particular da cidade de Canindé (CE), nos dias 9 a 11 de agosto de 2012. Fernando Felix Lopes, português, escreveu uma das encantadoras biografias de São Francisco que conheço. Deu-lhe o título de O Poverello. São Francisco de Assis (Ed. Franciscana, Braga, 5ª. ed, 1996). No intuito de nos colocar no espírito das comemorações clarianas transcrevemos umas poucas páginas deste autor que nos falam da vida das irmãs em São Damião e dos últimos dias daquela que se definia como “plantinha” do Seráfico Pai. Os leitores não encontrarão novidade alguma, mas poderão saborear o jeito charmoso português de dizer as coisas mais simples da vida. (Frei Almir Guimarães)

O que foi o viver das irmãs ali recolhidas em São Damião, não é fácil de contar. A Regra de vida era o Evangelho, nem Francisco soubera ditar outra.

Com as rezas, o trabalho para o pão de cada dia. E nos casos em que o trabalho não dava, sentavam-se a comer, à “mesa do Senhor”, a caridade da esmola pedida de porta em porta. O ideal poeticamente exemplificado por Francisco nas avezinhas do céu e nos lírios do vale, traduziram-no as freiras em forma comum de viver.

Clara aos pobres mandara distribuir seu patrimônio, e as outras irmãs de modo semelhante procediam. Professavam a pobreza absoluta que liberta a alma, a desamarra do egoísmos que prendem e dos cuidados que consomem. Clara, a pobrezinha, era o modelo; quando Francisco a olhava, com certeza, via nela o rosto da madona Pobreza.

O único privilégio que desejou dos Papas foi o privilégio de não ter nada. Quando o requereu a Inocêncio III, na chancelaria pontifícia nem sabiam como redigir o documento para satisfazer tão insólito e original pedido.

Esses passos da Regra escrita por Santa Clara e aprovada pelo Papa na véspera da sua morte, deixam-nos entrever a devoção com que ali se adorava Sóror Pobreza, que São Francisco fizera a sua dona.

“O Altíssimo Pai celeste se dignou alumiar o meu coração para que, seguindo o exemplo e doutrina de nosso bem-aventurado Pai (S. Francisco), fizesse penitência; pouco depois da sua conversão, juntamente com minhas irmãs voluntariamente lhe prometi obediência. E vendo o bem-aventurado Pai que nenhuma pobreza nem trabalho, nem tribulação, nem desprezo do mundo temíamos, mas antes com grande contentamento levávamos estas coisas, movido de piedade nos escreveu forma de viver em esta maneira: Porque, por inspiração do Senhor, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo e Sumo Rei o Pai celeste, e por graça do Espírito Santo destes de viver segundo a perfeição do santo Evangelho, quero e prometo, por mim e por meus frades, sempre ter de vós, como deles, cuidado diligente e especial solicitude.”

“E assim como fui sempre solícita, juntamente com minhas irmãs, em seguir a pobreza que prometemos ao Senhor e ao bem-aventurado São Francisco, assim observem as abadessas que depois de mim vierem: a saber, que não recebam nem tenham possessões ou propriedades por si nem por interposta pessoa, nem qualquer outra coisa que possa chamar-se de propriedade, se não somente quanta terra se requer para honestidade e conserto do mosteiro, e essa terra não se lavre como horta para as necessidades das irmãs”.

Quarenta anos ali viveu Clara. O coração anda-lhe cheio do Evangelho. Tanto, que é nele que São Francisco procura alumiar de certezas os caminhos da vida, nas horas aflitas de suas dúvidas. Vem-lhe o desassossego ao coração, e já não sabe que mais agrade ao Senhor: se a recolhida oração longe do mundo, se o apostolado entre os homens. Por sua ordem vai Frei Masseu ler no coração de Santa Clara os desígnios da Providência e torna com a resposta: – “Vai pelo mundo anunciar aos homens o Reino dos céus”.

Por longe, outros mosteiros vão surgindo a recolher donas e donzelas que trocam as riquezas e os gozos do mundo pelas alegrias simples do Evangelho. Clara traduz para o feminino os ideais largos e viris do Poverello, e no seu pobrezinho mosteiro de São Damião é ela o modelo e forma de vida que todas procuram imitar.

A piedosa caridade doméstica, esta virtude que muitos, em família, julgam cumprir borrifando de fel a vida de todos, praticava-a com requintes de ternura: as ocupações mais humildes da casa eram para ela momentos de oração, lavava os pés das irmãs serventes quando chegavam dos trabalhos por fora, cuidava das enfermas, nas noites frias do inverno andava solícita a agasalhar as irmãs, era ela quem despertava à noite para matinas, e ela mesma acendia as luzes das escadas e espevitava a lâmpada da capela. Doente desde os trinta e um anos, nunca perdeu o hábito do trabalho, nunca amaciou os rigores da pobreza, nunca perdeu a coragem nem a alegria de viver.

Em 1228, o papa Gregório IX vem a São Damião a teimar com ela para que amenize os rigores da pobreza, e oferece-lhe rendas para sustentar o mosteiro. Recusa com vigoroso respeito as solicitudes do papa; e quando este lhe propõe que se os escrúpulos lhe vêm do voto que fizera, dele a desliga dispensando-a, ei-la que responde: – “Santo Padre, desligue-me dos meus pecados, isso lhe peço; agora de seguir até à morte o Cristo pobre, de tamanho favor não desejo dispensa”.

Em setembro de 1240, os sarracenos dos exércitos imperiais, passando por Assis, escalam os muros do mosteiro. Clara levanta-se de seu leito de enferma, manda às irmãs que lhe tragam a custódia com o Santíssimo Sacramento, e todas de joelhos, implora ela: -“Guarda, Senhor, este pequenino rebanho que os lobos assaltam, pois eu já não o posso defender”. E Jesus responde: “Sossega, filha, que sempre o guardarei”. E os sarracenos fogem em debandada.

Um ano depois, Vital de Anversa torna com os exércitos imperiais a sitiar Assis, - “Muitos benefícios devemos à nossa cidade, é agora o tempo de lhos pagar”, diz Clara. Cobre-se de cinzas todas as irmãs com ela; jejum a pão e água, sem outra coisa a comer, e ferventemente imploram a proteção de Deus para a cidade aflita. E no outro dia Vital levanta o cerco e retira com seu exército.

No leito da agonia, trazem-lhe a bula de Inocêncio IV a aprovar a Regra e a Pobreza. Pega dela e beija-a. Uma alegria imensa lhe inunda o rosto. À sua volta Frei Junípero, Frei Ângelo e Frei Leão são ali a presença de Francisco que há muito voara para o céu. - “Que notícias me trazes de Deus?” pergunta a Frei Junípero. E o frade simples, o jogral do Senhor, tem nos lábios palavras divinas que mais lhe enchem de alegria o coração.

É a hora extrema. Sente que a alma começa a ausentar-se: – “Vai segura, tens bom guia para a caminhada. Quem te criou, Ele mesmo te santificou e te amou mais do que a mãe ama o o seu filhinho. Bendito, Senhor por me haveres criado!”

Era 11 de agosto de 1252 quando a sua alma partiu nos braços da morte, a cantar louvores ao Senhor que lhe dera a vida.

24 de junho de 2012

24/06 - NATIVIDADE DE JOÃO BATISTA


Ele se chamará João, isto é, “Deus se mostrou misericordioso”


Por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM (*)

I. INTRODUÇÃO GERAL

Celebrando, hoje, a natividade de João Batista, a igreja relembra a importância desta personagem para o cristianismo. O nascimento de João batista foi testemunhado pela tradição como um evento importante (Lc 1,5-25.57-80). Seu pai, Zacarias, estando a exercer suas funções sacerdotais no templo, recebe o anúncio de um anjo de que a sua mulher Isabel, idosa e estéril, conceberia e daria à luz um filho, a quem ele poria o nome de João. Deus promete alegria com o nascimento de João, pois o menino seria um consagrado – um nazireu, daí a proibição de dar-lhe vinho ou bebida embriagante -; estaria sempre cheio do Espírito Santo; converteria os filhos de Israel e teria o espírito e o poder de Elias, o profeta que subiu ao céu em um carro de fogo e que, segunda a tradição, voltaria antes da visita de Deus (Eclo 48,9-11). Zacarias, tendo duvidado de tudo isso, tornou-se, naquele instante, mudo e surdo. João nasceu em um lugarejo chamado Ain Karim, naquele tempo, distante oito quilômetros de Jerusalém, hoje, bairro desta cidade.

As leituras deste domingo nos ajudam a compreender o papel de João e sua relação com o ministério de Jesus, seu primo. Aliás, a natividade de João Batista só pode ser entendida no ciclo dos evangelhos da infância de Jesus. As histórias são parecidas: um anjo também aparece para Maria, que não era estéril, mas virgem. Assim como Zacarias, Maria duvida. Deus promete o seu Espírito. Bem como Zacarias, Maria teria a obrigação de colocar um nome em seu filho.

II. COMENTÁRIOS DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Lucas 1, 57-66.80): João, ao ser circuncidado, recebe o nome predito e a missão de profeta e precursor

O evangelho inicia dizendo que chegara o tempo de Isabel dar à luz. Parentes e vizinhos se alegram ao ouviram dizer que Deus a havia cumulado de misericórdia. Para Deus nada é impossível (Lc 1, 36-37). Em tempos bíblicos, a esterilidade era considerada uma desonra e um castigo (Gn 30,23; 1Sm 1,5-8; 2Sm 6,23). Várias mulheres estéreis dão à luz para demonstrar que Deus “abriu a sua madre”, de modo que ela voltasse a ser fecunda, assim como a terra que faz germinar a semente. Isabel é uma dessas mulheres, tal como Sara, a esposa de Abraão (Gn 21,6), que riu ao receber o anúncio divino e gerou um filho, Isaac, que significa “aquele que ri’.

