12 de setembro de 2012

OS SALMOS EM MINHA VIDA


OS SALMOS EM MINHA VIDA

Por Yves Congar*

O presente texto tem como autor um dos maiores teólogos do século XX, o dominicano Yves Congar. Trata-se de uma reflexão-meditação a respeito dos salmos na vida do cristão. Congar procura refletir teologicamente a respeito do sentido da recitação do conteúdo do saltério por aqueles e aquelas que são discípulos de Cristo. O texto apareceu na revista La Vie Spirituelle, janvier, 2008, n. 775, p. 115-120. A tradução foi preparada pela Redação desta revista. O conteúdo deste artigo nos coloca a linha de tantos empenhos de maior vivência da Palavra de Deus em nossas vidas.

Não poucas pessoas que buscam rezar de verdade, dizem ter dificuldade em compreender os salmos. Deparam com situações que lhes são estranhas, ou com motivações religiosas que não podem assumir como tais. Os salmos apontariam para um mundo literário, cultural e mesmo religioso diferente e distante. Ficamos admirados que a Igreja cristã tenha, desde as suas origens, guardado os salmos como expressão da sua oração. E foi exatamente o que ela fez. Os Padres da Igreja comentaram os salmos; através deles, durante séculos, se aprendeu a ler; a liturgia se tece com seus versículos; a santificação das horas no Ofício dos monges, religiosos, religiosas, sacerdotes e numerosos fiéis é confiada aos salmos.

Num primeiro momento pode-se ficar admirado que os cristãos tenham optado na questão da oração por textos judaicos. Certamente não o teriam feito se, de uma maneira ou outra, estes textos não tivessem relação com Cristo. Jesus, na verdade, afirma que as Escrituras falam dele, referindo-se expressamente aos salmos (Lc 24,27 e 44-46; Jo 5,39 e 46). Os apóstolos, e depois deles os Padres da Igreja e os Antigos, não leram a história de Jesus apontada pelas Escrituras judaicas (Ver Jo 1,45; 22,22; 12, 16-41; 19,28; 20,9)? Os próprios judeus, ao longo do Antigo Testamento, se serviram de um procedimento de releitura de sua própria história e de seus próprios textos. Assim fizeram no tocante aos salmos depois da volta do exílio que constituiu para eles uma nova esperança de libertação e de salvação, em novas condições de pobreza e de fraqueza, de inserção na história do mundo, esperança messiânica e escatológica. Não é de admirar, pois, que os cristãos tenham cristianizado e mesmo cristologizado os salmos. “O saltério, diz Santo Hilário, é como o corpo de Cristo, pelo qual o profeta fala e canta...” (Prólogo ao seu comentário sobre os salmos).

A linguagem adequada para me dirigir a Deus
Em sua trama literária, e para além dela, os salmos são também a expressão de nossa fé no Deus vivo. Nossa prática dos salmos vale tanto quanto vale nossa fé no Deus da Bíblia, como ligação absoluta a Ele no amor e a representação que fazemos dele. O Deus da Bíblia é ao mesmo tempo criador e redentor. As magnalia Dei que os salmos cantam se referem ao mesmo tempo à criação bem como à libertação e à história da salvação. Há salmos dos dois tipos. Por vezes até os mesmos versículos unem os dois temas. O mais característico do Deus vivo é que nunca dele se fala sem conceder-lhe um atributo de ação. Ele é sempre o Deus que...

Fundamentalmente, Deus é quem fez Israel sair do Egito. Os salmos muitas vezes evocam tal história como louvor ou confissão de esperança... O próprio nome Yahvé que ocorre 670 vezes no saltério, não levando em conta os compreendidos entre os salmos 42 a 83, onde é substituído por Elohim, designa o Deus. Sua tradução por “Senhor” nos faz correr o risco de não evocar suas conotações mais significativas. Segundo as explicações claras feitas a Moisés (Ex 3,14), ele quer dizer: Sou aí convosco e para vós; serei o que serei, havereis de ver a partir das intervenções em vosso favor. “Yahvé” não designa tanto “Aquele que é, “o Eterno”, embora tais nuanças não devam ser excluídas, mas o Deus vivo que escolhe,chama, se consagra ao povo, vigia sobre ele, o conduz, o castiga, lhe outorga graças, em breve, o Deus da economia salutar. Este é o Deus dos salmos. E a oração dos salmos consiste em dizer-lhe, através de todas as circunstâncias, sejam elas de desgraça ou de alegria, de pedido de socorro ou de ação de graças: tu és meu Deus, serás sempre meu Deus.

