6 de junho de 2011

Meditação Diária


"Deixa que a compaixão te aclare os olhos e lubrifique os ouvidos, a fim de que possas ver e escutar em louvor do bem."

(Emmanuel)

Melhorar o mundo é melhorar os seres humanos. A compaixão é a compreensão da igualdade de todos os seres, é o que nos dá força interior. Se só pensarmos em nós mesmos, nossa mente fica restrita. Podemos nos tornar mais felizes e, da mesma forma, comunidades, países e até um mundo melhor. Quando cultivamos a compaixão temos mais saúde, pois experimentamos a verdadeira alegria.

Pratique a compaixão com as pessoas, pois Deus é compassivo e misericordioso com cada um de nós. A com-paixão nos coloca na pele e na dor daquele (a) que necessita de nosso olhar, de nossa companhia, de nosso tempo. Não negue ajuda a quem te pede. Se possível, ofereça, pois a caridade nos impele a praticar a solidariedade e a fraternidade...

Frei Paulo Sérgio de Souza, OFM

ORAÇÕES - O JARDIM DE CLARA

O jardim de Clara

Clara, minha irmã Clara,
mostra-me o tesouro de teu campo:
é tão encantador o sol em teu jardim
que não tenho outro desejo se não de me deixar
conduzir por tua mão.

Clara, minha irmã Clara,
coloca meus pés no ritmo de teus passos.
Tão bem-aventurada é a tua alma no jardim,
tua alma que dança
que não tenho outra desejo senão de desposar
a cadência de teus passos em dança.

Clara, minha irmã,
leva-me na correnteza de tua vida:
em seu deslizar aí a água é tão pura
que não tenho outro desejo senão
de buscar a fonte.

Clara, minha irmã Clara,
Guarda-me no secreto de teu rosto:
tão simples é o teu olhar em tua oração
que só tenho o desejo
de sentar-me à tua luz.

Clara, minha irmã Clara,
faze com que eu arda como o incenso de teu amor
tão doce é o teu canto junto de Frei Francisco
que não tenho outro desejo senão
eternizar tua voz.

Clara, minha irmã Clara
leva-me ao Todo de tua pobreza.
Tão alegre é teu coração junto do Evangelho
que quero somente desejar o que desejas.
Assim seja!

Irmã Micheline Dubé

Revista Prier abril de 1994, p. 15

5 de junho de 2011

ITINERÁRIO FRANCISCANO


1. Itinerário de vida

Antes de empreender uma grande viagem, começa-se por organizar o itinerário: o termo que se deseja alcançar, o caminho a seguir, e os diversos meios necessários e apropriados para chegar ao fim. Ora, o homem é um viageiro sobre a terra; vai passando por um tempo muito breve, sempre a caminho da eternidade, para onde o impele uma força irresistível, uma necessidade insuperável.

O que será para mim essa eternidade, esse abismo em que tenho que cair inevitavelmente, depois da carreira veloz da vida? Como será essa eternidade: feliz ou infeliz? E se eu posso escolher a felicidade ou a infelicidade sem fim: não será de importância suprema estabelecer bem o itinerário que conduz à felicidade, evitando assim a infelicidade eterna?

A vida presente termina com a morte, e com a morte começa a eternidade: como será para mim essa eternidade? Eis a questão que se põe a todo homem, ainda que não queira! Todos desejam naturalmente a felicidade eterna: mas, qual será caminho? Muitos o ignoram. Todavia, o cristão o conhece, conhece o caminho da felicidade. Foi Jesus quem disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Só Jesus pode indicar o caminho a seguir, porque só é Ele é o caminho; só Jesus pode conduzir ao termo, porque só Ele é a verdade; só Jesus pode levar-nos a esse termo, porque é sobrenatural, porque só Ele pode comunicar-nos a sua vida sobrenatural, que nos fará participante da vida divina e da divina eternidade à qual somos chamados.

2. Diversas espiritualidades

Jesus indicou a todos os seus discípulos o itinerário da felicidade: Jesus é, pois, o caminho a seguir. Entretanto, são diversos os modos de seguir a Jesus: alguns, abandonando tudo por seu amor, consagram-se ao seu serviço, mediante os três votos de pobreza, obediência e castidade; outros, porém, o seguem no mundo, sem abandonarem os próprios bens, sem se ligarem com voto de obediência a um superior, vivendo no matrimônio. O itinerário é diferente, no entanto, uns e outros, com maior ou menor facilidade, com maior ou menor segurança, poderão alcançar o termo.

