30 de setembro de 2012

São Francisco, como o vejo.

Dom Aloísio Lorscheider, OFM (*) 

À medida que passam os anos, São Francisco merece maior atenção. Em nossos dias, sobretudo, com a redescoberta do lugar social do pobre na Igreja e no mundo, o interesse pelos ideais de São Francisco faz-se mais vivo. Como, porém, não disponho do tempo requerido para tal aprofundamento, penso que um testemunho meu, de como tenho visto em minha vida esta grande figura da hagiografia, possa também ser apreciado.

O meu contato com São Francisco
No seio de minha família tiveram maior influência os jesuítas. Em casa tinham lugar especial Santo Inácio e os três Mártires Rio-grandenses. Explica-se pela influência que os jesuítas tiveram entre os colonos de origem alemã.
Muito deve a Igreja no Rio Grande do Sul aos filhos de Santo Inácio. Comecei a conhecer São Francisco, quando, em 1934, entrei no Colégio Seráfico de São Francisco, em Taquari, RS. Passei no Seminário Menor oito anos. Foi neste período que foi aumentando em mim o conhecimento, a admiração e o amor pelo Poverello. Tínhamos no Seminário a Ordem Terceira Franciscana, hoje denominada Ordem Franciscana Secular. As reuniões mensais e o espírito que os nossos formadores, por seu exemplo e palavra, imprimiam à nossa orientação, ajudou muito. O exemplo e o ideal vividos com muito entusiasmo pelos meus formadores, padres e irmãos franciscanos holandeses, foram benéficos. Eles concretizavam para nós o Serafim de Assis. Mais tarde, o noviciado, os anos de preparação para a profissão solene, a graça de, na Itália, visitar os lugares mais queridos ao coração de São Francisco, concorreram para formar em mim uma imagem do Santo da Dama Pobreza e da Perfeita Alegria.

1. À imagem de Deus
Sempre fiquei muito impressionado e atraído pelo amor quente e apaixonado que São Francisco dedica a Deus. Parece que no beijo do leproso ele entendeu, como Saulo no caminho de Damasco, a doação total de Deus a nós em seu Filho Jesus Cristo. Custou a Francisco não só descer do cavalo fogoso que no momento montava, mas muito mais do cavalo do orgulho e da vaidade com que ele queria conquistar o título de grande e nobre. Foi no caminho que a luz de Deus entrou mais forte em seu íntimo. Foi o beijo ao doente rejeitado, nada grande e nada nobre aos olhos dos homens, que fez a Francisco descobrir o enorme amor de um Deus que nos dá todo o seu Filho: “Tanto Deus amou o mundo que lhe deu o seu Filho único….”. “Quem sou eu, quem sois Vós? Uma noite toda foi insuficiente para saborear esta realidade tão grande. Francisco embeveceu-se no amor divino. A transcendência de Deus manifestando-se na imanência da Encarnação encantou o coração de Francisco. Mais e mais ele se extasiava diante do Bom Senhor, do Altíssimo, do Sumo Bem, do Único Bem, de todo o Bem. E o que sentia ia-se tornando oração. Convém ler e meditar as orações que brotaram, espontâneas, desta alma toda repleta da imensa misericórdia do Senhor.
São Francisco ajuda-nos a redescobrir a verdadeira imagem de Deus e “a graça salvadora de Deus que se manifestou a todos os homens” (Tt 2,11). É nesta imagem bíblica de Deus, assimilada por São Francisco, que se deve procurar a sua devoção à Encarnação do Verbo (presépio), ao Santíssimo Sacramento, à Palavra de Deus, aos Sacerdotes e à Cruz do Senhor.

2. A sua Dama
Francisco viveu numa época conturbada. Fermentos de renovação dentro da Igreja; fermentos novos no mundo dos negócios e da política, onde a riqueza estava sendo vista como o grande valor da vida humana. Na Igreja é o tempo do Papa Inocêncio III. Tempo de muito poder e de muito fausto. Faziam-se sentir diversos movimentos de renovação a partir da pobreza. Infelizmente, tais movimentos queriam conseguir o seu objetivo colocando-se à margem daquele que por Cristo fora posto como Pedra, Pastor, Garantia da fé.
No mundo dos negócios e da política, as lutas entre os grandes partidos de então, guelfos e gibelinos, entre as comunas, desejando uma superar a outra em importância e força, entre as classes sociais, buscando os do comércio conquistar os privilégios da classe nobre. É o tempo fogoso da Cavalaria.
Francisco, por influência do próprio pai, estava metido nestas lutas de promoção. O “status” o atraía. Liderança não lhe faltava. Mas, na análise de sua pessoa, percebe-se que, no íntimo, outras forças o estavam trabalhando. Além da graça divina, que tinha os seus desígnios, uma sensibilidade muito forte em relação à realidade social e eclesiástica também jogava o seu papel. E foi assim que Francisco entendeu que o verdadeiro soberano era o seu Deus, que se revelava em Jesus Cristo pobre, pequeno, humilde. O importante não era ser “maior”, como ele com tantos do seu tempo pensavam, mas sim ser “menor”. Sem dúvida alguma a passagem bíblica: “Quem entre vocês quiser ser o maior faça-se o menor” (cf. Lc 22,26), mais tarde repetida aos seus frades, deve já antes ter ressoado no coração do Santo de Assis. Seja como for, Francisco se enamora da Pobreza, que se torna a sua Dama. Ele se  enamora tanto por ela, porque vê o próprio Jesus Cristo tomando-a por Esposa: “Embora rico, fez-se pobre para nos enriquecer com a sua pobreza” (2Cor 8,9). A formação paulina, num contexto de comunhão de bens (esmolas) entre as Igrejas, torna-se ela luz para uma inteligência mais profunda do mistério de Deus que se comunica ao mundo por seu Filho Jesus, o Filho do seu amor (Cl 1,13). E Francisco nele se inspira.
Começa, na Igreja, uma redescoberta do pobre, precisamente num período em que a Igreja parece ter atingido a culminância do seu poder e de sua influência no mundo. Poder espiritual e poder temporal estavam firmemente enfeixados nas mãos de um Papa que se soubera impor a príncipes e reis, dando ao Sacro Império Romano esplendores nunca dantes vistos e vividos. E foi no coração deste grande monarca que Francisco coloca o seu modo de vida evangélica. Ele nada mais quer do que observar o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, Evangelho que tem a sua conotação específica na vivência da pobreza. Pobreza não à margem da Igreja Romana, mas pobreza no coração da Igreja Romana, em obediência total ao Papa e seus sucessores. Quando Francisco prescreve isto a seus frades, já era o Papa Honório, mas quando Francisco começou era Inocêncio que dominava.
Esta atitude de São Francisco foi obra do Espírito Santo. Foi autêntica intuição evangélica de alguém que era todo poesia. As almas dos poetas são as que, sensíveis, enxergam mais longe.
Em nossos dias revivemos esta redescoberta evangélica do pobre. Partimos de uma realidade diferente daquela do século 12, porque, hoje, nos angustia a injustiça institucionalizada, a injustiça que na sociedade, se tornou estrutura, ao passo que então a riqueza dentro da Igreja e os anseios de grandeza temporal dominavam os homens. Então, como hoje, as resistências dentro e fora da Igreja não são poucas. Entretanto, a profética opção preferencial e solidária pelos pobres corresponde inteiramente ao ideal de São Francisco, porque responde completamente ao Evangelho. E Francisco outra coisa não queria do que o Evangelho em sua mais completa pureza, sem glosa, sem glosa, sem glosa…
O estilo de vida simples, sóbrio e austero que Puebla preconizou para todos os cristãos de nossos dias, em identificação sempre mais perfeita com o Cristo pobre e os pobres, exprime sem ambiguidade o que Francisco, já no século 12, sonhava e via como verdadeira renovação evangélica. Se, hoje, partimos de outra realidade para a vivência a pobreza evangélica, o fundamento continua sempre o mesmo: Cristo que, sendo rico, se fez pobre; que, sabendo não ser um roubo para Ele o ser igual a Deus, esvaziou-se, fez-se servo, fez-se em tudo solidário com os homens, obediente até a morte e morte de cruz (cf. Fl 2,5-9).

3. A perfeita alegria
São Francisco é conhecido como sendo o São Francisco das Chagas, além de ser o São Francisco de Assis. As chagas do Senhor Jesus mostram outra faceta da rica personalidade de Francisco: um apaixonado pela paixão de Jesus Cristo, um apaixonado pela cruz do Senhor. Tão grande a sua paixão que mereceu experimentar ao vivo na própria carne a paixão sobre a qual tanto meditara e chorara a ponto de ter ficado quase cego. O amor de Deus na Encarnação torna-se, para nós, o mais concreto possível na doação total que a cruz simboliza: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15,13).
Penso que na mística franciscana da Paixão do Senhor se deva procurar o sentido mais profundo da perfeita alegria que os “Fioretti” nos retratam com forma tão viva e poética. Ser rejeitado pelos próprios irmãos, ser afastado do convívio deles como elemento perigoso, como perturbador da paz e do silêncio de nossa casa, e saber aceitá-lo sem querer mal a quem desconfia de nós, nos machuca, nos revolve na condição mais miserável – é identificar-se com Jesus rejeitado, escarnecido, esbofeteado, carregado com a cruz, crucificado. A perfeita alegria está, pois, na mais perfeita identificação com o Cristo, o Servo Sofredor de Javé.
Parece que o mundo de hoje nos oferece inúmeras oportunidades para vivermos este capítulo da perfeita alegria. Numa época de renovação, exige-se muito espírito de sacrifício, muita renúncia, muita assimilação com a paixão e morte de Jesus Cristo, com a oração sincera: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).
4. Homem livre
Este tríplice olhar evangélico de Francisco – imagem de Deus, Dama Pobreza, perfeita Alegria – fez de Francisco um homem livre, amarrado a ninguém, levando-o a redescobrir a pureza original das criaturas. Indubitavelmente, o Cântico das Criaturas expressa esta liberdade interior e exterior conseguida pelo Santo de Assis. Só uma vida inteiramente aberta a Deus e ao Irmão é capaz de dar à criatura humana o gozo da libertação, que conduz à liberdade pura e santa com que Deus nos criou.

Conclusão
O próprio São Francisco escreveu a conclusão. Dando aos seus seguidores o nome de FRADES MENORES, ele disse tudo. O ser “frade”, o ser “irmão” e o ser “menor”, o ser “pequeno”, o ser “humilde”, o ser “servo” de todos, exprime todo o ideal franciscano, com o seu fundamento em Deus, o único Absoluto, sem ídolos, em total doação. Se os filhos e filhas de São Francisco, nas várias Ordens, Congregações, Institutos, vivessem, ao máximo, este ideal, novo sopro evangélico renovador purificaria o ar da Igreja e do Mundo.


(*) Dom Aloísio Lorscheider, OFM, escreveu este artigo para a Revista
“Grande Sinal” quando era Cardeal-Arcebispo de Fortaleza, em 1982.


