11 de agosto de 2012

Clara, a face feminina e carinhosa do carisma franciscano.

Santa Clara nasceu em Assis, no dia 16 de julho de 1193. Seu nome era Chiara di Messere Favarone, nome que evocava a força da família nobre. Nobre de nascença, nobre de costumes. Um pai, senhor feudal e cavaleiro. Família que tinha um palácio na cidade e um castelo no campo. Bela de rosto e rica de bolso. Uma mãe, Hortolana, mulher culta, sensível, líder e viajada. O pai morre cedo e a vida de Clara é conduzida por um tutor, seu tio Monaldo. Uma biografia simples com final previsto para o comum: arrumar um marido influente, rico e nobre para dar continuidade à estirpe dos Ofredducci Favarone.

Porém, aconteceu o oposto: a bela, e não despercebida Clara, é voltada para o espiritual, para a piedade, ama os pobres, é desapegada de sua herança, mistura-se com a vassalagem, acredita nos loucos sonhos de um jovem convertido que faz rumor em Assis, Francesco di Bernardone. Uma mulher prometida a cavaleiros, reis e príncipes, resolve prestar atenção num jovem deserdado pelo pai, que se desfaz do status de novo rico e resolve abraçar valores do Evangelho. Um mendigo penitente que vai criando um itinerário de vida. Mas não é o jovem que a atrai, mas sim o Evangelho percebido não como letra, mas como pessoa: Jesus, Francisco, leprosos, pequeninos, vermes do caminho e marginalizados. A Boa Nova não é só para monges, teólogos, clero, prelados e pregadores, a Boa Nova vale para todos os detalhes da bela Úmbria.

A menina Clara, com treze anos começa a perceber isto. O jovem Francisco, com 25 anos já está de carne e osso, hábito roto e calos nas mãos, olhos brilhando, e uma incontida alegria, totalmente envolvido no projeto de fazer o Amor ser amado. Clara tinha um primo, Rufino, que fez estrada com Francisco. Quando completou 18 anos, ajudada por uma governanta, fugiu de casa para ser livre na escolha. Se casar com um da mesma classe social era sonho da sua família; amar todas as classes sociais, incondicionalmente, era um sonho seu, atrelado a um acolhimento divino. Foi juntar-se com Francisco e seus companheiros em Santa Maria dos Anjos. Antes mandou apoio, ajuda e boas energias para o grupo que já estava lá. Quando se juntou à Fraternidade primitiva, cortou os cabelos e os cordões umbilicais do seu brilhante passado de moça rica.
Havia no ar a psicose da heresia que não a permitiu ser mulher entre homens penitentes. Foi viver um tempo num mosteiro de Beneditinas e depois, junto ao altar, presépio, cruz e eucaristia, ao Espírito Comum e Francisco, ao discernimento na prece, encontrou o seu lugar definitivo: cuidar da inspiração junto à Cruz de São Damião. Seu tio, cavaleiros a serviço da família procuraram, usando a força, levá-la de volta para a casa. Mulher que ama não conhece caminho de volta. Não tem retorno. Olha para a frente e abraça a vida de oração, silêncio, contemplação, ação, elementos de uma vocação que não diminuiu sua beleza e força de atração. Duas irmãs de sangue e sua mãe foram morar com ela no novo mosteiro. Nascia uma nova Ordem, as Damas Pobres, as Clarissas. Assim nasceu Clara de Assis, uma raiz forte da frondosa árvore que começou a ser semeada por Francisco de Assis.

Clara foi mais irmã que abadessa; encarnou humildade e sobriedade, paciência e serviço, cuidou com bênção e carinho das irmãs enfermas e fracas. Fez penitência sorrindo e caridade abrindo o mosteiro para os arredores. Assis e o mundo olhavam estarrecidos aquela jovem decidida que abriu mão de riqueza, de baú de jóias e vestes, valores do mundo, para seguir apaixonadamente Jesus. Transformou a sua condição social em força espiritual: ser cristã é casar com o Deus humilde, pobre, crucificado. Mostrou que beleza é Espelho do Sagrado. Que clausura não é fechamento, mas abertura para a escolha mais livre de Amor. Clara de Assis é uma heroína do desapego. Escondeu-se para deixar transparecer uma Verdade Maior. Hoje é para nós uma luz de personalidade forte, atitudes generosas, sensibilidade, este modo histórico de como o sagrado feminino se revela. Não renunciou o Amor, apenas purificou a escolha: tornou-se vassala do Grande Rei.