Esta diferença de itinerário é, sobretudo, material e exterior, e na escolha de um itinerário pode haver uma diferença interior e espiritual que se chama precisamente espiritualidade.

Assim, há na Igreja de Cristo: uma espiritualidade beneditina, uma espiritualidade dominicana, uma espiritualidade inaciana, uma espiritualidade franciscana, etc.; cada qual é boa e santa e logra as suas vantagens e têm produzido os seus santos.

Uma espiritualidade não se distingue doutra em razão da doutrina fundamental, que é a mesma em todas: a doutrina de Cristo, a doutrina do Evangelho; no entanto existe um modo e uma maneira de seguir a Cristo; na identidade da doutrina pode haver uma variedade de interpretação, uma variedade de espírito; é isso que constitui a espiritualidade particular.

A espiritualidade franciscana terá, pois, muitos pontos comuns com as outras espiritualidades cristãs, pelo fato de todas professarem a mesma doutrina, mas distinguir-se-á das outras em razão de seu espírito, e da importância que atribui este ou àquele ponto da mesma doutrina. Enquanto que as outras espiritualidades atribuem particular importância ao esforço pessoal para chegar à união com Deus, a espiritualidade franciscana busca, acima de tudo, aquela união com Deus no amor, e desta união tira toda sua atividade; enquanto que aquelas tendem primeiramente ao desenvolvimento das atividades e das possibilidades naturais, para chegar depois à perfeição sobrenatural, esta renúncia à natureza, logo de início, e entrega-se toda, inteiramente, à ação sobrenatural de Deus, sob a qual somente pretende agir e da qual somente espera toda perfeição natural e sobrenatural. E, assim, enquanto que as outras espiritualidades são principalmente ativas, a espiritualidade franciscana é caracteristicamente passiva, unicamente sobrenatural, fora de todo dualismo de vida natural e vida sobrenatural; a espiritualidade franciscana é mística, inteiramente e por princípio, quer dizer, sobrenatural, porquanto inteiramente por princípio pretende desenvolver-se pela ação sobrenatural ou mística do amor divino.

Por isso, enquanto as outras espiritualidades assentam na base do espírito espiritual a obediência, o silêncio, a especulação e o esforço pessoal, a espiritualidade franciscana fundamenta-se na pobreza, considerada em toda a sua profundidade mística de renúncia, desapego de tudo, desapego pessoal, a fim de que a alma, despojada completamente e aniquilada em Deus, permita que Deus venha viver e operar em si. Desta pobreza, procederá a obediência, pois a alma vazia de si mesma, já não tem vontade própria. A especulação , sendo atividade demasiado pessoal e humana, cederá ao amor que é dom de si mesmo, é passividade mística sob o império do Amado.

Ora, o Amado é Jesus que, pela espiritualidade franciscana concreta, constitui toda a perfeição: portanto, nada de virtudes abstratas a conquistar, uma após outra, com a meditação e a vontade própria: mas conquistar Jesus, concretização de toda virtude, amando-o, contemplando-o e imitando-o! Quer dizer: será perfeito quem se transformar no objeto amado, como exige a lei do amor. “O amor transforma o amante no Amnado” (São Boaventura, III S., 26; III, 270). “Pela força do amor, serás transformado naquilo que amares”, diz nosso Doutor Seráfico (Sermo XI, Vig. Nat. IX, 98).

3. Espiritualidade franciscana

A espiritualidade franciscana – mística, concreta e afetiva – não conhece outra regra de perfeição, que não seja observar Jesus, amá-lo de afeto e de fato, e assim transformar-se nele até poder dizer com São Paulo: “Já não sou eu quem vivo, mas Jesus que vive em mim” (Gálatas 2,10). Para São Francisco, todas as coisas eram intuitivas, obra espontânea do amor; contudo, ajudará o crescimento de nossa vida espiritual investigar a profundidade de doutrina que se esconde sob esta simples intuição de amor: toda a doutrina do aniquilamento próprio e transformação em Cristo, visa a nossa incorporação no seu Corpo Místico.

