14 de maio de 2013

“A OFS e os desafios para o mundo de hoje”.



O novo Pedro quer restaurar a Igreja com Francisco

Uma vez escolhido para ser o sucessor de Pedro, o Cardeal argentino Bergoglio resolveu que iria se chamar Papa Francisco. De alguma forma, desde o primeiro  instante de seu ministério como Bispo de Roma e Pastor da Igreja  Universal, vinculou-se a Francisco de Assis e toda a mística  que cerca o  Poverello: singeleza, fraternidade, amor íntimo por Cristo, respeito pelo criado, despojamento, alegria profunda.  A  Ordem  Franciscana Secular haverá de restaurar a Igreja com o espírito e o “jeito” de Francisco, seguindo o desejo do novo Papa. Gostaríamos de enfrentar os desafios pastorais do mundo  a partir do Evangelho que incendiou o coração de Francisco de  Assis.

Por Frei Almir Ribeiro Guimarães

1. No primeiro semestre de 2013  nossa Igreja viveu momentos  imprevisíveis. O Papa Bento XVI,  com coragem e destemor,  resolveu renunciar à sua missão de Bispo de Roma e de Pastor da Igreja.  Um tal decisão só podia nos surpreender. Não estávamos habituados ao fato de que um Papa renunciasse.  Bento XVI fixou prazos e, no tempo devido, retirou-se discretamente para Castel Gandolfo. O Cardeal Raztinger não se sentia mais em condições físicas de levar adiante sua delicada missão devido ao peso dos anos e à complexidade dos problemas a serem enfrentados.  Com serenidade foi organizado um Conclave e experimentamos uma alegria toda particular com a eleição para Papa do cardeal jesuíta de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio. O que mais nos sensibilizou foi a escolha de seu nome: quis ser chamado de Papa Francisco, precisamente  por causa de nosso São Francisco. De repente, nos sentimos envolvidos em todas as mudanças na Sé Apostólica. Dom Frei Claudio Hummes, franciscano, Cardeal da Igreja e arcebispo emérito de São Paulo, teria dito carinhosamente  ao novo Papa que não se esquecesse dos pobres… Pobreza e São Francisco são coisas que caminham juntas.

2. Assim, o novo Pastor da Igreja universal se aproximou da figura e do carisma de Francisco. Nas linhas e entrelinhas se podia ler que desejava ele contar com o espírito franciscano para enfrentar os desafios do mundo de hoje, de modo especial, a evangelização e a solução de questões delicadas vividas  Igreja.  Vivemos  num mundo complexo e complicado,  numa Igreja  que conhece desafios internos e problemas para fora em sua missão evangelizadora, uma  Igreja que precisa ser “significativa” para os nossos tempos. Sentimos que precisamos criar o novo que vem do Espírito.  Não se trata de adotar posturas de modernidade superficial. Necessitamos de uma novidade verdadeira. E é do Evangelho que vem o novo. Ora,  Francisco encontrou o Evangelho vivo e, por isso, foi um dos maiores restauradores da Igreja. Parece, pois, que o Papa quer tudo restaurar também com o legado espiritual de Francisco.

3. Voltemo-nos para o tempo da restauração efetuada pelo Poverello e sua gente. O jovem Francisco buscava um caminho. Aos poucos foi gestando sua vocação.  Aqui, o encontro com os pobres.  Ali, esses leprosos todos. Mais adiante, a capela de São Damião. “Francisco, ter-lhe-ia dito o Crucificado,  restaura a minha Igreja que, como tu vês está em ruínas”.  Mais adiante, irmãos que chegam. Depois, o Evangelho da missão: os discípulos de Jesus haveriam de ir  pelo mundo anunciando o evangelho, na pobreza, sem aparato, sem calçados, gente pobre e simples explodindo de alegria. Em suma, uma vida evangélica, um  retorno ao Evangelho, uma renovação evangélica.  Com o Papa Francisco, os discípulos de Jesus, de modo particular os franciscanos, queremos restaurar a Igreja pela volta ao evangelho.

