27 de junho de 2014

A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus na visão franciscana


"Doce Coração de Jesus, faz com que eu te ame sempre mais!”






São Boaventura de Bagnoreggio foi quem teve a primeira visão do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria – quem impôs estes nomes aos corações. A tradição franciscana notou que na aparição, compôs a jaculatória usada ainda hoje: “Doce Coração de Jesus, faz com que eu te ame sempre mais!”












Mas é também um grande fato a célebre visão que teve Santa Margarida Maria Alacoque, em 4 de outubro de 1686, quando lhe apareceu nosso Senhor Jesus Cristo e lhe mostrou São Francisco, revestido de uma luz e de um esplendor inefável, elevado em um eminente grau de glória sobre os santos e unido àquela memorável palavra:“Eis o Santo mais unido ao meu Coração; toma-o como o teu guia!”


A exemplo de Nosso Pai São Francisco, "Amemos o Amor Daquele que tanto nos amou!" Paz e Bem!






16 de junho de 2014

Reflexão - Gentileza


“Violência gera violência, os fracos julgam e condenam, porém os fortes perdoam e compreendem” (Augusto Cury).   

Enquanto a violência gera ódio, rancor e guerras, a gentileza gera carinho, amor e delicadeza. A gentileza é a essência do ser humano. Quem não é suficientemente gentil não é suficientemente humano. Daí a necessidade de cultivar a gentileza dentro de nós, pois como o amor, a gentileza também pode ser aprendida na escola da vida…

A fragilidade (fraqueza) dentro de nós é própria de pessoas de espirito pouco elevados. Somente os fortes podem acolher, perdoar e compreender. Essa força que falo não é a força física, bruta e agressiva. É a força do espírito que nos faz humanos, afáveis e compreensivos. É o poder do Espírito de Deus agindo em nós e nos transformando em pessoas pacificadoras e capazes de amar verdadeiramente…

Tenha um ótima, abençoada e iluminada semana!


Frei Paulo Sérgio, ofm

13 de junho de 2014

Santo Antônio: Homem do Evangelho e da Solidariedade



Fernando nasceu em Lisboa, Portugal, em 15 de agosto de 1191. Seus pais eram de nobre linhagem: Fernando Martins Afonso de Bulhões e Maria Taveira. Moravam bem de frente à catedral. Nessa escola episcopal, Fernando recebeu a instrução cristã e elementar.

Adolescente ainda entrou para o seminário dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, de onde ele mesmo pediu transferência para Coimbra (a quase 200 quilômetros de distância) a fim de continuar seus estudos. com mais sossego, sem a atrapalhação das contínuas visitas de parentes e amigos que queriam persuadi-lo a desistir da “sua” vocação. Fernando era um jovem que sabia o que queria: dedicar-se de corpo e alma a Deus e aos estudos da Bíblia Sagrada. Na cidade universitária – Coimbra ­porém, ele encontrou uma outra dificuldade no seu desejo de seguir em radicalidade a Palavra de Deus. Na época, o mosteiro de Santa Cruz, onde morava e estudava, era palco de intrigas, fuxicos e brigas por bens materiais entre prelados e reis, monges e leigos. Fernando se empenhou fortemente por estar alheio a toda essa dura, mas triste realidade. Mais do que nunca, dedicou­se a seus estudos escriturísticos e ao seu crescimento espiritual. Um dia encontrou-se com 5 frades franciscanos. Amor à primeira vista: viu neles todo o Evangelho vivido na simplicidade, na alegria, na humildade e na generosidade.

Estavam de saída para Marrocos, para pregar a “PAZ” e o “BEM”, como dizia o fundador deles, Francisco de Assis, ainda vivo, na Itália. Tempos depois, diante das relíquias dos 5 primeiros mártires franciscanos, Fernando não teve mais dúvidas: trocou todo aquele aparato clerical cheio de hipocrisia que ele conhecia pela simplicidade do Evangelho vivido na fraternidade e no anúncio do Reino de Deus a povos pagãos. Trocou até o nome. De Fernando passou a ser chamado Antônio, frei Antônio e, jovem ainda, teve um só desejo: morrer mártir como aqueles 5 frades e “merecer, assim, junto com eles, a coroa da glória.”

Não havia soado ainda, a hora de Deus! O homem propõe. Deus dispõe. Uma febre sem tamanho, na África, deixou-o prostrado meses na cama. Aos poucos também aprende ­com que fadiga! – a seguir o projeto de Deus. Decide voltar a Portugal, sua ter­ra natal. Qual novo Pentecostes, porém, os ventos sopram seu navio na direção da Itália e ali ele começa co­locar-se definitiva­mente nos passos de Deus. Na grande reunião dos frades (3.000) em Assis, encontra-se com Francisco, com milhares de irmãos que segui­am o mesmo ideal e, mais tarde, com Clara de Assis… Mu­dança radical na sua vida, no seu desejo. Antônio não toma mais ‘ a iniciativa ­talvez pela decisão dura e pedagógica de Marrocos -, mas se entrega incondicionalmente, embora também com certo medo, nas mãos de Deus. Terminada a grande assembléia, em maio de 1221, escolhe o silêncio: nada mais diz sobre sua preparação, seus estudos, sua competência.

Ninguém o conhece. Ninguém se interessa por ele. “As almas humildes – escreverá mais tarde com conhecimento de causa -, desconhecidas e felizes por serem esquecidas, são aquelas que imitam mais perfeitamente a vida escondi­da de Jesus de Nazaré” (Sermões). E, assim, a pedido de frei Graciano, ministro provincial da Romanha, no centro da Itália, lá vai frei Antônio fazer parte de um conventinho eremitério situado no cimo do Monte Paulo. Como sacerdote, reza missa aos confrades, mas faz outros serviços necessários à comunidade, como lavar pratos, cuidar da horta, da limpeza, etc.


Dedica-se a longos tempos de oração – contemplação, jejum e penitência. “Em águas turvas, escreverá mais tarde, não se vê espelhado o próprio rosto. Se quiseres que o rosto de Cristo se espelhe em ti, sai do barulho das coisas e guarda tranqüila tua alma “(Sermões).

Finalmente chega a hora de Antônio, que é a hora de Deus. Na cidade de Forli, durante uma ordenação sacerdotal, na catedral lotada de padres, irmãs, freis e fiéis, é convocado pelo superior a fazer a pregação. Daqueles lábios há tanto tempo calados surgem, de repente, como de uma fonte viva de água cristalina, as palavras mais comoventes, os exemplos mais convincentes, os estímulos mais penetrantes. Todos, do bispo ao provincial frei Graciano, dos frades às irmãs, dos padres aos fiéis, to­dos ficam admirados pela eloqüência, pela sabedoria e pela profundidade daquele frade até então desconhecido. Dali para frente, todos chamam a frei Antônio e ele passa a percorrer as estradas, sobretudo as do norte da Itália e as do sul da França e, nos últimos anos, (1229-1231), os caminhos de Pádua, anunciando o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Percorrendo as estradas da Europa, frei Antônio percebe a fraqueza do povo na prática da fé, vítima às vezes das inúmeras heresias e erros da época. Francisco o admira e envia-lhe um bilhete pedindo que a mesma sabedoria que lhe deu uma profunda experiência de Deus, ele a transmita a seus confrades.

“A frei Antônio, meu bispo: Saudações! Muito me agrada que tu ensines a sagrada teologia aos frades, contanto que não se extinga o espírito da santa oração e devoção ao qual tudo deve estar submisso, conforme está escrito na Regra frei Francisco”.

Coisa admirável, maravilhosa. Antonio unia em si a sabedoria e a humildade, a cultura e a simplicidade, a oração e a caridade. Confrades e povo o “adoravam” nesse sentido. Tão alto em sua cultura e tão simples no trato com a gente, Doutor da Igreja e amigo dos simples e dos pobres! E o povo ouve suas palavras. Segue seus conselhos. Sente­-se reconfortado em suas lutas. Crianças são por ele abraçadas e abençoadas. Mulheres e esposas são defendidas em seus direitos. Lares são reunidos pela força do amor que ele tão bem sabe suscitar.

E o povo continua a contar: “a mula se ajoelhou diante da Eucaristia. O coração avarento foi encontrado no cofre do seu tesouro. Ele curou o pé decepa­do de um jovem. Ele pregou aos peixes. Ele defendeu os agricultores diante do terrível Ezzelino da Romano…’
E, assim, passou frei Antônio seus últimos anos, curando e consolando os outros e tendo, para si, cansaço, doenças e penitência. Após uma intensa atividade de pregações e confissões de Quaresma em Pádua, retira-se na tranqüilidade da localidade de Camposampiero.

Mas, em junho de 1231, sente as forças faltarem-lhe completamente. Pede para voltar a Pádua. Percorre os 20km em carro de boi, moribundo. Em Arcella, às portas da cidade de Pádua, num quartinho humilde do convento das Irmãs Clarissas Franciscanas, exala o último suspiro, cantando com voz tênue: “Gloriosa Senhora – sobre as estrelas exaltada – alimentaste em teu seio Aquele que te criou”. Olhando um ponto fixo, consegue ainda exclamar: “Estou vendo o meu Senhor”. E morre. Não chegara aos 40 anos. Onze meses depois, em 30 de maio de 1232, na catedral de Espoleto, Itália, foi proclamado Santo pelo papa Gregório IX.


Mensageiro de Santo Antônio – Junho de 1999

8 de junho de 2014

O Espírito Santo na mística franciscana


Pentecostes segundo o Catecismo da Igreja Católica.


37.1 Pentecostes dia da efusão do Espírito Santo

§696 O fogo. Enquanto a água significa o nascimento e a fecundidade da Vida dada no Espírito Santo o fogo simboliza a energia transformadora dos atos do Espírito Santo O profeta Elias, que “surgiu como um fogo cuja palavra queimava como uma tocha” (Eclo 48,1), por sua oração atrai o fogo do céu sobre o sacrifício do monte Carmelo, figura do fogo do Espírito Santo que transforma o que toca. João Batista, que caminha diante do Senhor com o espírito e o poder de Elias” (Lc 1,17), anuncia o Cristo como aquele que “batizará com o Espírito Santo e com o fogo” (Lc 3,16), esse Espírito do qual Jesus dirá “Vim trazer fogo à terra, e quanto desejaria que já estivesse acesso (Lc 12,49). É sob a forma de línguas “que se diriam de fogo” o Espírito Santo pousa sobre os discípulos na manhã de Pentecostes e os enche de Si. A tradição espiritual manterá este simbolismo do fogo como um dos mais expressivos da ação do Espírito Santo Não extingais o Espírito” (1Ts 5,19).