Oito dias após o seu nascimento, João teria de ser circuncidado. A comunidade de Lucas valoriza muito o rito da circuncisão de João. Em relação a Jesus, ele apenas diz que foi circuncidado e recebeu o nome de Jesus (Lc 1,21), pois o mais importante seria ressaltar o seu nascimento em Belém (Lc 2, 1-20). Já em relação a João, é relatada a dificuldade em decidir pelo nome do menino. Muitos queriam que ele recebesse o nome do pai, Zacarias – Deus se lembrou – , pois esse já era velho e não haveria motivo de confusão das pessoas. Nesse momento, sem saber, o anjo já havia revelado o nome do menino para seu marido, Isabel toma a palavra e diz que o seu filho se chamaria João, Yohanan, que significa: Deus (Y de Yavé) tem misericórdia (hanan). A bem da verdade, Deus teve misericórdia com o velho casal e lhe deu um dom, um presente, chamado João.

O nome significava a essência e a missão da pessoa. Ele até podia mudar. Abrão (pai elevado) torna-se Abraão (pai de muitos). Não por menos, ao nome de João foi acrescentado Batista, aquele que batiza. João batizou Jesus, que mais tarde também se chamaria Cristo, o ungido. João, mais tarde, seria testemunha da misericórdia de Deus, ao chamar o seu povo para a conversão, de modo que Deus pudesse agir com misericórdia. Misericórdia não teve, no entanto, o impiedoso Herodes Antipas que mandou decapitá-lo (Mc 6, 17-29).

O episódio do nome termina com Zacarias dando a palavra final, escrevendo em uma tabuleta: “seu nome é João”. Logo em seguida, Zacarias voltou a falar e todos se maravilhavam com o ocorrido. Da boca de Zacarias veio o anúncio da ação de Deus em João, o protegido e símbolo da gratuidade de Deus para com seu povo, por meio de um canto de ação de graças chamado de “Benedictus” (v.68-79). Como a jovem Maria que, inspirando-se no canto de Ana (1Sm 2,1-10), louva a Deus, o velho Zacarias rende louvores a Deus pelo nascimento de seu filho, e acrescenta: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo; pois irás à frente do Senhor, para preparar-lhe os caminhos, para transmitir ao seu povo o conhecimento da salvação, pela remissão de seus pecados” (vv. 76-77). O canto, parte final de nosso evangelho de hoje, termina dizendo que o menino, fazendo forte alusão a outro menino, Jesus, crescia e se fortalecia em espírito. Além disso, ele moraria no deserto até o dia em que se manifestou a Israel (v.80).

Essa manifestação, como cumprimento da profecia, aconteceu por volta do ano 20 E.C., no chamado movimento batista, que ele mesmo começou no deserto da Judeia e à beira do rio Jordão. João anunciava o batismo e a conversão dos pecados para obter o perdão. O batismo na água colocava as pessoas em relação direta com Deus. Não eram mais necessárias as práticas rituais do templo de Jerusalém. Assim, os batistas se tornaram perigosos para a ordem judaica estabelecida a partir do templo. João conclamava o povo a ir ao deserto, o que, simbolicamente, retomava a figura de Moisés e o êxodo. E do deserto, de novo, o povo entraria na terra da promessa, perdoados e batizados, para destruir o império romano. Assim, o movimento de João Batista tornou-se perigoso também para o império romano. A destruição romana viria por mãos de Deus, Aquele que vem. Herodes Antipas, prevendo uma rebelião de João contra Roma, mandou decapitá-lo. João foi um crítico do poder e por isso foi assassinado, não necessariamente por questões morais, ao criticar o relacionamento amoroso de Herodes Antipas e Herodíades, a mulher de seu irmão Filipe (Mc 6, 17-29).

2. I leitura (Is 49,1-6): João é a luz que aponta a luz definitiva, Jesus

A primeira leitura de hoje, tirada do livro do profeta Isaías, ou melhor, o segundo Isaías, que escreve no fim o exílio babilônico (587-536 a.E.C.), propondo aos deportados um projeto de vida nova, baseado em uma releitura, no presente, dos valores antigos. Israel se tornaria luz para os estrangeiros. Chamemos a esse projeto de “Luz das Nações” (Is 49,6), o qual teve o seu apogeu entre os anos520 a445 a.E.C..

A nossa primeira leitura fala também de um servo escolhido por Deus, desde o ventre materno, para ser luz e guia do povo de Israel e de todas as noções. E é neste sentido que podemos aplicar o espírito do texto a João, de quem celebramos o nascimento. Ele foi escolhido para ser luz e apontar a luz definitiva para todos, o Salvador e messias Jesus.

2. II leitura (At 13,22-26): João é o precursor do messias

Nesta leitura, Paulo, pregando para os judeus, relembra a figura de João Batista, como proclamador de um batismo de arrependimento, em preparação à vinda do messias. Paulo lembra que João não se deixa ser confundido com o messias. Ele virá, afirma, “de quem não sou digno de desatar a correia da sandália” (v. 25; Jo 1,27). João aqui é o precursor do messias.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

1. Demonstrar que o nascimento de João Batista significa um novo tempo de fecundidade para a comunidade de Lucas e para nós, hoje. Não há mais como ficarmos estéreis, surdos e mudos. Chegou o tempo do anúncio da palavra de misericórdia e de libertação de Deus.

2. Deixar claro que, ainda hoje, “os caminhos do Senhor devem ser abertos” por todos nós, quais outros Joões Batistas, que nascem para anunciar a vida nova. Para que isso se concretize, só nos resta a constante conversão, o rompimento com o erro, de modo que possamos renascer e aderir ao projeto de Jesus.

3. João somos todos nós quando nascemos para o reino. Somente assim tem sentido celebrar a natividade de João, o nascimento de uma igreja voltada para a justiça social.

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM é Padre franciscano, escritor, mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico, de Roma, especialista em evangelhos apócrifos, professor de exegese bíblica no Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA, em Belo Horizonte e em cursos de Teologia para leigos. Autor de uma centena de artigos. Autor e coautor de quinze livros, sendo o último: Infância apócrifa do menino Jesus. Histórias de ternura e travessura. Petrópolis: Vozes, 2010. Diretor Geral e Pedagógico dos Colégios Santo Antônio e Frei Orlando, ambos em Belo Horizonte.
Veja mais: www.bibliaeapocrifos.com.br

23 de junho de 2012

REFLEXÃO : Sentido da vida


“Aquilo que na vida tem sentido, mesmo sendo qualquer coisa de mínimo, prima sobre algo de grande, porém isento de sentido”.
C. G. Jung.


O termo sentido pode ser um substantivo, um adjetivo ou até uma interjeição. Como substantivo pode ser uma das formas de receber as sensações que nos advém do mundo exterior, um significado, uma explicação, uma acepção ou uma orientação. Jung fala do sentido da vida, ou seja, daquilo que vale a pena, que dá gosto, que tem sabor… Se nossa existência é grandiosa, mesmo na simplicidade e no anonimato, será valiosa e saborosa!

O amor é o sentimento mais profundo e mais divino que trazemos em nós. Ele será sempre o combustível para encontrarmos o sentido de nossos afazeres, de nosso cotidiano, de nosso trabalhos, de nossos sonhos… Uma vida sem sentido leva as pessoas à depressão e à tantas patologias psíquicas que trazem sofrimento, frieza, rigidez. Somente o calor do amor pode aquecer os corações gelados e trazer luz para as almas tíbias…

Tenha uma abençoado e iluminado fim de semana. Que o amor seja a base e o fundamento de seus sentimentos!

Frei Paulo Sérgio

22 de junho de 2012

REFLEXÃO : Qual a sua missão?

“Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos”.
Albert Einstein.


A abertura da mente proporciona buscas, permite caminhos impensados, possibilita aventuras… Nosso destino está em nossas mãos: somos nós que fazemos a vida mais bela ou mais triste, o mundo melhor ou pior. São nossas escolhas e nossos compromissos que transformam a sociedade, que proporcionam soluções, que cria a beleza onde a tristeza impera. E tudo isso se faz quando juntamos fé e esforço em nossa jornada humana.

O humano está pré-destinado ao crescimento, à evolução, à plenitude. O céu está diante de nós para ser conquistado, para fazê-lo acontecer aqui na Terra. E o céu se faz quando rompemos com a casca dura do egoísmo, quando saímos de nossas trincheiras, quando deixamos de fazer guerras… O céu acontece quando vamos ao encontro das pessoas, quando abraçamos, quando perdoamos, quando criamos solidariedade e fraternidade. Você já pensou na missão que Deus tem pra você?

Lembre-se: seu destino está em suas mãos… Então, viva sua vida com intensidade e alegria. Seja feliz, hoje!

Frei Paulo Sérgio

19 de junho de 2012

REFLEXÃO : "Pensar"

“Você não poderá resolver os problemas que tem hoje pensando da mesma maneira que você pensava quando os provocou” .
A. Einstein.

Pensar não é somente construir elucrubações mentais, mas permitir que idéias possam surgir a partir de questões. As questões é que movimentam a arte de pensar, pois das interrogações é que surgem as possibilidades de soluções. Pensar é abrir a mente, permitir que conjecturas aconteçam dentro de nós. Pensamos quando buscamos soluções que melhoram a vida e trazem esperança para as pessoas.