Há os que tropeçam nos salmos de imprecação ou de vingança (por exemplo: 5, 11, 55 etc.). Serão eles também compreendidos a partir do ponto de vista de Deus no concernente à justiça ou proteção de que formalmente tratam. Evidentemente que o detalhe concreto nos males que desejam deverá ser entendido a partir de um gênero literário situado e datado. São conhecidos textos paralelos no vocabulário de certos povos ainda hoje. Serão entendidos no contexto da luta pelo Reino de Deus que, na verdade, tem inimigos. Tais salmos são também teologais. Relevam da visão bíblica segundo a qual há dois sujeitos em atividade: Deus e Satanás: dualismo não metafísico, porque nesse ponto de vista não há dúvidas do monoteísmo bíblico ser soberano, mas dualismo ético, e nesse sentido, existencial.

As pessoas sentem dificuldade, ainda, com outros salmos. Há os que não exprimem nossas estados de alma, quando tomados isoladamente. Um bom comentário pode nos ajudar, mas não convém exagerar a dificuldade. Eles serão tomados no grande movimento global do saltério teologal: “Tu és meu Deus”.

“Meu Deus”. Eis aí uma expressão extremamente freqüente nos salmos. Não tem o sentido de alguns relatos mais antigos em que “meu” excluiria o Deus de um outro povo ou de outro clã. A expressão significa a comunidade que a eleição e a aliança estabeleceram entre Yahvé e seu povo ou seus fiéis. Como nos profetas, é ao Deus ao qual se faz fé, ao qual se clama com confiança, que se louva na alegria do coração. “Meu Deus” se diz com o coração.

Independente desta expressão, perto de 80 salmos falam na primeira pessoa, “eu” (...) Trata-se do “eu” de quem vive e exprime o relacionamento religioso para com o Deus vivo. É o autor do salmo, ou quem salmodia, é o eu que o atualiza na oração, é a comunhão dos fiéis, é o nós, é a ecclesia, é o próprio Cristo (ver Mt 26,30). In multus unus, um só nos muitos, diz Santo Agostinho, mas se poderia inverter a fórmula, multi in uno, novamente citando com Santo Agostinho, o Salmo 119,63, “fazendo eu parte daqueles que te temem”. Em termos de teologia cristã, é o Espírito Santo que faz a unidade de todos os que invocam a Deus. Ele atualiza uma oração que ele mesmo inspirou no coração do orante tomado isoladamente, bem como na comunidade fiel, tanto quanto na oração dos piedosos israelitas, também na Igreja que é o Corpo de Cristo.

Rezar os salmos como cristãos

Como já dissemos, há os que estranham que os salmos tenham se tornado a oração dos cristãos, e mesmo da liturgia pública da Igreja (...). Ora, os salmos constituem a melhor escola em que a atitude de fé que realiza o relacionamento religioso (tal como é vivido e atestado na Antiga Aliança) possa formar-se e alimentar-se. A epístola aos Hebreus não tem outra teologia da fé senão a da história dos patriarcas. Os valores religiosos mais profundos e mais delicados se encontram nos salmos (...). Evidentemente que invocamos hoje Deus como Pai num sentido diferente do título que era atribuído a Yahvé na antiga Disposição. A invocação cristã diz mais, mas assume toda a substância dos relacionamentos religiosos dos salmos judaicos...