§731 No dia de Pentecostes (no fim das sete semanas pascais), a Páscoa de Cristo se realiza na efusão do Espírito Santo, que é manifestado, dado e comunicado como Pessoa Divina: de sua plenitude, Cristo, Senhor, derrama em profusão o Espírito.

§1287 Ora, esta plenitude do Espírito não devia ser apenas a do Messias; devia ser comunicada a todo o povo messiânico. Por várias vezes Cristo prometeu esta efusão do Espírito, promessa que realizou primeiramente no dia da Páscoa. e em seguida, de maneira mais marcante, no dia de Pentecostes. Repletos do Espírito Santo, os Apóstolos começam a proclamar “as maravilhas de Deus” (At 2,11), e Pedro começa a declarar que esta efusão do Espírito é o sinal dos tempos messiânicos. Os que então creram na pregação apostólica e que se fizeram batizar também receberam o dom do Espírito Santo

§2623 NO TEMPO DA IGREJA
No dia de Pentecostes, o Espírito da promessa foi derramado sobre os discípulos, “reunidos no mesmo lugar” (At 2,1), esperando-o, “todos unânimes, perseverando na oração” (At 1,14). O Espírito, que ensina a Igreja e lhe recorda tudo o que Jesus disse, vai também formá-la para a vida de oração.

P.37.2 Pentecostes dia da manifestação pública de Jesus
§767 “Terminada a obra que o Pai havia confiado ao Filho para realizará na terra, foi enviado o Espírito Santo no dia de Pentecostes para santificar a Igreja permanentemente.” Foi então que “a Igreja se manifestou publicamente diante da multidão e começou a difusão do Evangelho com a pregação”. Por ser “convocação” de todos os homens para a salvação, a Igreja é, por sua própria natureza, missionária enviada por Cristo a todos os povos para fazer deles discípulos.

§1076 A ECONOMIA SACRAMENTAL No dia de Pentecostes, pela efusão do Espírito Santo, a Igreja é manifestada ao mundo. O dom do Espírito inaugura um tempo novo na “dispensação do mistério”: o tempo da Igreja, durante o qual Cristo manifesta, toma presente e comunica sua obra de salvação pela liturgia de sua Igreja, “até que ele venha” (1 Cor 11,26). Durante este tempo da Igreja, Cristo vive e age em sua Igreja e com ela de forma nova, própria deste tempo novo. Age pelos sacramentos; é isto que a Tradição comum do Oriente e do Ocidente chama de “economia sacramental”; esta consiste na comunicação (ou “dispensação”) dos frutos do Mistério Pascal de Cristo na celebração da liturgia “sacramental” da Igreja. Por isso, importa ilustrar primeiro esta “dispensação sacramental” (Capítulo I). Assim aparecerão com mais clareza a natureza e os aspectos essenciais da celebração litúrgica (Capítulo II.).

P.37.3 Pentecostes dia da plena revelação da Trindade
§732 Nesse dia é revelada plenamente a Santíssima Trindade. A partir desse dia, o Reino anunciado por Cristo está aberto aos que crêem nele; na humildade da carne e na fé, eles participam já da comunhão da Santíssima Trindade. Por sua vinda e ela não cessa, o Espírito Santo faz o mundo entrar nos “últimos tempos”, o tempo da Igreja, o Reino já recebido em herança, mas ainda não consumado:
Vimos a verdadeira Luz, recebemos o Espírito celeste, encontramos a verdadeira fé: adoramos a Trindade indivisível, pois foi ela quem nos salvou.

Celebração Franciscana: “A Trindade, Francisco e a Nova Criação”.


1. Preparação do ambiente

(Bíblia, imagem de São Francisco, elemento da natureza, flores e três velas, de preferência. E, se possível, o ícone da SS. Trindade de André Rublev; este ícone foi pintado no início do século XV, em honra de São Sérgio de Radonesh, outro monge do século XIV, que tinha o seguinte lema, que pode ser colocado em um cartaz para a meditação de todos: “Vamos vencer a crueldade do mundo com a contemplação da SS. Trindade”)

2. Acolhida

(Canto à escolha)
(Dar boas vindas aos irmãos e irmãs)
(Fazer memória dos grandes fatos que fazem parte das comemorações e festividades, em especial da FFB)
Dirigente: Que alegria estarmos juntos como irmãos e irmãs. Estamos vivenciando com grande júbilo e ação de graças esta grande festividade litúrgica. Queremos celebrar a fé no Deus Trindade e comunhão de amor, que em Francisco se revelou sobremaneira e continuamente como Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo; Uno e Trino, “o mais desejável que qualquer outro bem”(Ct 50,52).
Todos: “Creiamos verdadeiramente e humildemente…/ enaltecemos e rendamos graças ao Altíssimo e Sumo Deus, Trino e Uno, Pai, Filho e Espírito Santo”(1Rg 23,27-34)
3 – Momento penitencial

Dirigente: (Deverá motivar um momento de contemplação junto ao ícone da SS. Trindade ou, caso não tenha, junto às três velas; em atitude de entrega e reconciliação por nem sempre sermos fiéis a esta comunhão de doação e amor).
Todos: “Considera, querido irmão e irmã, / a que excelência te elevou o Senhor/ criando-te/ e formando-te segundo o corpo/ à imagem do seu dileto Filho/ e, segundo o Espírito,/ à sua própria semelhança. Entretanto, as criaturas todas estão debaixo do céu,/ a seu modo,/ servem e conhecem ao seu Criador melhor do que tu” (Adm 5,1-2).

4 – Oração de louvor
Canto à escolha ou canta-se o Cântico das Criaturas, podendo-se intercalar com fatos de nossa história pessoal ou de toda a humanidade em que o nosso Deus Trindade se revela. Pode-se usar velas, para que, na medida em que se narra os fatos, cada um receba a sua vela, acesa na vela do altar que esteja junto ao ícone da Trindade, simbolizando o amor trinitário encarnado em nossa história.

5 – A Palavra de Deus Trindade para nossa vida
(Neste momento, cada irmão com sua vela acesa para a escuta da Palavra:
Sugestões: Is 42,1-4.6-7; 61, 1-3; Rm 8, 1-17; Sl 62 (61); 62 (62); Lc 4, 14-21; 3, 15-16.21-22;
Silêncio – Reflexão – Partilha – Canto a escolher)

6 – Proposta

(Propõe-se ao dirigente criar meios que ajudem os participantes a se envolverem na relação do texto. Favorecer a integração entre a proposta evangélica, a pessoa de Francisco e seu relacionamento de amor com a Trindade. Para a reflexão do mistério trinitário, recomendamos o texto de Dom Frei Valfredo Tepe, Nós somos um: retiro trinitário, Petrópolis, Vozes, 1997, p. 147)
7 – Compromisso

O que cada um levará de concreto para viver a partir do tema que refletimos e celebramos?
8 – Oração final

(Canto à escolha)
Pai Nosso….

ORAÇÃO À TRINDADE
“Eterno Deus onipotente,
justo e misericordioso,
concedei-nos a nós míseros
praticar por vossa causa
o que reconhecermos ser a vossa vontade
e querer sempre o que vos agrade,
a fim de que,
interiormente purificados, iluminados e abrasados
pelo fogo do Espírito Santo,
possamos seguir as pegadas de vosso Filho,
Nosso Senhor Jesus Cristo,
e por vossa graça unicamente
chegar até vós,
ó Altíssimo,
que em Trindade perfeita e Unidade simples
viveis e reinais na glória
como Deus onipotente
por toda a eternidade”
São Francisco de Assis – Carta a toda Ordem, 50-52

9 – Bênção de Santa Clara – Canto


Preces ao Espírito Santo.

DOM DO ESPÍRITO

Pai que dás o Espírito,
jamais recusas o Espírito Santo aos que te pedem;
porque és o primeiro a desejar que o recebamos.
Concede-nos este dom que resume e contém todos os outros,
este dom em que encerras todos os segredos
de teu amor, toda a generosidade de teus benefícios.
Este dom que é o próprio dom
de teu coração paternal, no qual te entregas a nós.
Este dom que nos traz tua vida mais íntima
para nos fazer viver dela,
este dom destinado a ampliar nosso coração
nas dimensões universais do teu,
este dom capaz de nos transformar de ponta a ponta,
de nos curar de nossas fraquezas e de nos divinizar.
Este dom de tua energia onipotente, indispensável
ao cumprimento da missão que nos confias,
este dom de tua felicidade, no fervor de amar,
pois que no Espírito nos vem ao mesmo tempo
o dom da alegria e a alegria da doação.
Senhor, que difundes o Espírito,
de teu seio correm fontes de água viva,
efusão do Espírito.
A glória da tua Ressurreição
é a irradiação do Espírito Santo
que se apoderou de toda a tua natureza humana,
e a glória da tua Ascensão é o poder que tens
de difundir o Espírito Santo no universo
para dele fazer teu Reino.
Todo o fruto de teu sacrifício redentor
consiste no dom do Espírito, que nos traz
o perdão dos pecados e a graça da filiação divina.
Cumula-nos deste Espírito para nos comunicar
toda a força de tua santidade e de teu amor.
Faze-o penetrar no íntimo de nós mesmos,
para que ele possa purificar-nos, espiritualizar-nos
e inflamar-nos.
Por teu Espírito, imprime em nossa alma
tua semelhança e forma-nos em tua mentalidade.
Por teu Espírito, comunica-nos tua doutrina
e faze-nos viver a totalidade do Evangelho.
Difunde teu Espírito com abundância
para que ele possa envolver-nos,
tomar-nos totalmente na sua caridade.

ESPÍRITO SANTO
Contemplar-te, é mergulhar o olhar no invisível,
em pleno mistério de Deus.
Não tens um semblante de Evangelho como o
Cristo, nem uma face de Pai; mesmo renunciando
a te imaginar um rosto, queremos aderir a ti
com todas as nossas forças.
Não tens um semblante porque és o fogo do amor
que reúne os semblantes do Pai e do Filho,
para não formar senão um só numa sublime fusão.
Vives nos semblantes de outrem,
como sua vida mais secreta,
e és tu que nos revelas o autêntico semblante do
Salvador, bem como o do Pai Celeste.
És abismo de profundidade, recôndito inexpugnável
e inexprimível, impossível de se representar
em traços delimitados.
Tu és o sopro que emana do Pai e do Filho
e que vem animar nosso espírito,
formar-nos uma feição espiritual.
Tu és a respiração de nossa alma,
o pensamento de nosso pensamento,
o impulso de nossa vontade, a força de nosso amor.
Tu és a vida divina que vem nos fazer viver o Cristo,
que invade nosso ser para transfigurá-lo.
Tu nos ultrapassas infinitamente e no entanto,
és tão íntimo a nós;
não resides num longínquo abstrato,
mas no concreto palpitante de nossa existência.
Contemplar-te, é deixar-nos tomar pela torrente
de um amor que transborda e se apossa de toda
a nossa pessoa humana.