Nesta verdadeira arte nos renovamos a cada amanhecer, pois as respostas de ontem já não valem mais para hoje. É preciso recomeçar sempre de novo nesta saga infinita de crescer, evoluir e transcender. Quem está nessa busca quer sempre voar na direção do infinito, pois não se conforma com aquilo que é pequeno, que aprisiona, que limita… Quem pensa, quer sempre ir além e levar muitos consigo!

Frei Paulo Sérgio

18 de junho de 2012

18/06 - São Godofredo de Merville

Sacerdote e mártir em Gorcum, da Primeira Ordem (1512-1572). Canonizado por Pio IX no dia 29 de junho de 1867

Godofredo nasceu em 1512 em Merville, cidade da França setentrional na margem esquerda do rio Lys. Quando ainda jovem abraçou a vida franciscana na Ordem dos Frades Menores. Fez o noviciado e cumpriu o processo formativo requerido, foi ordenado sacerdote. Exerceu o ministério sacerdotal com zelo e fervor. Foi logo enviado ao convento de Gorcum, onde dedicou sua vida ao ministério da penitência.

Foi também sacristão e cuidou do culto divino e da devoção, sobretudo, à Eucaristia e à Virgem Maria. Outra coisa digna de observar na vida de São Godofredo era seu amor pela pintura. De seu pincel saíram numerosas imagens sacras que ele presenteava as famílias pobres.

Sofreu o martírio em Gorcum no dia 9 de julho de 1572 quando tinha 60 anos.

Os Mártires Gorcumienses (ou mártires de Gorcum) foram um grupo de dezenove religiosos católicos mortos em 1572 na cidade holandesa de Gorcum.

Os mártires de Gorcum, por Cesare Fracassini (1838–1868).

Em 1572, durante a guerra dos oitenta anos que os rebeldes holandeses mantinham contra a Espanha para realizar sua independência, a iconoclasia se estendia pelas dezessete Províncias dos Países Baixos; a luta entre luteranos e calvinistas mantinha o país em um estado de intransigência com a liberdade de culto religioso. Em abril de 1572, os mendigos do mar, corsários holandeses de confissão calvinista, tomaram Brielle, Flandres e outras cidades da zona, até então em poder da coroa espanhola. Em junho, Dordrecht e Gorcum caíram também em suas mãos.

Nesta última cidade prenderam vários religiosos: Nicolás Pieck, franciscano; Jerónimo de Weert, vigário; Teodoro de Eem, de Amersfoort; Nicasio Janssen, de Heeze; Willehald da Dinamarca; Godofredo de Melveren; Antônio de Weer; Antônio de Hoornaert; Francisco van Rooy; Padre Guillermo; Pedro de Assche; Cornelio de Wyk de Duurnstende; Fray Enrique; João de Oisterwljk, agustinho; Pontus van Huyter, administrador da comunidade.

A estes quinze se aderiram mais tarde outros quatro: João de Hoornaer, chamado João de Colônia, dominicano; Jacobo Lacops de Oudenaar, norbertino; Adriano Janssen de Hilvarenbeek e Andreas Wouters de Heynoord.

Após serem torturados na prisão de Gorcum entre 26 de junho e 6 de julho foram trasladados a Brielle. No dia seguinte, Guilherme II de la Marck, líder dos mendigos do mar, ordenou o interrogatório do grupo.

Foram instigados a abandonar a fé católica e a retirar sua obediência ao Papa, ao que eles se recusaram; só Pontus van Huyter e Andreas Wouters aceitaram, liberando-se assim da morte; Guilherme de Orange enviou uma carta em que pedia às autoridades competentes liberar os religiosos, mas a mesma chegou depois que tinham sido torturados e executados no dia 9 de julho de 1572.

Foram beatificados pelo papa Clemente X em 1673 e canonizados por Pio IX em 29 de junho de 1865. Sua festividade se celebra em 9 de julho, data da morte do grupo.

Sua história foi reconhecida por Guillermo Hessels van Esten em sua “Historia Martyrum Gorcomiensium”, publicada en Douai en 1603.

Do livro “Santos Franciscanos para cada dia”, edição Porziuncola.

15 de junho de 2012

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus - Um coração do tamanho do mundo


Solenidade do Sagrado Coração de Jesus
Oséias 11, 1.3-4.8-9; Efésios 3, 8-12.14-19; João 19, 21-37

Olharão para aquele que transpassaram (Jo 19,37).

O calendário da Igreja assinala a passagem da solenidade do Amor de Deus feito coração aberto, esvaziado, despojado. Contemplamos hoje, uma vez mais, o lado aberto do Redentor.

Nada mais oportuno do que começar esta meditação com as belíssimas palavras do Prefácio da Missa: “Elevado na cruz, entregou-se por nós com imenso amor. E de seu lado aberto pela lança, fez jorrar com a água e o sangue, os sacramentos da Igreja para que todos, atraídos ao seu coração, pudessem beber com perene alegria, na fonte salvadora”.

Oséias, na primeira leitura, coloca nos lábios de Javé palavras de compaixão que bem se casam com a festa de hoje, solenidade do amor sem medida. O Senhor lamenta a falta de atenção do povo que ele amava: “Eu os atraía com laços de humanidade, com laços de amor; era para eles como quem leva uma criança ao colo e rebaixava-me a dar-lhes de comer. Meu coração comove-se no íntimo e arde de compaixão” (11, 4-8).

Êxtase diante do amor crucificado e feito peito aberto. As almas sensíveis crescem no amor de Deus, no desejo dele, quando se empenham em compreender a altura, a largura e comprimento do amor de Deus. Procuram momentos de recolhimento para agradecer e levantam-se para tornar amado o Coração dilacerado do Redentor. Ou seja, contemplação do amor daquele que teve o peito aberto e desejo de anunciar esse amor até o fim…

“Conheci uma pessoa que, embora chorando por não amar a Deus como quereria, de tal forma o amava que seu espírito era constantemente presa do veemente desejo de que Deus nela encontrasse sua glória, ela mesma era como nada (…) . Pelo imenso desejo humilde, nem pensava em sua dignidade, apesar de servir a Deus… Pela intensa vontade de amar a Deus, começou a esquecer-se de seus títulos, ocultando na profunda caridade para com Deus, pela humildade de espírito, a glória de sua posição, a ponto de sentir-se sempre servo e inútil, indiferente a seu valor, ansiando pela humildade” (Dos Capítulos sobre a perfeição espiritual, de Diádoco de Foticéia).

Os discípulos do Senhor querem progredir no caminho da santidade. Não aceitam parar na mesmice e na mediocridade. Diádoco de Foticéia fala de uma pessoa de desejo ( quase certamente reflexões de autobiografia ) de que Deus encontrasse nela sua glória. Desejo… palavra mágica para que os cristãos ganhem novamente o fervor do primeiro amor. Desejo de amar aquele que nos amou por primeiro. Resposta de amor. Ora, precisamente a festa do Coração de Jesus é apta a nos levar ao ardor e ao fervor, sem “melosidade” nem sentimentalismo. Se o coração de Deus se comove e quer levar a amada para o deserto, nada mais normal que acolhamos esse amor e o transformemos em missão. Sim, Oseias havia falado do coração de Deus que arde de compaixão.

O primeiro a nos amar foi o Senhor e nós respondemos ao seu gesto como o desejo do amor. Clara de Assis, estupefata diante do aniquilamento do Senhor, de sua beleza pobre no presépio, diante daquele que com caridade inefável quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa escreve palavra ardentes a Inês de Praga: “Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó Rainha do rei celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas, proclame suspirando com tamanho desejo no coração e com tanto amor: Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor de teus bálsamos, ó esposo celeste! Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, até que a tua esquerda esteja sobre a minha cabeça, sua direita me abrace toda feliz, e me dês o beijo mais feliz de tua boca” (Quarta Carta a Inês, 27-32).

Estamos no campo do conhecimento experimental e amoroso de Deus a partir dessa convivência com o Esposo. Na epístola aos cristãos de Éfeso, Paulo descreve admiravelmente esse conhecimento: “… que o Senhor faça habitar Cristo em vossos corações e “tereis assim a capacidade de compreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura, a profundidade, e de conhecer o amor de Cristo que ultrapassa todo conhecimento, a fim de que sejais cumulados até receber toda a plenitude de Deus”.

A solenidade do Coração de Jesus é um apelo a que respondamos com amor o amor derramado em nossos corações. Não podemos nos contentar com um aparato exterior em nossas reuniões cristãs. O amor do Coração nos leva a viver um fraternismo fraterno, a dinâmica do perdão e tomar a decisão de levar uma vida para os outros e para o Outro. A única coisa que vale a pena é o amor.

Belíssima a oração do dia: “Concedei, ó Deus todo poderoso, que, alegrando-nos pela solenidade do Coração do vosso Filho, meditemos as maravilhas de seu amor e possamos receber, desta fonte de vida, uma torrente de graças”.

Frei Almir Ribeiro Guimarães: http://www.franciscanos.org.br/n/

14 de junho de 2012

Francisco de Assis e o apelo evangélico


O Evangelho do envio dos apóstolos pelo mundo afora

Temos refletido, ao longo deste ano, em vários encontros que Francisco de Assis foi realizando no intuito de esclarecer sua vocação e discernir seu caminho. Hoje vamos surpreendê-lo encontrando-se com o Evangelho na capelinha de Nossa Senhora dos Anjos da Porciúncula. Que estas reflexões ajudem a ver nosso caminho no hoje do mundo e da Igreja.