O relacionamento religioso a que os referimos se realiza, na Nova Aliança, no Cristo, pelo Espírito Santo. Rezamos os salmos na qualidade de cristãos. Será inevitável e necessário operar uma “cristianização” dos mesmos. Homem da Tradição, frequentador dos Padres e da santa liturgia, como não ouviremos nos salmos a voz de Cristo? Interessamo-nos sobretudo na recitação cotidiana dos salmos no Ofício e na oração pessoal, enquanto a cristoligização clássica concerne de modo especial a celebração dos mistérios de Cristo. Rezamos os salmos como expressão desta referência de nossa vida a Deus precisamente no que consiste nosso sacrifício espiritual (Rm 12,1). Este é agradável a Deus por meio de Jesus Cristo (cf. 1Pe 2,5). Se estes salmos exprimem o relacionamento religioso, o “ad Deum” de toda a nossa vida e de toda a vida do povo de Deus, este “ad Deum”, este “para Deus” necessariamente será cristão.

Deus se revelou em Jesus Cristo. O “Eu sou”, “Eu serei quem serei” (de Ex 3.14 tornou-se “Eu sou o pão da vida (Jo 8,35), “a luz do mundo” (8,12), a porta das ovelhas... o bom pastor (10,7 e 11), “a ressurreição” (11,25), “o caminho, a verdade e a vida” (14,6), “a verdadeira vide” (15,1). O “Eu serei convosco” de Ex 3,12, se com concretizou no “Estarei convosco até a consumação dos séculos” de Mt 28,20. O Nome que é preciso invocar para ser salvo (Jl 3,5) é o Senhor Jesus (Rm 10,13; At 2,21). Ao “É diante de mim que todo joelho dobrará” (de Is 45,23) deve-se acrescentar com a vinda de Cristo “Deus o exaltou para que... perante o nome de Jesus se dobre reverente todo joelho, seja nos céus, na terra ou nos abismos” do hino cristológico de Filipenses 2,9-10. O relacionamento de Deus com os seus conhece profunda mudança em Cristo. Passa pelo “abaixamento” de Deus, que veio a nós na forma do Servo. Rezando os salmos como discípulos de Jesus, membros de seu Corpo, com uma alma cristã, certamente não os rezamos como fizeram ou fazem ainda os judeus. A tradução grega dos Setenta e a latina da Vulgata, procuraram nuançar certas expressões. Não se trata de adocicar ou enfraquecer o texto. Trata-se de fazer aparecer toda a verdade dos textos de Deus: na esperança e inconfundível convicção de Israel, no grito das provações, na aproximação da humildade e misericórdia realizada por meio de Jesus, na perfeição de sua obediência onde ele encontrou sua glória.

Salmos, meus queridos salmos, pão cotidiano de minha esperança, voz de serviço e de meu amor por Deus, tomai em meus lábios vossa plenitude. Queridos salmos, vós não envelheceis, sois a oração que não se gasta. Ao nível da fé, abrangeis a totalidade da experiência humana. Se ocupais tal lugar em minha vida se deve ao fato de exprimir essa experiência diante de Deus... Como a verdade, colocais frescor nos lábios e no coração dos que vos cantam. Permiti que vos resumamos em duas palavras. Podemos pronunciar a segunda depois que dissermos a primeira: Amém; Aleluia.

*Yves Congar é um dos maiores teólogos do século XX.

10 de setembro de 2012

Clara ontem e hoje



A MEMÓRIA DO PASSADO APONTA PARA O AMANHÃ (*)