VIRGEM MARIA, TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO
Tu acolheste o Espírito Santo
com a alma plenamente aberta;
tu o acolheste pela fé,
crendo na sua maravilhosa ação em teu seio;
tu o acolheste pelo abandono de teu ser,
entregando-te ao seu poder de amor;
tu o acolheste por uma colaboração ativa com ele
no amor da Encarnação redentora:
tu jamais deixaste de acolhê-lo durante tua vida,
escutando sua voz misteriosa
e seguindo suas sugestões.
Ensina-nos a recebê-lo com a mesma disposição
com que tu o acolheste.
Ajuda-nos a escutá-lo no segredo de nosso coração,
a acolher suas indicações e seus conselhos.
Mostra-nos o caminho da docilidade
a seu ensinamento, da cooperação na sua obra.
Como tu, quereríamos receber a plenitude do
Espírito Santo, nada perder de sua vinda a nós.
Estimula nosso desejo de aceitar tudo o que ele
nos quer dar, e comunica-nos tua alegria
em tudo deixar tomar pelo Espírito Santo,
de tudo deixar invadir pelo seu amor.

ESPÍRITO SANTO, NOSSO GUIA
Guia íntimo, tu não nos indicas somente
o exterior da vontade divina;
tu a traduzes para nós em um esclarecimento interior;
Ajuda-nos a acolher plenamente tuas diretivas.
Guia vigilante, tu nos inspiras a cada instante
o que devemos pensar e fazer: ensina-nos a responder
dócil e alegremente a todas as tuas sugestões.
Guia clarividente, tu nos conduzes segundo
o grandioso desígnio de Deus,
e organizas os detalhes de nossa existência
em função de largos horizontes: faze-nos aceitar
ser ultrapassados por tua sabedoria
e seguir simplesmente o caminho que nos traças.
Guia seguro e infalível, tu não podes errar
e nos engajas sempre numa rota ideal:
estimula nossa confiança em abandonar-nos
serenamente às tuas orientações.
Guia benévolo, consideras nossas fraquezas e
procuras fazer-nos reparar os nossos passos em
falso: faze-nos retomar coragem nos fracassos
apoiando-nos sobre tua solicitude amorosa.
Guia respeitador da nossa pessoa,
queres promover todas as nossas qualidades
pessoais e desabrochá-las:
incessantemente apelas para nossa liberdade
e responsabilidade: torna-nos mais dignos
da confiança que nos testemunhas.
Guia audacioso, desejas para nós uma vida maior
feita à medida de Deus: faze-nos entrar na tua
audácia para um desabrochamento do divino em nós.

ESPÍRITO DE UNIDADE
Tu em quem o Pai e o Filho são um,
faze que sejamos um como eles e neles.
Tu que exprimes a unidade da família divina,
vem assegurar a unidade da comunidade humana.
Desenvolve em todos os homens,
e mais especialmente entre os cristãos,
o desejo da unidade, e torna este desejo mais eficaz.
Reúne cada vez mais a humanidade na unidade
da verdade por uma melhor acolhida da Revelação
e pelo desenvolvimento de uma mesma fé.
Une os homens numa caridade mais sincera,
num respeito mútuo e numa colaboração mais generosa.
Afirma em nós a vontade de superar as desavenças,
e evitar a violência, os conflitos,
a opressão ou a exploração dos fracos.
Multiplica os contatos entre aqueles que
são separados pelo muro do ódio e da
desconfiança, e favorece uma estima recíproca
onde dominam o desacato e o desprezo.
Dispõe-nos a grandes esforços pessoais
em vista da unidade;
arranca-nos a nossos preconceitos malévolos
e abre-nos mais largamente à compreensão do outro.
Faze-nos descobrir mais claramente
as possibilidades e meios de união;
incita-nos a estimular as aproximações e as amizades.
Ajuda-nos a consentir em todos os sacrifícios
para uma unidade mais profunda de pensamentos
e de corações em torno de nós.

Do Livro “Preces ao Espírito Santo”, de J. Galot, S.J., Edições Paulinas/1981

ORAÇÃO À TRINDADE
“Eterno Deus onipotente,
justo e misericordioso,
concedei-nos a nós míseros
praticar por vossa causa
o que reconhecermos ser a vossa vontade
e querer sempre o que vos agrade,
a fim de que,
interiormente purificados, iluminados e abrasados
pelo fogo do Espírito Santo,
possamos seguir as pegadas de vosso Filho,
Nosso Senhor Jesus Cristo,
e por vossa graça unicamente
chegar até vós,
ó Altíssimo,
que em Trindade perfeita e Unidade simples
viveis e reinais na glória
como Deus onipotente
por toda a eternidade”

São Francisco de Assis – Carta a toda Ordem, 50-52


O Espírito, plenitude de todos os seres

Para o Espírito Santo se voltam
Aqueles que têm necessidade de santificação.
Para Ele se eleva o desejo
Dos que vivem procurando o bem
E estão como que refrescados pelo Seu sopro.
Ele é capaz de levar os homens à plenitude,
Pois ele próprio é plenitude.
Ele está em toda a parte,
Ele nos ilumina para descobrirmos a verdade.
Inacessível por natureza,
Ele se deixa compreender pela bondade.
Ele tudo enche,
está totalmente presente em cada ser.
Para Ele se elevam os corações,
os fracos são levados pela mão,
os que caminham ficam repletos.
É Ele que ilumina.

Basílio de Cesaréia, Século V

7 de junho de 2014

O Espírito Santo na mística franciscana - A Festa de Pentecostes



Frei Neylor J. Tonin, OFM


1. A festa de Pentecostes, originariamente conhecida como a festa da colheita (cf. Ex 23,16) era, no Antigo Testamento, uma celebração da bondade de Deus que dera a seu povo “uma terra de trigo e cevada, vinhos, figueiras e romãzeiras, uma terra de óleo de olivas e de mel” (cf. Dt 8,8). Como resposta de ação de graças, os israelitas ofereciam-Lhe, entre cantos de alegria, as primícias de suas colheitas.
No Novo Testamento, a festa de Pentecostes também canta as maravilhas e a abundância de Deus, já não nas sementeiras das searas, mas na messe íntima dos corações. Os Apóstolos “estavam reunidos num mesmo lugar” (At 2,1), quando “de repente veio do céu um ruído”(v. 2) e eles “ficaram cheios do Espírito Santo”(v. 4). O fiel, que atualmente levanta seus braços para o céu, agradece não “uma terra de trigo e cevada, vinhas, figueiras e romãzeiras”, não dons materiais e riquezas da terra, mas o maior presente que Deus nos comunicou nesta festa: seu próprio Espírito Santo.

Com a efusão do Espírito Santo, realizou-se a palavra de Jesus, que prometera enviar um Consolador. Derramou-se sobre os apóstolos, em línguas de fogo, a força de Deus. Inaugurou-se o tempo da Igreja, a quem se deu o dom definitivo do Espírito, que faz de todos um só povo, uma só ecclesia, reúne gregos e gentios, escravos e livres, judeus e cristãos numa única, santa e litúrgica kahal, debaixo do sacramento da nova aliança. Com a efusão do Pentecostes, Cristo coroou sua obra e a festa da Páscoa recebeu seu último toque, completando a obra salvífica do Senhor Jesus.

Uma vez mais irrompeu a eternidade para dentro do tempo e o homem experimentou, entre maravilhado, espantado e feliz, os desvelos, as novas manifestações do eterno amor do coração de seu Deus. Na festa de Pentecostes, Deus volta já não mais a sentar-se na mesa dos homens, mas faz a estes prelibar o banquete do Reino dos Céus, onde todos viverão embriagados com o vinho doce que Ele prepara para seus eleitos.

2. A festa de Pentecostes desperta em mim duas idéias principais. A primeira é que Pentecostes não é a resta de um dia, mas que toda a vida é um grande Pentecostes. Continuadamente, sem cessar, Deus derrama seu Espírito na argila informe da existência para teo-morfi-zá-la (diviniza-la). Deus não criou o mundo para o caos, mas os elementos do mundo existem para que o homem em sua necessidade possa servir-se deles “como benefício” (cf. Sb 11,5). Por outro lado, o mundo não foi criado de uma vez por todas, mas Deus continua a recriá-lo constantemente. Sua palavra – Faça-se! – é de valor eterno e ação perene.

3. Mas pensemos esta idéia de forma diferente. Imaginemos a surpresa e o espanto que nos assaltariam se, diante dos nossos olhares atônitos e ouvidos incrédulos, se levantasse, em meio a uma de nossas celebrações litúrgicas, uma voz louca ou profética que proclamasse: “Tenho o prazer de vos anunciar uma grande alegria: O Reino de Deus está entre vós!” O que, num primeiro momento, poder-nos-ia causar um calafrio e até uma certa alegria, pois estaria respondendo a um desejo que, quem sabe, o temos enfraquecido dentro de nós, mas que nos é conatural e imortal, tal sentimento, sem dúvida, seria suplantado por uma venenosa descrença, tão logo confrontássemos o teor do anúncio com o mundo-cão em que vivemos. Sem muitas dificuldades, concluiríamos que o Reino de Deus não pode conviver com o pecado e as injustiças, com o rancor, o ódio e as mais diversas formas de hipocrisias, com a cizânia da maldade e o demônio das rivalidades que tem como fermento comum um egoísmo mortífero e insensato.
Esta descrença, no entanto, é palpável, e é fruto de um comportamento carnal, como diz São Paulo. Ela é um dos aspectos do pecado contra o Espírito Santo. Tal descrença coloca em xeque a base de relacionamento da criatura com o Criador. E na medida em que tal descrença toma conta do fiel, faz-se impossível, como diz a Escritura, o perdão para o pecado contra o Espírito Santo. Pois a graça de Deus só pode medrar onde o homem coloca a aceitação da fé.