O aniquilamento é obra da pobreza, levada às suas últimas consequências de renúncia e desapego absoluto, conforme o ideal de São Francisco; a transformação e a incorporação é obra do amor de Jesus, e Jesus crucificado, fundamento e centro de espiritualidade franciscana, fonte da sua pobreza e do seu amor; ou mais simplesmente: fonte do amor à pobreza, que é o amor a Jesus crucificado. São Francisco encontrou o seu caminho, quando o Crucificado lhe apareceu na solidão: “Ante aquela visão, a sua alma ficou inundada de amor; a lembrança da paixão de Cristo imprimiu-se-lhe no coração de tal modo que nunca mais pode pensar em Cristo e na sua cruz, sem se desfazer em lágrimas e suspiros” ).
Foi a cruz que inspirou a São Francisco o amor da pobreza, da humildade, do aniquilamento; tendo estabelecido o vácuo dentro de sua alma, o mesmo amor de Cristo o transformara, comunicando-lhe as virtudes e a própria vida de Cristo, vida humano-divina, que é toda a perfeição sobrenatural a que devemos aspirar.

Deste amor sobrenatural por Jesus procedem todas as outras características da espiritualidade franciscana: o amor de Maria, inseparável do amor de Jesus; mas um amor filial, íntimo, profundo, porquanto na identificação com Jesus deve-se amar Maria com o mesmo amor de Jesus, para quem Maria não é simples mãe adotiva, mas vida de sua vida e sangue de seu sangue.
O amor às criaturas é também consequência do amor a Cristo, o Verbo encarnado para quem e em quem tudo foi criado e cuja imagem anda impressa em todas as coisas; o amor de São Francisco pelos homens é o seu amor por Cristo em cujo Corpo místico todos formam ou devem formar um só Cristo.
Todavia, o amor de São Francisco não se detém em Cristo; tornado um com ele, São Francisco participa de seu amor inefável pelo Pai, ao qual devem regressar todas as criaturas, pelo Verbo encarnado, em um dar-se contínuo de amor no Espírito Santo. São Francisco sentiu a primeira centelha de amor, quando foi repelido por seu pai; então pôde dizer, com o enlevo que depois havia de ir crescendo por toda a vida e que seria o seu respirar profundo: “Pai nosso que estais nos céus...!”

Se Jesus é o fundamento e centro de toda a espiritualidade franciscana, o termo derradeiro do seu itinerário é o Pai, no oceano infinito do amor da Santíssima Trindade que a franciscana Santa Verônica de Giuliani cantou com profunda elevação: “Parece que a alma se encontra como que nadando em Deus! Lida, lida sem parar e sempre se encontra em Deus; lida para encontrar Deus, conquanto sinta que está em Deus, busca a Deus no próprio Deus, e buscando-o em si o encontra” (Diário, 21, VIII, 1705: VI, 762)."Tudo isto se passa no íntimo de minha alma, a qual se encontrava naquele mar imenso e infinito de Deus, que não é compreendido e de quem não se pode compreender a grandeza e imensidade. Deus possui em si a alma que se perde nele, e nele está nadando como o peixe n'água e não encontra vida senão em Deus, para Deus, e com Deus. O coração amoroso comunica então à alma o seu próprio amor, desprende-a e tudo, e nela quer operar sozinho” (Diário 5, V, 1715; VI, 805).

Qual é o homem que não sente vibrar o coração, perante a simples narrativa destas experiências de amor a que ele próprio é chamado? O homem foi criado para o amor, e o amor é a razão do seu ser e de toda a sua atividade. O Itinerário franciscano conduz a esse amor, pelo caminho de renúncia da santa pobreza, a qual despoja de tudo para dar Tudo, isto é, para dar o Amor: Meu Deus e meu Tudo!

3 de junho de 2011

ENTRONIZAÇÃO DO CORAÇÃO DE JESUS

ENTRONIZAÇÃO DO CORAÇÃO DE JESUS

1. Todo cristão, discípulo de Jesus, sabe postar-se diante do Coração aberto do Cristo Jesus no alto da cruz. Não se trata de uma devoção qualquer, mas de um preito de gratidão ao Filho de Deus que se tornou abjeto e desprezado e que, depois de morto, mostrou sua intimidade através da fenda aberta pelo soldado no seu lado, no seu coração. Sabemos que o sacramento da Igreja nasceu desse lado fissurado, dessa fonte de sangue e de água. Não se trata de devoção açucarada, mas de reconhecimento perene de quanto fomos e somos amados.