1. Lá vai ele, esse Francesco da cidade de Assis. O coração dava muitas voltas dentro de seu peito. Não era mais o filho de Pietro Bernardone e de Dona Joana. Era e não era. Estava mudado e transformado. Melhor dizendo: estava se transformando. A borboleta ainda não tinha saído completamente do casulo. As pessoas se davam conta do processo de mudança. Francisco, fazendo sua caminhada… viajou até os cantos mais recônditos de seu interior, deu hospitalidade ao Espírito. Ficou meio pensativo… beijou um leproso… se vestiu de trapos para sentir na carne a dureza da pobreza e de ser um pedinte de esmolas. Homens bons e retos de Assis vinham ter com ele querendo viver sua vida… mas ele se sentia meio perdido. Na verdade o que Deus estava querendo dele?

2. Francesco, meio dançarino, meio poeta, meio criança entra na capela de Nossa Senhora dos Anjos. Um sacerdote idoso celebra a Missa e lê o Evangelho da missão: os apóstolos são convidados a irem pelo mundo a fora, a não se instalarem no templo, a irem anunciar a Boa Nova, sem calçado, sem títulos, formulando votos de paz, anunciando a liberdade do Evangelho. Francesco já usa as roupas de ermitão e caminha com um cajado… Agora, ele vê seu caminho, ou seja, ser andarilho, pregador ambulante, ele e seus irmãos, dois a dois. Leves, lépidos sem o peso de estruturas, sem organizações burocráticas. Com seus vinte e poucos anos, Francisco vai se tornar o homem totus evangelicus. O Evangelho passava a tomar conta dele, até o fim, até o morrer nu na terra nua, ali mesmo nesta abençoada capela da Senhora dos Anjos. Ele pode dizer com toda veemência: “É isto que eu quero, isto que busco de todo o meu coração. Agora está claro: eu serei com minha vida e minha história, junto com meus irmãos o anunciador do Evangelho, fascinados pelo Cristo que nos manda pelo mundo à maneira dos apóstolos”.

3. Eloi Leclerc, de maneira muito feliz, comenta esse encontro de Francisco com o Evangelho: “Certamente, naquela manhã de 1208, Francisco não tinha consciência do alcance de sua descoberta para o futuro da Igreja; quando seu coração se tinha iluminado com a claridade do Evangelho que ouvira. Não pensa nos hereges, nem nas cruzadas que o Papa projeta contra eles. Quer apenas responder pessoalmente ao apelo do Senhor. Realiza algo de imenso alcance ao tomar ao pé da letra o Evangelho que acabara de ouvir. Compromete-se em trilhar um caminho novo que possibilitará o encontro do Evangelho com o novo mundo das comunas (…) Numa cristandade solidamente instalada e caracterizada pelo imobilismo do sistema feudal, tal Evangelho soa estranhamente como apelo à mobilidade, à vida itinerante. Os discípulos são convidados a se porem a caminho e a percorrerem o mundo, à maneira dos mercadores da época. Era preciso ser comerciante ou filho de comerciante para ouvir esse apelo em sua novidade e atualidade. Ao ouvir esse convite, Francisco sente que o seu próprio corpo pede uma resposta. Só tem um desejo: quer partir, apressadamente quer percorrer o mundo, “com passos grandes e paradisíacos”, no dizer de J. Delteil. Numa Igreja que carrega o imenso peso de suas imensas propriedades de terra, que tem calçados de chumbo, Francisco reencontra a leveza e a alegria da caminhada, a exultação da juventude, a impaciência alegre do mensageiro. No mesmo instante, arranca-se de toda instalação territorial, rejeita todo domicilio fixo e todo feudo. Rompe com o sistema político-religioso de seu tempo, o do “senhorio” da Igreja e dos “benefícios”. Redescobre o Evangelho como movimento de Deus para os homens. Reencontra a missão” (E. Leclerc. Francisco de Assis. O Retorno ao Evangelho, p. 51-52).

4. Ali começaria a aventura franciscana. Os frades abriram as portas da prisão em que haviam colocado o Evangelho. Soltaram o Evangelho. Nada de peso de estruturas. O Evangelho é um convite a desinstalação. Nada de carga, mas leveza. Leveza semelhante à dança. Abrir os braços para acolher a vida e levá-la adiante. Os peregrinos e os viandantes encontram sua vocação na página do Evangelho lida na Porciúncula e veem concretizada na vida dos franciscanos que são pessoas que respeitam as leis da sociedade e as orientações da Igreja mas são diferentes. Rezam como Jesus e Francisco. Aproximam-se as pessoas não com desejo de enquadrá-las em estruturas fixas e esterilizantes. Mesmo quando não se deslocam fisicamente os franciscanos, as clarissas e os membros da Ordem Franciscana Secular são andarilhos em seu interior. Nada está acabado. Há descobertas a serem feitas. O Espírito anda soprando de uma maneira diferente. Esses franciscanos que gostam dos eremitérios, gostam de dar uma de Marta e de Maria, mas estão presentes no meio dos catadores de papel, dos alunos de uma universidade, na pastoral para fazer dele uma ação evangelizadora, respeitando etapas, sempre preparando os caminhos para a chegada do Senhor.

5. Fernando Uribe, OFM, comentando o encontro de Francisco com o Evangelho frisa o modo do ir pelo mundo, ou seja, sem nada que dificulte o caminhar velozmente e plena liberdade, sem que os cuidado terrenos entorpeçam a completa dedicação à tarefa de anunciadores do Reino. Estas disposições vão aparecer na Regra da Ordem Primeira: espiritualidade da desinstalação, da desapropriação, de pobres que são instrumentos de Deus no mundo. O Senhor havia revelado a Francisco que ele devia viver conforme o Evangelho. Para que mais?

Para continuar a reflexão

Encontro com o Evangelho na Porciúncula

1 Celano 22

Legenda dos Três Companheiros 25

Para refletir em grupo

Ler Mateus 10, 5-16 – Missão e envio dos doze

O que significa seguir e viver o Evangelho? Como os franciscanos hoje podem reencontrar o Evangelho? Seria nossa missão apontar para o Evangelho? Como?

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/n/

8 de junho de 2012

Especial - Santa Clara de Assis 800 anos.O coração de Clara



Frei Orlando Bernardi

O capítulo VI da Regra de Santa Clara não é apenas o coração da Regra como tal, mas é também o coração de Clara. Encontra-se aí não apenas o seu projeto como discípula e plantinha de Francisco, mas aí está a Clara por inteiro com o projeto, com o privilégio da pobreza e com a espiritualidade proveniente do abraçar a Cristo pobre e crucificado para, numa resposta de amor, devolver-se a Cristo “que todo se entregou por amor” (3ªCt 15). Esse capítulo nada tem de jurídico, mas tem muito de autobiográfico ao descrever o início dessa caminhada espiritual. Tudo começa com um chamamento para a conversão, para o encontro e para a união nupcial definitiva. Porque “não temiam nenhuma pobreza, trabalho, tribulação, humilhação e desprezo do mundo” Francisco, por sua vez, se compromete com elas: “quero e prometo … ter sempre por vós diligente cuidado e especial solicitude como tenho pelos frades” (RSC 6,4). O Poverello chega a esse comprometimento porque percebera que tanto Clara como suas irmãs, por inspiração divina, se fizeram filhas e servas do altíssimo e sumo Rei, o Pai celeste, e haviam desposado o Espírito Santo, ao escolher viver segundo a perfeição do santo Evangelho (RSC 6,3). Essa afirmação sintetiza uma das formas de vida que deram origem a um novo modelo espiritual e de comportamento que marcou, sem dúvida, a Idade Média desse período. Essa forma de vida é em tudo semelhante à dos frades, discípulos do mesmo Francisco, diferenciando-se apenas na formulação, quem sabe, para caracterizar o estilo itinerante deles e o estilo contemplativo delas. Aqui não se fala de pobreza, mas, simplesmente, se afirma em seguir a forma do santo evangelho para eles e seguir a perfeição do santo evangelho para elas.

No dia-a-dia de ambos, Francisco e Clara, esse evangelho foi sendo assumido, meditado e ruminado até se tornar estilo vivente e transformador. A pobreza aparece e se transforma em vida porque a vida pobre de Cristo a manifesta em todos os momentos. Em dia nenhum seus olhares perdem de vista a inteira vida de Jesus, tal como é apresentada no evangelho: a humildade, as fadigas, os sofrimentos demonstram a pobreza assumida pelo Verbo. Daí que a forma e a perfeição do evangelho indicam, em concreto, o modelo de vida escolhido por eles: seguir em tudo o Cristo pobre e crucificado. Por isso Clara acrescenta ainda com destaque o outro texto de Francisco que ela transcreve nesse capítulo: “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a pobreza de nosso altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe santíssima e perseverar nela até o fim; e rogo-vos, senhoras minhas, e dou-vos conselho para que vivais sempre nesta santíssima vida e pobreza. E estai muito atentas para, de maneira alguma, vos afastardes dela por doutrina ou conselho de alguém” (RSC 6,7-9).