4. Éloi Leclerc, no seu livro  ”Francisco de Assis, o Retorno ao Evangelho”,   falando sobre o mundo que nascia na Itália daquele tempo, mundo do dinheiro, mundo da falta de vigor da Igreja de então, assim se exprime: “Nesse contexto é que surge o caminho evangélico de Francisco de Assis. Oriundo deste  meio urbano e de mercadores, o filho de Pedro Bernardone  traz em si a efervescência de sua época. Partilha suas aspirações, ambições e todas as turbulências Esse ser excepcional  está insatisfeito com o que vê e o que vive. Descobre a miséria dos pobres. Remexe-se alguma coisa dentro dele. Procura e reza. Finalmente ouve o Evangelho, não somente com os ouvidos, mas com todo o seu ser. E descobre o que esperava. Produz-se, então, no coração desse jovem, um encontro  extraordinário entre as exigências da Boa Nova e os anseios profundos de seu tempo. Francisco descobre, efetivamente, o Cristo humilde e pobre que caminha entre os homens revelando-lhes o amor do Pai. O exemplo de Cristo se torna a grande luz de sua vida. Coloca-o no caminho que conduz a uma verdadeira fraternidade. Francisco vai até o fundo nesta vida da pobreza e da humildade. Logo surge uma multidão de discípulos. Esses homens e essas mulheres se sentem atraídos pela qualidade desta vida nova que o pobre de Assis lhes propõe e que se caracteriza pela  ausência de qualquer espécie de dominação nos relacionamentos” (p. 124).  Renovar o homem e a Igreja a partir do  espírito de Assis.

5. Não temos condições, no curto espaço desta reflexão, de tocar em todos os desafios e transformações de nosso tempo que fazem dificuldade à Igreja em sua missão e ao amadurecimento humano e cristão das pessoas. Limitamo-nos a evocar alguns desses desafios:

● Cultura da “intranscendência” que prende as pessoas ao aqui e agora, fazendo com que vivam na superficialidade, somente para o imediato, não experimentando necessidade de abrir-se para a transcendência, para Deus, para o Altíssimo e Bom Senhor.

● Cultura da evasão que faz com que a pessoa entre num esquema de fuga, sem querer assumir compromisso, relativizando os reclamos da consciência, tempo do “vale tudo”, cultura sem reflexão, sem busca do silêncio, sem discernimento.

● Cultura do ter que desenvolve o espírito de posse  de coisas e pessoas, levando  ao mero desfrute de bens e de pessoas. Tempo de consumismo e de gastança. Tempo em que se fala de dinheiro, de cotação do dólar e do euro, de crise, de corrupção, de vontade de gastar, de ter, sempre de ter…

● Tempo da curiosidade: saber o que se passa, estar informado, mesmo  que isto signifique um conhecimento superficial e de pouco alcance e que dispersa. Amanhã acontecerão outras coisas que farão esquecer as de hoje.  Pessoas antenadas nas novidades que dentro de minutos ficarão velhas e obsoletas. Ninguém vai ao fundo das coisas… Tudo é rápido demais… rápidos os casamentos, tudo fugaz… fugaz como a eletrônica midiática.

6. Mundo do imediato, do aqui e agora, do consumismo, do descartável, do provisório. Frei  Giacomo Bini, antigo Ministro Geral OFM, escrevia: Devemos substituir a cultura da aparência, do imediato, da eficiência  de nosso mundo global pela cultura do silêncio, da escuta obediente e da fecundidade divina  (Carta de Pentecostes, 2000).

7. Frei  José  R. Carballo, em texto dirigido aos Frades Menores,  mas que, com as devidas mudanças pode aplicar-se aos leigos, escrevia:  “A tentação do individualismo esteve presente em todos os tempos, mas aparece que em nosso tempo a tendência ao isolamento e ao egoísmo nas relações tenha se manifestado com renovado vigor, também na vida franciscana. Por vezes, tenho  a impressão que não temos tempo para pensar nos outros, porque nossos problemas nos ocupam demais, ou que em nós reine a lei do  “salve-se quem puder”. Constatei muitas vezes que nos falta tempo  para estar com os outros: para rezar, comer, fazer recreio juntos. Com tristeza vejo que o individualismo de muitos frades está destruindo, como um maligno câncer, sua identidade franciscana”  (Texto do Ministro Geral OFM para o Capítulo Extraordinário de 2006).