Muitos pensaram que era uma mulher frágil e manipulável por bulas, decretos, regras, protecionismo e propriedade curial. Ela mesma pediu um privilégio, garantido em 1228, de colocar tudo em comum sem acumular nada. Aprendeu com Francisco que ser pobre é pra valer: não ter nada mesmo para possuir a Única Riqueza que preenche o coração: Deus e a Fraternidade. Os dois foram os últimos da história a conseguir viver isto de um modo absoluto. Clara não ficou para a história como uma ex-rica. Permanece como uma mulher santa, irmã, esposa e mãe que guia vidas. Hoje tem mais de 21 mil seguidoras no mundo. O seu pobre mosteiro continua sendo uma mina de pedras preciosas lapidadas pelo Altíssimo. Nos últimos dias de sua vida escreveu uma Regra que muitos acham que é igualzinha a de Francisco; mas examinando bem é apenas um jeito de ser clara, de ser filha, de ser esposa, de ser irmã, de ser espelho do Evangelho. Não é apenas uma Regra de Vida Monástica, é um modo terno, forte e leal de organizar a vida seguindo o destino do Amado.

Uma mulher chamada Clara…


Santa Clara, virgem e fundadora
Oséias 2, 16.17b.21-22; 2Coríntios 4,6-10.16-18; João 15,7-10
(Leituras do Missal Franciscano)

Clara era mulher nobre, filha de estirpe escolhida e privilegiada. Vivia perto da Praça de São Rufino onde um jovem Francisco costumava pregar, falar de conversão, de mudança de vida, imaginar uma outra maneira de se viver a fé. Filha de mãe piedosa, trabalhada pela graça, Clara resolveu seguir o Evangelho do Cristo pobre. Numa noite de Domingo de Ramos deixa a casa paterna e começa a grandiosa e modesta aventura de sua vida, tal como Abraão… Deixa sua casa, sua parentela, no coração da noite… Foge vestida de ricas vestes… É acolhida por Francisco e seus irmãos, os cavaleiros de uma nova ordem de coisas. Francisco corta suas tranças bonitas e a reveste de roupa pobre… Livre de tudo e de todos, essa mulher que havia ouvido a voz do Evangelho, que havia escutado as histórias que a mãe contava depois de suas peregrinações, essa mulher da nobreza de torna toda iluminada… É levada até um mosteiro de beneditinas… Depois mora um pouco num hospedaria de mulheres penitentes ambulantes… Até que, por fim, passa a viver em São Damião… Do crucifixo bonito e sereno… Do pátio com flores… São Damião do refeitório das princesas pobres casadas com o Esposo Celeste… Do dormitório áspero… Ali naqueles espaços de São Damião Irmã Clara vai alimentar seu amor sem limites pelo esposo pobre que ele vê como num espelho…Um esposo paupérrimo que a atrai e a seduz….Irmã da irmãs, cuidava de cada uma delas… Mesmo doente quase todo o tempo de sua vida não deixou de trabalhar e de fazer bordados e toalhas para os altares de rara beleza… Vida dura, de penitência, mas vida de profunda alegria… Sempre na dimensão dos esponsais místicos com o Cristo pobre e nu… Sempre amiga e filha e irmã de Francisco… Encarnando em sua vida de mulher e de contemplativa toda a ternura fraterna, minorítica e missionária de Francisco… Ela mesma, com toda sua originalidade, se considerava a plantinha do Seráfico Pai… Teria querido morrer mártir como morreram mártires os primeiros irmãos de Francisco… Ela e as irmãs com suas orações e de sua vida passaram a ser o sustento para os membros frágeis da Igreja… E assim sua vida foi cheia de sentido: contemplativa, fraterna e missionária porque tudo o que era vivido em São Damião tinha como meta restaurar a Igreja, ordem dada pelo Senhor a Francisco precisamente na igrejinha de São Damião.