Para se entender com exatidão o significado do compromisso de Francisco e Clara de seguir a forma e a perfeição do santo evangelho, é preciso não esquecer que se trata de dois leigos, com estudos medianos, que optam por um modelo de vida totalmente fora dos padrões vividos então. Há quem encontre em seus textos referências à Escritura Sagrada, porém, há também textos como o Testamento que não possuem referências bíblicas, contudo transpiram evangelho. O empenho de ambos em serem fiéis ao modelo do evangelho não provém dos estudos, mas da oração e da meditação transformadas em vida. Se Francisco afirma que ninguém lhe revelou o modelo, mas que foi inspirado pelo Altíssimo, isso significa que não foi assumido sem antes tê-lo descoberto, tê-lo meditado e tê-lo transformado em vida. A originalidade não está na escolha do evangelho como modelo, mas em tê-lo transformado em ações concretas ou em vida. Daí que seguir os passos de Jesus não é consequência, mas escolha diária e entrega constante. A lógica que passa, então, a dominar suas vidas não é a dos critérios que se apresentam no cotidiano da vida social, mas os do “altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua mãe santíssima” (RSC 6,7). É por isso que alguém sem titubear escreve “que a experiência do evangelho proposta por Francisco (e Clara), sua reflexão e consequente prática, permanecem como um unicum no panorama da história religiosa do Ocidente cristão” (MICCOLI, G., in Storia d’Italia, Dalla caduta dell’Impero romano al secolo XVIII, p. 738). Quando o autor do Sacrum Commercium apresenta Francisco em busca da Dama pobreza, não significa que não a tenha encontrado, mas ele está em busca dela para estabelecer com ela morada, intimidade, fraternidade e convivialidade. Está, portanto, em busca de um mais e de um acréscimo. Tudo isso é o que respira esse capítulo VI da Regra de Santa Clara.

7 de junho de 2012

CORPUS CHRISTI (7 de junho) - Celebração de Cristo Eucarístico na sacramentalidade da comunidade que se reúne



Por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM (*)

I. INTRODUÇÃO GERAL

Em muitos lugares do Brasil, hoje, multidões se aglomeram para celebrar a festa do Corpo e Sangue de Cristo, que em latim se diz Corpus Christi. Esta celebração foi instituída na igreja pelo decreto do papa Urbano IV, em 1264, no qual se afirma que a data deveria ser numa quinta-feira, sessenta dias após a páscoa cristã, de modo que fosse feita a memória da instituição da eucaristia por Jesus. Dessa forma, Corpus Christi tornou-se uma celebração de caráter devocional, uma vez que a verdadeira festa da eucaristia da igreja é aquela que se celebra na noite da quinta-feira santa, quando se celebra a memória da instituição da eucaristia.

Na sua origem, a festa de Corpus Christi veio da religiosa agostiniana e, mais tarde, santa, Ir. Julian de Mont Cornillon. Conforme se difundiu na Europa, esta religiosa teve uma visão divina, na qual se exigia que se incluísse no calendário da igreja uma festa anual para comemorar o sacramento da Eucaristia. Tudo começou em 1230, na paróquia de Saint Martin, em Liège, Bélgica, onde se realizou uma procissão eucarística no interior da igreja. Dezessete anos mais tarde, ela foi para as ruas e tornou-se festa nacional na Bélgica. Em 1264, essa celebração do “triunfo eucarístico” ganhou expressão mundial, sendo celebrada nas ruas, como desejava o papa. O Concílio de Trento (1545-1563) – em resposta a Lutero que negava a transubstanciação como modo de explicar a presença real de Cristo na eucaristia – de certo modo, incentivou tais manifestações para fazer frente às ideias de Lutero.

Até Trento, muitas discussões e polêmicas foram travadas em torno da compreensão da “presença real” de Cristo na Eucaristia e o modo como este sacramento era celebrado. Como é sabido, no início do cristianismo, uma das dimensões mais acentuadas da Eucaristia era a da ação de graças da comunidade que se reunia para atender ao preceito do Senhor de celebrar a memória de sua morte e ressurreição.

Na baixa idade média, o acento recai sobre o caráter milagroso, quase mágico, da “consagração” do pão e do vinho, desvinculado do conjunto da prece eucarística. Aqui, a dimensão de ceia pascal (comer e beber juntos) cede à de adoração: basta ver a hóstia consagrada e adorá-la! Vale recordar que nesta época, a grande maioria dos fiéis não comunga mais durante a missa. Inclusive o termo “comunhão espiritual” adveio dessa compreensão reducionista do mistério da eucaristia. Não foram poucos os fieis que receberam a comunhão eucarística apenas como viático, ou seja, momentos antes da morte. Desta feita, em compensação, expandiu-se rapidamente o costume de se promover grandes celebrações devocionais de adoração do Santíssimo Sacramento, incluindo solenes procissões.

A teologia pós-Concílio Vaticano II, sem renegar a dimensão sacrificial da eucaristia, recupera sua dimensão de ceia pascal, de memorial da paixão e morte de Cristo. Novamente o acento recai sobre a importância dos fieis reunidos que, comungando do corpo e sangue de Cristo em cada celebração eucarística, buscam conformar suas vidas no corpo eclesial de Cristo. Não é à toa que na segunda epiclese da prece eucarística se pede que, comungando do corpo e sangue de Cristo todos se tornem um só corpo. Em outras palavras: a comunidade celebra a eucaristia para, cada vez mais se tornar um autêntico corpo eclesial. Para que isto aconteça é indispensável que os participantes da celebração comam do mesmo pão e bebam do mesmo cálice, transubstanciados no corpo e sangue do Senhor e, assim, formem com Ele um só corpo.

As leituras que ouvimos, hoje, nos oferecem os fundamentos bíblicos para a nossa fé na Eucaristia como presença real de Cristo no pão e no vinho, alimentos da comunidade que deseja se tornar um verdadeiro corpo eclesial. Vejamos.

II. COMENTÁRIOS DOS TEXTOS BÍBLICOS

Evangelho (Mc 14,12-16.22-26): Eucaristia: Jesus se oferece como alimento e sangue derramado

A comunidade de Marcos, assim como as de Mateus, Lucas e Coríntios – Mt 26,26-29; Lc 22,15-20; 1Cor 11,23-26 -, relataram o fato de Jesus celebrar a páscoa com os seus discípulos, da qual se originou a Eucaristia. No evangelho de hoje, chama a atenção o fato de Jesus pedir a dois de seus discípulos que fossem se encontrar com um homem que levava uma bilha em direção à casa de outro homem. O número dois representa, na visão judaica, o testemunho. Quem lê o texto entende que é verdadeiro o fato que será descrito. O homem, dono da casa, não é pobre. Sua casa tinha dois andares. Jesus tinha gente de bem entre seus amigos e aliados. Com esse homem, Jesus já tinha acertado tudo antes. A descrição tem um tom de suspense, visto que estamos em contexto de traição de Judas e de iminente paixão e morte de Jesus.

Testemunhos relatam que as comunidades se reuniam aos domingos para uma “ceia do Senhor” ou para a “fração do pão”. Tratava-se de uma ceia especial de memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus, fazendo uso do pão e do vinho, como nos atesta o evangelho de hoje, mas também do peixe. Para os judeus, o peixe expressava a dimensão escatológica e messiânica. Para os cristãos, ele relembrava a pessoa de Jesus, visto que do substantivo peixe em grego – ichthys -, se formava o título dado ao mestre: “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”. O nome Eucaristia, substituindo ceia do Senhor e fração do pão, apareceu somente entre os anos 90 a 110 E.C.

Jesus tomou o pão e disse: “Tomai, isto é meu corpo”. Tendo nas mãos uma das taças de vinho que os judeus tomavam na ceia pascal, no caso, aquela tomada depois da refeição, Jesus disse: “Isto é o meu sangue”. Jesus se oferece como alimento (pão) e sangue derramado em favor de muitos. O pão é o sustento da vida comunitária. O sangue, na visão judaica, representava a vida (Deus). Daí a intuição antiga de não doar sangue. Vale recordar que, como nos atestam os evangelhos, no início de sua trajetória de paixão, Jesus, no monte das Oliveiras, rezava, e o seu suor era semelhante a gotas espessas de sangue que caíam por terra (Lc 22,44). Jesus, ao derramar lágrimas de sangue, se torna qual um novo Adão, devolvendo ao ser humano o paraíso perdido, por causa da transgressão de Adão. Agora, no momento de sua última refeição, diante dos(as) seus(suas) discípulos(as), Jesus volta a demonstrar que o seu sangue, que deverá ser bebido pelos seus seguidores, é redentor.

Em Lc, após esse gesto com o pão, Jesus acrescenta: “Fazei isso em minha memória” (Lc 22, 19). A Eucaristia tem, então, um sentido memorial da aliança feita com Deus, no passado, com o seu povo, atualizada na morte redentora e pascal de Jesus e projetada para o futuro, na vida do cristão que a celebra (Cf. BOROBIO, Dionísio (org.), A celebração na igreja, vol. 2, São Paulo: Loyola, 1993, p.162-163). Eucaristia é presença sacramental que continua depois da celebração litúrgica, que atualiza o sacrifício pascal.

1. I leitura (Êx 24,3-8): Aliança com Deus selada em uma refeição e com aspersão do sangue

Para compreendermos ainda mais a dimensão da Eucaristia no Segundo Testamento, observemos os elementos que Ex 24,3-8 nos oferecem e que são relidos no contexto eucarístico. Moisés reúne o povo e lhe diz todas as palavras que Deus lhe revelou; fez um altar; criou condições para a comunidade oferecer um sacrifício de comunhão e, por fim, aspergiu o altar e o povo com o sangue do sacrifício, após ler o livro da Aliança. A esse sangue, Moisés chamou de sangue da Aliança que Javé tinha feito com o povo.

Nesse relato, haveremos de notar elementos que se relacionam com celebração eucarística cristã, tais como: comunidade reunida; sacrifício de comunhão; sangue da Aliança.

2. II leitura (Hb 9,11-15): Releitura teológica do sacrifício de expiação dos judeus em Cristo

O tema que inspira a reflexão teológica dessa leitura se encontra no Primeiro Testamento, em Levítico 16, onde se descrevem as atitudes que deveriam ser tomadas pelo sumo sacerdote, na festa da Expiação dos pecados do povo: vestes especiais, banhos, tipos de animais, entrada no Santo dos Santos para intermediar pelo povo.