8. Há desafios na vida da comunidade da Igreja.  Não somos pessimistas.  O bem é feito e realizado. Há vigor em dioceses e paróquias.  Há movimentos que sabem dar uma formação sólida aos seus membros. A Igreja se faz presente nos meios de comunicação. Cuida de modo particular dos mais abandonados. Não se esquece dos que vivem encarcerados ou doentes. A Ordem Franciscana Secular haverá de dar a sua decidida colaboração na obra da evangelização.  Alguns desafios  de nossos dias:

● Precisamos pensar num trabalho sério da formação da fé dos cristãos. Muitos foram batizados em criança, herdaram uma tradição cristã mas nunca tiveram uma sólida formação catequética. Sério desafio!

● Em alguns lugares, não poucos católicos deixam a prática da missa dominical, questionam os sacramentos e, sem uma formação adequada,  praticamente conservam apenas vagos sinais de religiosidade. Dizem que acreditam em Deus, mas não querem viver na Igreja.

● Precisamos sempre de novo lutar para que os sacramentos sejam recebidos por pessoas que estejam em estado de conversão. Fugimos sempre do sacramentalismo.

● Estamos convencidos de que há urgência na formação de um laicato vigoroso, maduro e adulto. Não poucos leigos são mais auxiliares do clero nas tarefas para dentro do que transformadores da sociedade.  A Igreja necessita de leigos capazes de viver a fé no coração da realidade: trabalho, política, família,  respeito e cuidado pelo criado.

● Apesar de todos os pesares os cristãos precisam viver em comunidades, manifestar seu bem-querer,  rezar em comum, perseverar na comunhão fraterna.  Nesses espaços se faz presente o  Cristo ressuscitado. A Igreja deveria poder ser uma rede comunidades vivas. Os franciscanos seculares não seriam peritos na arte da fraternidade?

● Campo delicado e sempre importante é o da solidificação e santificação das famílias. Como, em nossos dias, preparar o  casamento, construir a conjugalidade, acolher a vida dos filhos, educá-los? Como acompanhar os casados? Como acolher os que se separam e se recasam? Que pastoral fazer com os recasados? Como transmitir aos filhos a fé, não apenas uma religiosidade? Como abordar com carinho e firmeza a questão das  uniões homossexuais? Como respeitar os idosos e acompanhar sua história? Como fazer de nossas casas uma verdadeira Igreja doméstica?

● Num tempo de indiferença e de individualismo fazer-se presentes na vida das pessoas: no interior da família, na vizinhança, junto aos que são indiferentes e não acreditam. Não somos daqueles que recebemos o mandato de ir pelo mundo sem dinheiro anunciando, à maneira de Francisco, um mundo novo?

● Adorar comportamentos éticos que transpirem convicções profundas. Agir com limpidez.

● Diante da pluralidade cultural e religiosa os cristãos serão pessoas de diálogo. Haverão de colocar sobre a mesa  todos os grandes temas da atualidade sem medo.

9. Algumas urgências urgentíssimas para tornar mais visível a Igreja e colaborar na evangelização?

● praticar um diálogo verdadeiro em todos os níveis;

● cultivar um estilo de vida cristão;

● reservar um lugar especial  à oração (oração e contemplação);

● formar comunidades fraternas e apostólicas;

● praticar a esperança.

10. Lembramos alguns desafios internos da Ordem Franciscana Secular:

● A OFS não tem suficiente visibilidade no seio da Igreja e do mundo.

● Como melhorar o entrosamento entre JUFRA e OFS? Será que os jufristas que se tornam irmãos e irmãs da OFS são formados convenientemente?

● Há toda a questão da renovação de nossas fraternidades por demais envelhecidas contando com irmãos e irmãs que não puderam assimilar a riqueza da Regra de 1978.

● Até que ponto os assistentes espirituais estão em condições de acompanhar nossas fraternidades?

● Um desafio não dos menores: desmotivação de muitos irmãos.

Então, o que o Papa Francisco pode esperar de nós? Que contribuição os irmãos e irmãs da OFS estão dispostos a oferecer? Teria vontade, nesta altura da reflexão, de citar toda a Regra. A Regra da OFS  constitui um programa de evangelização ad intra e ad extra. O novo Papa quer renovar a Igreja com Francisco.  Alguns tópicos de nossa Regra que poderiam ajudar na evangelização nova:

● Seguimento de Cristo na trilha de São Francisco  (1) :uma vida cristã engajada, compromissa, que não se limita  a cumprir obrigações.

● Buscam a santificação, a perfeição  da caridade no estado secular (2). Insistência no secular.

● Regra: observar o  Evangelho, acolhendo a vida de Cristo passando do Evangelho à vida e da vida ao Evangelho (4).