Nossa insensibilidade espiritual leva-nos a inflacionar ou a dar vulto à ação do Maligno e a menosprezar o eterno e continuado trabalho pentecostal do Espírito de Deus no coração de suas criaturas. Nestas palavras “O Reino de Deus está entre vós” sente-se pulsar, como diz o teólogo russo Paulo Evdokimov, “o coração do Evangelho”. Vivemos, no entanto e infelizmente, como se isto não fosse verdade. A dificuldade que sentimos em viver o Reino de Deus deixa-nos insensíveis à sua presença. Nosso debruçar-se sobre as mazelas do mundo anestesia em nós a ação do Espírito Santo. Convivemos com dificuldade com o mundo do mal. Alimentamos ansiosamente uma mentalidade judaica, sempre à cata de milagres. Somos, também, vítimas de uma mentalidade grega que, prometeicamente, se lança na conquista utópica de frutos proibidos e crê apenas na extensão de seus braços e na argúcia de sua inteligência. O drama da cruz continua a ser um escândalo que nos machuca e que piedosamente confinamos às celebrações da Semana Santa. Nosso mundo técnico e lógico termina nos limites onde se entrechocam luz e trevas, e nossos passos acompanham Cristo até às ruas de Jerusalém, sentindo-se fracos para ir com Ele até fora da cidade, ao lugar do crâneo.

4. E, no entanto, dezenas de anos antes de Cristo, a alma religiosa do Povo Eleito já era bastante espiritual para discernir, por entre as mazelas humanas, a presença do Espírito de Deus, pairando sobre as águas, a trabalhar no barro caótico do gênese. O caos ainda não terminou, inclusive porque esta é a hora das trevas. E é nesta hora que se faz presente a festa de Pentecostes. Deus continua pairando sobre o abismo do pecado e das incertezas, insuflando na fraqueza das decisões humanas o calor de seu coração e sua Palavra criadora. Cinqüenta dias depois da Páscoa, esta presença apenas se adensou para confirmar a fé dos discípulos que, por medo dos judeus, haviam-se retirado para a intimidade do Cenáculo que, se por um lado coloca a pessoa sob a proteção do Deus dos Exércitos, por outro visibiliza e inapelavelmente denuncia a fraqueza do homem.

5. A vida do fiel é uma contínua festa de Pentecostes. O suceder-se dos séculos é o Pentecostes eterno que os homens não devem perder de vista quando colocam, revoltados e escandalizados, seus olhares na cizânia que o inimigo semeia na seara do bom trigo que o Pai de Família fez crescer em seu campo. O esforço e desafio do homem espiritual estarão sempre endereçados na tentativa de vislumbrar e descobrir a ação de Deus na coragem dos jovens que cantam na fornalha ardente da Babilônia e no arrependimento do Rei Davi. A força do “Totalmente Outro” está irrompendo continuamente na história sagrada dos homens. Ele continua a sentar-se à mesa com Abraão, o armar o braço de uns poucos contra a prepotência dos tiranos, a sacramentar o testemunho de sangue dos irmãos Macabeus, a quebrar o orgulho e a impiedade de todos os Antíocos, a caminhar com os seus mesmo quando eles se afastam, sem esperanças, pelas estradas de Emaús.

6. Antigo Testamento tem uma visão profética da festa de Pentecostes no livro do Profeta Ezequiel. A nação apostara e o Faraó, que era visto como a salvação, se banqueteava iniquamente nas portas da cidade. A esposa do profeta, símbolo daquilo que seria a delícia para os olhos e imagem da felicidade de uma nação, lhe é roubada. E, no entanto, o Senhor lhe pede para que não a chore, para que não celebre o luto ritual. “Conserva o teu turbante na cabeça, põe o calçado nos pés, não cubras a tua barba, não comas o pão das gentes’ (Ez .24,17). Porque Israel será restaurado.

A mão do Senhor, então, arrebatou o Profeta e o colocou no meio de uma planície “que estava coberta de ossos”. A continuação da história todos a conhecemos, e o seu simbolismo também. Deus manda que o Profeta fale sobre os ossos “a palavra do Senhor”, aquela mesma palavra que tirou do nada toda a criação. O Profeta obedece E confessa: “Vi que se formavam sobre eles músculos, que nascia neles carne, que uma pele os recobria” (Ez 37,8). Daí a pouco, o “o espírito penetrava neles” (v. 10).

E o Espírito do Senhor abre-lhe os olhos para a verdade “Filho do homem, esses ossos são toda a raça de Israel. Eles dizem: Nossos ossos estão secos, nossa esperança está morta; estamos perdidos” (v. 11). Mas a mão do Senhor abre os túmulos (v. 12), fá-los ser um só coração (v. 19) e estabelece no meio dele o seu santuário, pois eles serão o seu povo (vv. 26-27).

No simbolismo de um sonho, eis a prefiguração e realismo de Pentecostes. Deus tirou a vida do caos: Deus deu vida a um útero estéril; Deus ressuscitou seu Filho das trevas da morte; e Deus fez de um monte de ossos o seu povo. É este o milagre de Pentecostes que se renova de mil formas diversas, em mil situações impossíveis e que só os puros de coração tem olhos para ver, segundo o Sermão das Bem-aventuranças.

7. A segunda idéia que a festa de Pentecostes me sugere é a da comunidade perfeita, daqueles que, segundo a descrição dos Atos, “perseveravam na doutrina dos Apóstolos, nas reuniões em comum, na fração do pão orações” (2,42). Eles viviam “unidos e tinham tudo comum” (v. 44); “tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo” (vv. 45-47). Para melhor apreendermos a dimensão desta comunidade pentecostal, seria útil meditar sobre a “comunidade infernal”. As cores sombrias de um quadro que nos apresenta o inferno poderão nos ajudar a entender melhor o esplendor da festa de Pentecostes.

8. O inferno é o oposto do Reino dos Céus. Tanto para um quanto para o outro valem as palavras de Isaías e São Paulo: “Olho humano jamais viu, nem ouvido ouviu, nem o coração imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Cor 2,9), e para os malditos que não O acolhem. O homem tem dificuldade de compreender um e outro porque ainda não compreendeu o próprio coração.
Qualquer reflexão sobre o inferno e o céu, por isso mesmo, será sempre uma meditação sobre as possibilidades dum inferno e dum céu que carregamos dentro de nós mesmos. Tem toda razão o místico alemão Angelus Silesius quando afirma: “Se o paraíso, ó homem, não estiver, antes de tudo, em você, creia-me que nele, seguramente, você não entrará jamais”. Ou ainda: “O céu encontra-se em você, assim como as torturas do inferno. O que você escolher e quiser, isto você o terá por toda a parte”. A Bíblia é a meditação que agora estamos tentando fazer. Ela olhou para dentro do homem e ali encontrou o céu e o inferno. Viu Deus criando o homem à sua imagem semelhança e o demônio tentando desencaminhá-lo.

O que é o inferno? O inferno é a busca desgraçada de si mesmo. Uma busca sofrida, sem tréguas, insatisfeita, perturbadora; é um girar sem paz, um buscar sem encontrar um torturar-se sem sentido, um morrer angustiante sem fim. Angelus Silesius retrata o maldito muito bem: “Se o diabo – diz ele – pudesse abandonar a busca de si mesmo, tu o verias, de imediato, assentar-se no trono de Deus”. O Professor de Mística, Padre Deblaere, costumava dizer que o demônio é o mais religioso dos seres, com o problema de não querer abandonar o próprio eu. Santo Agostinho, retratando a cidade dos homens, mostrou-lhe o aspecto trágico, que residia exatamente na busca neurótica de si mesmo até o ponto de perder-se. E São Paulo anota, com fineza psicológica, que quando Deus quer perder o homem, entrega-o aos descaminhos dos próprios desejos.
O inferno, por isso, é uma solidão não redemida, um abandono cheio de revolta (o abandono de Cristo foi vencido pela fé!), um deserto sem a presença do Bem-Amado. Os místicos preferiam o inferno com Deus, que o céu sem Ele. Outros queriam ser tão livres, no amor de Deus, que continuariam a amá-lo mesmo que Deus não fosse a recompensa que lhes era prometida.

O inferno nasce de um amor sem forças de expressão, ou cuja expressão é a estéril projeção do próprio eu. Nesta projeção ansiosa, o homem se martiriza inutilmente e devora o próprio coração, sacia-se não do pão vivo na casa do Pai, mas com a comida que seus cuidados terrenos preparam para os animais que ele alberga no fundo de si mesmo. Esta comida nunca será suficiente. Ele, então, em vez de transformar-se no “templo vivo de Deus”, converte-se numa “babel onde o demônio faz o seu carnaval”. E as características desta babel não a irreconciliação trágica consigo mesmo, mundo interior fracionado e desajustado, insatisfação neurótica, incoerência, pulsão dos desejos, auto-imagem distorcida e não-ok.
Um homem assim não pode cantar e para ele Pentecostes não é uma festa, pois ele está perdido na incomunicação consigo mesmo e com o mundo. Ele não conhece a alegria da adoração, a gratuidade do testemunho, a pureza da acolhida e a festa da comunhão.

9. Mas tudo isto conhece o homem pentecostal. Seu olhar não se perde nas baixas planícies dos dividendos terrenos, mas ele está sempre à espera do Senhor que está para vir. Sua oração não se centra sobre suas necessidades, mas é uma súplica para que venha o Reino Deus, para que volte o Cristo Senhor: Maran-atha! Ele é um adorador do Pai, o homem do “Sanctus”, sempre pronto a descalçar as sandálias e a despojar-se das próprias vaidades, para revestir-se da força da Palavra de Deus. Ele é o “auditorium Spiritus” (auditório do Espírito) e o “vere recipiens Spiritum Dei” (o verdadeiro receptáculo do Espírito de Deus). Nele já foram silenciados os desejos e afeições passageiras e sua vida é o anfiteatro onde Cristo já venceu o demônio da tríplice tentação. Porque morreu para si, de seu túmulo a mão toda-poderosa de Deus ressuscitará sua verdadeira imagem e semelhança. “Todos – dizem os Atos – ficaram cheios do Espírito Santo” (2,4). Assim é o homem pentecostal que se esvaziou de si, fazendo espaço para o Deus de toda consolação.

10. O homem pentecostal fala a língua de seus irmãos. Fala e entende. Não se perde num monólogo estéril, compreende o que lhe dizem e faz-se entender pelos que o escutam. Sua identidade é a pobreza e sua linguagem, o amor. Não usa armas para dominar, apenas vive na admiração das “maravilhas de Deus” (2,11). O ruído do milagre lhe é inteligível, porque já silenciou dentro de si o ruído das paixões. Não fala de si, fala do outro, do grande outro, em nome de quem ele se reúne para rezar e comungar.
Em qualquer lugar onde esteja, o homem pentecostal vive casa do Pai, que criou todas as coisas para que lhe cantassem sua glória. Tudo lhe é irmão e o mais ínfimo ser é digno de seu desvelo. Em todos eles faz-se presente, constantemente, a festa de Pentecostes. Eles são vivificados pelo sopro criador do Espírito de Deus e línguas de fogo aquecem-lhes o coração para a vida.