Frei Almir Ribeiro Guimarães


1. Terminamos as celebrações dos oitocentos anos do carisma clariano. Naquele domingo de Ramos de 2012, Clara começava a corrida, encetava sua conversão, através da mediação transparente de Francisco e da sua primeira fraternitas. Esse tempo de celebrações nos permitiu entrar em contacto mais profundo com a experiência espiritual de Clara, com aquele carisma que tão alto falou à Igreja de sua época. “Celebrar um centenário é no fundo colocar-se diante do novo, como no princípio, diante de nossa identidade, dizer-nos a nós quem somos, por onde estamos andando, o que nos moveu e o que hoje nos move. É também ocasião de profunda gratidão, e a gratidão supõe a consciência de uma responsabilidade de uma resposta a oferecer Àquele que me interpela hoje. Parece-me que se possa aplicar ao centenário clariano a expressão que o Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores usou para o centenário da aprovação da Regra da Ordem Primeira: a graça de nossas origens. Trata-se de uma expressão bonita e fecunda. Graça remete para o agir gratuito, absolutamente livre de Deus, um evento que não depende de modo algum de alguma coisa que o tenha precedido. A graça pode ser acolhida e pode frutificar com nossa livre adesão. Nossas quer dizer pertença. Essa graça nos reúne, é parte indissolúvel de nós. Não podemos falar de nós sem falar desta graça. Origens é palavra muito rica. Quando se fala de início há uma referência a alguma coisa anterior no tempo, começada e concluída no passado; falar de origem é falar de um acontecimento que é fundamento e princípio do qual brota a história e o futuro” Angela Emmanuela Scandella, op. cit. p. 18).

2. Detenhamo-nos agora na palavra memória. Clara é uma mulher de memória. Um texto parece importante para a compreensão do que vem a ser fazer a memória para Clara. “Lembre-se de sua decisão como uma segunda Raquel; não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre avance pelo caminho da bem-aventurança” (2CtIn 11-13).

3. Lembre-se de seu propósito, de sua decisão. Para Clara não se faz memória do que ficou para trás, mas de um pro-positum, de alguma coisa que está colocada diante: pro-ponere; o verbo proponere aponta para solidez, estabilidade. Clara tem em mente a categoria bíblica do memorial, que é muito mais do que uma simples recordação, uma atividade intelectiva que se refira apenas ao passado. Ao contrário, é um estar presente ao que aconteceu e que continua acontecendo. É o permanecer de uma presença, de um acontecimento. Não perca de vista o ponto de partida: é volta ao que foi colocado anteriormente, mas dito desta vez com palavras que remetem ao passado. Para Clara, diante de seus olhos não apenas o que está à frente, mas alguma coisa que de per si está atrás, no passado. Quando se olha para o passado não é mero sentimentalismo, mas atitude de quem sabe que naquele passado estão as origens, que fundamenta tudo, alguma coisa que deslancha um movimento interior.

4. Faça o que está fazendo e não o deixe. Vive-se o presente como memorial das origens, guardando marianamente tudo no coração. Trata-se do célebre mote dos Padre: age quod agis, que quer dizer estar presente plenamente naquilo que se vive, uma presença que nos encontra, nos interpela no instante. Com a conotação da totalidade. A totalidade para Clara é a lei da resposta à vocação.

5. “A referência a Raquel, segundo a etimologia dos Padres, remete de imediato à vida contemplativa. É conhecido o fato de que Gregório Magno serviu-se da imagem das duas mulheres de Jacó, Raquel e Lia, respectivamente como figuras da vida contemplativa e da vida ativa. Raquel é a visão do princípio e Lia é a laboriosa, a trabalhadeira. Vale a pena prestar atenção no pensamento de Gregório para compreender melhor o que Clara quer dizer com sua referência a Raquel. Jacó deseja Raquel, a visão do princípio, mas antes deve desposar Lia: o age quod agis precede. Raquel é aquela que Jacó esperou até à plenitude dos tempos: 7 anos. Estas observações já nos dizem alguma coisa a respeito da vida contemplativa: paciente aprendizado de estar na espera que certamente se alcançará. Ação e contemplação são dois momentos necessários entre si. Atinge-se os píncaros da contemplação através de toda uma vida transcorrida na cotidianidade laboriosa. Raquel é bela, mas estéril, assim o agir de todos os dias, pela maneira como Lia vive, é fecundo” (p. 19).