● Procurem a pessoa vivente do Cristo nos irmãos, na Sagrada Escritura, nas ações litúrgicas, de modo especial na Eucaristia (5).

● “Sepultados e ressuscitados com Cristo no Batismo, que os torna membros vivos da Igreja, e a ela mais fortemente ligados  pela Profissão, tornem-se testemunhas e instrumentos de sua missão entre os homens, anunciando Cristo pela vida e pela palavra. Inspirados por São Francisco e com ele chamados a reconstruir a Igreja, empenhem-se em viver em plena comunhão com o Papa, os Bispos, os Sacerdotes num confiante e aberto diálogo de criatividade  apostólica”  (6).

● Estado de conversão e atenção para a delicadeza de consciência (regularidade na recepção do sacramento da reconciliação (7).

● Tenham intensa vida de oração: Eucaristia, oração litúrgica, vivendo os mistérios da vida de Cristo( 8).

● Como Cristo escolheu o caminho da pobreza procurem no desapego um justo relacionamento com os bens materiais, simplificando as exigências materiais. Adotem a postura de peregrinos e forasteiros (11).

● “O senso de fraternidade os tornará alegres e dispostos a identificar-se com todos os homens, especialmente com os mais pequeninos, para os quais procurarão criar condições de criaturas remidas por Cristo”(n.13).

● Exercerão com competência suas atividades no espírito cristão do serviço (n. 14).

●  “Estejam presentes pelo testemunho da própria vida humana, e ainda por iniciativas corajosas, individuais e comunitárias, na promoção da justiça, em particular no âmbito da vida publica…” (n.l5).

● Os esposos se estimem em Cristo, eduquem  cristãmente os filhos, abram seus corações à vocação cristã (17).

● Respeitem as criaturas e trabalhem pela paz, sejam alegres e não temam a chegada da irmã Morte  (n. 18-19).

Conclusão:
Permitam-me voltar a Éloi Leclerc. Ela escreve sobre o mundo de hoje: “Neste mundo em mutação elevam-se pungentes apelos humanos, algumas vezes angustiantes: apelo de mais tolerância e liberdade, de mais justiça, de mais participação nas decisões e nas responsabilidades, desejo de paz garantida pelo respeito dos direitos do homem e dos povos… Hoje, como no tempo de Francisco, estes apelos partem do coração dos pobres e dos pequenos. Constituem o grito de todos os famintos e oprimidos de todos os lados.  Homens e mulheres carregam, em sua carne ferida e em sua dignidade desrespeitada, as verdadeiras ânsias do homem e o segredo do mundo  futuro”  ( Idem, p. 127). Dom Claudio disse ao que tinha sido eleito Papa:  “Não se esqueça dos pobres…”.

A Ordem Franciscana Secular vai fazendo seu caminho no meio do mundo. Esse grupo de leigos e leigas, de casados, solteiros, viúvos existe  no seio da Igreja.  Não constituem eles um mundo à parte. Precisam dar o que têm de melhor à Igreja e caminhar nas trilhas que pretende ir abrindo o Papa Francisco. Escolhendo para si o nome de Francisco, manifestando seu carinho e seu apreço por Francisco de Assis ele nos convoca a darmos o melhor de nós mesmos para o bem da Igreja e do mundo.

Questões:

1. O que chamou sua atenção depois de uma leitura atenta destas páginas?

2. Quais os grandes desafios que a Igreja experimenta em sua vida de todos os dias e na tarefa da evangelização?  Conversamos sobre esses desafios em nossas reuniões de fraternidade?

3. Individualismo, provisoriedade, indiferentismo… Consumismo… Que contribuição a OFS pode dar para que essa cultura seja diferente?

4. Em sua opinião, quais os tópicos da Regra que mais ajudam a evangelizar o tempo presente seja simplesmente pelo testemunho de vida ou por um engajamento pastoral?

5. Diante do que foi exposto e discutido em grupo  poderíamos destacar duas contribuições maiores que a OFS pode abraçar de verdade já que o novo  Papa quer renovar a Igreja com Francisco?

6. Nossas Fraternidades Franciscanas Seculares dão sua  contribuição nas atividades das dioceses e das paróquias.  Primeiramente os franciscanos seculares evangelizam pelo testemunho.  Será que alguma atividade pastoral seria mais própria para o trabalho dos irmãos e irmãs terceiros?