A carta aos Hebreus é clara ao afirmar que Cristo ressuscitado é o novo sumo sacerdote que atravessou a tenda maior e mais perfeita, entende-se: com a sua ascensão, ele voltou para a presença de Deus. Ademais, Jesus não precisou oferecer sacrifício para si, mas ele mesmo tornou-se um sacrifício para todos nós. A sua oferenda não é o sangue dos animais, mas o seu próprio sangue, o que nos concede a libertação definitiva. “Cristo, por um Espírito eterno, se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima sem mancha. Ele há de purificar a nossa consciência das obras mortas para que prestemos um culto ao Deus vivo” (v.14).

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

1. Levar a comunidade a perceber que a Eucaristia, além de ser celebração do sacrifício de Jesus na cruz é, também, memória desse evento salvador. Quem vai à missa não o faz por sacrifício pessoal, nem por obrigação, mas em atenção ao mandato de Cristo de celebrar o seu memorial: “Fazei isto em memória de mim”.

2. Demonstrar que a “presença real” de Cristo na Eucaristia se dá, também na comunidade reunida, que celebra o sacrifício de Cristo, faz sua memória, o proclama ressuscitado, rende graças a Deus e se associa a Ele. Portanto, jamais podemos separar os sinais sacramentais do corpo e sangue Cristo da sacramentalidade da comunidade que se reúne, pois o que se pede durante a prece eucarística é que comungando destes dons, ela (a comunidade) se torne um corpo eclesial.

3. A adoração do Santíssimo Sacramento ganhou forte impulso depois do Concílio de Trento, como uma resposta da igreja a Lutero que acreditava na “presença real” de Cristo somente durante a celebração eucarística. Para nós católicos, Jesus continua presente na reserva eucarística e é previsto o culto eucarístico fora da missa. Contudo a própria Igreja orienta como se deve fazê-lo, para que não haja desvios e práticas devocionais equivocadas.

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM é Padre franciscano, escritor, mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico, de Roma, especialista em evangelhos apócrifos, professor de exegese bíblica no Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA, em Belo Horizonte e em cursos de Teologia para leigos. Autor de uma centena de artigos. Autor e coautor de quinze livros, sendo o último: Infância apócrifa do menino Jesus. Histórias de ternura e travessura. Petrópolis: Vozes, 2010. Diretor Geral e Pedagógico dos Colégios Santo Antônio e Frei Orlando, ambos em Belo Horizonte.
Veja mais: www.bibliaeapocrifos.com.br

6 de junho de 2012

Oração, fonte de espiritualidade

Ao longo dos números de 2012 estamos tentando refletir sobre as fontes da vida espiritual. No número precedente fizemos uma longa reflexão a respeito da oração. Precisamos ainda nos debruçar sobre o tema da conversão e do seguimento de Cristo entre os outros. Continuamos, neste número, a tecer algumas considerações ainda sobre o tema da oração. Desejamos transcrever aqui, nesta leitura espiritual, alguns testemunhos sobre a difícil e belíssima aventura da oração.


1.
Começamos com um pensamento do cardeal Martini, antigo arcebispo de Milão e incentivador de grupos seletos de Leitura Orante da Bíblia em sua diocese: “A oração é, antes de tudo, resposta à Palavra de Deus que, por primeiro me interpela e me atinge em minha fraqueza, mas também no meu silêncio e na minha capacidade de escuta. A oração é deixar-se acolher pelo mistério santo indo pelo Cristo, no Espírito, rumo ao Pai. Mais do que rezar a um Deus estranho e longínquo, o cristão reza em Deus, reza escondido com Cristo na Trindade, fonte e germe de vida. Então, quando rezares, antes de pensar que és tu que amas a Deus, deixa-te amar por ele, docilmente, cegamente, abandonando-te totalmente a ele, tudo lhe confiando, num espírito de louvor e de ação de graças. Comigo, pergunta a ti mesmo: será que eu encontro momentos em que me coloco face a face com Deus, ouvindo-o e abrindo-me a ele? (Carta Pastoral de 1996). Rezar é deixar-se acolher pelo Mistério. Onde? Na vida, de modo especial na ruminação dos salmos, na meditação antes da aurora explodir, nos dias de retiro que sejam efetivamente de retiro, na tentativa de instaurar grupos sólidos de leitura orante da Palavra.

2. Na linha da escuta da Palavra e oração, um pensamento do Ministro Geral dos Frades Menores: “Se rezar é entrar em relação pessoal com Deus, escutá-lo, far-lhe-a agir segundo Deus na Escritura, o Pai que está nos céus vem carinhosamente ao encontro de seus filhos e com eles fala. Se rezar é responder a Deus depois de tê-lo escutado, na proclamação ou leitura da Palavra o escutamos e lhe respondemos quando devolvemos a Deus a palavra que ele mesmo nos entregou. Se rezar é fazer a experiência de encontro com o Senhor, toda a Sagrada Escritura é uma história de encontros: a grande epopeia do encontro de Deus com os homens e do homem com Deus” (Fr. José Rodriguez Carballo, OFM. Guiados pela Palavra/ Mendicantes de Sentido, n. 12). Ora, o discípulo que ama o Senhor vive na frequência e na persistência desses encontros suculentos com a Palavra no mistério da oração. E na oração responde aos sinais amorosos do Esposo.

3. No dia a dia da vida, o homem não está espontaneamente em consonância com o Senhor. A vida interior cristã é muito mais do que um fenômeno psicológico, de experiência ou contágio de massa, uma exacerbação nervosa da voz e dos gestos. A compreensão definitiva da oração vem da frase lapidar de Paulo aos Gálatas: “Deus enviou aos nossos corações o espírito de seu Filho, que clama: ‘Abba! Pai’ (Gl 4,6)”. Para entrar e perseverar na vida de oração temos que ter a convicção de sermos habitados pelo Espírito que clama, murmura, inspira, respira, intercede e adora no coração humano. A oração é tarefa do Espírito que habita em nós e no coração da Igreja. Michel Hubaut, refletindo sobre a oração de São Francisco, assim escreve: “O Espírito Santo ocupa um lugar importante nos escritos de São Francisco que falam com frequência das “visitas” do Senhor” e da “inspiração” de Deus. Para ele, a vida de oração não é em primeiro lugar alguma coisa que faço, mas uma presença que recebo. Presença que é mais poderosa do que nossos pobres esforços ou sentimentos humanos, que não depende da riqueza de nosso vocabulário nem de nossas formas de viver. As biografias de Francisco estão pontilhadas de expressões chaves como as seguintes: “Movido e fortalecido pelo Espírito”, “no fervor do Espírito”. O segredo da fecundidade de sua vida apostólica e contemplativa é, sem dúvida alguma, sua disponibilidade à ação do Espírito em seu interior. Boaventura escreve: “Toda sua vida interior foi hospitalidade total ao Espírito, uma perfeita docilidade a seus ensinamentos” (cf. Michel Hubaut, El camino franciscano, Estella (Navarra), 1984, p. 54).

4. Sim, não se trata de praticar uma oração mecânica, formal, legalista. Homens e mulheres que vivem no mundo, religiosos contemplativos, consagrados preocupados com a evangelização, entramos na movimento do Espírito. Simples, sinceros, fraternos vivemos em comunidades ou fraternidades e vamos nos esvaziando de nós mesmos e deixando de lado acertos que mais são desacertos e esperamos juntos, na humildade e na confiança, que o Espírito que vive em nós possa nos apontar para o amanha da paróquia, da vida consagrada da Igreja. O Espírito Santo abriu os horizontes de Francisco para um porvir imprevisto. Desperta-se em Francisco uma faculdade interior e ele descobre: o homem está dotado de um sentido interior que ele chama de coração. Se custa ao homem entrar em relação com Deus é porque perdeu o sentido do coração. Francisco encontrou um caminho novo em que o Espírito se une ao nosso espírito.

5. Já insistimos na questão do desejo. Sem desejo de Deus não há oração. Santo Agostinho já dizia: “Um desejo que clama por Deus já é oração. Se queres rezar sempre, nunca deixes de desejar”. Não há dúvida. Cada um organizará sua vida de oração comunitária e pessoal. Temos que consagrar tempo à oração: leitura de um breve texto bíblico, repetição muito singela de palavras que dirigimos ao Senhor que nos ama e nos vê, manter-nos em silêncio num canto, deixando que nosso corpo expresse sua espera por Deus e por sua visita. Há, é claro, esses momentos longos e demorados de aridez e de desgosto na oração: “O tempo que consagro à oração não é tempo que experimento proximidade especial de Deus. Nem consigo fixar minha atenção nos mistérios divinos. Quem dera que assim o fosse! Pelo contrário, os momentos que reservo para a oração estão cheios de distrações, inquietude interior, sonhos, confusão e enfado. Raramente vejo meus sentidos gratificados. Mas o simples fato de me colocar na presença do Senhor e mostrar-lhe tudo o que sinto, percebo e experimento, sem nada esconder, que devo agradar a Deus. No meio de tudo isso, sei que ele me ama mesmo que eu não sinta seu abraço como um abraço humano e não ouça sua voz como ouço uma voz humana” (Henry Nouwen). Vivemos a cultura do entretenimento. Quando não fazemos nada temos a impressão de viver tempos vazios. Por isso fugimos desse “tempo perdido” que para muitos é o tempo da oração. Expressar a Deus nossa espera por ele com palavras simples e mesmo com silêncio pode dar a impressão de ser tempo perdido. Nesses instantes estamos dando tempo ao Senhor para que ele transpareça na trama dos acontecimentos. Sem o que somos seres banais. Sem o que, como cristãos ou religiosos, simplesmente fazemos rodar a máquina fria da organização. Vidas sem alma.