2. Muitos de nós conhecemos um costume que aos poucos foi desaparecendo do elenco das preocupações dos homens e das mulheres e da famílias católicas. Refiro-me à entronização da imagem ou de um quadro do Coração de Jesus em nossas residências. Há não muito tempo estive hospedado em uma casa de conhecidos. Eles tinham na sala, colocado sobre a parede, um belo quadro do coração de Jesus e sobre um cantoneira um jarro com rosas vermelhas. Sentei-me diante da imagem, quando não havia ninguém em casa e confesso, que vivi momentos de interiorização diante daquele Jesus que é sentido da minha vida e para o qual batalho e luto enquanto força tiver em meu peito. Sim, creio que nossas famílias, sem saudosismos tolos, precisariam voltar a este costume da consagração da casa e da família ao Coração de Jesus. Por vezes, tem-se a impressão de que nossas casas se tornaram escrupulosas em terem sinais da fé cristã á vista. Tudo é feito meio às escondidas. Não se tem coragem de anunciar as cores. Para não chocar a uns e outros e por mero respeito humano não temos mais “sinais” cristãos em nossas casas. Não há que se ter vergonha de se dizer cristão.

3. Um pai, uma mãe, esposo e esposa com seus filhos querem que seu lar seja de Cristo. Querem oferecer, no interior das paredes de sua casa, lugar a Cristo, sobretudo no coração dos membros dessa família. Por isso chamam um ministro da Igreja para fazer a entronização da imagem do Coração chagado e iluminado de Cristo Jesus. Abençoando a imagem poderia ele dizer estas palavras: “Senhor Deus, invocamos a vossa bênção sobre esta imagem do coração de vosso Filho Jesus Cristo. Em vossos planos e desígnios eternos quisestes vos revelar a todos os homens através da humanidade do vosso Filho Jesus, nascido entre nós do ventre alvíssimo de Maria. Nós vos damos graças por todos os benefícios e graças e dons que vieram até nós por Cristo Jesus. Sabemos que seu lado aberto no alto da cruz brotaram rios de água e de sangue que nos lavaram, purificaram e nos alimentaram, Que a vossa bênção continue a iluminar as trevas de nossos corações. Que todos possamos vos mostrar gratidão por vosso amor. Dignai-vos, pois, Senhor, abençoar a imagem do Coração de Jesus, vosso Filho e nosso irmão”.

4. Podemos, pois, compreender que a imagem ou o quadro do Coração de Jesus lembre aos membros de uma família o amor de Deus por eles e que, em suas tarefas e empreendimentos, trabalhos e preocupações, sabem que podem contar com o olhar do Coração do Cristo ressuscitado. Há famílias que, de quando em vez, se consagraram a esse imenso Coração. Podemos nos servir de uma oração como esta: “Sagrado Coração de Jesus, queremos nos consagrar a ti e ao teu Coração. Esta casa é tua e esperamos que teu olhar nos acompanhe durante o tempo da vida. Escolhemos a ti para ser rei e centro de nossos corações, a quem só queremos amar, honrar e servir. Ao teu coração entregamos todas as nossas esperanças e consolações, todas as aflições, necessidades e misérias. Digna-te presidir nossas reuniões, abençoar nossos empreendimentos, presidir a mesa de nossa refeição, afastar de nós toda dureza de coração, aliviar nossas penas e os sofrimentos dos mais pobres da terra. E quando chegar o momento da partida de um de nossos que tu sejas força e consolo. Enquanto houver força em nosso peito, Coração do Redentor, que sejamos anunciadores das graças e de teu amor”.

5. Bento XVI, dirigindo uma carta ao preposto dos jesuítas, a 15 de maio de 2006, escrevia: “Já que o amor de Deus encontrou sua expressão mais profunda no dom que Cristo fez por nós de sua vida no alto da cruz, é sobretudo contemplando seu sofrimento e sua morte que podemos compreender de maneira mais clara o amor sem limites que Deus tem por nós”.

6. Arde no coração do discípulo o desejo de tornar amado o Mestre. Quando o fiel se dá conta que os ensinamentos do Senhor Jesus e seu projeto não são levados em consideração, quando percebe que o amor do Senhor é tratado com desdém, toma a decisão de fazer de sua vida uma vida de evangelização e de reparação. Oferece ao Senhor o lamento de ver que seu amor não é acolhido e torna-se missionário do Amor que precisa ser amado.