29 de setembro de 2012

O fascínio de São Francisco de Assis - São Francisco e sua forma de vida continuam atuais


São Francisco não é certamente o santo mais popular, mas é com certeza o santo mais universal e atual. De sua universalidade dão testemunho os milhares de seguidores espalhados por todo o mundo, não só na Igreja católica, mas também em outras Igrejas irmãs. São Francisco não é patrimônio exclusivo dos franciscanos ou dos católicos; na realidade, é um santo para todos os homens e mulheres de boa vontade. De sua atualidade falava-nos João Paulo II em sua mensagem ao Capítulo de Pentecostes de 2003: “A atração de São Francisco é muito grande”. Com razão foi eleito o homem do II milênio.
Diante dessa constatação, é lógico que também nós lhe perguntemos: “Por que a ti? Por que a ti?”. Pessoalmente, fiz-me essa pergunta muitas vezes e a resposta que encontro é sempre a mesma: o segredo do fascínio que Francisco continua a despertar após 800 anos está em sua “inatualidade”. Francisco, como todo o profeta, é “inatual”, vai sempre além, antecipa o futuro, não se deixa aprisionar pelo presente.
É a sorte das sentinelas (cf. Is 21,11-12) e de quem se sente realmente “peregrino e forasteiro neste mundo” (1Pd 2,11; cf. RB 6,2); é a condição do homo viator ou in statu viae, do crente em busca constante, do seguidor de Jesus e de quem, como Francisco, faz do Evangelho sua regra e vida (cf. RB 1,1); é o destino do todo o peregrino que faz sua esta lei: “hospedar-se sob teto alheio, ansiar pela pátria, andar pacificamente”.
O que é presente, passa; mas o Evangelho, como forma de vida, não passa: “Jesus Cristo [evangelho do Pai à humanidade] é o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). Como não sai de moda quem, como o Poverello, assume o Evangelho como regra e vida, como exigência de totalidade.
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1. João Paulo II, Mensagem ao Capítulo geral, n. 5.
2. LM, VII,2,5.
Trecho do Relatório do Ministro Geral Frei José Rodríguez Carballo, OFM, “Com Lucidez e Audácia, em tempos de refundação”

28 de setembro de 2012

Bento XVI apresenta São Jerônimo - Encerramento do Mês da Bíblia

São Jerônimo, um Padre da Igreja que colocou a Bíblia no centro de sua vida: traduziu-a para a língua latina, comentou-a em sua obra e, sobretudo, se empenhou em vivê-la concretamente em sua longa existência terrena, não obstante o notável caráter difícil e caloroso que recebeu da natureza.
Jerônimo nasceu em Stridone em 347, de uma família cristã, que lhe assegurou uma formação apurada, enviando-o a Roma para aperfeiçoar seus estudos. Quando jovem, sentiu a atração pela vida mundana (cf. Ep. 22,7), mas prevaleceu nele o desejo e o interesse pela religião cristã.
Recebeu o batismo em 366, orientou-se à vida ascética e foi viver em Aquileia, inserindo-se num grupo de fervorosos cristãos, por ele definido quase como «um coro de beatos» (Chron. ad ann. 374) reunido em torno do Bispo Valeriano. Partiu depois para o Oriente e viveu como eremita no deserto de Calcide, ao sul de Aleppo (cf. Ep. 14, 10), dedicando-se seriamente aos estudos.
Aperfeiçoou seu conhecimento do grego, iniciou o estudo do hebraico (cf. Ep. 125, 12), transcreveu códigos e obras patrísticas (cf. Ep. 5, 2). A meditação, a solidão, o contato com a Palavra de Deus fizeram-no amadurecer sua sensibilidade cristã. Sentiu fortemente o peso das transgressões juvenis (cf. Ep. 22, 7) e experimentou vivamente o contraste entre a mentalidade pagã e a vida cristã: um contraste que ficou famoso pela dramática e vivaz «visão», da qual ele nos deixou o relato. Nela, pareceu-lhe ser flagelado na presença de Deus, porque era «ciceroniano e não cristão» (cf. Ep. 22, 30).
Em 382 transferiu-se a Roma: aqui, o Papa Damaso, conhecendo sua fama de asceta e sua competência de estudioso, nomeou-o secretário e conselheiro; encorajou-o a empreender uma nova tradução latina dos textos bíblicos por motivos pastorais e culturais. Algumas pessoas da aristocracia romana, sobretudo nobres mulheres como Paola, Marcella, Asella, Lea e outras, desejando empenharem-se no caminho da perfeição cristã e de aprofundar seu conhecimento da Palavra de Deus, escolheram-no como seu guia espiritual e mestre na aproximação metódica dos textos sacros. Estas nobres mulheres aprenderam também o grego e o hebraico.
Depois da morte do Papa Damaso, Jerônimo deixou Roma em 385 e lançou-se em peregrinação, primeiramente à Terra Santa, silenciosa testemunha da vida terrena de Cristo, depois para o Egito, terra de escolha de muitos monges (cf. Contra Rufinum 3, 22; Ep. 108, 6-14). Em 386 firmou-se em Belém, onde, pela generosidade da Sra. Paola, foram construídos um mosteiro masculino, um feminino e uma hospedaria para os peregrinos que viajavam à Terra Santa, «pensando que Maria e José não tinham encontrado acolhida» (Ep. 108, 14). Ele ficou em Belém até a morte, e continuou desenvolvendo uma intensa atividade: comentou a Palavra de Deus; defendeu a fé, opondo-se vigorosamente a várias heresias; exortou os monges à perfeição; lecionou cultura clássica e cristã a jovens; acolheu com ânimo pastoral os peregrinos que visitavam a Terra Santa. Faleceu em sua cela, junto à gruta da Natividade, em 30 de setembro de 419/420.
A preparação literária e a vasta erudição permitiram a Jerônimo a revisão e a tradução de muitos textos bíblicos: um belíssimo trabalho para a Igreja e para a cultura ocidental. Com base nos textos originais em grego e em hebraico, e graças ao confronto com versões precedentes, ele fez a revisão dos quatro Evangelhos em língua latina, depois do Saltério e de grande parte do Antigo Testamento. Levando em conta o original hebraico e grego, dos Setenta, a clássica versão grega do Antigo Testamento que remonta a tempos antes do cristianismo, e das precedentes versões latinas, Jerônimo, ajudado por outros colaboradores, pôde oferecer uma tradução melhor: essa constitui a assim chamada «Vulgata», o texto «oficial» da Igreja latina, que foi reconhecido como tal pelo Concílio de Trento e que, depois da recente revisão, permanece sendo o texto «oficial» da Igreja de língua latina.
É interessante comprovar os critérios aos quais o grande biblista se ateve em sua obra de tradutor. Ele mesmo revela isso quando afirma respeitar até mesmo a ordem das palavras da Sagrada Escritura, pois nela, diz, «até a ordem das palavras é um mistério» (Ep. 57, 5), isto é, uma revelação.
Confirma também a necessidade de recorrer aos textos originais: «No caso de surgir uma discussão entre os Latinos sobre o Novo Testamento, pela leitura discordante dos manuscritos, recorríamos ao original, isto é, ao texto grego, no qual foi escrito o Novo Pacto. Da mesma forma, para o Antigo Testamento, se havia divergências entre os textos gregos e latinos, íamos ao texto original, em hebraico; assim, tudo aquilo que surge da fonte, podemos encontrar nos riachos» (Ep. 106, 2).
Jerônimo, por outro lado, comentou também muitos textos bíblicos. Para ele, os comentários devem oferecer múltiplas opiniões, «de forma que o leitor prudente, depois de ter lido as diversas explicações e de ter conhecido múltiplos pareceres – que tem de aceitar ou rejeitar –, julgue qual é o melhor e, como um especialista agente de câmbio, rejeite a moeda falsa» (Contra Rufinum 1, 16).
Ele combateu com energia e vivacidade os hereges que não aceitavam a tradição e a fé da Igreja. Demonstrou também a importância e a validez da literatura cristã, convertida em uma autêntica cultura que, para então, já era digna de ser confrontada com a clássica; ele o fez redigindo «De viris illustribus», uma obra na qual Jerônimo apresenta as biografias de mais de cem autores cristãos.
Ele escreveu biografias de monges, ilustrando, junto a outros itinerários espirituais, o ideal monástico; além disso, traduziu várias obras de autores gregos. Por último, no importante Epistolário, autêntica obra-prima da literatura latina, Jerônimo se destaca por suas características de homem culto, asceta e guia das almas.
O que podemos aprender de São Jerônimo? Sobretudo, penso o seguinte: amar a Palavra de Deus na Sagrada Escritura. São Jerônimo diz: «Ignorar as escrituras é ignorar Cristo». Por isso, é importante que todo cristão viva em contato e em diálogo pessoal com a Palavra de Deus, que nos é entregue na Sagrada Escritura.
Este diálogo com ela deve ter sempre duas dimensões: por um lado, deve haver um diálogo realmente pessoal, pois Deus fala com cada um de nós através da Sagrada Escritura e tem uma mensagem para cada um. Não temos de ler a Sagrada Escritura como uma palavra do passado, mas como Palavra de Deus que é dirigida também a nós, e procurar entender o que o Senhor quer nos dizer.
Mas para não cair no individualismo, temos de ter presente que a Palavra de Deus nos é dada precisamente para construir comunhão, para unir-nos na verdade de nosso caminho rumo a Deus. Portanto, apesar de que sempre é uma Palavra pessoal, é também uma Palavra que edifica a comunidade, que edifica a Igreja. Por isso, temos de lê-la em comunhão com a Igreja viva. O lugar privilegiado da leitura e da escuta da Palavra de Deus é a liturgia, na qual, ao celebrar a Palavra e ao tornar presente o Sacramento do Corpo de Cristo, atualizamos a Palavra em nossa vida e a fazemos presente entre nós.
Não podemos esquecer jamais que a Palavra de Deus transcende os tempos. As opiniões humanas chegam e vão embora. O que hoje é moderníssimo, amanhã será velhíssimo. A Palavra de Deus, pelo contrário, é Palavra de vida eterna, tem em si a eternidade, o que vale para sempre. Ao levar em nós a Palavra de Deus, levamos, portanto, a vida eterna.
Concluo com uma frase dirigida por São Jerônimo a São Paulino de Nola. Nela, o grande exegeta expressa precisamente esta realidade, ou seja, na Palavra de Deus recebemos a eternidade, a vida eterna. São Jerônimo diz: «Procuremos aprender na terra essas verdades cuja consistência permanecerá também no tempo» (Epístola 53, 10).