Belíssima a primeira leitura da festa solene de Clara: “Assim fala o Senhor: Haverei de atraí-la, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração. Ali se tornará como no tempo da sua juventude… Desposar-te-ei para sempre, desposar-te-ei conforme a justiça e o direito, com benevolência e ternura… Desposar-te-ei com fidelidade, e conhecerás o Senhor”.

Frei Almir Ribeiro Guimarães

2012: 800 ANOS DA VOCAÇÃO DE SANTA CLARA DE ASSIS


Especial - Santa Clara de Assis 800 anos

2012: 800 ANOS DA VOCAÇÃO DE SANTA CLARA DE ASSIS

Clara de Assis nasceu Chiara Ofreduccio Favarone, em 1194, da nobre família assisiense dos Ofreducci, rica, bela, fidalga e prometida como esposa para pretendente de estirpe semelhante que pudesse aumentar os bens de seu pai.


Em 1210, encontra-se com Francisco de Assis, jovem, louco e santo que revoluciona Assis com a vivência do Evangelho e com uma vida de total desapego, vivendo pobre entre os pobres. Em 1211 está nítida a conversão de Clara: aos 28 de março de 1212, no Domingo de Ramos, recebe das mãos do bispo um ramo e lê isto como um sinal da sua decisão e envio. Na madrugada do dia seguinte, foge da casa da família e vai encontrar-se com Francisco em Santa Maria dos Anjos.

É o que comemoramos, 1212-2012, a Vocação de Clara de Assis. São 800 anos! De jubileu em jubileu se evidencia a história encarnada de um carisma. Clara de Assis é a expressão mais cristalina de uma nobre mulher medieval: reclusa em seu palácio, rica de qualidades, rica de bens materiais, educada em bons costumes, foco de admiração pelas virtudes, não passa despercebida pela sua beleza, no aguardo de um bom dote para um bom casamento. Ela rompe com tudo isto para viver o Evangelho. Isto é convocação para existir no Amor Sagrado!

Havia em seu tempo mulheres que não eram valorizadas como ela, mas todas sonhavam o melhor. Clara projeta para a sua vida a perfeição cristã. Século após século não podemos nos furtar de retomar os modelos vivos de mulheres corajosas como Joana D’Arc, Catarina de Siena, Hildegard de Bingen, Brígida da Suécia, Ângela de Foligno, Tereza D’Ávila. Mulheres que, assim como Clara, nos mostram que uma coisa é inserir-se na vida das contemporâneas, outra coisa é trilhar a desafiante senda da perfeição.

Muitas destas mulheres traçaram um caminho: se não há felicidade na escolha afetiva do prometido esposo, por que não buscar o Amado que posso escolher na liberdade sagrada do coração? Se não há realização na preconceituosa sociedade de seu tempo, por que não buscar a Fraternidade? Mulheres audaciosas e fortes nos mostraram a sublimação da vida e não fracas escolhas. Não há revolta, mas sim um seguimento apaixonado. Não há um rompimento com a ilustre tradição familiar, porém a opção por abraçar uma família espiritual. Assim foi Clara de Assis. Mulher de sonhos e projetos, renunciou a suntuosos palácios e elegantes príncipes para refazer os passos de um Pobre de Assis que mostrou o caminho do Evangelho. Ela nasceu dentro de uma família de cavaleiros, buscadores de títulos de nobreza e patrimônio, aprendeu com eles a garra e a ousadia; mas direcionou esta força para uma fortaleza espiritual que venceu as dificuldades e provações da mais extrema renúncia e pobreza. Com Francisco ela ajudou, saindo de uma casa, a reconstruir outra casa: a da civilização cristã.