12 de maio de 2013

Retratos de Mães



As mães  podem ser consideradas  a alma de nossas famílias. Convido a todos a percorrem comigo uma galeria de retratos de mães.

O primeiro quadro que desejo mostrar-lhes é de uma mulher jovem. Tem vinte e poucos anos. Está para dar à luz pela primeira vez. Ela e o marido não pensam em outra coisa senão no dia em a menina vai nascer, porque é uma menina, e vai se chamar Fernanda.  Há nove meses convivem, misteriosa e carinhosamente, com ela. Tudo está preparado: o berço, as roupinhas, os sapatinhos, as chupetas, as mantas cor-de-rosa, os gorrinhos para proteger do frio. Já tem padrinho e madrinha escolhidos. E quando a menina nascer será o céu na terra. Quando a menina sai do seio da mãe, tudo se faz festa e alegria. A jovem mulher não é  apenas a esposa do marido mas a mãe de Fernanda, a criança mais linda da face da terra.

Lá está aquela jovem mulher-mãe no canto da sala. O filho, seu primeiro filho, remexe-se no berço, acordou e está faminto. Chora desesperadamente. Ali, no canto da sala,  a mãe dá o peito ao pequenino e contempla com um sorriso esse pinguinho de gente, agora serenando, abrindo e fechando os olhos. Reza por ele. Pensa no futuro do menino. Pensa em seu casamento que precisa ser sólido. Pensa no mundo, em como preparar o filho para viver no mundo. De repente, saciado, o menino dorme e a jovem mãe leva-o de volta  ao berço, puxa as cortinas e deixa que seu pequeno sonhe com os anjos, continuando a cantar suavemente uma cantiga de ninar.

Vejo aquela outra mulher, de origem  italiana, natural de Santa Catarina ou do Rio Grande do Sul. O retrato foi tirado na década de vinte com uma daquelas máquinas fotográficas que faziam fumaça. Mulher forte, generosa. Ela e o marido colocaram dez filhos no mundo. Todos sobreviveram. Apenas Sofia nasceu mirradinha e quase não  “vingou”. Os outros foram vencendo.  Um deles hoje é prefeito da cidade e uma das meninas está em Brasília, trabalhando no Ministério da Educação. Casa simples, de colonos, com fogão de lenha, quintal grande, grande área nos fundos com uma imensa mesa.  Os filhos foram pelo mundo, moram perto ou longe. Voltam sempre à casa daquela senhora de mãos calejadas de rachar lenha, de cuidar da estrebaria das vacas, de trabalhar na roça com o marido, com chapéu de palha na cabeça, aqueles imensos chapéus de palha. No domingo das mães, a casa fica cheia. Come-se bem, há grande alegria no ar, cantos italianos, muita polenta, muitas danças e tudo é festa. E um bom vinho.

Ali está aquela outra mãe. Os filhos estão crescidos estudando em faculdades. Os três vêm à missa das 18 horas quase todos os domingos.  O marido é piloto de avião e vive no ar… O três sentam-se no terceiro banco perto do altar lateral de São José.  Ela é professora de português numa  Escola Estadual. Depois da missa voltam a casa para o lanche de domingo, antes de recomeçarem a vida na fatídica segunda-feira. Os meninos são adolescentes quase jovens. Ainda vão à missa.  Mas vivem antenados, Facebook…  Por enquanto, as coisas estão tranquilas. Vamos ver até quando eles participarão da missa de domingo. Por enquanto vão.

Há o retrato daquela mulher ainda jovem, mãe de dois garotos. De repente, ela ficou sabendo que seu marido tinha uma “namorada” e que tinha mesmo um filho com a outra… Quando tudo ficou provado, a mulher  exigiu a partida do marido que queria continuar com a vida do jeito que estava… Ajudou a colocar todas as suas coisas em caixas e malas. Passou a ser mãe e pai dos garotos. De quando em vez passa perto dela uma nuvem de tristeza. Ela não é mais a esposa do pai de seus filhos.