Ensinamentos de São Jerônimo

Jerônimo sublinhava a alegria e a importância de familiarizar-se com os textos bíblicos: «Não te parece que estás – já aqui, na terra – no reino dos céus, quando se vive entre estes textos, quando se medita neles, quando não se busca outra coisa? (Epístola 53, 10). Na realidade, dialogar com Deus, com sua Palavra, é em um certo sentido presença do Céu, ou seja, presença de Deus. Aproximar-se dos textos bíblicos, sobretudo do Novo Testamento, é essencial para o crente, pois ignorar a Escritura é ignorar a Cristo». É sua esta famosa frase, citada pelo Concílio Vaticano II na constituição «Dei Verbum» (n. 25).
«Enamorado» verdadeiramente da Palavra de Deus, ele se perguntava: «Como é possível viver sem a ciência das Escrituras, através das quais se aprende a conhecer o próprio Cristo, que é a vida dos crentes?» (Epístola 30, 7). A Bíblia, instrumento «com o qual cada dia Deus fala aos fiéis» (Epístola 133, 13), converte-se deste modo em estímulo e manancial da vida cristã para todas as situações e para toda pessoa.
Ler a Escritura é conversar com Deus: «Se rezas – escreve a uma jovem nobre de Roma – falas com o Esposo; se lês, é Ele quem te fala» (Epístola 22, 25). O estudo e a meditação da Escritura tornam o homem sábio e sereno (cf. «In Eph.», prólogo). Certamente, para penetrar de uma maneira cada vez mais profunda na Palavra de Deus se precisa de uma aplicação constante e progressiva. Por este motivo, Jerônimo recomendava ao sacerdote Nepociano: «Ler com muita freqüência as divinas Escrituras; e mais, que o Livro não caia nunca de tuas mãos. Aprende nele o que tens de ensinar» (Epístola 52, 7). À matrona romana, Leta, ele dava estes conselhos para a educação cristã de sua filha: «Assegura-te de que estude todos os dias alguma passagem da Escritura. Que acompanhe a oração com a leitura e a leitura com a oração… Que ame os Livros divinos em vez das jóias e os vestidos de seda» (Epístolas 107, 9.12). Com a meditação e a ciência das Escrituras se «mantém o equilíbrio da alma» («Ad Eph.», prol.). Só um profundo espírito de oração e a ajuda do Espírito Santo podem introduzir-nos na compreensão da Bíblia: «Ao interpretar a Sagrada Escritura, sempre temos necessidade da ajuda do Espírito Santo» («In Mich.», 1, 1, 10, 15).
Um amor apaixonado pelas Escrituras caracterizou portanto toda a vida de Jerônimo, um amor que ele sempre procurou suscitar nos fiéis. Recomendava a uma de suas filhas espirituais: «Ama a Sagrada Escritura e a sabedoria te amará; ama-a ternamente, e te custodiará, honra-a e receberás suas carícias. Que seja para ti como teus colares e teus brincos» (Epístola 130, 20). E acrescentava: «Ama a ciência da Escritura, e não amarás os vícios da carne» (Epístola 125, 11).
Para Jerônimo, um critério metodológico fundamental na interpretação das Escrituras era a sintonia com o magistério da Igreja. Por nós mesmos, nunca podemos ler a Escritura. Encontramos demasiadas portas fechadas e caímos em erros. A Bíblia foi escrita pelo Povo de Deus e para o Povo de Deus, sob a inspiração do Espírito Santo. Só nesta comunhão com o Povo de Deus podemos entrar realmente com o «nós» no núcleo da verdade que o próprio Deus nos quer comunicar. Para ele, uma autêntica interpretação da Bíblia tinha de estar sempre em harmonia com a fé da Igreja Católica. Não se trata de uma exigência imposta a este livro desde o exterior; o Livro é precisamente a voz do Povo de Deus que peregrina e só na fé deste Povo podemos estar, por assim dizer, no tom adequado para compreender a Sagrada Escritura. Por este motivo, Jerônimo alentava: «Permanece firmemente unido à doutrina da tradição que te foi ensinada para que possas exortar segundo a sã doutrina e refutar quem a contradiz» (Epístola 52, 7). Em particular, dado que Jesus Cristo fundou sua Igreja sobre Pedro, todo cristão, concluía, deve estar em comunhão «com a Cátedra de São Pedro. Eu sei que sobre esta pedra está edificada a Igreja» (Epístola 15, 2). Portanto, com clareza, declarava: «Estou com quem estiver unido à Cátedra de São Pedro» (Epístola 16).
Jerônimo não descuida do aspecto ético. Com freqüência reafirma o dever de recordar a vida com a Palavra divina. Uma coerência indispensável para todo cristão e particularmente para o pregador, a fim de que suas ações não contradigam seus discursos.
Assim, exorta ao sacerdote Nepociano: «Que tuas ações não desmintam tuas palavras, para que não suceda que, quando pregues na Igreja, alguém em sua intimidade comente: ‘Por que então tu não ages assim?’ Curioso mestre o que, com o estômago cheio, se pôr a pronunciar discursos sobre o jejum; inclusive um ladrão pode criticar a avareza; mas no sacerdote de Cristo, a mente e a palavra devem estar de acordo» (Epístola 52, 7).
Em outra carta, Jerônimo confirma: «Ainda que tenha uma esplêndida doutrina, é vergonhosa a pessoa que se sente condenada pela própria consciência» (Epístola 127, 4). Falando da coerência, observa: o Evangelho deve traduzir-se em atitudes de autêntica caridade, pois em todo ser humano está presente a Pessoa do próprio Cristo. Dirigindo-se, por exemplo, ao presbítero Paulino, que depois chegou a ser bispo de Nola e santo, Jerônimo dá este conselho: «O verdadeiro templo de Cristo é a alma do fiel: adorna este santuário, embeleza-o, deposita nele tuas oferendas e recebe Cristo. Que sentido tem decorar as paredes com pedras preciosas se Cristo morre de fome na pessoa de um pobre?» (Epístola 58, 7).
Jerônimo concretiza: é necessário «vestir Cristo nos pobres, visitá-lo nos que sofrem, dar-lhe de comer nos famintos, abrigá-lo nos que não têm um teto» (Epístola 130, 14). O amor por Cristo, alimentado com o estudo e a meditação, nos permite superar toda dificuldade: «Se nós amamos Jesus Cristo e buscamos sempre a união com Ele, o que é difícil nos parecerá fácil» (Epístola 22, 40).
Jerônimo, definido por Próspero de Aquitânia como «modelo de conduta e mestre do gênero humano» («Carmen de ingratis», 57), deixou-nos também um ensinamento rico e variado sobre o ascetismo cristão. Recorda que um valente compromisso pela perfeição requer uma constante vigilância, freqüentes mortificações, ainda que com moderação e prudência, um assíduo trabalho intelectual ou manual para evitar o ócio (cf. Epístolas 125, 11 e 130, 15), e sobretudo a obediência a Deus: «Não há nada que agrade tanto a Deus como a obediência…, que é a mais excelsa das virtudes» («Hom. de oboedientia»: CCL 78, 552). Do caminho ascético podem também fazer parte as peregrinações. Em particular, Jerônimo as impulsionou à Terra Santa, onde os peregrinos eram acolhidos e hospedados em edifícios surgidos junto ao mosteiro de Belém, graças à generosidade da mulher nobre Paula, filha espiritual de Jerônimo (cf. Epístola 108, 14).
Não se deve esquecer, por último, a contribuição oferecida por Jerônimo à pedagogia cristã (cf. Epístolas 107 e 128). Propõe-se formar «uma alma que tem de converter-se em templo do Senhor» (Epístola 107, 4), uma «jóia preciosíssima» aos olhos de Deus (Epístola 107, 13). Com profunda intuição, aconselha preservá-la do mal e das ocasiões de pecado, evitar as amizades equívocas ou que dissipam (cf. Epístola 107, 4 e 8-9; cf. Também Epístola 128, 3-4). Exorta sobretudo aos pais a criar um ambiente de serenidade e de alegria ao redor dos filhos, para que lhes estimulem no estudo e no trabalho, e lhes ajudem com o elogio (cf. Epístolas 107, 4 e 128, 1) a superar as dificuldades, favorecendo neles os bons costumes e preservando-lhes dos maus porque – diz, citando uma frase de Publilio Siro que havia escutado na escola – «dificilmente conseguirás corrigir-te das coisas às que te vais acostumando tranqüilamente» (Epístola 107, 8).
Os pais são os principais educadores dos filhos, os mestres da vida. Com muita clareza, Jerônimo, dirigindo-se à mãe de uma moça e depois ao pai, adverte, como expressando uma exigência fundamental de toda criatura humana que se chega à existência: «Que ela encontre em ti a sua mestra e que sua adolescência se oriente para ti maravilhada. Que nunca veja em ti nem em seu pai atitudes que a levem ao pecado. Recordai que podeis educá-la mais com o exemplo que com a palavra» (Epístola 107, 9).
Entre as principais intuições de Jerônimo como pedagogo, é preciso sublinhar a importância atribuída a uma sã e integral educação desde a primeira infância, a peculiar responsabilidade atribuída aos pais, a urgência de uma formação moral religiosa, a exigência do estudo para conseguir uma formação humana mais completa.
Também há um aspecto bastante descuidado nos tempos antigos, mas que era considerado vital por nosso autor: a promoção da mulher, a quem reconhece o direito a uma formação completa: humana, acadêmica, religiosa, profissional.
E precisamente hoje vemos como a educação da personalidade em sua integridade, a educação na responsabilidade ante Deus e ante os homens, é a autêntica condição de todo progresso, de toda paz, de toda reconciliação e de toda exclusão da violência. Educação ante Deus e ante o homem: a Sagrada Escritura nos oferece a guia da educação e, portanto, do autêntico humanismo.
Não podemos concluir estas rápidas observações sobre este grande padre da Igreja sem mencionar a eficaz contribuição que ofereceu à salvaguarda de elementos positivos e válidos da antiga cultura judaica, grega e romana na nascente civilização cristã. Jerônimo reconheceu e assimilou os valores artísticos, a riqueza dos sentimentos e a harmonia das imagens presentes nos clássicos, que educam o coração e a fantasia nos nobres sentimentos.
Sobretudo, pôs no centro de sua vida e de sua atividade a Palavra de Deus, que indica ao homem os caminhos da vida, e lhe revela os segredos da santidade. Por tudo isso, precisamente em nossos dias, podemos sentir-nos profundamente agradecidos a São Jerônimo.

27 de setembro de 2012

O fascínio de São Francisco de Assis - O caminho de São Francisco

Se sentires o chamado do Espírito,
atende-o e procura ser santo(a)
com toda a tua alma, com todo o teu coração
e com todas as tuas forças.
Se, porém, por causa de tua fraqueza
não conseguires ser santo(a).
procura então ser perfeito(a)
com toda a tua alma, com todo o teu coração
e com todas as tuas forças.
Se, contudo, não conseguires ser perfeito(a)
por causa da vaidade de tua vida,
procura então ser bom(a)
com toda a tua alma, com todo o teu coração
e com todas as tuas forças.
Se ainda não conseguires ser bom(a)
por causa das insídias do Maligno,
então procura ser razoável
com toda a tua alma, com todo o teu coração
e com com todas as tuas forças.
Se, por fim, não conseguires
nem ser santo(a), nem perfeito(a), nem bom(a),
nem razoável, por causa dos teus pecados,
então procura carregar este peso e entrega
tua vida à divina misericórdia.
Se isto fizeres, sem amargura,
com toda a humildade e com jovialidade do espírito,
por causa da ternura de Deus que ama os ingratos e maus,
então, começarás a sentir
o que é ser razoável,
aprenderás o que é ser bom(a),
lentamente aspirarás a ser perfeito(a),
e, por fim, suspirarás por ser santo(a).
Se tudo isto fizeres,
cada dia,
com toda a tua alma,
com todo o teu coração e com todas as tuas forças,
então, eu te asseguro, irmão e irmã:
estarás no caminho de São Francisco,
não estarás longe do Reino de Deus!

Do livro “Ternura e Vigor”, de Leonardo Boff, Vozes.

26 de setembro de 2012

O fascínio de São Francisco de Assis - O cosmos e os símbolos

Por N.G. Van Doornik
O nosso mundo ocidental perdeu este sentido do cosmos. Esvaziaram-se muitos símbolos que durante milhares de anos falaram ao homem, como intérpretes do “mundo atrás das estrelas”.
À medida que a técnica elimina a necessidade de evocar em símbolos o mundo invisível, o poeta é substituído pelo homem de ciência. Mas para aquilo para que este necessita de uma pesquisa minuciosa, o poeta emprega, às vezes, uma única palavra.
O mesmo se dá com o místico que, com uma única imagem, faz com que o homem fique ciente de uma realidade religiosa, ao passo que o teólogo tem que recorrer a uma quantidade de noções.
E numa Igreja – penso eu – em que a quantidade de noções elimina a simplicidade religiosa, a confusão a respeito da fé não está mais longe.
De outro lado, a teologia deve ter cuidado com o simbolismo. A imagem religiosa pode apresentar-se – literalmente ou figurativamente – como realidade. A arte plástica, inclusive a verdadeira arte da Idade Média e da Renascença, proveu a imaginação popular de representações em que os mistérios da fé foram “sonhados”.
Dessas representações partiu, é certo, uma grande força, mas não raro elas causaram desvirtuamento. Os símbolos tornaram-se concepções infantis da fé. A crise aconteceu, sobretudo, quando a ciência profana e a religiosa começaram a demonstrar que essas representações não exprimiam a realidade em sentido científico.
E não poucas vezes foram rejeitados, com os símbolos, também os mistérios simbolizados.
Hoje em dia esforçam-se muitos por uma extrema sobriedade, principalmente no oculto. Mas quem compreende o valor simbólico do Cântico do Sol, pergunta a si mesmo se não vamos parar no outro extremo, num vazio, em que o mistério só é experimentado por meio de conceitos.
O homem religioso não pode prescindir do símbolo, em que o divino é focalizado. “No vácuo” é-lhe impossível respirar.
Quando o nosso culto religioso se reduz a simples palavras, desaparece a atmosfera mística e muitos terão saudades das catedrais, das abadias e das antigas formas de liturgia, em que se oferece uma atmosfera sagrada.
Eu ousaria dizer: quando uma criança só sente aborrecimento com o culto litúrgico, é um sinal de que se perdeu alguma coisa das formas sensíveis
e indispensáveis que com o tempo se haviam introduzido em nossa liturgia.
Já que em nosso mundo ocidental o símbolo está perdendo o seu valor, deve-se fazer uma diagnose não só do símbolo, mas também do mundo ocidental.
A vida de Francisco está marcada pelo símbolo. O símbolo era para ele uma contínua celebração do cosmos em Deus. E quando seus olhos não mais podiam suportar o clarão da luz e ele jazia enfermo numa pobre choupana, ainda pôde cantar do irmão Sol, irradiante de esplendor: “De Ti, ó Altíssimo, ele é imagem”.
Texto extraído do livro “Francisco de Assis, Profeta de Nosso Tempo”, de N.G. Van Doornik