6. Clara passa a descrever

(*) Este trabalho se inspira no erudito estudo de Angela Emmanuela Scandelle, OSC, Chiara. ‘Alta donna di contemplazione’. Sette parole per il nostro ‘oggi’, in Italia Francescana, p. 17-28


Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

8 de setembro de 2012

Consagração de Frei Galvão à Virgem Imaculada

Trecho da cédula de consagração...


“Saibam todos quantos esta carta e cédula virem, como eu, Frei Antônio de Sant´Anna Galvão, me entrego por filho e perpétuo escravo da Virgem Santíssima, minha Senhora, com doação livre, pura e perfeita de minha pessoa, para que de mim disponha conforme sua vontade, gosto e beneplácito, como verdadeira mãe e Senhora minha...
Nas vossas piedosíssimas mãos entrego meu corpo, alma e coração, entendimento, vontade e todos os demais sentidos, porque de hoje em diante corro por vossa conta e todo sou vosso...
E não haveis de consentir, pela vossa piedade, antes me tireis a vida, que ofender o vosso bendito Filho meu Senhor...e para que certamente alcance o que por mim indigno desmereço, vos peço pela paixão, morte e chagas de vosso Filho santíssimo, pela vossa pureza e Conceição Imaculada.
Rogo a todos os santos, que orem por vós e por mim e me sirvam de testemunhas irrefragáveis desta minha filial entrega e escravidão. E para que conste que esta minha determinação foi feita em meu perfeito juízo, faço esta cédula de minha própria letra, e assinada com o sangue do meu peito. Hoje, dia do patrocínio de minha Senhora e Mãe de Deus, 9 de novembro de 1766. De minha Senhora Maria Santíssima indigno servo:

Frei Antônio de Sant´Anna Galvão”.

Agradecimento especial ao nosso irmão Frei Alvaci Mendes da Luz

Fonte : http://pvfranciscanos.blogspot.com.br/



7 de setembro de 2012

Uma fonte de vida em duas torrentes


A fissura do peito do Salvador

1. Todos aprendemos a contemplar com imenso respeito os últimos momentos da vida do Senhor. Sempre de novo desejamos nos deixar impregnar dos sentimentos de Jesus no alto da cruz. Foi ali que ele rasgou definitivamente um documento que existia contra nós e fomos resgatados com seu sangue precioso. E Jesus viveu ali imensa solidão. José Antonio Pagola descreve com cores muito sombrias esses instantes finais de Jesus: “A insensibilidade de seus discípulos o fazem mergulhar na solidão e na tristeza. O comportamento deles faz-lhe ver a magnitude de seu fracasso. Reuniu em redor de si um pequeno grupo de discípulos e discípulas; com eles começou a formar uma “nova família”, a serviço do Reino de Deus; escolheu os Doze como número simbólico da restauração de Israel; reuniu-os nessa recente ceia para transmitir-lhes sua confiança em Deus. Agora os vê prestes a fugir, deixando-o só. Tudo rui por terra. A dispersão dos discípulos é o sinal mais evidente de seu fracasso. Quem os reunirá dali em diante? Quem viverá a serviço do Reino de Deus” (Jesus. Aproximação histórica, Vozes, p. 478-479).

2. Teodoreto de Ciro, bispo do século V, descreve de maneira tocante os momento finais da vida de Jesus: “Chora sobre Jerusalém que pela incredulidade atraía para si a ruína e prediz a suprema destruição do templo, outrora famoso. Com toda paciência suporta ser batido na cabeça por homem duplamente escravo. Esbofeteado, cuspido, injuriado, atormentado, flagelado e por fim crucificado e dado por companheiro de suplícios a dois ladrões, contado entre os homicidas e celerados. Bebe o vinagre e o fel produzidos pela má videira, coroado de espinhos, em vez de louros e cachos de uva. Escarnecido com a púrpura, batido com a cana, ferido o lado pela lança e enfim levado ao sepulcro” (Liturgia das Horas IV, p. 77). Assim, morre o mais belo dos filhos dos homens. Teodoreto faz questão de lembrar o pormenor da ferida feita pela lança em seu lado. Estamos sempre no tema do coração dilacerado e aberto.