Aquela senhora já está bem idosa. Tem muita dificuldade em andar. Vestida com um tailleur azul marinho com blusa branca senta-se no primeiro banco da igreja. Ali será rezada a missa de corpo presente do filho mais velho que morreu num terrível acidente de carro. Ficará perto do caixão do filho. Participa da missa com serenidade. Terminada a encomendação do corpo, beija o caixão e pede que levem para a casa. Não se sentia em condições de ver o sepultamento do filho. Preferia ficar sozinha se entregando a Deus.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

Extraído de: http://www.franciscanos.org.br/

9 de maio de 2013

O “lugar do coração”

O silêncio como opção de vida alternativa


1. A Cúria Geral da Ordem dos Frades Menores, em 2003, publicou um pequeníssimo fascículo intitulado: O caminho que leva ao “lugar do coração”.  Achegas para descobrir interioridade e silêncio na vida franciscana. Trata-se de uma joia encerrada num caderno de 16 pequenas páginas. “O caminho para a interioridade, hoje, dá-se num tempo de mudanças, tempo rico de muitos sinais de redescoberta da interioridade e do silêncio.  A sociedade secularizada vem focada sobre o indivíduo, com uma identidade fluída. Temos diante de nós uma mudança radical da visão do homem, determinada sobretudo pela  tecnologia. São imensos os recursos da inteligência humana, descobertos hoje, que podem ajudar os homens a criar um mundo melhor. É importante, no entanto, que o homem permaneça sujeito desse desenvolvimento, sobretudo a partir da verdade profunda de si mesmo” (p.4-5).  Num mundo de superficialidade, de pressa, de técnica fria, de comunicação on line, de áudio-fones, de corrida,  a viagem ao fundo do coração torna-se delicada. Sem ela, o ser humano se torna joguete de forças cegas e, se religioso, pessoa de superficialidade. “Tornamo-nos estranhos a nós mesmos. O percurso para dentro de nossa interioridade não é só terapêutico para a nossa cultura do barulho, mas também vem a ser um caminho voltado para o acolhimento, para uma nova civilização do amor. O caminho para dentro de nossa interioridade e para o silêncio torna-se, então, o testemunho de uma opção  de vida alternativa”  (p. 5).  Muito bem dito: não podemos seguir a onda. O caminho do coração é uma alternativa em nossos tempos. Precisamos tomá-lo.


2. Não falamos de um silêncio apenas material, do não falar ascético,  frio, nem do orgulhoso mutismo, mas de uma aquietação que começa com o silenciamento de nosso  ego e o desejo de deixar a verdade e o amor penetrarem em nossas entranhas. “Como o ar, meio em que aparece a luz e vibram uma infinidade de ondas, como o fogo, que aquece  e   ilumina, como a água que purifica e desaltera, como a terra, enfim, que nos carrega e nos alimenta, o silêncio é um elemento vital, indispensável para nossa subsistência  espiritual, para nosso equilíbrio interior, para a paz e inteligência do coração e da alma.  Mas é também um elemento raro, sutil, frágil, que se deve querer encontrar, saber procurar e, em seguida, fertilizar com toda doçura, para que permaneça vivo e fecundo.  O ar viciado é irrespirável, o fogo sem controle morre  ou, ao contrário, devora tudo, a água poluída se transforma em veneno e a terra não tratada fica estéril; da mesma forma o silêncio – e a solidão à qual está vinculado – precisa ser desejado, respeitado e cultivado com atenção e paciência  para tornar-se  espaço puro de concentração de meditação e de sonhos com os olhos abertos” (Sylvie Germain).

3. Há muitas modalidades de silêncio: o silêncio delicado que respeita o doente que quer dormir e a criança que mal e mal pegou no sono; o silêncio de quem guarda um segredo ou não quer denegrir a imagem do outro com palavras verdadeiras, mas que não precisam ser ditas; o silêncio do cirurgião quando realiza uma delicada e perigosa operação. Há o silêncio estático do homem que busca a Deus, se embrenha no deserto, tenta auscultar o mistério de seu próprio interior, onde o murmúrio do silêncio ecoa como se fosse uma brisa suave.  Há esse exercício do silêncio exterior para se chegar à aquietação interior, a um vazio que permita ao Espírito agir em nós e de não sermos meros seres apressados, correndo de um lado para o outro sem ouvir a voz do Amado.  Não podemos, como diz Francisco, perder o “espírito do Senhor”.