24 de setembro de 2012

O fascínio de São Francisco de Assis - Francisco encanta

Por Frei Hipólito Martendal

1. São Francisco encanta muita gente. Em artigos, referi-me algumas vezes à atração, ao fascínio que São Francisco exerce sobre pessoas de diversas religiões e até mesmo sem religião. Lembrava que o título de “A Personalidade do Milênio”, conferido pelos leitores do “New York Times”, não era bem uma homenagem de católicos fervorosos devotos do Poverello de Assis. Boa parte dos leitores é constituída de protestantes. Outros são católicos mais ou menos frios. Existem leitores materialistas e agnósticos (que em nada creem). Por que, então, votar em São Francisco, um modelo tão pouco moderno, tão antimaterialista e tão católico?
2. São Francisco encarnou a essência do cristianismo. Aí está a resposta. São Francisco foi um dos raros seres humanos a compreender e a viver profundamente o cristianismo tal qual foi imaginado e vivido por Jesus. Isso significa que o Cristianismo em sua essência é belo e pode exercer poderosa influência sobre o ser humano. O problema está em que raras são as pessoas capazes de viver bem a alma do Cristianismo. Por isso, nossa luz, que devia ser um farol, transforma-se em uma velinha bruxuleante, como aquelas ridículas “velas-de-sete-dias” que toda hora se apagam e, quando acesas, iluminam quase nada.
3. O cristianismo em sua essência é humano. Uma das coisas que sempre me atraíram para o Cristianismo foi minha convicção de que Cristianismo e Humanismo têm muito em comum. Existe, em nossa cultura, forte tendência a apresentar o ser humano, a humanidade, a materialidade de um lado e Deus, o espírito, Jesus e o Cristianismo do outro, como dois mundos de difícil conciliação e entendimento. Para alguém se tornar cristão parece que é necessário renunciar à sua própria natureza e violentar a todas as suas tendências mais profundas. É mais ou menos como se Deus tivesse criado o ser humano e este tivesse fugido do controle e das intenções do Criador. Um filósofo, não me recordo agora quem, afirmou que o ser humano é um projeto que deu errado.
Mais cedo ou mais tarde precisamos fazer uma profunda revisão sobre a influência do maniqueísmo em nosso pensamento cristão. É necessário repensar toda a doutrina tradicional sobre o pecado original. Tal qual ela é entendida tem como conseqüência aceitar a idéia de que Deus foi um Criador inepto, incompetente, um aprendiz de feiticeiro desastrado. E o ser humano, como seu feitiço, teria se voltado contra Ele.
Claro que nós, humanos, podemos nos voltar contra Deus. Mas isso acontece não por inépcia divina, mas como fruto da sabedoria divina, por ter-nos criados livres. Deus, melhor do que ninguém, sabe que nenhuma adesão, nenhum amor, sem liberdade tem sentido. Então, ou Ele, Deus, criaria o homem livre, ou nunca seria amado por nenhuma de suas criaturas!
4. Convergências entre o humano e o cristão. Estou convencido de que existem muitos elementos em comum entre estas duas realidades. Em primeiro lugar, temos a própria liberdade como um valor essencial para dar sentido a qualquer ato humano autêntico. Deus nos criou para a liberdade. Em toda a história da raça humana, nenhuma virtude, nenhum ideal levou tantas pessoas até o sacrifício da própria vida, como a liberdade. Ela está entre os anseios maiores de todo ser humano autêntico, não escravizado por vícios ou desejos patológicos de posse. Jesus fala da liberdade como uma conquista a ser alcançada através da verdade. Muitos pensadores cristãos veem em algumas cartas de São Paulo uma espécie de “Evangelho da Liberdade”. Uma coisa é certa: a liberdade faz parte da essência do ser humano enquanto criatura de Deus e enquanto cristão.
Outro item importante dos ideais do ser humano simplesmente enquanto gente e enquanto cristão é o ideal do casamento indissolúvel até à morte. Parece estranho, não é? Não vamos falar do que a mídia pondera sobre o assunto. Mas quando recorremos às lendas, aos mitos, aos grandes romances, sempre aparece, em todo amante, em cada amada, o desejo, o sonho, a fantasia de um amor e comunhão eternos! Deus criou o ser humano para que tenha a posse eterna da alegria e da felicidade. Por isso, o sonho de realizações eternas faz parte de nossa natureza.
O exemplo que vou apresentar agora é ainda mais surpreendente. Uma vez li um artigo com o seguinte título: “O Cérebro que é bom não pensa”.
Maravilhado com a leitura, pus-me a pensar nas muitas situações de vida e das atividades humanas nas quais o cérebro pensante precisa ser desligado para conseguir-se um bom desempenho. Por exemplo, tentar dormir pensando na necessidade de dormir, provavelmente, resultará numa bela insônia. Mesmo o cestinha, numa partida de basquete, acerta mais lances de curta e média distâncias em ataques rapidíssimos do que em lances livres parado, a curta distância, sob os olhares de todos e com muito tempo para pensar. Um artista preocupado com seu desempenho comete muito mais falhas do que aquele que se entrega à arte sem nada pensar. Em situações de emergência e grande perigo, o cérebro de um bom motorista realiza cálculos supercomplexos em frações de segundos e comanda movimentos de grande precisão sem nada poder pensar. Sem isso muito mais gente morreria nas estradas e ruas.
Em perfeita sintonia com esses aspectos da natureza humana, muitas das melhores atividades e atitudes cristãs ocorrem sem cálculos, sem raciocínios. São frutos de puras intuições e de impulsos. Às vezes, só ocorrem em estados alterados de consciência, estados meio oníricos, meio inebriados. Sem isso não existe contemplação, a forma mais completa de oração e experiência com Deus. Mas até em situações bem concretas e materiais, como dar uma esmola, socorrer o necessitado, é melhor que as coisas se deem sem cálculos e raciocínios “que sua mão esquerda não saiba o que faz a direita”, diz Jesus.
5. São Francisco é a síntese. Já é lugar-comum dizer-se que Francisco é o mais santo dos homens e o mais humano dos santos. Já afirmei uma vez que São Francisco é uma espécie de milagre vivo. Apesar do maniqueísmo virulento de sua época, que ditava o desprezo de toda a materialidade e da natureza humana, apesar da feroz penitência que se impôs, Francisco perseguiu e viveu a alegria. Apesar de seu horror ao pecado, serviu a toda gente com imensa inocência e ternura. Até o assaltante era chamado de “irmão ladrão”, a quem o guardião do convento devia dar alimento quando batesse à porta.

23 de setembro de 2012

Pe Pio, o sacerdote estigmatizado


Francesco Forgione (1887-1968), o Padre Pio de Pietrelcina, era religioso capuchinho que, por receber os sinais da crucificação de Jesus (as feridas nas mãos, nos pés e no tórax), ficou conhecido como “O Estigmatizado de Gargano” (região onde vivia na Itália).

Os estigmas de Pe. Pio começaram no dia 20 de setembro de 1918 e duraram até 23 de setembro de 1968. Segundo o novo santo da Igreja, canonizado este ano pelo Papa João Paulo II, estava no Coro da Igreja, depois de celebrar a Santa Missa, quando foi surpreendido com os estigmas Seu grito lancinante atravessou a nave da igreja, onde se encontravam alguns de seus confrades em oração. Neste período de calvário de Pe. Pio, vários laudos médicos foram feitos e todos não conseguiram classificar os estigmas dentro da clínica médica.

Acompanhe este relatório do Dr. Romanelli, que o examinou por cinco vezes em quinze meses.

“Padre Pio tem um corte profundo, paralelo às costelas, no quinto espaço intercostal de seu lado esquerdo, medindo de 7 a 8 cm de comprimento. Na lesão das mãos, há grande abundância de sangue arterial. Contudo não se verifica inflamação alguma nas bordas da ferida, mas tornou-se uma zona de grande sensibilidade ao menor toque. A ferida das mãos apresenta-se recoberta por uma membrana de um vermelho escuro, mas também não se verifica inflamação, nem edema. Quando pressionei com meus próprios dedos a palma e o dorso das mãos, tive a impressão de haver um espaço vazio. Pressionando as feridas desta forma (na palma e no dorso da mão), não se pode saber se elas se comunicam, pois uma pressão mais forte causa uma dor lancinante. No entanto, repetindo várias vezes a experiência, pela manhã e à tarde, cheguei à mesma conclusão. A lesão dos pés tem as mesmas características da lesão das mãos, mas devido à pele dos pés ser mais espessa, fica difícil de repetir a experiência das mãos.

Examinei Padre Pio cinco vezes, num período de quinze meses. Embora tenha notado certas modificações nos ferimentos, não me foi possível diagnosticar ou mesmo classificar suas lesões, segundo as cânones da clínica médica

22 de setembro de 2012

“A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, 
teriam ficado adormecidas”. 
Horácio.
 
Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer, desejar, dispor-se ao caminho. Que as derrotas da vida não sejam motivo para tristeza, mas capacidade e oportunidade que devem motivar-nos ainda mais na persistência, na luta, no empenho. Se derrotas aconteceram, que elas não te abalem. Antes, sejam encaradas como um aprendizado, na conquista de novas vitórias. Sempre é tempo de recomeçar, de semear esperança e de refazer os canteiros da amizade e do bem querer. Lembre-se: quem caminha descalço não deve semear espinhos, mas edificar canteiros onde a diversidade das flores possam proporcionar o colorido e a beleza do caminho…

Tenha um lindo e abençoado fim de semana. Lembra-se de semear alegria, esperança, paz e amor no coração das pessoas!

Frei Paulo Sérgio, ofm
 
 

20 de setembro de 2012

Reflexão - Sonhos


”Viver é melhor que sonhar, porém não deixe que os sonhos sejam raros na sua vida” .
Frei Paulo Sérgio


Em dados momentos de nossa vida precisamos nos perguntar pelos nossos sonhos, por aquilo que realmente dá sentido à nossa vida e missão. São momentos onde precisamos conectar nossa vida com as verdades da alma, dar maior atenção aos grandes sonhos que marcam nossa existência. São eles que apontam os caminhos, que vão dando o sentido maior para nossas lutas, buscas, metas… São eles que nos tiram do vazio da falta de sentido!

Não existe regras para viver de maneira adequada. A vida é muito maior que as regras, que as metas, que o trabalho. A vida é dom de Deus e, como tal, deve ser experimentada e construída nos seus momentos, que são únicos. A vida se faz e se revela como emoção, prazer, alegria, satisfação, evolução… A vida se plenifica em cada encontro, em cada abraço, em cada gesto de amor. Por isso, viva com paixão e demonstre gratidão a Deus por participar desta trama infinita que é a VIDA!

Frei Paulo Sérgio




19 de setembro de 2012

Reflexão - Amar-se


“A vida me ensinou a sorrir para as pessoas que não gostam de mim, para mostrá-las que sou diferente do que elas pensam”.
Charles Chaplin

Quando aprendemos a nos amar de verdade, paramos de desejar que nossa vida seja diferente e começamos a ver que tudo o que acontece contribui para nosso crescimento. Isso conduz nossa vida ao amadurecimento, estágio que nos proporciona equilíbrio e capacidade para não sermos mais atingidos por aquilo que vem de fora e não nos pertence.

Então, procure amar-se de verdade, começando a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que você deseja, mesmo sabendo que não é o momento ou que a pessoa não está preparada, inclusive você mesmo (a). Isso te conduzirá ao caminho do respeito, que é a capacidade de aceitar e amar as pessoas como elas são…

Frei Paulo Sérgio


17 de setembro de 2012

Impressão das Chagas de São Francisco - Uma relíquia viva descia da montanha


Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

Desde a infância muitos de nós fomos aprendendo a gostar desse Francisco. Francisco das coisas pequenas, simples, irmão do sol, das estrelas, da água, do leproso e de frei Leão, Francisco, cheio de carinho para com o Menino das Palhas e o Jesus bondoso e pobre que morre na cruz, esse Jesus que é o amor que precisa ser amado.

São Boaventura escreve: “Francisco, servo verdadeiramente fiel e ministro de Cristo, dois anos antes de devolver o espírito ao céu, como tivesse começado num lugar alto, à parte que se chama Monte Alverne e, um jejum quaresmal em honra do Arcanjo São Miguel, inundado mais profusamente pela suavidade da contemplação do alto e abrasado pela chama mais ardente dos desejos celestes, começou a sentir mais copiosamente os dons da ação do alto. Então, enquanto se elevava a Deus pelos seráficos ardores e o afeto se transformava em compassiva ternura para com aquele que por caridade excessiva quis ser crucificado, numa manhã, pela festa da Exaltação da Santa Cruz, rezando na parte lateral do monte, ele viu como que a figura de um Serafim que tinha seis asas tão fúlgidas, tão inflamadas a descer da sublimidade dos céus, o qual chegando com um vôo rapidíssimo num lugar próximo ao homem de Deus, apareceu não somente alado, mas também crucificado, tendo as mãos e os pés estendidos, e pregados à cruz e as asas de modo tão maravilhoso dispostas de uma e outra parte que elevava duas sobre a cabeça, estendia duas para voar e com as outras duas velava o corpo, envolvendo-o todo (…). Depois de um certo colóquio secreto e familiar, ao desaparecer, a visão inflamou-lhe interiormente o espírito com ardor seráfico e marcou-lhe exteriormente a carne com a imagem do Crucificado, como se ao poder prévio de derreter o fogo seguisse uma impressão do selo” ( Legenda Menor – Os sagrados estigmas, n.1).