3. Assim, contemplamos essa cavidade no peito de Jesus como expressão de um amor que vai até o fim. O mesmo Teodoreto continua sua reflexão: “O lado aberto, à semelhança de Adão, deixa sair não a mulher, que por seu erro gerou a morte, mas fonte da vida que com dupla corrente inunda vivifica o mundo. Uma, no batistério, nos renova e nos cobre com a veste imortal: outra, à mesa divina, alimenta os renascidos como leite aos pequeninos” (Idem, p.78).

4. Há a torrente do Batismo. Os homens, esses homens todos, cheios de boa vontade, mas tão frágeis, tão fadados à mediocridade, tão afeitos ao que os destrói, destinados a morrer. Esse Jesus que morre no alto da cruz tem o peito aberto. Deixa ele sair de suas entranhas uma água que lava não o corpo das pessoas, mas sua história, sua vida, seu passado fazendo que as pessoas renasçam, sejam criaturas novas. Não podemos conservar apenas uma fluida evocação do batismo que recebem quando crianças. Vivemos renovando essa graça, em cada Páscoa, por assim dizer nascemos de novo. A torrente do peito de Jesus que se dirige para o batismo nos cobre das vestes novas e, no dizer de Teodoreto, veste da vida imortal. Tudo isso é obra do peito aberto do Senhor. Dia após dia vamos renascendo. Estamos proibidos de envelhecer porque somos vivificados pela água do peito de Jesus. Somos lavados na fonte viva.

5. São duas torrentes: uma se dirige ao batistério e a outra se derrama na mesa divina. Pensamos aqui na Eucaristia, nessa mesa do pão e do vinho, que são sinais da entrega de Jesus, o pão que é dado, o sangue que é derramado. Os que nascem de novo pelas águas do batismo se aproximam da mesa do pão e do vinho que nasceu da entrega amorosa total de Jesus. Trata-se da Eucaristia. Evidentemente não é apenas questão de missa pela missa. O que se dá, de fato, na celebração? Os fiéis se reúnem em torno do sacerdote ministerial. Há a proclamação das leituras. Há a semente que vai caindo na vida e no coração das pessoas. No centro da celebração o presidente toma o pão e o vinho e então a torrente vivificante se derrama do coração de Jesus sobre o pão e o vinho. Os que têm o hábito de participar da Eucaristia, alguns até mesmo todos os dias, os renascidos são alimentados. Os que se alimentam da torrente que sai do peito de alguém que deu a vida pelos outros, passam, por sua vez, a se gastar pelos outros, a dar a vida no serviço fraterno e na tentativa de colocar condições de um mundo que preste atenção no amor. Na Eucaristia, a torrente alimenta os renascidos como leite aos pequeninos.

6. Terminamos esta reflexão com palavras de São Columbano, abade (sec VII). No seu discurso diz que Cristo é a fonte da vida. “Se tens sede, bebe da fonte da vida; se tens fome, come o pão da vida. Felizes os que têm fome deste pão e sede desta fonte. Sempre comendo e sempre bebendo, ainda desejam comer e beber. Porque é imensamente doce aquilo que sempre se saboreia e sempre se deseja mais” (Liturgia das Horas, IV, p. 144)

Frei Almir Ribeiro Guimarães


4 de setembro de 2012

O perdão que redime!


Por Frei Orlando Bernardi

O capítulo IX da Regra de Sta. Clara, como a de Francisco, traça diretrizes para as Clarissas que pecam contra o projeto de vida assumido. Trata-se, portanto, de reconstrução da harmonia dentro da comunidade e isso se dá através do perdão. Mesmo ao afirmar que tanto a abadessa como as irmãs da comunidade não devam se perturbar com o desequilíbrio de alguma irmã (IX,5), a simples presença da perturbação provoca um transtorno no grupo humano. O restabelecimento do equilíbrio e da paz na comunidade acontece com a presença do perdão, uma vez que as relações humanas se tornam verdadeiramente enriquecedoras apenas quando houver ambiente de paz. Perdão e paz se ligam intimamente, porque, segundo Francisco, existirá paz apenas se antes ela se encontrar no coração.