Texto publicado na Revista Grande Sinal, de propriedade da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, editada pela Vozes.

6 de junho de 2014

“Onipotência crucificada”



Meses a fio,  nesta rubrica,  às primeiras sextas-feiras, refletimos sobre as insondáveis riquezas  do  Coração do Redentor. Queremos hoje transcrever algumas  reflexões de José Antonio Pagola, conhecido teólogo e pastoralista espanhol. Temos diante dos olhos o artigo do autor: “Testigos del misterio de Dios”,  publicado  na revista Sal Terrae,  enero de 2000, p. 27-42.

Bem no centro da fé cristã  há uma afirmação capital:  Deus é amor (1 João 4,8). A realidade  mais profunda do Altíssimo consiste em amar  gratuitamente. Deus é Deus amando os homens até o fim. O Crucificado é a revelação suprema do mistério insondável de Deus.  Reconhecemos nele o verdadeiro Deus.  Nele  está a “força e a sabedoria de Deus (1Coríntios 1,24).

Necessário dizer que nunca esteve ausente na reflexão e na vivência religiosa do cristianismo o Deus crucificado.  Seu rosto, no entanto, por vezes,  se tornou empobrecido e foi sendo substituído pelo Deus impassível e onipotente da filosofia   grega. Insistiu-se mais numa concepção filosófica do que no Mistério de um Deus que se revela como Amor que se crucifica pelos homens. Esse olvidar do Deus da cruz está em ligação com o esquecimento da fragilidade, esquecimento do pequeno e do pobre. Para abrir-se ao Mistério do Deus verdadeiro será fundamental prestar atenção naquilo que normalmente não queremos ver:  o homem humilhado, desprezado, crucificado.

No imaginário religioso de muitos cristãos continua  presente a imagem de um Deus Soberano, Senhor Onipotente, Rei sempiterno que tem suas raízes na filosofia grega e que foi se consolidando durante milênios numa sociedade patriarcal e monárquica, fortemente  hierarquizada. Em nossos tempos, esse Deus, Senhor Onipotente,  não exerce atração nem enamora.  Será que não estamos no momento de nos voltar para o Deus da cruz?

Por outro lado, a queda dos grandes mitos do progresso, da ciência e do desenvolvimento  deixaram a razão moderna sem palavras nem consolo diante do crescimento da fome, do genocídio e da deterioração da natureza.  A modernidade  não consegue silenciar o grito  dolorido dos povos crucificados pela miséria, guerras e ódios.

Fazer  experiência de Deus,  no momento atual, deve nos fazer ouvir com nova profundidade o grito de Jesus:  “Meu  Deus, meu Deus.  Por que me abandonaste?”  Aí  Deus se revela.  Em lugar algum  se ouviu de forma tão uníssona o grito do homem e a resposta de Deus.

Precisamos buscar outra imagem  de Deus, uma nova imagem.  “Não um Deus de onipotência arbitrária e abstrata que podendo nos livrar do mal, não o faz, ou então, o faz  somente às vezes, em favor de uns poucos privilegiados,  mas um Deus solidário conosco até o sangue de seu Filho: um Deus  Anti-mal, como  disse admiravelmente Whitehead, não é um soberano altivo e  indiferente, mas  o Grande companheiro, que sofre conosco e nos compreende” (  A. Torres Queiruga,citado pelo A.).

Deus está em nosso sofrimento.  Compartilha esse sofrer.  Não estamos sós na insondável provação da existência. A teologia está encarregada de aprofundar o conceito da onipotência de Deus  para mostrar que  não é uma onipotência mágica indigna de Deus e do homem, mas a Onipotência do Amor infinito que penetra a realidade do nosso mal  para partilhar de nosso grito e fazê-lo seu. Esvaziou-se de si para tornar-se  servo do homem (Fl  2,6.8). A onipotência de Deus não é para ele, mas para nós.  Uma vez que Deus partilha  nossa finitude e debilidade, tudo é possível, inclusive ressuscitar da morte ( A. Gesche).

O anúncio de Deus sempre foi feito  tendo como pano de fundo a fórmula de Santo Anselmo:  Deus é: id quod maius cogitari nequit, quer dizer,  um Deus que é sempre maior do que podemos esperar, imaginar, pensar ou compreender.  Um autor citado por Pagola  inverte a fórmulação:  Deus  é  id quod  minus cogitari  nequit,  quer dizer, um  Deus que nos surpreende por seu ocultamento, seu inimaginável  abaixamento, sua capacidade de “apequenar-se”   que nunca teríamos podido imaginar, seu esvaziamento, sua kénosis,  aquele que conosco vive a realidade do mal  (claro, menos o pecado).  Uma onipotência que dá a vida…

A crise de certos  “modelos de Deus”, ou “imagens de Deus”  não quer dizer que a fé cristã se torna inviável.  Muito vinculada à filosofia grega o cristianismo  não deu o melhor de si  não podendo comunicar a experiência do Deus  Amor.  “Vemos hoje emergir uma cultura nova, indiferente ao  Deus Onipotente,  mas com ouvidos para escutar testemunhas e buscadores de um Deus com rosto renovado:  um Deus Amigo e Amante;  enamorado até o extremo de cada ser, servidor humilde de suas criaturas; veio até nós não para ser servido, mas para servir;  com capacidade infinita de compadecer-se, compreender, acolher a todos;  um Deus que não cabe em nenhuma religião ou igreja, porque habita em todo coração humano e acompanha cada ser humano em sua desgraça;  um Deus que sofre na carne dos famintos e os miseráveis da terra;  um Deus que ama o corpo e a alma, a felicidade e o sexo; um Deus que esta em nós para buscar e salvar o que estropiamos e perdemos;  um Deus que desperta nossa responsabilidade e ergue nossa dignidade; um Deus que liberta dos medos e quer, desde agora, a paz e a felicidade para todos;  um  Deus que não se angustia diante da morte,  mas abraça a cada criatura enquanto agoniza  livra da morte. Um Deus de quem podemos nos enamorar.

Os devotos do Coração de Jesus se colocam, assim, diante de um Deus que se tornou ternura amorosa e que permitiu que fosse feita  uma em seu lado. Nessa fenda, nesse coração se encontra a  força e a sabedoria de Deus (cf. 1Corintios 1,24).

Frei Almir Ribeiro Guimarães

5 de junho de 2014

Espírito Santo segundo Dicionário Franciscano



Sem dúvida alguma espírito é uma das palavras-chaves da espiritualidade franciscana. Sua importância se revela já pelo fato de ocorrer 120 vezes nos escritos do santo. Um aspecto característico do termo – como de toda palavra-chave – é que parece exprimir toda a espiritualidade de Francisco, que se reflete na própria particularidade do termo. A linguagem exprime assim uma profunda intuição do santo a respeito das virtudes: “Quem possui uma não ofende as outras”. (SdVt 6). O motivo profundo de tal unificação interior deverá talvez aparecer claro no final de nosso estudo.

1. Análise textual: 
a) Deus é Espírito, por isso tudo aquilo que é de Deus (até a eucaristia e as virtudes infusas) só pode ser visto, percebido unicamente por meio do Espírito, como declara Francisco na Adm 1.5; 
b) como Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, aparece mais vezes em contextos trinitários, no qual a obra da salvação é considerada comum às três Pessoas:- é próprio do Espírito ser autor de todo bem e virtude;
 c) é por obra sua que Deus fixa morada na alma fiel;
 d) visto como E. de Nosso Senhor Jesus Cristo que habita os corações, faz com que se reconheça a proveniência de todo bem de Deus, dispõe a viver as suas santas obras, é desejável acima de qualquer outra coisa.
e) Existem expressões características de Francisco “na caridade do espírito”, “em obediência ao Espírito”, “a pobreza do Espírito”, “a vida do Espírito”, “a sabedoria do Espírito”; nelas a atenção é colocada naquele que é a fonte destas e de todas as virtudes e dons; ressaltando-se, portanto, a natureza da graça nestas atitudes; – outras expressões designam assim o servo de Deus e seguidor de Cristo que é, como ele, transformado pela ação divina e gratuita do Espírito, de posse da verdadeira sabedoria e vencedor da sabedoria da carne.
f) Com relação ao estudo e anúncio da Escritura, Francisco adverte quanto ao perigo da “letra” que mata, e que se busque e se siga “o Espírito da letra divina”, que significa também, neste contexto, deixar-se iluminar somente pelo E., que é o seu autor.
g) Várias vezes Francisco declara que as palavras de Cristo são “espírito e vida”, e, assim, também as “suas” palavras ou as dos teólogos; exprime com isso a sua certeza de que todos aqueles que recebem no Espírito a palavra divina são vivificados por Deus.
h) Muitas vezes Francisco lembra o sentido oposto, o “espírito (sabedoria) da carne” e o “Espírito do Senhor”, que distingue os “penitentes” daqueles que “não fazem penitência”.
i) O fruto do Espírito, que deve ser desejado acima de qualquer outra coisa, é a atitude de “adorar a Deus em espírito e verdade”, “com pureza de coração e de mente”, porque Deus é espírito.
_ A palavra “espírito” qualifica outros tantos aspectos da experiência franciscana: Francisco diz que o homem é criado à semelhança de Deus no Espírito, Deus forma os seus eleitos com o espírito de arrependimento: tanto no trabalho, como na pregação e na contemplação deve-se cuidar para não se extinguir o espírito da santa oração e devoção; deve-se desejar e buscar acima de qualquer coisa o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar; na oração, voz e espírito devem estar em consonância; – Todas estas expressões indicam uma relação sobrenatural com Deus.
j) E assim toda vez que aparece a palavra espiritual: amigos, irmãos e irmãs, amor entre irmãos espirituais, é no seu sentido do Espírito que é criador da fraternidade; – advérbio espiritualmente tem o mesmo significado, com mais evidëncia quando aparece contraposto a “viver carnalmente”, e é assim que a Regra deve ser entendida.
l) Francisco, nas suas orações marianas, coloca Maria num contexto trinitário bem
específico e como “esposa do Espírito Santo” mas também como ponto de partida da Igreja na graça das virtudes e dons que o Espírito Santo infunde nos corações; – ressalta a maternidade espiritual mariana na Igreja e na Ordem em relação a Cristo, que todo “fiel” pode gerar por obra do Esposo, o Espírito Santo; e indica como ministro da Ordem o Espírito Santo e como “paráclita”, advogada, Maria, enquanto esposa do mesmo.