6. O ser humano não foi feito para a mediocridade. Ele é chamado a transcender-se. Não pode perder-se numa horizontalidade de posse ou da satisfação imediata de seus desejos no âmbito do que vai conseguindo obter e ter. Foi escolhido para ruminar no coração a semente da Palavra que aí foi lançada. O orante é aquele que se aplica com zelo à leitura amorosa da Escritura. Os que permanecem na palavra dizem palavras boas, têm um coração bom. Desta forma, vive uma vida em abundância, que vai da ação de graças à súplica até a contemplação. Os cristãos que rezam de verdade atingem maturidade. São seres unificados pelo Espírito. Thomas Merton: “A contemplação é uma compreensão profunda do fato de que, em nós, a vida e o ser procedem de uma Fonte invisível, transcendente e ilimitadamente abundante. A contemplação consiste em ter consciência dessa Fonte… É ser tocado por aquele que não tem mãos, mas é Realidade pura e fonte de tudo o que é real”. Os corações humildes e pequenos ouvem a Palavra e são capazes de alojá-la no mais íntimo de suas vidas, no dia a dia de suas existências e na perseverança àquele que é ontem, hoje e amanhã.

7. Encerro estas reflexões transcrevendo linhas de advertência do Ministro Geral dos OFM sobre a vida de oração: “Penso que seja indispensável avaliar o âmbito (tempo e modalidade) da oração mental no projeto de vida pessoal e fraterna. A fidelidade aos horários e a perseverança são indispensáveis para a vida de oração. Considero também fundamental avaliar com seriedade nossa prática sacramental – Eucaristia e Reconciliação - como também a qualidade e até a frequência de nossas celebrações eucarísticas e a fidelidade à celebração da Liturgia das Horas, conscientes da diferença que existe entre dizer o Ofício divino e celebrar a Liturgia das Horas. Como a vida fraterna, também a vida de oração precisa ser submetida a uma regular avaliação. Seu crescimento depende de uma crítica construtiva: tempo, ritmo, sentido do sagrado. Trata-se de fundamentar o projeto franciscano no tempo de Deus e de convertê-lo numa experiência orante” (Com lucidez e audácia, n. 28).

4 de junho de 2012

REFLEXÃO : "Educar"


“Cérebros brilhantes também podem produzir grandes sofrimentos.
É preciso educar os corações”.
Dalai Lama.


Educar é semear com sabedoria e colher com paciência. Educar é acreditar na capacidade de evolução das pessoas, apostar nas crianças, dar a elas condições de aprender as disciplinas e também a sabedoria da vida. O essencial, com efeito, na educação, não é a doutrina ensinada, é o despertar, é o abrir os olhos, é o encantamento… Aprende quem é capaz de encantar-se pelo conhecimento.

Educar os corações é educar para o amor e a compaixão. Despertar os educandos para o conhecimento dos valores e das virtudes. Diante disso é preciso coragem para descobrir e aprender coisas interessantes, pois somente assim estaremos contribuindo para o crescimento e aperfeiçoamento da humanidade. Procure, então, educar seu coração para o conhecimento de Deus e para a cortesia e a cordialidade com as pessoas…

Tenha uma abençoada semana.

Frei Paulo Sérgio (http://www.franciscanos.org.br/n/)

3 de junho de 2012

03/06 - SANTÍSSIMA TRINDADE :

Glória ao Pai! Poder ao Filho! Louvor ao dinamismo do Espírito!


Por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM (*)

I. INTRODUÇÃO GERAL

Ao celebrarmos, hoje, na festa da Santíssima Trindade, a nossa fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, recordemos, primeiramente, o longo processo vivido pela igreja na solidificação da fé na trindade. Primeiramente, vale recordar o testemunho de santos mártires, que morreram testemunhando a fé na Trindade. Um deles ficou famoso, o de Santa Cecília, a padroeira da música, martirizada em Roma, por volta do ano 230. Na catacumba de São Calixto, em Roma, onde foram encontrados seus restos mortais, em 1599, pode-se ver a cópia de uma estátua da santa, do escultor Stefano Maderno, que estava presente no momento da abertura do túmulo. O escultor retratou o corte da espada no pescoço e a posição dos seus dedos: três abertos na mão direita e um na esquerda, o que demonstrava a sua fé na Unidade e na Trindade de Deus.

Na verdade, “Tertuliano, padre da Igreja, morto em 222, foi quem usou por primeiro a expressão Trindade. Para ele, Deus é três em grau, não em condição; em forma, não em substância; em aspecto, não em poder (Contra Praxeias, 2). Em 318, Ário, um presbítero de Alexandria, propõe a tese trinitária do subordinacionismo do Verbo, Filho, ao Pai. Ário negava a preexistência de Cristo como Deus. Em 333, o imperador Constantino mandou queimar todos os escritos de Ário, mas a sua ideia permaneceu em seus adeptos, que a propagavam, à revelia da igreja que se tornava hegemônica. Já no Concílio Ecumênico de Nicéia, em 325, com a presença e convocação do Imperador Constantino, são estabelecidas neste concílio, as normas de fé para o cristianismo, em oposição a Ário, que fora exilado. Posteriormente, surgem movimentos antiniceanos. Em 350 surge outra tese trinitária, a de que o Filho (Verbo) é diferente do Pai. Assim, em Niceia ficou estabelecido que: há um só Deus, Pai criador; um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, gerado desde a eternidade, gerado e não criado, nascido por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria. Ele morreu, ressuscitou, voltou para Deus e retornará para julgar vivos e mortos. Há o Espírito Santo, Senhor e fonte da vida que procede do Pai; com o filho é adorado e glorificado. A Igreja é una, santa, católica e apostólica. Há um só batismo que redime pecados. Os cristãos devem manter-se firmes na fé na ressurreição dos mortos.

Mais tarde, em 381, no I Concílio de Constantinopla, ficou definida a divindade do Espírito Santo: “Uma substância, três pessoas”. Nesse momento, consolida-se a teologia trinitária do cristianismo hegemônico. No entanto, foi mesmo em 451, no Concílio de Calcedônia, que a igreja proclamou as duas naturezas na única pessoa de Cristo: “Cristo é uma substância conosco no tocante à sua humanidade; ele é como nós em todos os aspectos, menos no pecado; no tocante à sua divindade, ele foi gerado pelo Pai antes dos tempos, mas mesmo assim gerado, quanto à sua humanidade, por Maria, a Virgem, a portadora de Deus; ele é um e o mesmo Cristo, Filho, Senhor, apenas gerado, reconhecido em duas naturezas sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação”. Parte da igreja da Síria, Egito, Armênia e Etiópia, ainda hoje continuam monofisitas, não comungando com a decisão de Calcedônia, que resolveu a questão da natureza de Cristo, mas criou divisões entre a igreja do oriente e a do ocidente. Nesse ínterim, o arianismo se fortalece novamente, vindo a servir de fundamento para a criação da nova religião, o islamismo, que surgiu sob a liderança de Maomé, entre 590 e 632, no oriente (cf. FARIA, Jacir de Freitas, Apócrifos aberrantes, complementares e cristianismos alternativos – Poder e heresias! 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2009, pp. 119; 134-135; 147). Nos séculos vindouros, à soleira do que fora estabelecido pela igreja, teólogos e papas, comunidades e santos, continuaram testemunhando a Trindade.

Vale ressaltar ainda que, na numerologia judaica, o número três representa o divino: firmamento, céu e Xeol – morada dos mortos. A estrela de Davi, que aparece na bandeira de Israel, é composta de dois triângulos equiláteros – de três partes cada um. Nos evangelhos, várias vezes aparece o número três. Pedro nega Jesus três vezes e Jesus lhe pergunta outras três vezes se ele o ama; Jesus morre às três horas e ressuscita ao terceiro dia. Diante dessas evidências, será que não poderíamos afirmar que a base da fé cristã na trindade tem relação direta com esse modo de pensar? Bases bíblicas é que não faltam. É o que ouvimos nas leituras de hoje, que passamos a comentar.

II. COMENTÁRIOS DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Dt 4,32-34.39-40): Deus é Pai criador de tudo e de todos

Partindo da fé vivida por nossos irmãos judeus, desde tempos antigos, a leitura que ouvimos do livro do Deuteronômio nos mostra que Deus é criador de tudo e de todos. Ele escolheu Israel dentre outros povos, falou diretamente com esse povo, libertou-o do Egito e, por fim, pediu-lhe o cumprimento da aliança estabelecida. A Deus a glória por seu ato criador!

Nessa breve exortação, o autor de Dt estabelece o princípio criador de Deus e sua essência, o de ser Um, isto é, não existem outros deuses. Ele não é único, pois não está em relação a outro deus. Ele é um, indivisível e forte. Somente a este Deus Israel deve servir e amar. Os profetas bíblicos se encarregaram de firmar a fé monoteísta.

A tradição cristã transmitiu a fé trinitária. E somente assim se deve compreender o ato criador de Deus. A diferença e a unidade de Deus, em três pessoas, já no seu ato criador, se revela como comunidade que cria o ser humano à sua imagem, – o ser humano é como Deus, e à semelhança, – o ser é um vir a ser como Deus, por meio de suas atitudes.