No entanto, a delicadeza maternal de Clara não deixava que a perturbação se alastrasse pela comunidade. Perspicaz, percebia, de imediato, quando alguma irmã se encontrava em situação de angústia ou aflição e então, como afirma uma testemunha, Clara a chamava, em particular e a consolava entre lágrimas e, por vezes, até se prostrava aos pés (PR. 10,5). Aliás, já havia prescrito no c. 4 da Regra que era função da abadessa consolar as aflitas e ser refúgio das atribuladas, bem como prescrevia ainda (IV,15-21) que ao menos uma vez por semana convocasse as irmãs para um capítulo e nele tanto ela como cada uma das irmãs deviam confessar publicamente as próprias faltas contra o projeto assumido. É claro que se trata daquelas situações que pertencem ao caminhar humano e que se manifestam em negligências, atitudes egoísticas, pequenos maus exemplos, mas que são causas de perturbações da concórdia na comunidade. Tudo isso encontra um caminho de retorno à fidelidade da vida abraçada através da assim chamada correção fraterna ou sororal.

Certamente no pensamento de Clara, bem como de Francisco, devia ser suficiente essa oportunidade para corrigir possíveis desvios da observância do Evangelho. Contudo, ambos estavam também conscientes de que o agir humano é capaz de inventar situações verdadeiramente perturbadoras da paz. É por isso que ambos escrevem que “se uma irmã, por instigação do inimigo, pecar mortalmente contra a forma de nossa profissão e, admoestada duas ou três vezes pela abadessa ou por outras irmãs, não se emendar, deve comer pão e água, no chão, diante de todas as irmãs, por quantos dias for contumaz”. Em caso idêntico Francisco recorre ao sacramento do perdão para resolver o problema.

Clara, por sua vez, não recorda o sacramento, mas permanece dentro da vida comunitária, buscando ali o remédio para a superação do obstáculo. Seria fácil também para ela pedir que a irmã buscasse a correção através do perdão sacramental, mas prefere recorrer ao perdão da comunidade e das irmãs. Parece que para ela bastava a praxe de Jesus: “Se teu irmão pecou… perdoa-lhe” (Lc 17,3); diante da questão dos discípulos de quantas vezes perdoar, Jesus responde: 77 vezes 7 vezes (Mt 18,21; Lc 17,4). Além disso, está bem claro no NT que o perdão mútuo está intimamente relacionado com o perdão concedido pelo Pai celeste: “Se perdoardes… sereis perdoados” (Lc 6,37) e na explicação do Pai nosso: “Se perdoardes as faltas, vosso Pai também vos perdoará” (Mt 6,14; Mc 11,25).

Parece ser um fato que Clara não possui a visão sacramental que Francisco possuía. Aliás, veja-se também a posição de Clara a respeito da Eucaristia. Essa visão clariana torna-se um diferencial bem característico de seu franciscanismo e, talvez, bem mais próximo daquilo que Francisco escreve a um Ministro: “E nisto quero reconhecer se tu amas o Senhor e a mim, servo dele e teu, se fizeres isto: não haja no mundo irmão que pecar, o quanto puder pecar, que, após ter visto teus olhos, nunca se afaste sem a tua misericórdia, caso buscar misericórdia. Se não buscar misericórdia, pergunta-lhe se quer misericórdia. E se depois ele pecar mil vezes diante de teus olhos, ama-o mais do que a mim para trazê-lo ao Senhor. E tenhas sempre misericórdia desses irmãos” (9-11).

Além disso, a visão do perdão em Clara é bem litúrgica, para não dizer eucarística, quando o situa dentro da dimensão da oração e da contemplação: “antes de oferecer o dom de sua oração diante do Senhor” (IX,8). Com isso a pacificação não pode ser retardada, pois somente a partir do perdão é possível abrir o coração para uma oração simples e sincera.