Dois anos antes de morrer, Francisco vai ao Monte Alverne. O santo vinha do Oriente, cansado, doente, vendo que, talvez seus irmãos, numerosos, estavam perdendo o ardor dos começos. Francisco, sem amargura, sente vontade de tomar certa distância dos fatos e dos acontecimentos. O Santo se dava conta que estava no final de sua caminhada. Tinha dores em todo o corpo. Estava tomado por estas febres loucas e enxergava mal. Não podia mais suportar a luminosidade do Irmão Sol. Era o tempo da festa da Exaltação da Santa Cruz. Quer fazer a quaresma de São Miguel no silêncio, na meditação, ao lado de seu Frei Leão. Quer estar mais perto de seu Senhor.

Toda sua vida fora busca de Cristo. Um dia ele teria formulado uma oração no seguinte teor: “Senhor, gostaria de ser digno de receber duas graças de vossa parte: experimentar em meu coração o amor que tiveste para com os homens e sentir a dor de tua acerbíssima paixão”. Esta súplica foi sento atendida pelo Senhor ao longo do tempo da vida de seu servo Francisco. Durante anos e anos, depois de sua conversão, ele sempre buscar entrar na intimidade do Senhor Jesus na grutas, nos caminhos, contemplando o rosto dos leprosos. Aos poucos esse Francesco foi “tendo os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”. Foi se abrasando no amor de Cristo. Cristo é o Vivo que queima e arde. Estamos diante da mística. Do amado que seduz a amada. Francisco e Cristo se tornam uma unidade. Há uma identificação mística. Francisco continua Francisco e Cristo continua Cristo. Nasce no coração do assisiense o desejo de viver também as dores e os sofrimentos de Cristo.

Eloi Leclerc tenta descrever esse momento: “… a alma de Francisco se rasgava e sentimentos contraditórios se debatiam dentro dele. A inefável beleza do serafim e seu olhar benevolente e cheio de graça o fascinavam e o enchiam de alegria. Ao mesmo tempo, no entanto, o sofrimento do crucificado o aterrorizava. Perguntava-se, então: Como um espírito glorioso, imortal e tão belo podia sofrer a mais cruel agonia? Não sabia o que pensar. A agonia estava junto com o êxtase. A Paixão e a Glória, associadas de maneira estranha, pareciam cair sobre ele como um pássaro de rapina” ( in Francisco de Assis. O retorno ao Evangelho, p. 108).

Francisco não é mais dono de si. Aos poucos, ao longo dos anos da vida, ele foi se despedindo de si, se despojando, esvaziando-se de si mesmo e no espaço do vazio veio o êxtase. O amado ganha a força do amor do Amante. Quem puder compreender, que compreenda. Talvez esse Francisco pudesse dizer com Paulo: Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim!

Paul Claudel, tentando penetrar no Francisco que desce do monte, escreve: “Francisco tinha dado sua alma de tal forma que nem mesmo seu corpo conserva mais. Quando se lhe pede uma explicação, nada tem a nos dizer. Ele é propriedade de alguém que não explica, mas plenifica. É todo inteiro doação, como um esposo ou um recém-nascido. Caminha ao olhar de todos os homens como alguém que está inebriado, como um esposo que geme e que sorri, cambaleante e ferido de uma glória da qual ele é o inexplicável consorte. Quem desce trôpego do Alverne e mostra chaga e cicatriz secretamente a Clara é Jesus Cristo com Francisco, fazendo uma única realidade viva, sofredora e redentora” (cf. E.Leclerc, op. cit. p. 109).

A partir desse momento Francisco tem o selo do Amado gravado em seu coração e em sua carne. Agora era uma relíquia viva descendo a montanha. Nós, filhos de Francisco das chagas e das transfigurações, nos recolhemos no silêncio e tentamos pedir a Deus que pela intercessão do Francisco das Chagas nos leva ao Cristo iluminado, transfigurado e ressuscitado.

Francisco da minha vida

Francisco,
pequeno e grande Francisco,
tu continuas vivo entre nós.

Tu és o meu irmão, meu irmão mais velho,
meu irmão modelo,meu irmão da roupa marrom,
das chagas douradas na mão
nos pés e no coração,
apaixonado pelo Senhor Jesus.

Gosto de te contemplar
erguendo os braços ébrio de amor,
cantando os louvores do Altíssimo, Onipotente
e grande Senhor!
Acompanho-te pelas ruas de Assis
com o irmão sol que te aquece o rosto,
pegando nas mãos a irmãzinha água
tão casta e tão transparente,
pisando na terra mãe
que produz variedade de flores e frutos.
Gosto de ver teu olhar acompanhar os irmãos,
os irmãos leprosos que chamavas de irmãos cristãos,
olhando os irmãos que te seguem,
todos eles que são filhos do Altíssimo.
Espreito-te ao jogares tuas roupas
nas mãos de teu pai e a proclamares solenemente
que o teu Pai está nos céus.
Aplaudo-te quando dizes
que os teus seguidores serão menores
e nunca hão de se alegrar, a não ser com
o último de todos os lugares.
Vejo-te percorrendo as ruas e ruelas
da meiga Assis dizendo a todos que o Amor
não é amado.
Aprecio a tua coragem de partir sem segurança,
sem sacola e sem dinheiro
para dizer a todos os homens
que chegou o Reino novo
do Filho de Virgem Maria.
Recolho-me num cantinho
e vejo que sais da contemplação
com as chagas de Cristo Jesus
nas mãos, nos pés e no coração.
Morro e renasço contigo
quando cantas o salmo que fala que é preciso
que Deus nos tire desta prisão.
Francisco de ontem e de sempre,
Francisco da roupa marrom,
Francisco da minha vida!

Impressão das Chagas de São Francisco - O Serafim do Amor

Do texto “Dançar o Amor”, de Frei Vitório Mazzuco F°.

Realizei alguns retiros no Monte Alverne, na região da Toscana, onde Francisco vivenciou os estigmas. Lá, encontrei um monge budista. Quando perguntei o seu nome, ele respondeu: “Eu não tenho nome. Chamamos este lugar de encontro. Quero que você me chame Francisco”.

As boas fontes franciscanas dizem que, de repente, Deus tocou profundamente Francisco. Ele é um imitador perfeito dos caminhos do Senhor Jesus, e todo aquele que é marcado pelos dedos terríveis desse amor, a ele é impossível não trazer essas marcas em seu corpo. Teologicamente, espiritualmente, dizemos que o anjo, o Serafim alado, veio e marcou o corpo dele com aquelas chagas do Amado. E para sempre o amor tomou forma num corpo. Porque o amor estava no seu coração, e o que está no coração toma conta do corpo, da história, da vida e deixa marcas profundas.

As pessoas que se amam verdadeiramente vão ficando parecidas, não é mesmo? Às vezes observamos que, quanto mais velhos ficam nossos pais, mais se assemelham fisicamente. Naquele retiro eu queria entender o que significavam as chagas de Francisco. O monge me respondeu que, de acordo com sua cultura oriental, todas as nossas energias, o nosso potencial de amor, a nossa fonte do amor, brotam de dentro para fora, e não de fora para dentro. Ele disse que, em sua grande capacidade de amar, Francisco explodiu, seu coração se fez como o Sagrado Coração. O coração de quem ama muito faz assim: Pluf! Salta para fora. E o coração dele abriu-se em chagas, em estigmas. Enraizado naquela terra, naquele chão que ele conhecia e pisava, seus pés ficaram marcados com as chagas do Amor.

A concretude do amor estava nas suas mãos, nos seus pés. É nas extremidades vitais que circulam as energias mais poderosas. E foi aí que o amor transbordou na vida de Francisco. Penso que, quando amamos profundamente, todas as experiências humanas e religiosas nos marcam com as marcas profundas do amor. Quem dá o coração, recebe corações. Isso eu aprendi com Francisco, com o cristianismo e também com o budismo. Eu tenho um mestre taoísta, Chuang Tzu. Eu o leio com a mesma paixão que leio o Evangelho, com a mesma paixão com que leio as fontes franciscanas.


16 de setembro de 2012

Impressão das Chagas de São Francisco - O perfeito amor de São Francisco ao crucificado


Frei João Mannes, OFM

No dia 17 de setembro celebra-se a festa da impressão das chagas de São Francisco de Assis. Os estigmas que Francisco recebeu em 1224, no Monte Alverne, após uma visão do Cristo crucificado em forma de Serafim alado, são sinais visíveis de sua semelhança à humanidade de Cristo, nos seus três modos: na vida, na paixão e na ressurreição.

Francisco encontrou-se pela primeira vez com o Crucificado na pequena Igreja de São Damião. Num certo dia, conduzido pelo Espírito, entrou nessa Igreja e prostrou-se diante da imagem do Cristo crucificado que, movendo de forma inaudita os seus lábios, disse: “Francisco, vai e restaura minha casa que, como vês, está toda destruída” (2Cel 10,5). E, conta-nos Celano, que Francisco sentiu desde então uma inefável mudança em si mesmo, pois são impressos mais profundamente no seu coração, embora ainda não na carne, os estigmas da venerável paixão.

No entanto, foi ao ouvir o Evangelho acerca da missão dos apóstolos (Mt 10, 7-13), que Francisco compreendeu o real significado da voz do Crucificado, e imediatamente exclamou: “É isto que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que eu desejo fazer do íntimo do coração” (1Cel 8,22). Assim, sob o toque ou o apelo de uma afeição, começou devotadamente a colocar em prática o que ouvira, isto é, distribuiu aos pobres todos os seus bens materiais, bem como renegou-se a si mesmo para que, exterior e interiormente livre, pudesse ir pelo mundo e anunciar aos homens a paz, a penitência e, enfim, o amor não amado de Deus.

O amor que é Deus realizou-se na sua profundeza, largura e altitude na pessoa de Jesus Cristo. A encarnação, o estábulo, o lava-pés e a Eucaristia são expressões concretas do modo de amar como só o Deus de Jesus Cristo pode e sabe amar. Porém, foi especialmente ao entregar incondicional e gratuitamente a sua vida na Cruz, que o Filho de Deus revelou à humanidade que Deus é essencialmente caridade perfeita.

Francisco, por inspiração divina, abraçou pobre e humildemente a cruz de Jesus e deixou-se impregnar, arrebatar e transformar totalmente pelo espírito de abnegação divina. Isso quer dizer que a imitação de Cristo, por parte de Francisco, não é mera repetição mecânica dos gestos exteriores de Jesus, mas é manifestação de sua profunda sintonia com a experiência originária de Jesus Cristo: o Reino de Deus. Somente quem possui o Espírito do Senhor pode observar “com simplicidade e pureza” a Regra e o Testamento de São Francisco e realizar em si mesmo as santas operações do Senhor.

Na Terceira consideração dos sacrossantos estigmas considera-se que, aproximando-se a festa da Santa Cruz no mês de setembro, o pai Francisco, na hora do alvorecer, se pôs em oração, diante da saída de sua cela, e entre lágrimas orava desta forma: “Ó Senhor meu Jesus Cristo, duas graças te peço que me faças antes que eu morra: a primeira é que em vida eu sinta na alma e no corpo, quanto for possível, aquelas dores que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua acerbíssima paixão; a segunda é que eu sinta no meu coração, quanto for possível, aquele excessivo amor do qual tu, Filho de Deus, estavas inflamado para voluntariamente suportar uma tal paixão por nós pecadores”(I Fioretti)). E, relata Boaventura que, enquanto Francisco rezava, “viu um Serafim que tinha seis asas (cf. Is 6,2) tão inflamadas quão esplêndidas a descer da sublimidade dos céus. E [...] apareceu entre as asas a imagem de um homem crucificado que tinha as mãos em forma de cruz e os pés estendidos e pregados na cruz. [...] Imediatamente começaram a aparecer nas mãos e nos pés dele os sinais dos cravos” (LM 13,3). Assim, Francisco transformara-se todo na semelhança de Cristo crucificado (cf LM 13,5). Pois, de fato, trazia Jesus no coração, na boca, nos ouvidos, nos olhos, nas mãos, nos sentimentos e em todos os demais membros (cf. I Cel 9,115), e conseqüentemente podia exclamar com o apóstolo Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

O Pobre de Assis, no seguimento de Jesus Cristo, perdeu a sua própria vida, mas recuperou-a inteiramente em Deus, de acordo com a palavra do Evangelho: “Quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la” (Mt 12,25). Todavia, Francisco não somente reencontrou a si mesmo em Deus, como filho de Deus, mas a todos os seres do universo. O Cânticodas Criaturas, que compôs pouco antes de sua morte corporal, é expressão jubilosa dessa intensa experiência eco-espiritual: “Louvado sejas meu Senhor, com todas as tuas criaturas”.