7. Felizes as famílias que, através da devoção ao Coração do Redentor, colocam fé vivida no coração dos seus membros.

1 de junho de 2011

ALGUNS DESAFIOS PASTORAIS E OS IRMÃOS E IRMÃS DA ORDEM FRANCISCANA SECULAR

Estamos vivendo o final da primeira década do século XXI. Os mais velhos vivemos, na segunda metade do século XX, transformações gigantescas na vida do mundo e no seio da Igreja. A Igreja, depois do Vaticano II, conheceu belas e profundas transformações. Também nesse tempo os franciscanos seculares foram buscando seu novo espaço na Igreja e no mundo. Embora muitas fraternidades seculares conheçam sério processo de envelhecimento, surgem novos grupos e as antigas fraternidades são convidadas a buscar novas vocações. Os franciscanos seculares, convictos de seu chamamento, sabem que precisam ser sal da terra e luz do mundo e se sentem responsáveis por levar o cristianismo ao mundo à maneira de Francisco e Clara. São leigos e leigas conscientes de seu papel na Igreja e no mundo.

Não podemos deixar de assinalar um fato importante para a vida dos seculares franciscanos. Referimo-nos à Regra de Paulo VI, nova Regra dos Seculares, aprovada a 24 de junho de 1978. Neste ano 2008 ela completou 30 anos. Trata-se de uma Regra atualizada, contendo a seiva da espiritualidade franciscana, redigida com o cabedal do ensinamento do Vaticano II e do Magistério da Igreja sobre os leigos. Esse ponto é de fundamental importância.

Antes de mais nada afirmamos que os franciscanos seculares são pessoas que trabalham e cultivam sua vida espiritual. Não são apenas “católicos” ou meros tocadores de obras, mais ou menos corretos, mas pessoas profundamente tocadas pelo Evangelho e pelo carisma franciscano. Os membros da OFS entram num processo de conversão. Toda a engrenagem da vida franciscana secular leva a uma transformação pessoal que faz dos irmãos e das irmãs pessoas despojadas, disponíveis, serviçais, dispostas a criar relacionamentos corteses e delicados entre as pessoas.

Para chegar a esse despojamento interior os franciscanos seculares cultivarão sua vida espiritual. Haverão de se impregnar cada dia da Palavra, ou seja, da Escritura. Pensamos aqui numa leitura pessoal ou comunitária, na audição atenta da Liturgia da Palavra da missa. Pensamos de modo especial na meditação da Palavra que nos modela individualmente e como fraternidade franciscana.

Os franciscanos seculares começam prestando atenção no que ocorre em sua própria família e nas famílias à sua volta. Se são filhos, cuidarão dos pais idosos. Se são pais, prestarão atenção nos filhos. Não faltarão com seus deveres familiares. Dentro do possível transformarão suas casas em igrejas domésticas, expressão muito antiga forjada por São João Crisóstomo. Sabem os franciscanos seculares que as questões familiares são delicadas: aborto, separações, assédio sexual, separações, recasamentos.

Administrarão essas situações com firmeza e com misericórdia. Haverão de colorir toda a sua atividade familiar com o jeito franciscano de ser mãe, de ser pai, de ser filho: simplicidade, cordialidade, diálogo, vida despojada. Celebrarão em casa e na fraternidade os grandes acontecimentos familiares.

Especial atenção merecerá a vizinhança. Não somos indiferentes e alheios aos que nos cercam. Vivemos com outros: justiça, hospitalidade, veracidade, serviços prestados com generosidade e não mesquinhez. Os franciscanos se farão presentes junto às outras pessoas para que elas sintam que somos delas.

Os franciscanos seculares impregnam o mundo do trabalho com seu jeito evangélico: trabalho bem feito, honesto, fazer-se merecedor do salário, fazer progressos na profissão. Saber amar pelo trabalho e no trabalho.

Tomo a liberdade de elencar alguns aspectos e campos de atividade dos franciscano seculares que deveriam fazer parte da formação inicial e permanente dos irmãos e das irmãs:
  • manter a tensão sadia entre ação e oração;
  • criar profundidade num mundo de superficialidade;
  • num mundo de compromissos provisórios, colocar em destaque a fidelidade ( no casal, na família, na profissão, nas amizades);
  • necessidade de ser rever o modo como as famílias estão se inaugurando;
  • compreensão sempre mais clara do que vem a ser um cristão leigo no mundo (não é um mini-padre);
  • educar a juventude para a vivência de uma afetividade e uma sexualidade humanas;
  • trabalhar na catequese, ou seja, na formação cristã das novas gerações;
  • num mundo de indiferença e insensibilidade criar uma rede de solidariedade;
  • numa terra de violência, viver o espírito de ternura e de perdão;
  • estar um pouco mais consigo mesmo;
  • evitar aquilo que nos torne pessoas sem critério e sem discernimento, ou seja, não adotar modismos como verdades e sempre cultivar um espírito crítico.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM é Assistente Nacional para a OFS e Assistente Regional da OFS do Sudeste II