As primeiras palavras da Bíblia afirmam que no “no princípio Deuses criou”… (Gn 1,1). O sujeito está no plural e o verbo no singular. O ser humano, na sua singular diferença, é chamado a ser como Deus trinitário, na comunhão e no respeito ao diferente que nos une. Israel, como sociedade de povo escolhido, é chamado a ser imagem e semelhança de Deus-Pai e libertador dos oprimidos. Para que isso acontecesse, bastaria uma coisa: seguir a Torá, de modo que a fome e a injustiça não se estabelecessem no meio do povo.

2. Evangelho (Mt 28,16-20): Jesus é o Filho Deus que pede o batismo trinitário para seus seguidores

O término do mais judeu dos evangelhos, Mateus, nos apresenta a missão dos seguidores da primeira hora de Jesus: “ir pelo mundo afora, converter as nações e batizá-las em nome do Pai, Filho e Espírito Santo”. Jesus aparece aos onze discípulos na Galileia, conforme Ele mesmo havia prometido. O evangelho afirma que Jesus tem autoridade sobre o céu, e a terra recorda o ato criador de Deus-Pai da primeira leitura. Além disso, Jesus pede aos discípulos que batizem as nações em nome da trindade. Anunciar o reino pregado por Jesus é estar em comunhão com o Pai e o Espírito Santo. Jesus também fora batizado no Espírito (Mt 3, 16). Jesus mesmo dizia: “Quem me vê, vê o Pai. Eu e o Pai somos um!” (Jo 14,9-10). Jesus tinha consciência de que fazia a obra do seu Pai (Jo 10,37), por isso ele pede aos seus discípulos que perpetuem a sua obra, tornando-se missionários da salvação, criando comunidade parecidas com aquela de onde ele veio, da Trindade, a melhor comunidade. Ao Filho o poder que vem de Deus! Ao batizado, expressão da fé sacramental na Trindade, o poder e a missão de levar a salvação, o reino a todos.

3. II leitura (Rm 8,14-17): O Espírito de Deus é Santo e nos coloca na condição de filiação adotiva de Deus

Na experiência trinitária, Paulo nos recorda com maestria que “todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (v.14). Nós nos tornamos filhos de Deus graças ao Espírito. Recebemos um Espírito de filhos adotivos, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo. O Espírito nos torna livres, como disse Paulo. O Espírito é cheio de dinamismo e nos impulsiona a viver na liberdade criativa da trindade.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

1. Demonstrar para a comunidade a importância de nunca nos acomodarmos na glória do Pai, no poder do Filho, mas sempre nos colocarmos no dinamismo do Espírito que tudo vivifica e cria. A união dos diferentes é que nos faz cristãos.

2. A Trindade tem sua essência na experiência comunitária de solidariedade dos diferentes, no amor e na comunhão. Tudo isso deve suscitar em nós o desejo de construir uma sociedade justa e igualitária, espelho da Trindade, a melhor comunidade.

3. O Espírito Santo não pode ficar aprisionado em instituições e comunidades que se julgam detentoras do poder divino.

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM é Padre franciscano, escritor, mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico, de Roma, especialista em evangelhos apócrifos, professor de exegese bíblica no Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA, em Belo Horizonte e em cursos de Teologia para leigos. Autor de uma centena de artigos. Autor e coautor de quinze livros, sendo o último: Infância apócrifa do menino Jesus. Histórias de ternura e travessura. Petrópolis: Vozes, 2010. Diretor Geral e Pedagógico dos Colégios Santo Antônio e Frei Orlando, ambos em Belo Horizonte.
Veja mais: www.bibliaeapocrifos.com.br

1 de junho de 2012

REFLEXÃO : "Encontro"


“És presença… E, mesmo quando és ausência, és muito mais do que saudade”.
Caio Fernando Abreu.

Presença e ausência: os dois lados da mesma moeda, dois pólos que se complementam, o ir e vir da mesma onda! Na presença estamos na intensidade, na ausência está a falta, o desejo de estar junto outra vez. Na presença os olhos vêem, na ausência o coração é que vê. Na presença está o encontro, na ausência o sentimento que se eterniza no desejo de estar junto outra vez…

Pessoas passam em nossas vidas, algumas ficam porque entraram em nossa casa mais íntima, começaram a fazer parte, marcaram etapas. Algumas se vão para longe, mas continuam bem perto, pois, mesmo ausentes, continuam ocupando um espaço no coração, na lembrança, no pensamento, nas orações. Em assim seguimos em frente levando pessoas com a gente e marcando vidas com nossa presença, amor e amizade. Viver é ser presença e ausência na vida das pessoas…

Frei Paulo Sérgio

EXTRAÍDO DE: http://www.franciscanos.org.br/n/


1ª sexta-feira do mês - Quem pode conhecer todos os tesouros de Cristo?


Por Frei Almir Ribeiro Guimarães

1. Temos uma vida inteira para conhecer os mistérios de Cristo Jesus. Longe de nós a ideia de que basta ter conhecimento nocional, seco e árido a seu respeito. Paulo, em suas epístolas, fala que esse mistério é insondável e que aos poucos podemos conhecer a altura, a largura e a profundidade do amor de Cristo por nós. Nossa convivência pessoal com o Ressuscitado nos leva a chegar amorosamente mais perto dele e assim nos revestirmos de tal força que nem possamos nos separar de seu amor. O cuidado pela busca desse conhecimento nos ajuda a viver em Cristo, de Cristo e por Cristo.

2. “Quem poderia conhecer todos os tesouros de sabedoria e de ciência ocultos em Cristo e escondidos na pobreza de sua carne? Ele, sendo rico, se fez pobre por nossa causa, a fim de enriquecer-nos com sua pobreza; contudo, não perdeu suas riquezas, mas prometeu-as para o futuro. Como é grande a riqueza de sua bondade, reservada para os que o temem e concedida aos que nele esperam!” (Santo Agostinho). Toda a espiritualidade do Coração de Jesus é marcada pela sabedoria e ciência que estão no coração aberto no alto da cruz.

3. Desde o começo de sua trajetória até sua morte de Cristo há um caminho de despojamento e de pobreza. Sempre ouvimos dizer que Cristo se fez pobre para nos enriquecer. Podemos dizer que a pobreza de Cristo está na raiz de sua sabedoria e de sua ciência. Jesus viveu de maneira simples. Conviveu com todo tipo de pessoas, mas sempre esteve entre os pequenos. Tinha particular satisfação de aproximar-se dos pecadores e, desta forma, sem autoritarismos e imposições, lhes propunha um caminho novo. Jesus é pobre, de maneira toda especial, porque não tem apoios externos. Ficamos perplexos de ver que, durante o seu processo, e mesmo antes, ele vive uma terrível solidão. Jesus é pobre e nessa pobreza ele traça a estrada que devem percorrer todos os que querem ser seus discípulos. A pobreza é caminho real que nos leva a Cristo e a sermos particularmente amados por seu Pai.

4. Francisco de Assis ficava abismado em meditar na pobreza de Jesus. Admirá-la, venerá-la e imitá-la é sinal de sabedoria e os que o fazem estão revestidos de um conhecimento divino. “Os irmãos não se apropriem de nada, nem de casa, nem de lugar. E como peregrinos e forasteiros neste mundo, servindo ao Senhor em pobreza e humildade, não devem envergonhar-se, porque o Senhor se fez pobre por nós neste mundo. Esta é aquela sublimidade da altíssima pobreza que vos constituiu, meus irmãos caríssimos, herdeiros e reis do Reino dos céus, vos fez pobres de coisas, vos elevou em virtudes. Seja esta a vossa porção que vos conduz à terra dos vivos. Aderindo totalmente a ela, irmãos diletíssimos, nenhuma outra coisas jamais queirais ter debaixo do céu em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Admoestação VI).

5. Tais palavras e considerações parecem estranhas aos ouvidos dos asseclas da sociedade da gastança, do consumo, dos bens, das coisas, do dinheiro, das prestações, dos juros baixos para facilitar o gastar. Jesus é fonte de sabedoria e de conhecimento existenciais. Precisamente em seu aniquilamento, de modo particular no aparente fracasso que é sua morte, está a força de Deus. Não nos cansamos de nos postar aos pés da cruz sempre nos dando conta do amor desse homem que é fiel até o fim. Ali, preso no madeiro, Jesus é o mais indefeso e os mais pobre de todos os homens. E o mundo todo foi embebido de seu amor e de sua entrega, desse pobre no presépio e paupérrimo na cruz. Por isso, nas primeiras sextas-feiras de cada mês os discípulos se postam diante do Coração do pobre mártir do Calvário, aberto pela lança e fazendo jorrar a água e o sangue.

6. Terminamos esta reflexão retomando Agostinho. As poucas frases que transcrevemos apontam para a pobreza do presépio. Agostinho lembra que um dia seremos saciados com o face a face do Ressuscitado. “Mas até que isso aconteça, até mostrar o que nos basta, até bebermos e ficamos saciados na fonte da vida que é ele mesmo, enquanto caminhamos na fé e peregrinamos longe dele, enquanto temos fome e sede de justiça e desejamos, com indizível ardor, contemplar a beleza de Cristo na sua condição divina, celebremos com amorosa devoção o nascimento de Deus na condição de servo”. Parafraseando Agostinho, podermos dizer: “Enquanto não podemos ver a glória do rosto do Ressuscitado celebremos com carinho e respeito o Coração daquele que amou até o fim e nos mostrou, por seu peito aberto, todas as riquezas do conhecimento e da sabedoria”.

Obs.: Os textos de Agostinho foram tirados de Liturgia das Horas I, p. 473-475.

EXTRAÍDO DE: http://www.franciscanos.org.br/n/