O pai Francisco tornou-se assim um mestre na sequella Iesu. De imediato despertou o fascínio de muitas pessoas e atraiu muitos discípulos e discípulas, entre as quais, Santa Clara. Clara e suas Irmãs, a exemplo de Francisco, também querem chegar ao cimo da montanha da perfeição do amor. A propósito subscrevemos parte do VII capítulo (Do perfeito amor de Deus) de um interessantíssimo opúsculo que Boaventura escreveu à abadessa das Irmãs, do convento de Assis, sobre A perfeição da vida:

“Não é possível excogitar um meio mais apto e mais fácil para mortificar os vícios, para progredir na graça, para atingir o auge de todas as virtudes do que a caridade. Por isso diz Próspero, no seu livro Sobre a vida Contemplativa: “A caridade é a vida das virtudes e a morte dos vícios”. Como a cera se derrete diante do fogo, assim os vícios perecem diante da caridade. Porque a caridade possui tanto poder que só ela fecha o inferno, só ela abre o céu, só ela dá a esperança da salvação, só ela nos torna dignos do amor de Deus. Tal poder possui a caridade que entre todas as virtudes só ela é chamada propriamente virtude. Quem a possui é rico, tem abundância, é feliz. [...] E diz Santo Agostinho: “Se a virtude conduz a uma vida bem-aventurada, eu quisera afirmar em absoluto que nada é propriamente virtude senão o sumo amor de Deus”. Sendo, por conseguinte, o amor de Deus uma virtude tão elevada, cumpre insistir em alcançá-lo acima de todas as demais virtudes; porém, não um amor qualquer, mas só aquele com que Deus é amado sobre todas as coisas e o próximo por amor de Deus.

O modo de amar a teu Criador ensina-o o teu esposo no evangelho: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma e de todo o teu espírito. Repara bem, caríssima serva de Jesus Cristo, que amor o teu dileto esposo exige de ti. Quer o teu amado que ao seu amor dediques todo o teu coração, toda a tua alma, todo o teu espírito, de sorte que absolutamente ninguém em todo o teu coração, em toda a tua alma, em todo o teu espírito, tenha parte com ele. Que, pois, fará para amares o Senhor teu Deus realmente de todo o coração? Que quer dizer: de todo o coração? Vê como São João Crisóstomo ensina: “Amar a Deus de todo o coração significa não estar o teu coração inclinado a nenhuma outra coisa mais do que ao amor de Deus; não te comprazeres nas coisas desse mundo mais do que em Deus, nem nas honras, nem mesmo nos pais. Se, todavia, o teu coração se ocupar em alguma destas coisas, já não o amas de todo o coração”. Peço-te, serva de Cristo, não te iludas. Fica sabendo que, se amas alguma coisa, e não a amas em Deus e por Deus, já não o amas de todo o coração. Por isso diz Santo Agostinho: “Senhor, menos te ama quem ama alguma coisa contigo”. Se amas alguma coisa que não te faz progredir no amor de Deus, não o amas de todo coração. E se, por amor de alguma coisa, negligencias aquilo que deves a Cristo, já não o amas de todo o coração. Ama, pois, o Senhor teu Deus de todo o coração.

Não somente de todo o coração, mas também de toda a alma devemos amar a Jesus Cristo, nosso Deus e Senhor. Que significa: de toda a alma? Vai dizê-lo Santo Agostinho: “Amar a Deus de toda a alma é amá-lo com toda a vontade, sem restrições”. Amarás, certamente, de toda a alma, se sem contradição e de boa vontade fizeres não o que tu queres, nem o que aconselha o mundo, nem o que te inspira a carne, mas aquilo que reconheceres como sendo a vontade de Deus. Amarás, de fato, a Deus de toda a tua alma quando por amor de Jesus Cristo entregares de boa vontade tua vida à morte, sendo necessário. Se nisto, porém, faltares, já não amas de toda a alma. Ama, pois, ao Senhor teu Deus de toda a tua alma, isto é, faze a tua vontade sempre em conformidade com a vontade divina.

Entretanto, não só de todo o coração, não só de toda a alma, deves amar o teu esposo, Jesus Cristo. Ama-o também de todo o teu espírito. Que quer dizer: de todo o teu espírito? Di-lo novamente Santo Agostinho: “Amar a Deus de todo o espírito, é amá-lo com toda a memória, sem esquecimento”. (in: Obras Escolhidas. Porto Alegre: EST, 1983, p. 433-435).


Impressão das Chagas de São Francisco - Do Monte Alverne à irmã morte corporal


Na Toscana, existe um monte rochoso e coberto de bosques, inacessível e sublime, com fendas horríveis cobertas de musgo e de frescor. Há muitos anos, o conde Orlando de Chiusi lho doara, em sinal de devoção, para que se servisse dele nos seus encontros com Deus.

Em agosto de 1224 subiu Francisco com alguns irmãos os mil e trezentos metros do Monte Alverne. É difícil ao turista que sobe hoje de automóvel esse monte, imaginar o que significava para Francisco, já esgotado, viajar a lombo de burro pelos caminhos sinuosos até chegar ao cimo da montanha, onde ela parece abrir-se subitamente, oferecendo, do alto duma rocha íngreme, vista para os vales lá embaixo. Cuidados, privações e enfermidades tinham enfraquecido o corpo desse homem de quarenta e dois anos. Francisco sempre se sentiu à vontade nos cumes das montanhas. Desejava afastar-se das últimas preocupações a respeito de sua Ordem, das decepções e da falta de compreensão. Pediu que o levassem a uma abertura na rocha, onde ainda se vê uma grade no lugar em que ele dormia; pode-se supor que não foi mudada muita coisa naqueles blocos de pedra úmidos e mofados.

Ano após ano, penetrava cada vez mais na essência de Deus até chegar à mais elevada forma que se possa imaginar na terra: à contemplação mística de Deus. É esta contemplação mística que ele experimentará de uma forma única na solidão do Alverne, pelo espaço de quarenta dias (de 15 de agosto até 29 de setembro, festa de São Miguel). Ele se retira do convívio de seus irmãos e só o irmão Leão pode lhe levar diariamente um pouco de pão e água durante a sua viagem mística ao invisível.

(Do livro Francisco de Assis, Profeta de Nosso Tempo, de N. G. Van Doornik)


Do Monte Alverne à irmã morte corporal


Os dois últimos anos da vida de Francisco foram um Calvário! Os problemas na Ordem continuam. Sobretudo, com divisões internas. Vimos há pouco como ele passou a comungar mais profundamente com o mistério de Deus pela prática da misericórdia e da paciência com os pecados dos frades. Francisco se retira no Monte Alverne. Lá, conversa com Deus, lembra-se do Crucificado e, assim, mergulha mais profundamente em seu mistério. Isto é, decide continuar amando seus irmãos, mesmo assim. E o que acontece? Vemo-lo totalmente identificado com Aquele que, na cruz, entregou a própria vida pelos amigos. Vemo-lo de tal maneira em comunhão com o mistério deste amor solidário e misericordioso de Deus que, de repente, as próprias chagas do seu Senhor lhe aparecem no corpo. Hoje se diria: A paixão de Cristo se somatiza na paixão de Francisco. Em outras palavras, escreve Alexander Gerken:

“O que mais crucificou Francisco durante os dois anos anteriores à sua morte foi a divisão da Ordem, que tinha crescido demais até para ele. Sofria vendo a desunião existente nela e como muitos de seus irmãos não podiam ou até não queriam seguir o ideal primitivo. O fato de não abandoná-los, de amá-los, e amá-los em sua fragilidade, ‘até a cruz’,constitui o conteúdo e a causa de sua experiência da cruz no Monte Alverne. O sofrimento pela Ordem lhe gravou as chagas e, a partir de seu amor crente, soube que eram as chagas do Crucificado, que não reteve para si sua própria vida, mas a entregou por todos nós”.

Francisco se sente realmente mergulhado no “segredo” de Deus, seu altíssimo Senhor e Rei, único Bem, referencial único para a construção de uma autêntica fraternidade humana. E, nesta experiência de comunhão total com o modo-de-ser do seu Senhor, consola seu inseparável companheiro Frei Leão, compondo este maravilhoso Hino de Louvor a Deus:

“Vós sois o santo Senhor Deus único, que operais maravilhas! Vós sois o Forte. Vós sois o Grande. Vós sois o Altíssimo. Vós sois o Rei onipotente, santo Pai, Rei do céu e da terra. Vós sois o Trino e Uno, Senhor e Deus, Bem universal. Vós sois o Bem, o Bem universal, o sumo Bem, Senhor e Deus vivo e verdadeiro. Vós sois a delícia do amor. Vós sois a Sabedoria. Vós sois a Humildade. Vós sois a Paciência. Vós sois a Segurança. Vós sois o Descanso. Vós sois a Alegria e Júbilo. Vós sois a Justiça e a Temperança. Vós sois a plenitude da Riqueza…”

Daí em diante, a vida de Francisco foi de atrozes sofrimentos, também corporais. Vivia esmagado por toda sorte de doenças e provações. Mas, ao mesmo tempo, provava incomparável alegria, pois, desse jeito, sentia-se mais e mais em comunhão com seu Senhor crucificado e, neste Senhor, em comunhão com o “coração” de Deus mesmo e, no “coração” de Deus, em comunhão com todos os crucificados da sociedade e todas as criaturas… Por isso, como sempre fora em sua caminhada de contínua conversão, Francisco canta e convida a cantar a grandeza infinita do amor de Deus. Desse Deus que “quis estar com os seres perdidos, os foras-da-lei, os publicanos e os pecadores”, que “conviveu com eles e sentou-se à sua mesa”. Desse Deus que “por fim morreu com eles a morte dos condenados. O Evangelho era esta realidade inaudita: a revelação de um amor divino que nada de humano justifica e que se oferece prioritariamente aos que não podem se prevalecer nem da estima do mundo, nem das posições que ocupam na sociedade, nem de sua riqueza, nem de seu sucesso social, nem mesmo de seus méritos ou de suas virtudes, mas que esperam tudo unicamente da graça de Deus”.

Francisco canta e convida a cantar. Sua vida transforma-se em poesia, porque expressa o sonho mais profundo do ser humano-e-de-Deus, sonho de fraternidade universal. Compõe o famoso Cântico das Criaturas, “o canto de um homem que, durante toda sua vida, trabalhou, lutou, sofreu para que houvesse um pouco mais de fraternidade entre os homens e para que aparecesse, enfim, na sociedade de seu tempo, a humanidade de Deus”. A partir da comunhão profunda com esta “humanidade de Deus”, é que Francisco e seus companheiros “aprenderam a olhar os seres e as coisas, ingênua e fraternalmente, com simplicidade e cortesia. Deixaram de vê-los sob o ângulo de seu valor de venda, para considerá-los como criaturas de Deus, dignos de atenção em si mesmos. Assim descobriram o esplendor do mundo, o esplendor das coisas simples. Seu olhar se deteve, maravilhado, nas realidades mais humildes, mais cotidianas, que eram companheiras de sua vida de pobres: a luz, a água, o fogo, o vento, a terra. Sim, a terra de todos os dias, a terra mãe. Como era bela a seus olhos esta terra, vista para além de toda ambição e de toda vontade de poder! Deixava de ser um campo de luta para tornar-se o lugar da grande fraternidade dos seres: ‘Nossa irmã a Mãe Terra”.