No silêncio orante do Mosteiro ouviu o Mestre dos mestres e ouviu Francisco. Criou uma linguagem própria e uma vocação original de amor e cuidado. Não deu só presença encantada no seguimento do Cristo Pobre; deu muito mais: sua riqueza pessoal, sua saúde, sua vida. Depois da morte de Francisco de Assis, por 27 anos, cuidou da herança que ele deixou e da qual ela também era cooperadora. Viveu 42 anos no Mosteiro de São Damião, junto com suas irmãs Clarissas, de um modo tão transparente que há oito séculos sua vida é inspiração em todos os cantos da história. Fez do seu Mosteiro um canteiro fecundo de novas sementes contemplativas de Irmãs, oração, penitência, silêncio, austeridade e acolhimento. Clara é um exemplo para o mundo mesmo escondida do mundo. Assim como Francisco tornou-se realidade e legenda. “A lenda cristã, diz Barbara Brígida, não se preocupa com o lado humano só santo; mas só se interessa pelo ouro finíssimo da divindade que nele brilha”. Como diz Joaquim Capela, OFM: “Na verdade, Clara de Assis foi a glória do feminino. Veio ao mundo para embelezar e enriquecer com os tesouros da sua ternura e bondade (...). Como seu guia e pai, São Francisco, abriu à humanidade novos caminhos de paz e de ventura. A sua benigna sombra, tão humana e ao mesmo tempo tão espiritual, paira ainda hoje na doce terra da Úmbria, toda impregnada da lembrança dos mais santos mais simpáticos do século XIII e talvez de todos os tempos” ( in Santa Clara de Assis, Editorial Franciscana , Braga, 1983)

Que alegria celebrar um jubileu desta Santa tão brilhante que ilumina há séculos nosso mundo e nosso caminho. Santa Clara, rogai por nós!

Texto publicado no Almanaque Santo Antônio 2012, editado pela Vozes, pág. 140

9 de agosto de 2012

NESTA FESTA DE SANTA CLARA VAMOS LER AS CARTAS QUE ELA DEIXOU



Por
Frei Vitório Mazzuco Fº

Santa Clara torna-se mãe de muitas discípulas. Sua fama de santidade encanta e convoca. A clausura não é obstáculo para visitar os corações de tantos que moram fora do claustro. Se não há presença física pode-se escrever. Clara corresponde a este anseio através de muitas cartas. Temos quatro para Inês de Praga e uma enviada a Ermentrude de Bruges que queremos deixar aqui para a reflexão. Amizade e espiritualidade se encontram nestas palavras. Uma vida de busca lúcida do Amado, da Palavra Sagrada e da Vida Religiosa. Iluminar a escolha e ter a nitidez na vocação.Ser perseverante em imitar a Pobreza do Esposo. Seguir um caminho divino por Amor. Olhar-se no Espelho.

O caminho de Clara é o caminho de suas discípulas: recusar propostas de algum envolvimento temporal e vibrar por uma única paixão: Seguir Jesus Cristo Pobre, Humilde, nascido no Presépio, Crucificado num seguimento humilde feito Fraternidade à luz do Evangelho. Nestas cartas temos fortes palavras místicas ditas com segurança e ternura. A ternura garante espessura humana à vida, cria relações e ligas as pessoas em profundidade. Onde falta a ternura entra o enrijecimento e desaparece a alegria de viver. Em Clara e no seu Mosteiro não há aquele véu de tristeza e rigidez que aparece em tanta gente que diz viver uma espiritualidade e criam vida em comunidades de gente triste e cheia de culpa. Clara, em suas cartas, revela o que sempre foi: terna, afável, cortês, hospitaleira, irmã e amiga, serva atenciosa e solícita, mestra da alma. Acolhe sem reservas o Amor do Esposo e ao Esposo, e faz dele a sua resposta de amor para a humanidade. O que escreve nas cartas está escrito em seu coração. Aqui uma junção de textos de cinco cartas. Leia e olhe-se neste Espelho e deixe que estas cartas leiam a sua alma:

Fragmentos das Cartas de Santa Clara à Inês de Praga

Portanto, irmã caríssima, porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo, ficai firme no santo serviço do pobre Crucificado, ao qual vos dedicastes com amor ardente. Ele suportou por todos nós a paixão da cruz e nos arrancou do poder do príncipe das trevas.

Ó piedosa pobreza, que o Senhor Jesus Cristo dignou-se abraçar acima de tudo, ele que regia e rege o céu e a terra, ele que disse e tudo foi feito! Pois disse que as raposas têm tocas e os passarinhos têm ninhos, mas o Filho do homem, Jesus Cristo, não tem onde reclinar a cabeça. Mas, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

Portanto, se tão grande e elevado Senhor, vindo a um seio virginal, quis aparecer no mundo desprezado, indigente e pobre, para que os homens e as mulheres, paupérrimos e miseráveis, na extrema indigência do alimento celestial, nele se tornassem ricos possuindo os reinos celestes, vós tendes é que exultar e vos alegrar muito, repleta de imenso gáudio e alegria espiritual, pois tivestes maior prazer no desprezo do século que nas honras, preferistes a pobreza às riquezas temporais e achastes melhor guardar tesouros no céu que na terra, porque lá nem a ferrugem consome nem a traça rói, e os ladrões não saqueiam nem roubam.