2. Síntese doutrinal – De uma ampla análise emergem estes pontos teológicos: 
a) Francisco teve uma intuição profunda, mística de Deus Trindade como Espírito que dá vida; 
 b) a vida de Deus, no seio da Trindade, assim como também no mistério da salvação, é interpessoal;
 c) e é uma vida sempre presente;
 d) e age sempre em íntima união;
  e) por causa desta concepção trinitária ocorre que nem sempre se entende bem a qual pessoa Francisco se refere quando usa as palavras Espírito ou Senhor;
  f) mas a missão do Espírito aparece fundamental na atuação da vida cristã em sua íntegra; 
g) para Francisco a fonte única de todo bem, também no homem é somente Deus que, operando em nós, nos torna filhos, esposos, irmãos e mães;
 h) uma relevância especial é dada a Maria-Igreja em relação ao Espírito; 
i) entre as virtudes que Francisco considera infusas sobressaem-se como palavras-chaves: penitencia, pobreza, obediência, caridade, vida evangélica apostólica, seguimento de Cristo.
j) Fica claro que se pode atribuir ao Espírito um valor vital-central e unificante na espiritualidade franciscana: que Francisco parece sintetizar com a expressão possuir o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar”; por isso afirma que quem possui uma virtude possui todas, porque é o Espírito do Senhor o inspirador de toda a virtude.

3) Momento histórico e atual 
– É freqüente o uso desta palavra e adjetivos derivados na história franciscana, principalmente nos momentos de renovação, e, também na secular discussão acerca da interpretação da Regra. Para os “espirituais”, como Clareano, a observância espiritual é exatamente a literal; a história se desenvolveu em torno de duas interpretações: uma escrita, ligada às declarações pontifícias, e a outra que aceita também as dispensas pontifícias; – entre essas duas interpretações se encaixaram, ao longo dos séculos, os vários movimentos de reforma, em nome de uma leitura simples da Regra, mais como experiência genuína pessoal do que como mentalidade legalística; e é o horizonte no qual se situam hoje as várias famílias franciscanas.

4) Momentos do Espírito na experiência das origens 
– É a ação do Espírito que faz dos frades “irmãos espirituais”, unindo-os num laço de amor mais profundo do que o próprio amor materno, pois é ele o “ministro geral da Ordem” e repousa igualmente sobre ricos e pobres, doutos e simples; e conduz os simples e os pequenos, como foi o caso de Francisco, ao conhecimento dos mistérios de Deus, nisto consiste a verdadeira sabedoria; 
– é o princípio dinâmico da vida da fraternidade; ele vivifica aqueles que na Palavra de Deus não buscam a “letra” e a autopromoção, mas uma luz para clarear o seu caminho e o dos outros, isto é, as santas obras; os frades devem deixar-se conduzir pela sua ação; – Francisco presta atenção especial à ação do Espírito, vive-a até o total despojamento de si; – a obediência ao Espírito torna os frades humildes, pacientes, alegres nas tribulações, verdadeiros servos de Deus e de todas as criaturas, e transforma o amor humano em ágape.
- No período da conversão, Francisco se deixa instruir pelo Espírito e opta pelas coisas amargas, que lhe são transformadas em doçura, e também Clara aprende dele esta mesma atitude de penitência; Francisco e Clara atribuem diretamente à inspiração divina a sua vocação ao seguimento de Cristo, segundo a forma do Evangelho; Francisco ressalta que só recebe dignamente a salvação e o corpo e sangue do Senhor aquele que o enxerga com os olhos do Espírito, na fé e no Espírito que habita nos fiéis; a busca do Espírito do Senhor, que é vontade de conversão, é o fundamento da CtFl, e por isso animação interior do Memoriale propositi, e também da nova Regra da OFS; aquele que acolheu como graça o seguimento de Cristo, e torna-se totalmente disponível à ação do Espírito; e, se torna espiritual”, pronto para refutar o “espírito da carne” e para conformar-se em tudo ao Senhor; e para tratar a si mesmo e aos outros com “discrição”, que é sabedoria e misericórdia; Francisco destaca a necessidade de “renascer”da água e do Espírito”que é anunciada “aos sarracenos”, quando assim o sugerir o Espírito aos seus frades missionários.

- Francisco chama Maria de “esposa do Espírito”, um título novo na tradição mariana; mas aplica este título também às clarissas e a todos os fiéis; por obra do Espírito, Maria é “consagrada”, é “virgem feita igreja”, tabernáculo e palácio do Senhor; e entra numa relação singular com a Trindade; e por isso Francisco, confiando-se ao patrocínio dela, quer imitar-lhe a vontade de acolhida, para conceber e gerar Cristo em si e nos homens. Assim, também a alma fiel entre em relação esponsal com o Espírito, que, com a sua presença e ação, lhe confere fecundidade e maternidade espiritual na Igreja e pela Igreja, participante da maternidade de Maria.; dom do Espírito ao mundo é também Francisco que, investido de sua força, se torna salvação, esperança e norma de vida segundo o Espírito, imagem de Cristo; inserido vitalmente no quadro da história da salvação, como ressaltam os hagiógrafos.

Dicionário Franciscano, Espírito Santo, espírito, espiritual – verbete 204-215

4 de junho de 2014

O Espírito Santo na mística franciscana - A vida no Espírito



Albert Chapelle, SJ (*)

Não se pode estritamente falando caracterizar a “espiritualidade” cristã como experiência ou como cultura ou como ideologia. O termo parece hoje um tanto impreciso ou ambíguo, visto sugerir teorias e práticas de tipo religioso sem indicar no entanto a vida na Aliança e no Espírito de Deus.

A vida espiritual do cristão católico recapitula em gestos e palavras a história da salvação, a dispensação da revelação. Cada pessoa é chamada a viver singularmente a plenitude da economia divina. A vida no Espírito é comunicação a cada um por todos da totalidade do Mistério.

Na fé se recebe a vida no Espírito Santo, na luz da fé ela se deixa pensar. A experiência individual ou a psicologia religiosa não têm capacidade para aperceber-se da comunhão na vida divina concedida aos fiéis de Nosso Senhor Jesus Cristo. A vida cristã, visto significar participação no mistério divino, é tão misteriosa quanto este. Ela participa amplamente na plenitude de sua graça; mas a consciência que ela tem de si mesma é sempre inadequada diante do mistério que a suscita, a habita e a arrasta em sua órbita. As lembranças e a compreensão de cada pessoa são condicionadas por nossas peculiaridades humanas. Somente a luz da fé na revelação divina coligida na Escritura e a Tradição ensinam ao cristão aquilo que ele vive. Somente a fé lhe abre a porta que dá acesso ao segredo da sua vida no Espírito.

Para meditar teologicamente sobre a “espiritualidade cristã”, nossa vida no Espírito Santo de Jesus Cristo, deixaremos que nosso olhar acompanhe o movimento da revelação divina. Ele é que propriamente caracteriza a vida espiritual do fiel cristão e sua inteligibilidade. Nossa reflexão vai deste modo se articular nos seguintes momentos: 1) a vida espiritual nos foi dada gratuitamente na história da salvação; 2) é recapitulada em Jesus Cristo; 3) oferecida e celebrada na Eucaristia pela Igreja; 4) é comunhão na intimidade trinitária.

O plano acima esboçado permite adivinhar aquilo que nosso discurso não poderá detalhar totalmente: o agir cristão alicerçado nas virtudes e nos dons do Espírito, bem-aventuranças e frutos do Espírito. Por vida no Espírito Santo queremos referir-nos acima de tudo ao ser cristão, a fonte do seu agir. Não iremos evocar tampouco os atos habituais da vida cristã: a oração e os atos de misericórdia espiritual ou corporal. Vamos refletir, nesta meditação teológica, sobre o movimento que anima a vida espiritual de cada pessoa, tal como se desenvolve e se condensa na economia da salvação.

História e Espírito

O dom do Espírito nos antecede como uma graça, ele nos precede na história. Vida espiritual não se improvisa, não tem sua origem em si mesma, não pode haurir água viva em sua própria fonte. É recebida do Alto; brota como toda vida das gerações e dos partos da história.

A história da salvação é o desenrolar do plano previdente divino que se revelou a partir da criação e da eleição de Abraão. Ela se deixa percorrer de novo integralmente por aqueles que Deus chama para acolher o seu dom original e reconhecer a eleição com a qual foram agraciados. Tal como a história da salvação, a vida espiritual é opção de Deus, promessa e cumprimento, queda e arrependimento, ruptura e renovação da Aliança indefectível. Como toda a história da salvação, a nossa vida espiritual deita suas raízes em uma humanidade vulnerada, mas sempre vivaz, que deve ainda e sempre de novo ser educada para a sabedoria. Tal como a história sagrada de Israel, a vida espiritual de cada fiel cristão (ã) se inscreve na carne e dela recebe a graça de comparecer diante do seu Criador. E graças a outrem que a história se constrói, é do outro, daquele que nos precede, que nos instrui e nos ensina, que se edifica toda vida cristã.
Essa docilidade à tradição recebida dos antigos não caracteriza apenas a perpétua “deuterose” (do gregodeuterosis = repetição) que forjou a história do povo de Deus no Primeiro Testamento e no Segundo. A mesma docilidade à voz viva do Evangelho qualifica a humildade constitutiva da vida no perdão e na esperança. É pelo Espírito Santo e seguindo a trajetória de suas operações salutares que a vida cristã se deixa conduzir e iniciar à caridade.

A Sagrada Escritura atesta esta ação do Espírito na história da humanidade como uma revelação do Verbo de Deus na palavra e na ação dos seres humanos. A vida espiritual não pode, portanto, ser um grito primal dado que é uma resposta articulada à Palavra que a precede, a acompanha, a sustenta e alcança. A vida no Espírito é a escuta da primeira palavra sobre o amor: “Ouve, ó Israel, amarás o Senhor teu Deus … “, e a história da salvação não atinge o seu termo sem que a esta palavra venha somar-se este segundo apelo ao amor: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Amarás o Senhor … , amarás o teu próximo …, história impossível, dom do Espírito. Nossa vida espiritual só se realiza quando se retrata na indistinção dos inícios; ela é uma fonte de água viva, impulso e doação até o fim. Não significa recolhimento em uma interioridade vazia, o mutismo que parece indiferença diante das desgraças do mundo e da felicidade do cristão. A vida no Espírito é silêncio da escuta e resposta aplicada de um Fiat: vida espiritual é caridade.
Esta a lição da história, este o fruto do Espírito. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,34).