Francisco canta e convida a cantar e celebrar o Amor criador e redentor, sobretudo quando percebe aproximar-se o momento de sua máxima comunhão com o mistério do Deus pobre e solidário, o momento da morte. O momento da máxima experiência de pobreza, pois aí Francisco fará de verdade a experiência de não ser mais dono de nada, nem mesmo da vida. Francisco canta e dá as boas-vindas a esta que ele chama também de “irmã”. Ela é para ele “a porta da vida”. E para celebrar a chegada deste momento de comunhão absoluta com a Pobreza, pede inclusive que deixem seu corpo despido sobre o chão por algum tempo. “E assim chegou a hora”, escreve Tomás de Celano, concluindo: “Tendo completado em si mesmo todos os mistérios de Cristo, voou feliz para Deus”. E Boaventura: “Cumpridos, enfim, todos os desígnios de Deus em Francisco, sua alma santíssima livrou-se da carne para ser absorvida no abismo da claridade de Deus, e dormiu tranquilamente no Senhor”. Realiza-se nele o que havia pedido, parafraseando a oração do Pai-Nosso. “Venha a nós o vosso reino: para que reineis em nós por vossa graça e nos deixeis entrar no vosso reino, onde veremos a vós mesmo sem véu, teremos o amor perfeito a vós, a beatífica comunhão convosco, a fruição de vossa essência”.

Texto do livro “Herança Franciscana”, do capítulo “A experiência de Comunhão com o Mistério de Deus em Francisco de Assis”, de Frei José Ariovaldo da Silva, ofm.

15 de setembro de 2012

Impressão das Chagas de São Francisco - Ele se transformou num outro crucificado pelo amor e pela compaixão



Ele se transformou num outro crucificado pelo amor e pela compaixão

Leonardo Boff

14 de setembro de 1224, festa da exaltação da cruz. Quarenta dias de jejum e orações. No monte Alverne. Nas pedras. No silêncio. Na madrugada. Francisco, voltado para o Oriente, em lágrimas, orava: “Senhor meu, Jesus Cristo, duas graças te peço antes que eu morra: a primeira é que em vida eu sinta na alma e no corpo, quanto for possível, aquelas dores que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua acerbíssima paixão. A segunda é que eu sinta no meu coração, quanto for possível, aquele excessivo amor do qual tu, Filho de Deus, estavas inflamado para voluntariamente suportar uma tal paixão por nós pecadores”.

Francisco pede dor e amor. Na medida em que ia mergulhando na Paixão de Cristo, diz-nos o relato antigo, “todo ele se transformava em Jesus pelo amor e pela com-paixão”.

Nisso, desce do céu o próprio Cristo em forma de Serafim, na imagem de um homem crucificado. Inefável encontro!

Francisco quase morre de alegria pela visão do Amado e de dor pelas chagas do Crucificado. lntuiu que devia se identificar totalmente com Cristo. A dor iria rimar com o amor. O Gólgota e o Calvário se encarnariam em seu corpo.
A montanha inteira se acendeu, se inflamou e iluminou os montes e vales vizinhos, como se houvesse sol sobre a terra.
O calor da ardentíssima Paixão de Jesus se transforma em fogo de amor nos membros de Francisco. Mãos com mãos, pés com pés, lado aberto com lado a se abrir. Irrompem sangrando no corpo do beato Francisco os estigmas do santíssimo Salvador. O alter Christus está pronto. Deu-se uma identificação entre redimido e Redentor como jamais na história. Francisco se transformou na estampa de Cristo: “Despi Francisco e vereis Cristo; vesti Cristo e vereis Francisco”!
Nasceu da cruz e das chagas o homem novo. Agora ele pode cantar o hino da confraternização universal, porque não há mais inimigos, todos se fizeram irmãos e irmãs. Amém. Aleluia!

Do livro “Francisco de Assis, o homem do Paraíso”, 1999, Leonardo Boff, Vozes.


Os estigmas de Francisco e os nossos

Leonhard Lehmann – Francisco, mestre de oração

Ainda que em nós não foram impressos os estigmas do crucificado de modo visível, cada um tem suas feridas que podem salvar, que podem tornar-se fonte de salvação para si e para os outros. A cada um que se deixa ferir em nome de Cristo e que leva em si a sua cruz, Francisco repete o que disse a Leão: também tu estás marcado com a cruz de Cristo e por isso és abençoado. És um possuído de Deus e estás sob a proteção dele.

14 de setembro de 2012

Impressão das Chagas de São Francisco - O testemunho das fontes franciscanas e Que milagre é este?


Dos “Fioretti” – Terceira consideração dos Sacrossantos Estigmas


“Um dia, no princípio de sua conversão, ele rezava na solidão e, arrebatado por seu fervor, estava totalmente absorto em Deus e lhe apareceu o Cristo Crucificado. Com esta visão, sua alma se comoveu e a lembrança da Paixão de Cristo penetrou nele tão profundamente que, a partir deste momento, era-lhe quase impossível reprimir o pranto e suspiros quando começava a pensar no Crucificado”. E rezava:

“Ó Senhor, meu Jesus Cristo, duas graças eu te peço que me faças, antes de eu morrer: a primeira é que, em vida, eu sinta na alma e no corpo, tanto quanto possível, aquelas dores que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua dolorosa Paixão. A segunda, é que eu sinta, no meu coração, tanto quanto for possível, aquele excessivo amor, do qual tu, filho de Deus, estavas inflamado, para voluntariamente suportar uma tal Paixão por nós pecadores”.

Da Legenda Menor de São Boaventura, Capítulo 6

“Francisco era um fiel servidor de Cristo. Dois anos antes de sua morte, havendo iniciado um retiro de Quaresma em honra de São Miguel num monte muito alto chamado Alverne, sentiu com maior abundância do que nunca a suavidade da contemplação celeste. Transportado até Deus num fogo de amor seráfico, e transformado por uma profunda compaixão n’Aquele que, em seus extremos de amor, quis ser crucificado, orava certa manhã numa das partes do monte.

Aproximava-se a festa da Exaltação da Santa Cruz, quando ele viu descer do alto do céu, um serafim de seis asas flamejantes, o qual, num rápido vôo, chegou perto do lugar onde estava o homem de Deus. O personagem apareceu-lhe não apenas munido de asas, mas também crucificado, mãos e pés estendidos e atados a uma cruz. Duas asas elevaram-se por cima de sua cabeça, duas outras estavam abertas para o vôo, e as duas últimas cobriam-lhe o corpo.
Tal aparição deixou Francisco mergulhado num profundo êxtase, enquanto em sua alma se mesclavam a tristeza e a alegria: uma alegria transbordante ao contemplar a Cristo que se lhe manifestava de uma maneira tão milagrosa e familiar, mas ao mesmo tempo uma dor imensa, pois a visão da cruz transpassava sua alma como uma espada de dor e de compaixão.

Aquele que assim externamente aparecia o iluminava também internamente. Francisco compreendeu então que os sofrimentos da paixão de modo algum podem atingir um serafim que é um espírito imortal. Mas essa visão lhe fora concedida para lhe ensinar que não era o martírio do corpo, mas o amor a incendiar sua alma que deveria transformá-lo, tornando-o semelhante a Jesus crucificado.

Após uma conversação familiar, que nunca foi revelada aos outros, desapareceu aquela visão, deixando-lhe o coração inflamado de um ardor seráfico e imprimindo-lhe na carne a semelhança externa com o Crucificado, como a marca de um sinete deixado na cera que o calor do fogo faz derreter.

Logo começaram a aparecer em suas mãos e pés as marcas dos cravos. Via-se a cabeça desses cravos na palma da mão e no dorso dos pés; a ponta saía do outro lado. O lado direito estava marcado com uma chaga vermelha, feita por lança; da ferida corria abundante sangue. Frequentemente, molhando as roupas internas e a túnica. Fui informado disso por pessoas que viram os estigmas com os próprios olhos.

Os irmãos encarregados de lavar suas roupas, constataram com toda segurança que o servo de Deus trazia, em seu lado bem como nas mãos e pés, a marca real de sua semelhança com o Crucificado”.

Tomás de Celano – Vida II, 211

“Francisco já tinha morrido para o mundo, mas Cristo estava vivo nele. As delícias do mundo eram uma cruz para ele, porque levava a cruz enraizada em seu coração. Por isso fulgiam exteriormente em sua carne os estigmas, cuja raiz tinha penetrado profundamente em seu coração”.

Outros textos: 1Cel, 94; Legenda Maior, 13,35,69.

Que milagre é este?

Frei Hipólito Martendal

Há vários santos entre os católicos que apareceram portando estigmas, semelhantes às chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ultimamente parece que tivemos até um caso raro de um homem de Deus trazer por certo tempo as chagas e depois elas virem a desaparecer. Dizem que isto teria acontecido com o capuchinho de nossos dias, o Pe. Pio, agora São Pio.

Por outro lado, estamos por demais acostumados com a idéia de milagres como eventos extraordinários, operados instantaneamente, ou pelo menos, em tempo relativamente breve, onde as coisas acontecem de tal maneira que só podem ser atribuídas a alguma intervenção divina.

De minha parte, acredito que verdadeiros milagres podem ocorrer sem todos estes atributos considerados seus sinais inconfundíveis. Posso imaginar verdadeiros milagres sendo gerados aos poucos, lentamente, com recurso às forças naturais, mas que nunca poderiam acontecer somente apela atuação destas forças.

No caso de São Francisco, por exemplo, as descrições de seus biógrafos são espetaculares. O Santo, durante uma quaresma que celebrou em honra de São Miguel Arcanjo, na véspera, ou no dia da festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro), mergulhado em profunda meditação sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, tem uma visão deveras impressionante. Cristo lhe aparece como um homem crucificado, mas portando três pares de asas de Serafim. Francisco é arrebatado por um êxtase total. Aos poucos, sem ele sentir, as chagas de Jesus criam forma e implantam-se em seus membros e lado. Tomás de Celano, São Boaventura e o autor dos Fioretti descrevem-nas, bem como seu formato, a cor e a aparência dos cravos, em tudo de maneira muito semelhante.

O primeiro santo das chagas

Há algumas particularidades muito interessantes no caso de São Francisco. Ele é o primeiro homem na História a aparecer chagado. As descrições são concordes ao destacar o tamanho das feridas (eram grandes), estruturas semelhantes a cravos, com sangramentos intermitentes, principalmente na ferida do lado.

Outra característica muito forte em São Francisco era o destaque que dava à humanidade de Jesus. O último Natal, antes das Chagas, ele o celebrara em Greccio, quando pedira a um amigo que montasse a cena de Belém o mais semelhante possível ao que ele concebera, em sua imaginação poética, pois, dizia: “Quero lembrar a criança que nasceu em Belém e ver com meus olhos carnais as dificuldades de sua infância pobre, como ele dormiu na manjedoura e como, entre o boi e o burro, deitaram-no sobre o feno”. (São Francisco de Assis de Jacques Lê Goff, p.88).

Na quaresma em que foi agraciado com os sagrados estigmas, o assunto de meditações e contemplações fora a Paixão do Senhor. Por outro lado, quando se tratava de virtudes relacionadas à renúncia, à minoridade, à pobreza, ao servir, Francisco fazia questão de ser sempre o primeiro em tudo. O mesmo acontecia no desejo de imitar Nosso Senhor, no que se refere à pobreza e ao sofrimento. Queria ser o primeiro entre todos que desejasse viver como o Divino Mestre vivera. Além do mais, São Francisco era do tipo sensitivo, muito intuitivo, dado a sonhos e visões freqüentes, coisas que ele interpretava realisticamente como repostas divinas à sua incessante procura de Deus e da perfeição.

Agora vamos ao essencial que desejo oferecer à meditação do leitor. Em nossos dias, os estudos que procuram as conexões entre o que é mental e o que é corporal, entre o espiritual e o material, progrediram muito e têm descoberto coisas realmente interessantes. Os estudiosos afirmam que cerca de 80% dos transtornos físicos que incomodam o ser humano são de origem psíquica. Um desejo muito forte, uma emoção avassaladora, uma necessidade premente podem converter-se em sintomas físicos e doenças.

Dias atrás lia o caso de uma mulher que sofria de dores de cabeça lancinantes e contínuas e para a qual um batalhão dos melhores médicos não encontrava qualquer causa orgânica que explicasse. Só sabiam que depois de muitos anos de sofrimentos na companhia de um marido alcoólico e muito violento, conseguira a separação. Ele ameaçara suicidar-se, caso ela não voltasse. Ela não voltara e ele dera um tiro na própria cabeça!