Vossa recompensa será enorme nos céus, e merecestes ser chamada com quase toda a dignidade de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai Altíssimo e da gloriosa Virgem. (...)

Por isso achei bom suplicar que vos deixeis fortalecer no seu santo serviço, crescendo de bem para melhor, de virtude em virtude, para que aquele que servis com todo desejo do coração digne-se dar-vos os desejados prêmios.

Não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe, mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança. Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-Ia desse propósito, que seja tropeço no caminho, para não cumprir seus votos ao Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou.

Se alguém lhe disser outra coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre.

Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz.

Se você sofrer com Ele, com Ele vai reinar; se chorar com Ele, com Ele vai se alegrar; se morrer com Ele na cruz da tribulação vai ter com Ele mansão celeste nos esplendores dos santos. E seu nome glorioso entre os homens, será inscrito no livro da vida.

Vejo que são a humildade, a força da fé e os braços da pobreza que a levaram a abraçar o tesouro incomparável escondido no campo do mundo e dos corações humanos, com o qual compra-se aquele por quem tudo foi feito do nada. Eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu corpo inefável.

Quem vai me dizer, então, para não exultar com tão admiráveis alegrias? Por isso, exulte sempre no Senhor também você, querida. Não se deixe envolver pela amargura e o desânimo, senhora amada em Cristo, gozo dos anjos e coroa das Irmãs.

Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma, no esplendor da glória. Ponha o coração na figura da substância divina e transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem da divindade.

Desse modo também você vai experimentar o que sentem os amigos quando saboreiam a doçura escondida, que o próprio Deus reservou desde o início para os que o amam. Deixe de lado tudo que neste mundo falaz e perturbador prende seus cegos amantes e ame totalmente o que se entregou inteiro por seu amor, aquele cuja beleza o sol e a lua admiram, cujos prêmios são de preciosidade e grandeza sem fim. Prenda-se à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal Filho que os céus não podiam conter, mas que ela recolheu no pequeno claustro do seu santo seio e carregou no seu regaço de menina.

Assim como a gloriosa Virgem das virgens o trouxe materialmente, assim também você, seguindo seus passos, especialmente os da humildade e pobreza, sem dúvida alguma, poderá trazê-lo espiritualmente em um corpo casto e virginal. Você vai conter quem pode conter você e todas as coisas, vai possuir algo que; mesmo comparado com as outras posses passageiras deste mundo, será mais fortemente seu.

Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir-se com todas as fibras do coração àquele cuja beleza todos os batalhões bem-aventurados dos céus admiram sem cessar cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, cuja suavidade preenche, cuja lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha.

Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto, para enfeitar-se toda, interior e exteriormente, vestida e cingida de variedade, ornada também com as flores e roupas das virtudes todas, ó filha e esposa caríssima do sumo Rei. Pois nesse espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder contemplar com a graça de Deus.

Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi posto no presépio! Admirável humildade, estupenda pobreza! O Rei dos anjos repousa numa manjedoura. No meio do espelho, considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano. E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa.

Assim posto no lenho na cruz, o próprio espelho advertia quem passava para o que deviam considerar: Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há outra dor igual à minha. Respondamos a uma voz, num só espírito, ao que clama e grita: Vou me lembrar para sempre e minha alma vai desfalecer em mim.

Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó rainha do Rei celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas, proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor: Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!

Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, até que tua esquerda esteja sob a minha cabeça, sua direita me abrace toda feliz, e me dês o beijo mais feliz de tua boca.

Que mais? No amor por você, cale-se a língua de carne, fale a língua do espírito.

EXTRAÍDO DE: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/

8 de agosto de 2012

Carta aberta às Irmãs de Santa Clara



Clara, sublime invenção do Deus Altíssimo

Bem, queridas irmãs pobres de Santa Clara,

Paz e todos os bens!