A recapitulação em Jesus Cristo

O mandamento novo trai o Coração daquele que é sua fonte. Dá testemunho do Homem Deus que ama como homem com uma caridade divina [agapé] e convida os irmãos ao mesmo amor. A ordem da caridade caracteriza a vida espiritual e manifesta a grandeza autêntica de Nosso Senhor Jesus Cristo. A vida no Espírito é também vida em Cristo, por Cristo e com Cristo. Ele é o Deus Verdadeiro: a união a Cristo faz a verdade da vida no Espírito. O Senhor – nosso Servo Sofredor – é o Deus que se deve amar de todo o coração, com toda a nossa mente, com toda a nossa alma e com todas as forças. Ele é ao mesmo tempo o mais próximo e o mais distante próximo que temos de amar como a nós mesmos.

Vida espiritual é o amor do Verbo que veio na carne. Cada um se deixa seduzir por um dos inúmeros traços do rosto de Cristo. Ele é o salvador e o esposo, o mestre e o amigo, o irmão e o companheiro de peregrinação terrestre. A vida espiritual de cada pessoa habita como que em seu lugar próprio, e mesmo talvez sem o saber, um dos mistérios da vida de Nosso Senhor, da sua Encarnação e sua Natividade à sua Paixão, Morte e Ressurreição. A mansidão e a humildade de seu coração alimentam a nossa vida no Espírito.

Este esplendor se revela à noite. A nossa vida no Espírito está escondida com Cristo em Deus Pai. Seu Nome talvez esteja em nossos lábios, sem no entanto contemplarmos a sua glória. Nós o amamos, e no entanto não o vimos ainda. Mas esses mistérios do ocultamento do Verbo na infância humana e na paixão de morte atestam a sua proximidade inalienável com a condição humana. Ele não marca nenhuma distância nem ratifica nenhum afastamento.

Todo espaço imaginado vazio fora da presença e da atuação de Jesus Cristo é privação de Deus, extinção do Espírito. Sem Cristo nada podemos fazer nem viver a espiritualidade cristã. Esta perde o vigor e perece quando se separa – por pouco que seja – da sua Fonte, da sua Cabeça, da Vide Verdadeira, ainda que fosse em nome da abstração do sensível, da fascinação do Uno, da infinitude do pensamento ou da imensidão do coração. Fora do olhar de Jesus Cristo, não existe vida espiritual. Sem o brilho da sua face, ficamos sem a luz sobre Deus e o mundo.

A vida espiritual do cristão e da cristã se vive pessoalmente, de coração a coração, de espírito a espírito, no corpo a corpo humano com o Anjo. Todo desconhecimento de Jesus Cristo é obliteração da singularidade pessoal, e a submersão na impessoalidade deixa a criatura sem Deus e sem esperança. A vida espiritual do (a) cristão(ã) é a emergência para fora do cósmico ou do inconsciente, encantamento da pessoa diante do seu ser que é dom. Fora de Jesus Cristo, não há salvação para a pessoa nem para o amor. Fora de Jesus Cristo não se tem acesso a Deus. Ele é o Sumo Sacerdote do nosso único sacrifício.

A Eucaristia

A vida no Espírito é dádiva divina, é crística e eucarística.

A vida na Aliança é concedida na história como a graça e o sacramento da nossa redenção. Ela se realiza no Ato de Cristo e no dom do Espírito Santo. Encontra seu termo e também sua raiz na Obra pela qual se estabelece, se renova e se consuma a união a Deus, na qual consiste a nossa bem-aventurança. Esta obra santa da bondade divina é o sacrifício de Cristo, caso aceitemos a definição de Agostinho (cf. Cidade de Deus, X). Graças a este sacrifício se abre a porta da intimidade divina e a união a Deus nos é oferecida como o dom paterno e fraternal de uma filiação adotiva. A vida no Espírito, deste modo, é sacrifício pascal, alegria do acesso à intimidade divina e ao seu amor mais forte que a morte; prova do desarraigamento do egoísmo assassino, libertação do mal e reconhecimento da graça.

A moral e a ascese cristãs se desenvolvem sob o signo da Cruz gloriosa, que tem na Eucaristia da Igreja seu memorial e seu sacramento cotidiano. A vida no Espírito que nos assimila ao Ato salvador de Jesus Cristo vai levá-lo em nós à sua plenitude. O único sacrifício do Filho Unigênito não se repete, mas abraça e integra no seu ato de oblação todos os irmãos que o Pai lhe confia geração após geração. Elevado acima da terra, na Cruz, Ele atrai a si todos os seres humanos, dá-lhes sua vida, compartilha o amor e de todos faz um só Espírito e um só Corpo. O memorial sacramental do sacrifício redentor, a Eucaristia, faz a Igreja, congrega-a e a une a Deus Pai.

Aquele que se entregou uma vez para sempre se oferece todos os dias à bondade do Pai para nos integrar na mesma oferenda cotidiana. Viver no Espírito de Cristo é estar associado, é associar-se a este gesto de reconciliação. É todo dia, e a cada hora, receber e retribuir esse amor criador, sem medida nem limites.
A vida no Espírito é eucarística. É cooperação voluntária na obra de salvação do mundo. É o impulso de uma vida que se entrega também como a de Cristo, o dom do coração que paga amor com amor. É comunhão eclesial no amor (agapé) derramado em nosso coração pelo Espírito que nos foi dado. Pela graça do Espírito levamos em nossa carne a superabundância do amor prodigalizado na Paixão de Jesus; construímos o seu Corpo. N’Ele congregados, louvamos, bendizemos, adoramos e damos glória Àquele pelo qual, no Espírito Santo, recebemos o querer e o fazer. Nossa comunhão vem a ser o sinal e o instrumento da Aliança com nosso Criador e Redentor. Em ato de união e de oferenda, a Igreja faz a Eucaristia; celebra o sacrifício que a santifica; dá graças pelo Autor da graça que a configura a si e a une a si como Esposa.

A vida no Espírito é dom recebido e a ele responde uma comunidade que não suporta nem confusão nem separação. Essa vida é o inderrogável face a face de uma Aliança; conhece a distinção e o respeito próprios da união conjugal. A vida na Eucaristia discerne no sangue derramado o presente dos esponsais divinos. Exala sempre o violento perfume do sangue derramado, do martírio. A vida espiritual não quer dizer apatheia (a insensibilidade filosófica do estoicismo), ela estremece sempre diante da emoção suplicante, intercede, solicita, procura, pede, mas também sabe dar e abandonar, pois é a vulnerabilidade do amor.
A adoração do Eterno, no templo da Igreja e das almas, é reconhecimento do Amor que move o céu e a terra; é oblação propiciatória e súplica desolada, pois o Amor não é amado. Desolação e trevas de quem se acha, no banquete eucarístico, sentado à mesa dos pecadores. Consolo e universal complacência do Espírito, visto que em cada filho dos homens o Pai dos céus reconhece o seu Filho Bem Amado.
A vida eucarística é renovação incessante e transbordamento de um amor que assume as feições da piedade, da compaixão e da misericórdia sem perder o impulso da dádiva e a alegria da fascinação do Criador diante de sua criatura, do Pai das misericórdias diante dos filhos que gera no Filho Unigênito.
A vida no Espírito é eucarística e eclesial, oblação mortificante e comunhão na paz, ministério de adoração e intercessão, alegria dos esponsais, filial intimidade. A liturgia sacramental pode ser discreta, até secreta, no coração dos fiéis; ela é a fonte e o ápice da vida cristã: abre a porta que dá acesso a Deus. Vida espiritual é a iniciação à vida trinitária.

A vida trinitária

A vida espiritual cristã não é feita à medida humana; não é determinada pela experiência corporal ou psíquica, mas exige, sem dúvida, retidão moral. Não se reduz, no entanto, à moralidade. Mais a suscita do que dela resulta. Não é sabedoria racional, intuição inefável, ciência oculta; nem tampouco é um feitiço do mundo ou magia dos sentimentos. Dócil ao Lógos toû stauroû, à Palavra da Cruz (a pregação de um Messias Crucificado: 1 Cor 1,18), a vida no Espírito é no Filho Bem Amado comunhão na intimidade do Pai. O Verbo de Deus assumiu a carne humana e se fez homem para que o ser humano ganhasse a vida nova e a divinização.

Esta comunicação da vida divina tem o realismo das mais surpreendentes palavras do Evangelho: Felizes os pobres no espírito … amai os vossos inimigos … Ela é participação na vida d’Aquele que está escondido neste mundo, na sua providência constante, na sua sabedoria criadora, no seu amor invencível, inexaurível. As exigências comuns da caridade evangélica dão testemunho dessa participação no amor divino, sobrenatural: amai-vos uns aos outros como eu vos amei, com amor infinitamente santo, indefinidamente vulnerável com que vos amei. Se a paciência nos permite possuir nossas almas, é porque tem no Espírito a eterna garantia do Criador dos céus e da terra, d’Aquele que chama pelo nome as estrelas e os eleitos.
A vida no Espírito nos é dada na história, por Cristo, como também a Eucaristia de sua Igreja; é divinização e participação por graça naquilo que Deus é por sua própria natureza. Deus por participação: eis a meta a que é chamada a criatura humana. Mesmo assim, não somos menos humanos, visto que o Cristo nos revela em sua Pessoa este admirável comércio de aliança e de esponsais que faz do ser humano o parceiro bem amado do seu Deus. Eis o mistério absoluto, e tão simples, de que participamos por graça, convidados à simplicidade do olhar que reconhece em cada dom o bem único e primeiro, em cada presença a mesma Presença do Pai, em cada obra e em toda paixão a paciência do Verbo Encarnado, em toda intimidade um transbordamento da vida do Espírito Criador.

Embora seja ainda humana, a vida espiritual é também santa e divina. É vida. Portanto, gerada. Nasce do Pai de toda luz e toda bênção. Ele nos gera porque é Pai. Gera-nos em seu Filho Unigênito no qual encontra sempre toda a sua complacência. Filhos no Filho, um só e mesmo Filho, esta é por graça adotiva a condição dos filhos dos homens amados pelo Pai n’ Aquele que é por geração eterna o Filho bem Amado.
Se nossa vida é Cristo, é para ser um com Ele e n’Ele no Amor do Pai que o enviou. Como Ele é um com seu Pai e o Pai um com Ele, somos um n’Ele, identificados com Ele pelo Espírito Santo, pelo Amor comum do Pai e do Filho. Não menos amados que Cristo, dado que totalmente amados n’Ele; não menos simples que Ele, dado que estamos n’Ele, o Único, únicos como Ele.

A vida cristã eucarística tem a densidade da perfeita unidade do Pai e do Filho no Espírito de poder e paz. Como jorra do Uno e do Outro, como testemunha e penhor eterno da unidade divina, o Espírito Santo transborda para fora de nós que, amados no Filho, amamos o Pai que nos leva de volta a seu Filho que veio na carne. O Espírito Santo que nos habita procede, jorra do Pai e do Filho; procede e jorra também de nós, dado que somos um só Filho em Jesus Cristo.