Cópia perfeita de Cristo

Ora, fomos condicionados a ver somatizações só em doenças. E por que o fenômeno não poderia ocorrer como resposta sadia a desejos e emoções elevados e santos? Eu imagino que no caso de São Francisco tenha ocorrido exatamente tal fenômeno. Ele tinha uma capacidade rara de exprimir fisicamente seus estados de alma. Declamava, cantava, dançava, e encenava as alegrias mais espirituais. Vertia abundantes lágrimas de tristeza ao contemplar os sofrimentos de nosso Divino Mestre, ou simplesmente por pensar que “o Amor não é amado”. Estava firmemente disposto a não sofrer menos que sofrera seu Mestre e Senhor. Nos últimos anos de vida tivera ainda que contatar a realidade decepcionante de ver seus frades envolvidos em graves divisões e querelas por causa de seus próprios ideais de pobreza e minoridade, coisas que ele considerava revelações divinas e inquestionáveis. Isto constituía seu calvário que o aproximava ainda mais de Cristo.

Então, o milagre se deu, não por uma intervenção direta e violenta do sobrenatural em seu corpo, mas por um mimetismo divino, por uma somatização de seus desejos santos de ser como o Divino Mestre a quem ele queria copiar. E a cópia foi tão perfeita, que seus contemporâneos registraram para as gerações futuras que “São Francisco é outro Cristo”.



12 de setembro de 2012

OS SALMOS EM MINHA VIDA


OS SALMOS EM MINHA VIDA

Por Yves Congar*

O presente texto tem como autor um dos maiores teólogos do século XX, o dominicano Yves Congar. Trata-se de uma reflexão-meditação a respeito dos salmos na vida do cristão. Congar procura refletir teologicamente a respeito do sentido da recitação do conteúdo do saltério por aqueles e aquelas que são discípulos de Cristo. O texto apareceu na revista La Vie Spirituelle, janvier, 2008, n. 775, p. 115-120. A tradução foi preparada pela Redação desta revista. O conteúdo deste artigo nos coloca a linha de tantos empenhos de maior vivência da Palavra de Deus em nossas vidas.

Não poucas pessoas que buscam rezar de verdade, dizem ter dificuldade em compreender os salmos. Deparam com situações que lhes são estranhas, ou com motivações religiosas que não podem assumir como tais. Os salmos apontariam para um mundo literário, cultural e mesmo religioso diferente e distante. Ficamos admirados que a Igreja cristã tenha, desde as suas origens, guardado os salmos como expressão da sua oração. E foi exatamente o que ela fez. Os Padres da Igreja comentaram os salmos; através deles, durante séculos, se aprendeu a ler; a liturgia se tece com seus versículos; a santificação das horas no Ofício dos monges, religiosos, religiosas, sacerdotes e numerosos fiéis é confiada aos salmos.

Num primeiro momento pode-se ficar admirado que os cristãos tenham optado na questão da oração por textos judaicos. Certamente não o teriam feito se, de uma maneira ou outra, estes textos não tivessem relação com Cristo. Jesus, na verdade, afirma que as Escrituras falam dele, referindo-se expressamente aos salmos (Lc 24,27 e 44-46; Jo 5,39 e 46). Os apóstolos, e depois deles os Padres da Igreja e os Antigos, não leram a história de Jesus apontada pelas Escrituras judaicas (Ver Jo 1,45; 22,22; 12, 16-41; 19,28; 20,9)? Os próprios judeus, ao longo do Antigo Testamento, se serviram de um procedimento de releitura de sua própria história e de seus próprios textos. Assim fizeram no tocante aos salmos depois da volta do exílio que constituiu para eles uma nova esperança de libertação e de salvação, em novas condições de pobreza e de fraqueza, de inserção na história do mundo, esperança messiânica e escatológica. Não é de admirar, pois, que os cristãos tenham cristianizado e mesmo cristologizado os salmos. “O saltério, diz Santo Hilário, é como o corpo de Cristo, pelo qual o profeta fala e canta...” (Prólogo ao seu comentário sobre os salmos).

A linguagem adequada para me dirigir a Deus
Em sua trama literária, e para além dela, os salmos são também a expressão de nossa fé no Deus vivo. Nossa prática dos salmos vale tanto quanto vale nossa fé no Deus da Bíblia, como ligação absoluta a Ele no amor e a representação que fazemos dele. O Deus da Bíblia é ao mesmo tempo criador e redentor. As magnalia Dei que os salmos cantam se referem ao mesmo tempo à criação bem como à libertação e à história da salvação. Há salmos dos dois tipos. Por vezes até os mesmos versículos unem os dois temas. O mais característico do Deus vivo é que nunca dele se fala sem conceder-lhe um atributo de ação. Ele é sempre o Deus que...

Fundamentalmente, Deus é quem fez Israel sair do Egito. Os salmos muitas vezes evocam tal história como louvor ou confissão de esperança... O próprio nome Yahvé que ocorre 670 vezes no saltério, não levando em conta os compreendidos entre os salmos 42 a 83, onde é substituído por Elohim, designa o Deus. Sua tradução por “Senhor” nos faz correr o risco de não evocar suas conotações mais significativas. Segundo as explicações claras feitas a Moisés (Ex 3,14), ele quer dizer: Sou aí convosco e para vós; serei o que serei, havereis de ver a partir das intervenções em vosso favor. “Yahvé” não designa tanto “Aquele que é, “o Eterno”, embora tais nuanças não devam ser excluídas, mas o Deus vivo que escolhe,chama, se consagra ao povo, vigia sobre ele, o conduz, o castiga, lhe outorga graças, em breve, o Deus da economia salutar. Este é o Deus dos salmos. E a oração dos salmos consiste em dizer-lhe, através de todas as circunstâncias, sejam elas de desgraça ou de alegria, de pedido de socorro ou de ação de graças: tu és meu Deus, serás sempre meu Deus.

Há os que tropeçam nos salmos de imprecação ou de vingança (por exemplo: 5, 11, 55 etc.). Serão eles também compreendidos a partir do ponto de vista de Deus no concernente à justiça ou proteção de que formalmente tratam. Evidentemente que o detalhe concreto nos males que desejam deverá ser entendido a partir de um gênero literário situado e datado. São conhecidos textos paralelos no vocabulário de certos povos ainda hoje. Serão entendidos no contexto da luta pelo Reino de Deus que, na verdade, tem inimigos. Tais salmos são também teologais. Relevam da visão bíblica segundo a qual há dois sujeitos em atividade: Deus e Satanás: dualismo não metafísico, porque nesse ponto de vista não há dúvidas do monoteísmo bíblico ser soberano, mas dualismo ético, e nesse sentido, existencial.

As pessoas sentem dificuldade, ainda, com outros salmos. Há os que não exprimem nossas estados de alma, quando tomados isoladamente. Um bom comentário pode nos ajudar, mas não convém exagerar a dificuldade. Eles serão tomados no grande movimento global do saltério teologal: “Tu és meu Deus”.

“Meu Deus”. Eis aí uma expressão extremamente freqüente nos salmos. Não tem o sentido de alguns relatos mais antigos em que “meu” excluiria o Deus de um outro povo ou de outro clã. A expressão significa a comunidade que a eleição e a aliança estabeleceram entre Yahvé e seu povo ou seus fiéis. Como nos profetas, é ao Deus ao qual se faz fé, ao qual se clama com confiança, que se louva na alegria do coração. “Meu Deus” se diz com o coração.

Independente desta expressão, perto de 80 salmos falam na primeira pessoa, “eu” (...) Trata-se do “eu” de quem vive e exprime o relacionamento religioso para com o Deus vivo. É o autor do salmo, ou quem salmodia, é o eu que o atualiza na oração, é a comunhão dos fiéis, é o nós, é a ecclesia, é o próprio Cristo (ver Mt 26,30). In multus unus, um só nos muitos, diz Santo Agostinho, mas se poderia inverter a fórmula, multi in uno, novamente citando com Santo Agostinho, o Salmo 119,63, “fazendo eu parte daqueles que te temem”. Em termos de teologia cristã, é o Espírito Santo que faz a unidade de todos os que invocam a Deus. Ele atualiza uma oração que ele mesmo inspirou no coração do orante tomado isoladamente, bem como na comunidade fiel, tanto quanto na oração dos piedosos israelitas, também na Igreja que é o Corpo de Cristo.

Rezar os salmos como cristãos

Como já dissemos, há os que estranham que os salmos tenham se tornado a oração dos cristãos, e mesmo da liturgia pública da Igreja (...). Ora, os salmos constituem a melhor escola em que a atitude de fé que realiza o relacionamento religioso (tal como é vivido e atestado na Antiga Aliança) possa formar-se e alimentar-se. A epístola aos Hebreus não tem outra teologia da fé senão a da história dos patriarcas. Os valores religiosos mais profundos e mais delicados se encontram nos salmos (...). Evidentemente que invocamos hoje Deus como Pai num sentido diferente do título que era atribuído a Yahvé na antiga Disposição. A invocação cristã diz mais, mas assume toda a substância dos relacionamentos religiosos dos salmos judaicos...

O relacionamento religioso a que os referimos se realiza, na Nova Aliança, no Cristo, pelo Espírito Santo. Rezamos os salmos na qualidade de cristãos. Será inevitável e necessário operar uma “cristianização” dos mesmos. Homem da Tradição, frequentador dos Padres e da santa liturgia, como não ouviremos nos salmos a voz de Cristo? Interessamo-nos sobretudo na recitação cotidiana dos salmos no Ofício e na oração pessoal, enquanto a cristoligização clássica concerne de modo especial a celebração dos mistérios de Cristo. Rezamos os salmos como expressão desta referência de nossa vida a Deus precisamente no que consiste nosso sacrifício espiritual (Rm 12,1). Este é agradável a Deus por meio de Jesus Cristo (cf. 1Pe 2,5). Se estes salmos exprimem o relacionamento religioso, o “ad Deum” de toda a nossa vida e de toda a vida do povo de Deus, este “ad Deum”, este “para Deus” necessariamente será cristão.

Deus se revelou em Jesus Cristo. O “Eu sou”, “Eu serei quem serei” (de Ex 3.14 tornou-se “Eu sou o pão da vida (Jo 8,35), “a luz do mundo” (8,12), a porta das ovelhas... o bom pastor (10,7 e 11), “a ressurreição” (11,25), “o caminho, a verdade e a vida” (14,6), “a verdadeira vide” (15,1). O “Eu serei convosco” de Ex 3,12, se com concretizou no “Estarei convosco até a consumação dos séculos” de Mt 28,20. O Nome que é preciso invocar para ser salvo (Jl 3,5) é o Senhor Jesus (Rm 10,13; At 2,21). Ao “É diante de mim que todo joelho dobrará” (de Is 45,23) deve-se acrescentar com a vinda de Cristo “Deus o exaltou para que... perante o nome de Jesus se dobre reverente todo joelho, seja nos céus, na terra ou nos abismos” do hino cristológico de Filipenses 2,9-10. O relacionamento de Deus com os seus conhece profunda mudança em Cristo. Passa pelo “abaixamento” de Deus, que veio a nós na forma do Servo. Rezando os salmos como discípulos de Jesus, membros de seu Corpo, com uma alma cristã, certamente não os rezamos como fizeram ou fazem ainda os judeus. A tradução grega dos Setenta e a latina da Vulgata, procuraram nuançar certas expressões. Não se trata de adocicar ou enfraquecer o texto. Trata-se de fazer aparecer toda a verdade dos textos de Deus: na esperança e inconfundível convicção de Israel, no grito das provações, na aproximação da humildade e misericórdia realizada por meio de Jesus, na perfeição de sua obediência onde ele encontrou sua glória.

Salmos, meus queridos salmos, pão cotidiano de minha esperança, voz de serviço e de meu amor por Deus, tomai em meus lábios vossa plenitude. Queridos salmos, vós não envelheceis, sois a oração que não se gasta. Ao nível da fé, abrangeis a totalidade da experiência humana. Se ocupais tal lugar em minha vida se deve ao fato de exprimir essa experiência diante de Deus... Como a verdade, colocais frescor nos lábios e no coração dos que vos cantam. Permiti que vos resumamos em duas palavras. Podemos pronunciar a segunda depois que dissermos a primeira: Amém; Aleluia.

*Yves Congar é um dos maiores teólogos do século XX.