Quem lhes escreve é um frade menor já com mais de cinquenta anos de profissão. Não posso esconder minha satisfação e meu júbilo em dirigir-lhes umas palavras pela passagem da festa dos oitocentos do carisma de nossa irmã Clara. Insisto no possessivo nossa… Constituímos uma só família, que conta com mais de oitocentos anos. Vocês nasceram antes de nós. Quando Francisco refazia São Damião, ele dizia, vocês sabem muito bem, que ali iriam viver mulher que enfeitariam o mundo e a Igreja… com sua bela vida. Naquele tempo, Francisco não tinha ainda irmãos… Nossas histórias e nossos destinos são entrelaçados desde os começos. Nos sonhos de nosso Pai comum, vocês nasceram antes.

Experimento alegria de poder ter conhecido Clara a partir da década de oitenta. Pena que nossos mestres do passado não tenham tido a graça de conhecer esta admirável mulher, essa sublime invenção do Deus Altíssimo. Assim, para mim Clara não é uma santa a mais. Sinto-me hoje vinculado a ela como quero estar ligado a Francisco. Nunca podemos nos esquecer que, depois da morte de Francisco, Clara conservou durante anos o autêntico perfume que Francisco havia derramado na terra. Ela tomou distância de querelas e, no relicário de seu coração, conservou o presente que Deus deu ao mundo em nosso caro e forte Francesco. A leitura das cartas, de biografias sólidas, a visita aos espaços de São Damião fazem com que frequentemos espaços do coração, tempos de uma história que está vinculada à nossa história.

Vivemos na Igreja e na vida consagrada um delicadíssimo momento de transição. Não é aqui o lugar de abordar tema tão delicado. Tenho certeza que vocês, nos espaços exíguos em que vivem, quem sabe com algumas dificuldades, são mulheres plenamente convencidas de estarem vivendo uma inteireza de entrega ao Fascinante. Vocês sabem muito bem que o papel dos consagrados e das consagradas vai bem além da rentabilidade pastoral. Vocês oferecem à Igreja uma contribuição única, sobretudo vocês clarissas contemplativas: com modéstia e humildade, vocês dão à Igreja local a alegria serena de uma vida em que Deus basta. Vocês, prezadas clarissas, precisam mostrar ao mundo uma humanidade reconciliada e em paz. Os mosteiros das clarissas, na simplicidade e aparente insignificância, são luzeiros que orientam os viandantes…

Sei que vocês com sua vida sustentam os membros frágeis da Igreja. Creio que sua intimidade com o Senhor, que essas horas passadas diante do Senhor no ardor e na secura, no gozo e na aridez, chegam até o coração do Senhor e voltam em forma de coragem para os bispos tomarem decisões ousadas, para que os sacerdotes, mesmo com os tempos desafiantes e desafiadores, sejam outros Cristo, pastores indômitos e não simples administradores, que celebrem na piedade e na pureza total os mistérios do Cristo pobre e ressuscitado. Queria que vocês colocassem duas intenções especiais: os pais e esposos, fragilizados por não serem discípulos de Cristo e os agentes de pastoral, que perplexos ou talvez sem senso crítico, não preparam como João Batista os caminhos do Senhor. Essas pessoas são “membros frágeis”. As suas preces precisam sustentar essas causas. Precisam elas, com a força de vocês, acelerar a obra de recriação que o Espírito anda pedindo, recriação do casamento e da família, recriação de um pastoral do pastor que vê as ovelhas errando…

Penso que junto de seu mosteiros, à sombra da vida admiravelmente bela que vivem, deveriam haver espaços de crescimento dos fiéis na oração. Auxiliadas por leigos maduros, muitas de vocês, irmãs, poderiam fazer exposições sobre os temas clarianos, franciscanos e de modo particular levar as pessoas desejosas de crescimento espiritual a descobrirem a oração contemplativa e a beleza da Liturgia das Horas. Os mosteiros das irmãs necessariamente precisam ser “missionários” mesmo dentro da clausura.