Cada um de nós, único, manifesta uma singular tonalidade do amor divino e mostra sob os olhos encantados do Pai e do Filho um rosto original do eterno amor. Dignidade singular da pessoa humana que, pela graça e em Cristo, concede ao Pai amar Aquele que Ele gera e ao Filho amar Aquele para o qual está voltado desde toda a eternidade e por toda a eternidade. Inimaginável responsabilidade concedida a cada pessoa por pura graça, gratuitamente, por acréscimo. Em Cristo cada pessoa concede ao Pai gerar e ao Filho ser Amado na docilidade e no amor. No Espírito Santo, cada pessoa, pela superabundância do Amor, tem o poder de dar ao Pai e ao Filho ser Deus, o nosso Deus.

As palavras são impotentes para dizer a simplicidade deste amor eternamente proveniente, sempre inventivo, jamais cansado de se surpreender e encantar-se, pois é o Amor do Pai. Simplicidade escondida do amor, cuja sabedoria filial não se deixa surpreender sem por sua vez se entregar e se dar sempre de novo, e jorrar sem fim, sempre de novo. Jamais cansado de adivinhar e acorrer, de se abandonar e renovar-se.
Na intimidade da vida trinitária, a vida no Espírito une na mesma dinâmica o Pai e seus filhos, o Criador e todas as criaturas. O amor [ágape] celebrado pelo Apóstolo Paulo (cf. 1 Cor 13) abarca no mesmo amplexo Deus e o próximo. É o amor de Cristo que nos arrasta irresistivelmente. A espiritualidade cristã ignora a indistinção da unidade abstrata do múltiplo pelo eros da razão humana. Vive da unidade simples e viva cuja sabedoria, cujo segredo, somente a ágape (o amor) divina conhece.

O(a) fiel cristão(ã) vive da fé e na fé. Pela fé, na sua obscuridade e em seu pudor, a vida espiritual se deixa iniciar no mistério de Deus e dos seres humanos, no mistério do Emanuel [Deus Conosco].
Cada um de nós se sente mais afetivamente marcado por este ou por aquele traço da inexaurível riqueza que constitui a nossa vida. Ninguém consegue experimentar em um só relance e cada dia todos os tesouros da sabedoria e da ciência revelados no coração de Jesus Cristo. Mas para o louvor da sua glória, sentimo-nos obrigados a dizer a verdade do que cremos, por menos que o sintamos, e alegrar-nos com o tesouro que nos dá vida, para não desperdiçá-lo mais.

Artigo publicado na Revista Grande Sinal, de propriedade da Província Franciscana da Imaculada Conceição, editada pela Editora Vozes.

(*) Pe. Albert Chapelle, jesuíta, que durante muitos anos colaborou na revista Vie Consacrée, com valiosas reflexões sobre a vida consagrada e a espiritualidade cristã, faleceu em janeiro de 2003.

2 de junho de 2014

O Espírito Santo na mística franciscana - A ousadia de se deixar conduzir pelo Espírito do Senhor



Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM

Vivemos numa situação de crise e, entre surpresos e perplexos, constatamos um processo de profundas transformações. Muitas são as indagações que brotam da experiência dos homens e das mulheres do nosso tempo. Inúmeras, as sementes de vida e de esperança entranhadas no nosso cotidiano que, ansiosamente, atendem o momento propício da germinação. Estamos convencidos de que o projeto evangélico de Francisco de Assis goza de uma atualidade surpreendente. Ele tem despertado em todas as culturas e épocas fascínio e acolhida. Seremos capazes, também nós, de encarnar o projeto evangélico de Francisco? Estamos dispostos a oferecer-lhe aquela concreção singular capaz de contagiar alma e corpo, vida e palavra, atitudes pessoais e relacionais?

O Vaticano II convocou-nos à recuperação do nosso carisma inspiracional. Desde então, temos nos empenhado em redescobrir nossa identidade franciscana, mediante o estudo das “Fontes Franciscanas”, e em repropô-la em nossas legislações e documentos recentes. Nossa maior dificuldade, todavia, tem sido encarnar de maneira significativa aqueles valores nos quais cremos e que publicamente professamos. Precisamos estabelecer com a nossa mais genuína tradição uma relação de “fidelidade criativa”. Não basta se debruçar sobre os textos franciscanos. Eles surgiram como fruto da experiência concreta de Francisco e de seus primeiros companheiros. Testemunham o esforço deles em encarnar o evangelho em meio à realidade desafiante dos inícios do século XIII.

Celano escreve que Francisco “fez do seu corpo uma língua” (1Cel 97). Pois compreender é bem mais do que simplesmente explicar. Não que a explicação se oponha à reta compreensão. No entanto, muitas de nossas explicações, ao invés de conduzir-nos à aplicação, nos detêm numa prazerosa “masturbação intelectual”, responsável por situações de perniciosa estagnação. Importa recuperar o princípio evangélico de que é pelo fruto que se conhece a árvore. Não se trata, portanto, de condicionar o ser ao fazer quanto de perceber que o ser se revela e se verifica no fazer.
Não estamos imunes à onda do pragmatismo e do eficientismo. Preocupamo-nos demasiadamente com a visibilidade e, não raras vezes, assumimos atitudes triunfalistas e prepotentes. Francisco recorda que somos chamados a ser irmãos e menores e que nisto consiste propriamente nossa missão evangelizadora. Importa recuperar a gratuidade fundamental da nossa existência, expressão do dom livre e desinteressado de Deus. Discernir em cada situação a presença discreta de Deus que nos desafia e interpela.

Ver as diferenças não como ameaça à unidade, nem como sintoma de uma comunhão perdida. Acolhê-las, ao contrário, como expressão da multiforme e fecunda graça de Deus. Não apenas suportá-las, numa atitude de indiferença, por vezes, reveladora de uma tácita cumplicidade. Mas assumi-las como ocasião propícia para se deixar surpreender pelo Deus de Jesus. Isso só é possível para aqueles que, sabiamente, aprenderam a suspeitar de si mesmos e dos próprios projetos. E perceberam que a diferença do outro, muitas vezes, pode se tornar oportunidade privilegiada de enriquecimento e de amadurecimento.
Para tanto, é necessário que nos proponhamos a reconstruir nossa identidade interior. Resgatar o mistério da própria vocação mediante a escuta silenciosa da Palavra de Deus e a participação devota à Eucaristia. Redescobrir, através da leitura atenta e da meditação da Palavra de Deus, que Ele irrompe na nossa vida cotidiana de formas e modos cada vez novos e que nos interpela a realizar sua vontade.

Celebrar a Eucaristia como memória do Mistério pascal de Cristo que se recria na vida de cada um de nós e das nossas fraternidades. Somente em tal caso a Eucaristia será experimentada como aquele alimento que nos revigora no esforço em “fazer o que sabemos que Ele quer e de querer sempre o que lhe agrada” (Carta a toda a Ordem, 50). Somente enquanto alicerçados sobre uma formação espiritual sólida, seremos capazes de reconciliar as diversidades presentes em nossas fraternidades e províncias.


Somos chamados, hoje mais do que nunca, a recuperar os votos na sua força libertadora. Não são, em primeiro lugar, sinais de uma carência que deve ser abraçada numa atitude de ascetismo heróico. São, na verdade, expressão de um amor maduro, desinteressado, generosamente predisposto a suportar todo e qualquer sacrifício. Não devemos, portanto, nos comportar como pessoas castradas na sua humanidade. Os votos, quando vividos na sua integralidade, deixam transparecer aquela humanidade mais genuína que, como germe, se esconde no âmago de cada um. Eles testemunham uma sadia experiência de êxodo: libertam-nos da idolatria do poder, do ter e do prazer egocêntricos e nos propiciam o encontro com o outro na sua irredutível diferença.

Olhando para a realidade das nossas províncias, surge quase espontaneamente a pergunta: “Será mesmo necessário agir sozinho para poder ser criativo?”. O que fazer para não nos deixarmos sucumbir face à tentação sedutora da estagnação ou da estéril repetição do passado? Somos suficientemente contemplativos a ponto de discernir em cada acontecimento uma senda que conduz a Deus e de acolher com generosidade os inúmeros apelos que Ele nos lança em meio a tantas situações que constituem o nosso cotidiano mais ordinário? O que fizemos daquela ousadia que nos fez abraçar a vida franciscana? Por que nossas fraternidades se deixam contaminar pelo vírus de um uniformismo que amesquinha e asfixia?
Entre tantos desafios que nos são colocados, talvez o maior de todos seja justamente o de restituir credibilidade ao nosso projeto de vida. E isto requer ousadia. Não podemos nos omitir nem mesmo postergar esta incumbência às gerações futuras. É fundamental que assumamos uma atitude de diálogo com nossos reais interlocutores. Que estejamos dispostos a ouvi-los com respeito e caridade, conscientes de que temos tanto a aprender deles. Que saibamos discernir, a exemplo dos nossos pais na fé, “as sementes do Verbo”, a secreta presença de Deus no mundo moderno e nas demais religiões e culturas. Que estejamos abertos a promover, juntamente com todos os seres humanos de boa vontade, relações mais justas e fraternas, no respeito pela liberdade e dignidade de cada pessoa.

Esta atitude dialógica assume feições muito concretas no relacionamento com os jovens que pedem para serem admitidos à nossa experiência de vida. Não há dúvida de que cabe a nós propor-lhes a riqueza da nossa tradição cristã e franciscana. É preciso, todavia, respeitar e valorizar a “recepção criativa” testemunhada por eles ao encarnar o carisma franciscano nas concretas situações em que vivem e segundo desafios e indagações inusitados. Não tem sido esta a dinâmica do processo histórico de constituição da nossa mais genuína tradição franciscana?

Estamos imersos num mundo em constante transformação. Precisamos vencer o medo e a inércia que paralisa nosso caminhar. Para estarmos à altura dos inúmeros desafios do tempo presente é preciso, em primeiro lugar, alargar nossos horizontes para além das preocupações com a própria sobrevivência e com a eficiência antropocêntrica. Necessário se faz, portanto, rever nossos critérios e projetos. Somos convocados a fazer memória do nosso passado, deixando Cristo irromper em nossa vida através do Seu Espírito Vivificante. Francisco dizia que o Ministro Geral da Ordem era o Espírito Santo. A razão de tal escolha não residiria propriamente no fato de ser Ele aquele que “faz novas todas as coisas”?

Fonte:http://www.franciscanos.org.br/