4. Francisco de Assis, na verdade, vivia o enlace amoroso com o Senhor no claustro do mundo, mas sentia-se atraído pelo silêncio das cavernas e das grutas.  Assim escreve Michel Hubaut: “Em suas biografias podemos encontrar dezoito lugares de vida eremítica que encontrou ao longo de suas andanças. Francisco  que  era capaz de visitar num só dia, a pé ou montado num burrico,  quatro ou cinco vilarejos, passou semanas inteiras na solidão e na oração. Sentia sede de Deus, como também sede pela salvação de seus irmãos.  Sede de silêncio e sede de colóquios. Estes regulares mergulhos no silêncio ensinaram-no a conservar no meio do mundo aquele santuário interior no qual ele adorava a presença do Senhor. Convida-nos a fazer de nosso corpo a “sala do alto” onde haveremos de receber  a visita do Espírito. Silêncio e interioridade: as duas coisas são para Francisco mais um despertar do coração do que um retiro espacial: ‘Onde quer que estejamos e para onde quer que andemos levemos sempre conosco nossa cela. Nossa cela  é o nosso irmão corpo e nossa alma é o ermitão que mora nessa cela para rezar e meditar’”(Legenda Perusina, 80). (Hubaut. El caminho franciscano, p. 58).

5. O silêncio nos ajuda a guardar a lembrança de Deus. Não é mutismo porque ele favorece, ao mesmo tempo, a relação com Deus e entre os irmãos. Os buscadores de Deus, profissionais como os religiosos e os monges, querem manter viva a lembrança de Deus.  Um autor descreve o silêncio dos cistercienses: “Chamado a viver uma autêntica ‘espiritualidade de comunhão’, segundo o desejo de João Paulo II, o monge procura o silêncio porque é pelo e no silêncio que ele pode viver a lembrança de Deus. O monge se recorda! Ele é o homem da memória, da memoria Dei. É convidado a viver ‘na constante lembrança de Deus’. Na Bíblia, o grande pecado é o esquecer Deus. Daí o terrível grito do profeta: ‘Eles me esqueceram!’.  E, no livro do Deuteronômio, há essa forte acusação: ‘Esqueceste o Deus que te colocou no mundo’  (Dt  32, 19).  Uma das principais missões do monge não seria exatamente de manter viva a lembrança de Deus? Não que os mosteiros sejam os únicos lugares onde se vive verdadeiramente a lembrança de Deus. Verdade, no entanto, que o mosteiro é concebido para colocar o monge nas melhores disposições para que ele possa lembrar-se de Deus, assim como a esposa se recorda do esposo” (Paul Houix, o.c.s.o. in  La Vie Spirituelle, julho de 2012, p. 312).

6. Em nossa vida franciscana, de maneira bem prática, saberemos  cultivar o silêncio.  Há esse silêncio da casa, do quarto, da cela, da capela, silencio exterior que nos leva à quietude interior. Há a recitação do Ofício das Horas com calma,  interrompida  pelo silêncio entre um salmo e outro, entre um leitura e um responsório, precedida por momentos de silêncio. Há a celebração da Eucaristia  que transforma nossa vida. Degustamos momentos de silêncio na sacristia antes de nos dirigirmos ao altar. Há essa discrição nas conversas no refeitório. Há essa prudência de não falar para fora o que precisa ficar dentro. Há todos esses momentos de silêncio previstos  nas celebrações.  Nós, franciscanos não somos monges, mas não podemos deixar a porta do interior escancarada…  Precisamos sentir a brisa suave do silêncio…

7. “Talvez em nossos tempos dever-se-ia falar de um esmolar do silêncio, de uma busca do silêncio. Quem sabe falar mesmo de uma conquista do silêncio. Talvez conquista seja uma palavra  pouco apropriada, porque estaria associada a furor, barulho. Os conquistadores podem ser barulhentos e quase furiosos.  Melhor falar em busca do silêncio, perseguir o silêncio, abastecer-se do silêncio. O excesso de barulho nos projeta fora de nós mesmos, aliena. Na simbologia cristã, o barulho,  fazendo com que estejamos  fora de nós mesmos, nos impede o acesso para  as fontes mais profundas. O silêncio, então, é plenitude. O silêncio místico cristão nunca é abismo, nem vazio, nem negação de desejo. No silêncio há uma Palavra. À sombra do silêncio, no silêncio interior, para além dos desvios do espírito surge uma outra palavra.  Insinua-se uma presença que fala e pede ao coração que continue a estrada. O silêncio é como uma porta que se abre  para outros mundos, ou simplesmente para o Outro que habita em nós.  Para isso será preciso dar tempo ao silêncio, ir além dessa necessidade narcisista dele.  Necessário sempre de novo que nos tornemos humanos”(André Beauchamp,  Les bruits du monde, in Christus,  194, p. 142). O silencio nos humaniza!