Em tudo o que leio sobre nossa Clara há, entre tantos aspectos, um que me encanta: sua vida de oração, as reflexões que ela dirige a Inês de Praga, seu exemplo de intimidade com o Senhor. Espero que em suas casas, no silêncio e talvez do cansaço, na Liturgia das Horas sempre bela, com cantos lindos, com pausas silenciosas, com mística, vocês possam fazer profundíssimas experiências de contemplação, que se sintam arrastadas para o Esposo. Como frades menores, precisamos dessa qualidade de oração contemplativa e mística. Nunca, queridas irmãs, nivelem por baixo. Elevem-se e, por favor, nos elevem nesse movimento de Clara, nossa irmã. Gostaria de obter por intermédio de Clara a graça de uma paixão pelo Cristo pobre… e este é o desejo dos frades. Pela sua oração, pelo seu testemunho de vida vocês têm a obrigação de nos ajudar…

Muitos de seus mosteiros contam com poucas vocações novas. Nós também, aliás. Não se trata, vocês sabem melhor do que eu, de colocar propaganda na internet ou de fazer muito alarido. Vocês e nós frades, sabemos que é questão de voltar ao primeiro amor, de reavivar as brasas meio apagadas, mas, sobretudo, ou com isso, ter a audácia de inventar o novo, sem perder o essencial: o novo na oração, o novo da tentativa de nos abeirarmos de um mundo indiferente, o novo de dar aos nossos irmãos e nossas irmãs oportunidades de fazer eclodir talentos que Deus a eles deu para que pudessem reavivar o carisma de Francisco e o carisma de Clara.

Não podemos viver separados. Somos membros de uma mesma família. Vocês necessitam de nossa presença de frades que as estimulem. Somos, em suas vidas, a lembrança de Francisco. Nós precisamos da delicadeza feminina de vocês, desse ar de esposas de Cristo que por vezes vejo nos rostos das irmãs.

Gostaria de terminar estas linhas que escrevo com o coração para vocês, admiráveis mulheres e minhas irmãs, com um texto de um confrade francês que aprendi a admirar em seus escritos Michel Hubaut, prefaciando um saboroso livro escrito por uma clarissa, como se ela fossa Clara (Claire Pascal Jeannet, Sainte Claire d’Assise): “Hoje como ontem, as irmãs de Clara optam por um vida de sobriedade. Sem dúvida, muitas contam com um pequeno jardim (ou espaço de terra) que lhes possibilitem colher alguns legumes e ter um cantinho de silêncio para o gênero de vida das irmãs. Quero testemunhar que em todos os cantos, à mesa, no mobiliário das casas, ou nos locais comunitários a simplicidade é sempre honrada. Quantas vezes em minhas visitas à sóbria beleza de seus mosteiros floridos me passaram a impressão de serem “terras de paz”. Essa graça franciscana de fazer com que a criação cante não deve fazer com que as irmãos vivam vida artificial. Por que a pobreza evangélica tem que ser feia? O próprio Francisco não recomendava ao frade hortelão que reservassem um espaço para as flores que sempre lembram a magnificência e a gratuidade de seu Criador.”

Sim, sinto falta de beleza. Nossas casas, nossas ruas, os muros e as paredes, os grafites hediondos… tudo feio… nossas capelas internas com imagens sem beleza, flores de plástico aqui e ali… por vezes uma amontoado de imagens… Sonho com espaços simples e bonitos, refeitório, capela, corredores… Nada de luxo, tudo feito de beleza simples… com flores, se possível com flores e plantas… Beleza simples, sem pompa na recitação dos salmos, silêncio denso após as leitura, entre um salmo e outro, beleza na velas que ardem ao lado do altar… mas, sobretudo, beleza da vida de vocês, filhas da luminosa Clara e que espargem luminosidade com suas vidas.

Sinto-me feliz em abraçar a todas por esta ocasião. Faço em meu nome pessoal e em nome de tantos textos e reflexões que fiz com vocês nesse site. Como o estudo desses textos me ajudaram! Sinto-me, hoje, mais do que nunca, contente em ser clariano e clariano.

Clara foi uma prodigiosa e encantadora invenção de Deus para enfeitar a terra dos homens.

Somos irmãos e irmãs de um mesmo destino,

Frei Almir, frade menor

EXTRÁIDO DE: http://www.franciscanos.org.br/n/?p=21734