8. Vamos terminar retomando o texto da Ordem dos Frades Menores que nos fala do caminho que leve ao lugar do coração: “São Francisco  convida-nos a ‘conservar no coração os segredos do Senhor’ (Adm 28,3), através da paz e da meditação, sem nervosismos,  nem dissipação (Adm 27,2).  Insiste sobre a cela interior a carregar sempre conosco. O silêncio a ser observado é aquele do Evangelho,  que evita palavras ociosas e inúteis no fruto da oração. Assim nos tornaremos  sempre mais  ’unificados’ no coração e a partir do coração. A Virgem Maria é  modelo  para aqueles que acolhem  a Palavra, a guardam no coração e a vivem todos os dias” (p. 10).

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

7 de maio de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - XIV


Texto de Frei Vitório Mazzuco Fº.


A força que move os corpos, a vida, a natura é Deus. O humano tem que abraçar estas leis e colocá-las a seu serviço. Leis gerais são as condições necessárias dentro das quais se movem as criaturas do universo. Não há senão Deus como a única força para mover os corpos. Qualquer movimento que o corpo faça, ele o faz pela causa divina.

Pode-se dizer que o Sol, com sua potência de energia, é uma causa geral de uma infinidade de bens, mas não tem nenhuma força por si mesmo. A sua única força é Deus. O Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis só pode ser lido e compreendido dentro desta perspectiva. E o humano medieval se coloca diante de uma condição: viver é estar na fidelidade, na lealdade, na obediência de uma causa divina.

Natura e creatio é dizer: creiamos em Deus criando por uma criação contínua. A visão de Deus é esta: “Que nous voyons toutes choses em Dieu”. A ontologia medieval é um aprofundamento do “a priori”. A sua cosmologia é afirmar  que a essência de Deus se revela nas coisas criadas.

Conhecer é estar em união com Deus (unio mística) e por esta união conhecer e amar todas as coisas criadas. O Ser é o humano em comunhão com o divino. A Cosmologia é a grande reverência à criação. A Teodiceia nasce aqui como a força natural que mostra o divino e o pensamento focado nos atributos de Deus.

Continua...

5 de maio de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - XIII

Texto de Frei Vitório Mazzuco Fº.


ALGUMAS ANOTAÇÕES EM TORNO DE CARACTERÍSTICAS DA TEOLOGIA MEDIEVAL E SEU PANO DE FUNDO PARA A COMPREENSÃO DE UMA TEOLOGIA FRANCISCANA

O Medieval, em sua produção teológica, usa o espaço da Universidade, da Catolicidade, e sua efetuação universal da estética teológica é a construção de Catedrais. A Fé como caminho de busca do Sagrado, e a Intuição como leitura de uma Inspiração (para o medieval a intuição não é ciência) e a Teologia como compreensão da  existência.

Fazendo um paralelo, o Moderno usa a Universalidade, a Cristandade, e a sua efetuação universal é construir empresas. A Intuição passa a ser a força de uma espiritualidade e transformou a intuição em ciência; a Causalidade (relação que une causa e efeito), e Ciência como compreensão e funcionalidade da existência.

Tanto para o Medieval como para o Moderno, a Teologia é vista como o “experimentum” da fé, mas não é a fé. Nos dois, a Teologia é a tensão entre o ser doutrina e o ser caminho.

O ser medieval, no que se refere à construção de uma identidade teológica, parte da “natura creata” (a contingência e a dependência do ser criatura), do “creatio” (o mundo, a criação, a cosmovisão) e da “fides” (acreditar na existência de Deus). E seu confronto entre doutrina e o Ser que se faz caminho, está na grandiosidade do momento que produz e sofre forte influência das Sumas Teológicas, dos Silogismos, do Voto de Suzerania, do Código da Cavalaria, das Cruzadas e Peregrinações.

O pensar teológico traz a experiência da “filiatio”, a consanguinidade criaturas. A natura é o espaço da salvação, contém por si só todas as promessas da Terra Prometida. A Antiguidade inspira-se na “aletheia”, o Medieval na “natura”, um forte caminho de lembranças. Deus é o “a priori” de todas estas lembranças e experiências.